Recordações antes de o trem partir…

Estação Falkenstein

Recordações antes de o trem partir…

Capítulo I – Um Convescote Prussiano

No qual nossos heróis dirigem-se à propriedade de Felix Bayard, riquíssimo industrial local, e por muito pouco Baviera e Prússia não retomam a guerra.

– Final de fevereiro de 1870, arredores de Viena.

– Wilhelm Sieg viaja em companhia do Coronel Heinrich Sauer e do Tenente Balder Krumm, adidos da Prússia. Em outra carruagem vão o repórter do Jornal de Viena, Marcus Gehring, o alfaiate Niklas Schneider (secretamente, Der Fliegen, o ladrão sensação de Viena) e Hans Landa, repórter do Der Schcrutte, disfarce do espião bávaro Frances Aurelian.

– São recebidos por Felix Bayard, um dos homens mais ricos do Império Austro-Húngaro e grande entusiasta da Vaportécnica.

– Os representantes da Prússia entregam um presente ao anfitrião. Uma reprodução artesanal cuidadosa da Fortaleza de Ferro, trem prussiano construído para abrir caminho sobre os trilhos da Nova Europa na guerra que se encerrara quatro anos antes.

– Wilhelm Sieg apresenta uma ideia inesperada a Bayard: por que ele precisaria de prussianos ou bávaros para introduzir a Vaportécnica em suas indústrias quando podia buscar o auxílio de Mestres Anões?

– Marcus Gehring divide com Hans Landa (alter ego de Frances Aurelian) um pensamento: qual seria o significado da presença de Wilhelm Sieg, convidado às pressas, quando os prussianos tiveram tempo o bastante para presentear o anfitrião com uma peça única e artesanal?

– A participação de Niklas Schneider desequilibra uma disputa de Eisstockschiessen, humilhando os prussianos. O Tenente Krumm e Wilhelm Sieg estabelecem uma rivalidade.

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Capítulo II – Algo sinistro vem por aí

No qual nossos heróis devassam hotéis, armazéns, mansões e fábricas e se veem tendo de lidar com prussianos, beberrões, mordomos e comunistas.

– No Hotel Imperial, Frances Aurelian toma ciência de um plano prussiano para ganhar influência junto à aristocracia local.

– Em uma invasão sorrateira, Der Fliegen leva de Ingolf Dümmler uma adaga cravejada e uma medalha em agradecimento por serviços prestados entregue pelo próprio Otto Von Bismarck, da Prússia, menos de um ano antes.

– Leopold Billig, mordomo de Felix Bayard, revela-se um informante do Serviço Secreto Bávaro. Divide com Frances Aurelian preocupações quanto ao estreitamento de relações entre seu patrão e os prussianos. Billig diz ainda que nos últimos dias Bayard vinha se mostrado irritadiço, com sono agitado e passando quase todo o tempo entre sua oficina.

– Em outra ação noturna, Der Fliegen quase provoca a morte de Patrik Zobor. Viria a descobrir que o húngaro é apenas um dos inúmeros recentemente demitidos da Stahlwerk Bayard.

– De volta à propriedade de Felix Bayard, Frances Aurelian descobre sua busca pela “Centelha”, a capacidade de atribuir inteligência a um autômato, e seus reiterados fracassos. Depara-se com documentos com propostas prussianas de auxílio em troca de controle total sobre a Stahlwerk Bayard. Concluía relatando um estranho e persistente sonho com cores que não existiam…

– Cada vez mais sorrateiro, Der Fliegen rouba a Fortaleza de Ferro. Faria com que Felix Bayard a descobrisse em posse de Marko Hang, esperando provocar uma celeuma entre o proprietário e o adminstrador da Stahlwerk Bayard.

– Nos arredores da Stahlwerk Bayard, comunistas buscam mobilizar trabalhadores demitidos. A distração permite que Frances Aurelian entre na metalúrgica, sem grandes resultados. Do lado de fora, responsáveis pela segurança, trabalhadores e a Guarda iniciam uma confusão em que o espião leva a pior.

– Marcus Gehring se aproxima de descobrir quem é Der Fliegen graças ao trabalho artesanal de Christoph Fessler.

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Capítulo III – Presságios Hostis

No qual o espírito de desconfiança impingido pelos prussianos toma nossos heróis, levando potenciais aliados à traição.

– Niklas Schneider visita Patrik Zobor. Lá conhece Zsófia Lakatos, que chega carregando o desacordado Frances Aurelian após o incidente com os trabalhadores conflagrados em frente à Stahlwerk Bayard.

– Niklas Schneider recebe Frances Aurelian em sua alfaiataria. Concordam em plantar a Fortaleza de Ferro entre os pertences de Marko Hang, que estaria a serviço dos prussianos.

– Niklas Schneider presta serviços a Friedrich Zöllner antes de sua conferência na Real Imperial Universidade de Viena. O estudioso está ali para tratar da Física Transcendental e do Oneirômetro, capaz de detectar e identificar a presença do extraordinário.

– Ingolf Dümmler é visto em companhia de Marcus Gehring: o jornalista contaria com seus recursos, desde que o proeminente industrial armamentista fosse informado com antecedência a respeito de qualquer novidade envolvendo Der Fliegen.

– Descobre-se que Felix Bayard sofreu uma espécie de colapso nervoso, certamente fruto do embaraçoso confronto entre a Guarda e operários diante da Stahlwerk Bayard.

– Frances Aurelian é abordado por Hannah Verdoppeln, que diz ter consigo uma carta escrita por Josephine, sua amada. Hannah serviria de intermediária para a correspondência dos amantes separados há mais de dez anos.

– Frances Aurelian desmonta a Fortaleza de Ferro. Encontra um líquido armazenado junto de uma válvula destinada a aspergi-lo no ambiente. O líquido é entregue ao Serviço Secreto da Baviera, para que se descubra seu propósito.

– Niklas Schneider conclui que foi traído por Frances Aurelian e planta a adaga cravejada de Ingolf Dümmler entre seus pertences. Quando a Guarda chega, o toma por Der Fliegen.

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Capítulo IV – Eclosão

No qual nossos heróis tomam parte em variadas formas de violência, forjam alianças e veem a ameaça prussiana adquirir contornos insólitos.

– Christoph Fessler procura Niklas Schneider e o incita a fazer algo a respeito do homem que foi preso por ser Der Fliegen.

– Frances Aurelian está confinado à Cadeia Pública de Viena. Uma enfermeira, Irmã Agnes, concorda em enviar para o Serviço de Inteligência da Baviera uma mensagem.

– A substância removida da réplica da Fortaleza de Ferro é um alucinógeno extranatural com efeitos debilitantes, assim acredita o Serviço Secreto da Baviera. Por conta disso, Wilhelm Sieg recorre a Friedrich Zöllner e seu Oneirômetro em busca de pistas. Zöllner acaba morto pelo Tenente Balder Krumm, e este, por Wilhelm Sieg, que leva consigo o estranho aparelho.

– Após ser removido da Cadeia Pública de Viena pelo Serviço Secreta da Baviera, Frances Aurelian é levado ao encontro de Ingolf Dümmler. O industrial acredita que Aurelian é Der Fliegen, e ameaça Hannah caso o segundo objeto que teve roubado não lhe seja devolvido.

– Em uma carta entregue por Zsófia Lakatos à Embaixada da Prússia em Viena, Niklas Schneider relatava todas as suas descobertas recentes envolvendo militares prussianos, trabalhadores húngaros e proeminentes vienenses. Junto dela, envia a medalha roubada de Ingolf Dümmler.

– Wilhelm Sieg se encontra com o debilitado Felix Bayard, vítima do contato prolongado com a substância escamoteada na réplica da Fortaleza de Ferro. A perspectiva de ter sido envenenado pelos prussianos fez algo até então inédito ser dito ali: ele estava arrependido, e gostaria de em breve fazer algo a respeito.

– Em uma das áreas de descarga das ferrovias, Wilhelm Sieg e Frances Aurelian buscam informações sobre o recente manejo de carga por parte de prussianos. Em um dos vagões, se deparam com indícios do transporte de quatro criaturas. E algo ficou para trás. Uma lagarta, do tamanho da mão de um homem adulto e cores impossíveis, se arrastando e ondulando sob a palha que escondia o piso do vagão.

– No lado de fora, Miklós Gál luta contra monstruosidades que apenas ele pode ver. Entre seus pertences, Niklas Schneider encontra uma ordem alertando os trabalhadores a se manterem longe dos vagões vindos de Berlim e boa quantidade de moedas de prata prussiana.

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Capítulo V – Há cor na escuridão

No qual os planos dos prussianos dão errado, muito pela intervenção dos nossos heróis, mas com repercussões que irão distender suas asas sobre toda Viena.

– Naquela noite, Frances Aurelian e Wilhelm Sieg encontraram-se com Zsófia Lakatos e Niklas Schneider. Miklós Gál é um dos inúmeros trabalhadores húngaros demitidos da Stahlwerk Bayard. Relata a chegada a Viena de uma composição com dois vagões de carga vindos de Berlim. O responsável era um passageiro de sobrenome Naumann, cujas feições desfiguradas pelo fogo causaram forte impressão em Gál. Soldados prussianos fizeram guarda permanente até que tudo fosse movido para a Stahlwerk Bayard. Os miasmas do vagão que foi obrigado a limpar o fizeram adoecer e provocaram as alucinações multicoloridas.

– Irina Wexner, do Serviço Secreto da Baviera entrega a Frances Aurelian a medalha roubada da residência de Ingolf Dümmler. Manterão o industrial acreditando que tem Der Fliegen sob chantagem e, com sorte, fariam Dümmler se voltar contra os prussianos.

– Em um porão imundo, comunistas organizados por Zsófia Lakatos discutem como avançar sobre a Stahlwerk Bayard. Discreto na forma como acompanha tudo aquilo, Niklas Schneider garante a Zsófia que entregaria Marko Hang a ela, com quem contas antigas precisavam ser acertadas.

– No Zoológico de Viena, Ingolf Dümmler apresenta a Frances Aurelian um animal capturado da Caçada Selvagem. Uma criatura extraordinária cujo faro inescapável levaria a Hannah Verdoppeln se Der Fliegen não cooperasse. Dümmler deseja saber o que acontece na Stahlwerk Bayard para tomar o lugar do rival, Felix Bayard.

– Felix Bayard convida Wilhelm Sieg a sua propriedade de campo. Quer retomar o controle sobre a siderúrgica que leva seu nome. São interrompidos pelo avistamento de um intruso na mata. Descobrem um autômato, feito de peças descartadas e mal arranjadas. Seguem-no até uma ravina onde, décadas de peças descartadas após os fracassos de Bayard parecem ter gerado algo inesperado.

– O Coronel Heinrich Sauer confessa que sua presença ali tem a ver com a tentativa de ganhar influência sobre as figuras mais importantes da sociedade vienense. Uma tomada de poder sem cavalaria e sem canhões, pela força do que chamou de Propaganda. E para isso, as criaturas trazidas de Berlim são fundamentais. Elas se encontram no galpão, onde uma cúpula construída com espelhos, fora erguida. Duas das criaturas foram mortas, mas duas Mariposas-Libadoras espreitavam Viena dos céus…

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Capítulo VI – A Era dos Impérios

No qual nossos heróis se veem diante de situações definidoras dos dias que virão, e as dimensões do que está em jogo alcançam muito além de Viena.

– Niklas Schneider carrega Marko Hang madrugada adentro até Zsófia Lakatos. Por um instante, Schneider se coloca entre ela e sua vingança. Contudo, certo de que não poderia demovê-la, prefere se afastar para não ter ainda mais responsabilidade pelas escolhas de Zsófia.

– Wilhelm Sieg coloca Heinrich Sauer sob a custódia do Serviço Secreto da Baviera. O coronel alerta que a morte de tantos prussianos legalmente presentes em Viena causaria um incidente diplomático e, possivelmente, uma guerra.

– Ingolf Dümmler considera ação de “Der Fliegen” um estrondoso fracasso, e por isso solta o cão capturado da Caçada Selvagem sobre Hannah Verdoppeln. Frances Aurelian atravessa o Véu Feérico atrás da criatura, que apenas é contida pela chegada de seu mestre. A garota é levada, tendo consigo um lenço de Aurelian.

– Após os eventos da noite anterior terem sido repassados, Irina Wexner faz um breve resumo do que foi possível extrair de Heinrich Sauer. Segundo o coronel prussiano, eles não conseguiriam provar sua fantasia sobre criaturas voadoras porque nada a respeito seria deixado para trás. Werner Naumann, responsável direto pelas Mariposas-Libadoras, teria meios de desaparecer por trilhas em que homem nenhum deveria pisar. Contudo, Sauer se dizia traído por Naumann. O magista desfigurado avançou passos no projeto concebido por Otto Von Bismarck ao testar os efeitos do Projeto Propaganda em Felix Bayard. Mesmo incapaz de reconhecer os próprios erros de julgamento, Sauer parecia disposto a ajudar a pegar Naumann, se isso evitasse uma guerra.

– Wilhelm Sieg redige uma carta ao pai detalhando os eventos recentes. Espera que sua influência junto ao Rei Ludwig II auxiliasse o líder bávaro a compreender de todo a dimensão dos acontecimentos em Viena.

– Na suíte esvaziada no Hotel Imperial, Niklas Schneider encontra fichas de cada um dos prussianos presentes em Viena, incluindo uma anotação específica a respeito daqueles diretamente sob o comando de Werner Naumann; documentos dando conta do envio dos corpos de Balder Krumm e Friedrich Zöllner a Berlim; um detalhado manual de desenvolvimento e operação do Oneirômetro; e informações sobre o manejo da carga sob a responsabilidade de Werner Naumann, bem como instruções quanto à estrutura destinada às Mariposas-Libadoras, tanto em posicionamento dos espelhos, montagem dos capacetes de trabalho e posicionamento da Pedra de Serenar.

– Dois dias após o incidente que libertou as Mariposas-Libadoras, a Stahlwerk Bayard seguia abandonada. Frances Aurelian e Wilhelm Sieg descobrem lá o que pareceu um incêndio secundário que destruiu os cadáveres das duas criaturas e toda a estrutura a qual estavam confinadas. Contudo, encontram um diário relatando seu progresso no estudo das Mariposas-Libadoras.

– Do lado de fora da Stahlwerk Bayard, Zsófia Lakatos e outros trabalhadores húngaros são presos pela Guarda Real.

– Frances Aurelian se dirige ao quarto de Hannah Verdoppeln. Descobre que Josephine faleceu há cinco anos e que Hannah tomou seu lugar, apaixonada pelo amor daquele homem.

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Diário anotado encontrado na Stahlwerk Bayard:

– Um ovo de Mariposa-Libadora foi trazido ao mundo de algum lugar desconhecido além do Véu Feérico. As anotações sugerem o auxílio de um “Andarilho dos Espinhos”.

– Os frutos azuis foram utilizados para garantir a resistência necessária à escalada até o ninho de uma das criaturas.

– Mariposas-Libadoras possuem uma aparência insectoide, chegando a dois metros de altura. Suas enormes asas multicoloridas, em dois pares, permitem voos em grande altitude e velocidade. Elas produzem um padrão caleidoscópico com efeito hipnótico e paralisante sobre qualquer ser consciente.

– As criaturas se alimentam de emoções e pensamentos. Se extraídos diretamente de um ser vivo, deixa para trás uma casca catatônica com a mente esvaziada que sobrevive poucas horas após o contato. Ela poderia também subsistir extraindo seu alimento do ambiente.

– As Mariposas-Libadoras excretam um subproduto daquilo que consomem, perturbando com pesadelos as mentes conscientes da área que habitam. A “Pedra de Serenar” tem uma relação não esclarecida com isso.

– Elas são cegas, mas podem detectar mentes conscientes em praticamente qualquer circunstância.

– Hermafroditas, colocam ovos cujas larvas multicoloridas se desenvolvem captando as emoções a sua volta. As fases de crescimento das Mariposas-Libadoras são de quatro semanas.

– A secreção que produzem desde o ovo é um alucinógeno poderoso e causador de pesadelos horrendos, ainda que não seja viciante e cujos efeitos se desfaçam após encerrada a exposição.

– A inalação das secreções de uma criatura adulta causa debilidade mental e docilidade. Em grandes doses, pode levar à insanidade.

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Capítulo VII – Sob as asas da ruína

No qual sombras se alongam sobre Viena, um espetáculo fúnebre se avizinha e uma escolha de vida e morte é realizada.

– Felix Bayard revela a Wilhelm Sieg que a inteligência surgida em sua propriedade, batizada de Maquinismo, mostrou-se capaz de produzir pequenos autômatos.

– Frances Aurelian, Niklas Schneider e Wilhelm Sieg procuram por respostas com a ajuda da viajante russa e estudiosa do oculto Yelena Blavatskaya. É convencida a ajudar em troca do Oneirômetro e do manual de desenvolvimento do falecido Friedrich Zöllner. Blavatskaya aponta em Werner Naumann um reconhecido ocultista prussiano. A respeito das Mariposas-Libadoras, ela alerta que sua sensibilidade a fazia sentir a perturbação de humores provocada pelas criaturas. Pergunta-se quando isso se estenderia a toda Viena, e com quais efeitos.

– Yelena Blavatskaya chega acompanhada pelos Srs. Sieg e Aurelian à Catedral de Santo Estevão. Diante dela, um cadafalso terminava de ser erguido. Sobre a execução pública prestes a ocorrer, Blavatskaya afirmou ter tido uma visão muito clara de que o evento funesto teria enormes repercussões sobre seus acompanhantes.

– Ingof Dümmler é surpreendido em seu escritório por Niklas Schneider, que convence ser ele, e nenhum outro, Der Fliegen.

– Heinrich Sauer é removido ao Hospital Geral de Viena sob a alegação de que estaria entre os feridos na Stahlwerk Bayard. É mantido sob a supervisão direta de homens do General Lothar Spitz, fiel conselheiro de sua Majestade Imperial, Franz Joseph I, e veterano de guerra. No saguão, Marcus Gehring é agredido por Niklas Schneider, que acaba preso. Mas isso dá a brecha necessária para que Frances Aurelian chegue até o quarto do coronel.

– Heinrich Sauer revela ter sido visitado por Ingolf Dümmler. O industrial acredita que a influência prussiana seria benéfica ao Império Austro-Húngaro decadente. A tentativa de Aurelian de tirá-lo dali fracassa. Teria uma nova chance, sob outras circunstâncias, naquela noite.

– Niklas Schneider é levado à Cadeia Pública e trancado numa espécie de jaula com uma dúzia de prisioneiros: húngaros liderados por Zsófia Lakatos, todos acusados do ataque contra a Stahlwerk Bayard. Circula entre os guardas que Zsófia havia “confessado”.

– O padre Schulze acompanha Wilhelm Sieg e Frances Aurelian até o alto da torre sul da Catedral de Santo Estevão. Logo as Mariposas-Libadoras denunciam sua presença. Circulam a torre em alta velocidade, quase invisíveis contra o céu noturno. As criaturas partem noite adentro. Como profetizado por Yelena Blavatskaya, são animais movidos pelo mais básico dos instintos: a proteção da cria. Voam em direção à lagarta deixada na Embaixada do Reino da Baviera.

Lugares Vazios

Capturados pelo Vazio

  • A chegada na sala é como acordar de um sono longo, uma experiência algo confusa.
  • Aquele ambiente desperta uma sensação de familiaridade em cada um dos personagens.
  • Celulares e relógios congelados. Todos os personagens foram capturados ao mesmo tempo: 19h12.
  • Todos ouvem um homem jovem chorando e implorando pela vida.
  • Ouvem a voz de uma menina tentando consolar um menino mais novo, que chora: – Não se preocupe, Marcos. Ninguém pode nos achar aqui.
  • Numa parede da sala surge uma gaveta de necrotério. A placa identifica Ana Ribeiro. Não há nada ali dentro.
  • Uma pintura de uma casa surge em um canto. Tem uma assinatura: C. Ela parece familiar aos personagens.
  • Um dos cantos da sala pega fogo. Há alguém em agonia em meio às chamas.
  • Objetos fazem um ruído metálico quando caem no chão. São quatro lâminas de barbear. Inicialmente, parecem nunca terem sido utilizadas. Logo, encharcam-se de sangue, que fica ressecado em seguida.
  • Os personagens retornam para onde estavam antes.

Ciclos

  • Arthur está lotado na US São Carlos durante o período de vacinação contra a Covid. Após o levantamento do estoque, dá conta da ausência de 10 frascos, o equivalente a 100 doses. O responsável é um enfermeiro, Felipe. Ele se diz pressionado para contrabandear algumas doses. Felipe e sua família estariam sob ameaça.
  • Miguel vai ao encontro de Jorge com a intenção de saldar parte de sua dívida. O traficante desdenha a oferta e agride Marquinhos, um amigo. Motorista de Uber, Miguel é pressionado a dirigir para pagar o restante da dívida.
  • Sob os protestos de Arthur, Felipe entrega as doses de vacina a Miguel. Arthur e Miguel se reconhecem, mas não conversam. Felipe foge.
  • O roubo de vacinas contra Covid em uma unidade de saúde é notícia.
  • Os três são capturados novamente às 19h12.
  • Beto foi perfurado nas costas por uma chave de fenda, ainda presa a suas costas. Tem no bolso algumas pilhas médias e um cartão de sua marcenaria. No verso, um endereço na Rua Luciana de Abreu. Graças aos esforços de Arthur, ele é estabilizado, ainda que esteja fraco demais para falar mais do que “a casa… a casa”.
  • A lâmpada no alto da sala deu lugar a um candelabro com velas. Em todo o resto, o ambiente é idêntico ao da última vez ali.
  • Um bilhete, escrito a lápis numa caligrafia infantil, aparece: A Crista veio no quarto depois da aula. Ninguém pode encontrar a gente aqui. M.
  • Anotações a lápis são riscadas no papel de parede:
    1:1/2
    2:1
    3:2
    4:4
    5:8
    6:16
    7:32
    8:64…?
  • Ainda que não possam precisar a passagem de tempo, o período ali é claramente maior do que o anterior.
  • Uma corda grossa, amarrada para servir como forca, surge em um canto da sala. Está em perfeito estado, ainda que seja antiquada, feita de cânhamo.
  • Arthur compartilha uma informação de sua pesquisa para tentar entender o que está se passando: Um relato de crimes da primeira metade do século XIX descreve uma casa com uma sala assombrada. O proprietário foi enforcado depois que os corpos da esposa e do filho foram encontrados no porão da propriedade. No julgamento, o homem teria dito que os dois se escondiam numa sala que ele não conseguia encontrar nem entrar.
  • Uma grande mesa de trabalho surge no centro da sala. Sobre ela, diversas plantas arquitetônicas e mapas de Porto Alegre na década de 1960. Pelas anotações, percebe-se que alguém estava à procura de uma falha em um projeto. As marcações apontam uma sala que não estava na planta original e para a qual não havia sustentação estrutural. Trata-se do Teatro da OSPA, atualmente abandonado.
  • 4 telas surgem penduradas nas paredes. Todas as telas estão assinadas apenas com um C.
  • Quatro manchas de sangue se espalham pelo chão, próximas de onde antes estavam as telas.
  • Antes de retornarem para onde estavam, Arthur e Miguel ouvem um ruído de mastigação.

O Deus das Lacunas

  • Após retornar da experiência na Sala Vazia, Beto recebe a ligação de um amigo, Armínio, e um endereço. Deve, de um jeito “discreto”, avaliar o estado de uma residência abandonada na Rua Luciana de Abreu. A intenção é ver se algo da estrutura pode “se perder” antes da demolição já programada. Como isso não é legal, a incursão acontece na noite seguinte. Diante da casa, Beto reconhece de imediato a semelhança da construção com a pintura encontrada na Sala Vazia. Ainda assim, entra. Existem ali azulejos e pisos que ainda podem ser repassados por um bom valor. Contudo, o mais interessante são os desenhos riscados nas paredes do que poderia ter sido um quarto, no segundo andar. Ao que parece, alguém registrou as aventuras de duas crianças, Crista e Marcos. Infelizmente, antes que possa compreender aquilo, Beto sente uma dor intensa nas costas…
  • Miguel se dirige ao endereço no verso do cartão encontrado no bolso de Beto. Encontra-o, mas não sem antes ser derrubado por um estranho saído de um dos cômodos da mansão às escuras. Não consegue identificá-lo. Ambos deixam o local em seguida, pouco antes da chegada de uma viatura policial. As ferramentas de Beto ficam para trás. Encontram-se com Arthur no Hospital de Pronto Socorro, quando são refeitos os curativos de Beto.
  • O Teatro da Ospa está abandonado há mais de uma década. A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre ocupou o local entre 1984 e 2008, que entre 1963 e 1981 foi o Teatro Leopoldina. Todo o primeiro andar ainda abriga a estrutura do teatro, com os seis andares superiores cada vez mais incompletos. Conforme se avança escadas acima, a sensação é de que o prédio se torna mais tênue. No sexto andar, no ponto onde deveria estar a sala que intrigou o autor das anotações na planta arquitetônica, está riscada na parede uma passagem com dimensões semelhantes às de uma porta. Num canto, entre marcas do tempo, está registrada a frase “ninguém entra, ninguém sai”. Mais adiante há ainda as marcas do que parece ter sido um jogo da forca. O vencedor ficou por um braço de “morrer”. A palavra formada é ASSASSINOS. No último andar não há mais teto. Visto dali, o céu se apresenta brilhante e chuvoso, muito diferente de quando entraram no prédio. Beto desce com vergalhões, utilizados para testar o material da porta riscada na parede. Ela cede, revelando uma escuridão profunda e inescrutável. Um a um, Arthur, Beto e Miguel avançam para ela.
Nicola Samori

Lampejos

  • Vocês atravessam a porta aberta a golpes contra o concreto no antigo Teatro da OSPA. De imediato, não há o que perceber. Apenas o vazio. Escuridão e silêncio são absolutos. A sensação de coisa nenhuma dura alguns segundos. Mal podem notar a presença um do outro ali. Então, uma lâmpada brilha num clarão momentâneo, como um flash fotográfico. O lampejo inesperado não permite que algo do ambiente em que se encontram seja visto. Permanecem tão cegos quanto antes. Outra vez a luz brilha. E vocês veem corpos por todos os lados. Há sangue no chão, nas paredes. Corpos mutilados, alguns há muito tempo. O odor da morte preenche suas narinas. Mas apenas por um instante. De volta à escuridão. É quase um alívio. Quando a luz brilha novamente, já não há dúvida de que estão de volta à Sala Vazia. Mas o que veem, não é morte. Pelo menos, não ainda. Uma mulher abraça com força e ternura um menino. Ambos parecem muito fracos. As imagens se sucedem como fotografias sendo reveladas diante de vocês. Não importa o que façam, quando a luz banha a sala, vocês estão sempre sob a lâmpada, sem conseguir deixar de testemunhar o que a Sala Vazia revela. Crianças desenham seus nomes nas paredes: Crista e Marcos. Um idoso perde os sentidos sobre uma mesa repleta de papéis. Tudo acontece muito rápido. Uma caçamba de lixo pega fogo. Alguém grita lá dentro. Um homem escreve nas paredes com os dedos ensanguentados. Uma mulher luta para respirar até que reste apenas o zumbido dos aparelhos ligados a seu corpo. Um homem é enforcado sob aplausos. Encapuzada e amarrada a uma cadeira, uma pessoa morre com um tiro na cabeça. Não importa se fecham os olhos ou tapam os ouvidos, seus sentidos não pertencem mais a vocês. Um grupo de cinco pessoas observa um quadro que retrata uma Sala Vazia. Uma sequência de números é riscada a lápis. Uma mulher coberta de tinta e óleo gargalha. Então, a luz se acende uma última vez. Diante de vocês, um homem está pendurado por ganchos fincados à carne. As correntes que o sustentam vão até o teto. Ele está vivo, em agonia. Grita. O som de mastigação começa e pedaços de seu corpo desaparecem, produzindo feridas horríveis que pintam o chão de vermelho. Mastigação, gritos e desespero. Então, tudo para. O silêncio e a escuridão duram um tempo indefinido. Até que o som da chuva se aproximando pode ser ouvido. Ela chega e faz arder as mãos, o rosto. Quando toca o chão, produz um estalido metálico. Não são gotas caindo sobre vocês. Não é chuva escorrendo de suas faces e dos seus dedos. Lâminas despencam do vazio.
  • Quando deixam o antigo Teatro da Ospa, os três têm cortes leves no rosto e nas mãos. Não há sinal de chuva do lado de fora. O buraco que abriram na parede não está mais lá.
  • Marquinhos liga para Miguel. Está em companhia de um dos homens de Jorge. Timóteo está ali para requerer os serviços do motorista. Em troca, sugere ser capaz de aliviar a situação dos dois. Diz que vai mostrar como se cobra uma dívida.
  • Arthur é convocado pelo Coordenador de Auditoria Interna do Hospital de Clínicas, Gustavo Câmara. O pai de Ana Ribeiro, Nelson, tem movido recursos para encontrar uma resposta e um culpado pela morte da filha. Gustavo tranquiliza o médico: no contexto de Covid, não pode abrir mão de nenhum médico. Mas quando isso acabar… Quem sabe valha conversar informalmente com o homem, demonstrar alguma simpatia por sua dor e encerrar o assunto.
  • Miguel conduz Timóteo até o endereço de Beto. Sua marcenaria está aberta e ele trata com Armínio ao telefone sobre a noite de ontem. A abordagem de Timóteo é direta. Entrar, atirar e fugir. É atrapalhado por Miguel, que dispara em sua direção, mas erra. A distração permite que Beto avance. Primeiro com uma chave de fenda e depois com as próprias mãos, dá cabo do atirador. Miguel foge. Beto é tratado com simpatia pela polícia. Um bandido a menos, pensam todos de Timóteo.
  • Arthur liga para o número de Nelson Ribeiro. Desliga. Não atende quando é chamado de volta. Não está pronto. Antevendo a captura pela Sala Vazia, enche os bolsos com itens básicos de primeiros socorros.
  • A notícia de que Timóteo pode ter sido ferido ou morto em companhia de Miguel desespera Marquinhos. Miguel decide tomar à frente da situação e procura Jorge. O criminoso dá notícia de que seu capanga foi morto. É preciso acertar as contas. Mais uma vez naquele dia, Miguel dirige-se ao Rubem Berta. Jorge e outros dois homens vão com ele. Em um bar perto de casa, contando pela terceira vez como tudo aconteceu mais cedo, Beto tenta relaxar.
  • Às 19h12, os três são capturados novamente.

O Vazio de cada um

  • Durante o trajeto até o Rubem Berta, Jorge deixa escapar a raiva causada pelo destino de Timóteo. Era um pobre coitado com medo da própria sombra. Timóteo chegou do interior anos atrás. Saiu de um buraco na fronteira com o Uruguai, Torquato Severo. Veio fugido. Demorou um tempo até abrir o bico a respeito das merdas que fez por lá. Timóteo era parte de uma galera que gostava de falar grosso na Internet. O grupo colocou as mãos num rapaz que andava cometendo roubos na região. Torturou, matou e deu sumiço no corpo. Timóteo resolveu sumir também. Tentou refazer a vida na capital. Sem dinheiro, sem conhecer ninguém e sem medo de usar uma arma, acabou chegando até Jorge. Ele sempre ficou de olho se aquele pessoal estava na cola dele. Tinha só um por aqui. O tal de Beto. As coisas estavam numa boa até o cara voltar a xeretar em Torquato. O Timóteo achou que o cara estava atrás dele. Resolveu pegar antes de ser pego. Jorge conta que liberou Timóteo para acertar contas, desde que fosse sem algazarra. Deu tudo errado e a fatura seguia aberta. Esse Beto já tá morto, Miguel. Entendeu? Já era. E quem vai fazer isso é tu, pra pagar tuas dívidas e por ter deixado o Timóteo na mão. Ainda no carro, Jorge coloca uma arma na mão de Miguel.
  • Arthur, Beto e Miguel chegam à Sala Vazia. Arthur tem consigo alguns itens de primeiros socorros. Miguel, uma arma carregada. Discutem sobre a exigência de Jorge e como resolver a situação.
  • Cândida é esposa de Diogo Araújo, sapateiro da Rua da Ladeira na Porto Alegre de 1825. Encontrou a sala tentando se esconder dos arroubos de ciúme e violência de Araújo. Sem contar com qualquer auxílio, foi capturada incontáveis vezes. Já viu e ouviu outros ali, mas nunca tinha sido notada antes. Tem o filho no colo. Desidratado e faminto, o menino mal respira. Cândida pede que levem José e o salvem. Antes de sumirem, seus rostos serão recortados como nas obras de Crista.
  • Laurêncio Horta está debruçado sobre as plantas que jamais conseguiu desvendar. Foi capturado pela primeira vez em 1965, quando entrou pela primeira vez numa sala que não deveria existir no Teatro Leopoldina. Os personagens apenas conseguem se comunicar com ele por meio da escrita, revelando um obcecado que desenvolveu inúmeras teorias a partir dos fragmentos de informações que a Sala lhe oferece. Já ouviu diálogos antiquados e outros que não compreendeu. Já se viu em uma pintura. Já viu uma mulher cortando um homem em pedaços para se alimentar. E depois disso, nunca mais a viu, ao contrário de todos os outros. Acredita que tenha sido assim que Crista escapou da sala. Antes de sumir, é coberto de um líquido viscoso semelhante à tinta.
  • As paredes enchem-se de obras assinadas com um C. As primeiras delas são os desenhos infantis que Beto viu na residência na Luciana de Abreu. Conforme a técnica amadurece, os personagens reconhecem obras que viram antes, mas dessa vez entendem que fazem referência a Cândida, José e Laurêncio Horta, entre tantos outros. Eles também estão representados nas pinturas, sempre em seu momento de maior culpa e arrependimento. São telas ainda incompletas. A última delas sugere a morte de Timóteo, ocorrida apenas horas antes.
  • Marcos Klein está ali, em pânico pela presença invisível da irmã, lentamente o cortando com uma lâmina fina. Conforme responde às perguntas dos personagens, novas mutilações marcam sua carne, até que a garganta é cortada. Marcos parece compreender que Crista se alimentou dele para sobreviver, a respeito do que manifesta apenas resignação. Mas afirma que não pode morrer, pois se tornou a culpa dentro da cabeça dela, assim como os personagens são histórias de culpa que Crista Klein concebeu em suas telas.
  • Quando retorna, Miguel tem nas mãos a arma colocada ali por Jorge. É hora de se livrar de Beto. A ação com Jorge baleado e um dos capangas desacordado aos pés de Beto. Miguel foi baleado na perna. Precisam de um médico.
  • Arthur pesquisa a respeito dos nomes que ouviram ao longo das horas que passaram na Sala Vazia.
Nicola Samori

Toque Autoral

  • A pesquisa de Arthur: Não é possível comprovar a existência de um sapateiro chamado Diogo Araújo na Rua da Ladeira em 1825, bem como sua esposa, Cândida. Laurêncio Horta foi um dos engenheiros responsáveis por obras do Teatro Leopoldina, inaugurado na década de 1960. Crista tinha um irmão, Marcos, assassinado em circunstâncias nunca esclarecidas, em 1999. Ela jamais foi considerada suspeita. O caso despertou controvérsia pela violência e pela demora da polícia para determinar se foi um suicídio ou homicídio. Os pais de Crista e Marcos faleceram em um acidente de automóvel, em 1992. Até a morte de Marcos, Crista residiu na casa da família, na Rua Luciana de Abreu. A propriedade se encontra fechada há anos. Crista Klein é uma pintora e artista plástica com algum reconhecimento no meio artístico gaúcho e brasileiro. Ela é extremamente reservada e há anos não apresenta novo material. Algumas de suas obras estão expostas na Galeria Mamute.
  • Arthur faz contato por telefone com a curadora e administradora da Galeria Mamute, Marília Lampert. Ela se esquiva de qualquer informação pessoal a respeito de Crista Klein, salientando sua personalidade reservada. Contudo, por conta das experiências na Sala Vazia, Arthur sabe o suficiente a respeito da obra da artista para se passar por mais do que um mero curioso. Na conversa, fica evidente que Lampert está interessada em recebê-lo, desde que isso signifique a possibilidade de uma venda. Certamente com o intuito de atraí-lo, sugere que Crista estaria criando depois de muito tempo, e que uma aquisição agora seria um excelente caminho para garantir exclusividade futura. Um encontro na Galeria Mamute é agendado para o dia seguinte. Assim que se despede de Lampert, Arthur recebe uma ligação de Beto. Miguel precisa de um médico.
  • O ferimento na perna de Miguel não é grave, não exigindo cuidados especiais após a remoção do projétil.
  • Marília Lampert é curadora e administradora da Galeria Mamute. Conhece Crista Klein pessoalmente e está familiarizada com a sua obra e a exploração do conceito de culpa presente em toda ela. Por isso, tende a ser cética em relação ao tipo de interesse que ela desperta. Recebe os personagens na expectativa de que sejam compradores. Explica a eles que, desde a morte terrível de Marcos, em 1999, Crista Klein se tornou uma reclusa. Sua produção tem sido escassa e especialmente sombria e há muito existe expectativa quanto ao seu ressurgimento artístico.
  • Arthur adquire dois quadros da coleção Personagens do Hospício, concebida entre 1995 e 1998, inspirada pela internação do irmão, Marcos, em 1994, no Hospital Psiquiátrico São Pedro. Enquanto isso, tanto Beto quanto Miguel contemplam Marcos, uma escultura em pedra considerada uma obra-prima da desumanização, no qual o corpo é reduzido a um escombro à espera de ser consumido. É a perfeita expressão artística do horror que os personagens contemplaram na Sala Vazia. Ao toque, a peça é quente como um corpo vivo. Despedem-se de Marília Lampert sem o endereço atual de Crista Klein, mas certos de que ela ainda vai à antiga casa na Luciana de Abreu para produzir.
  • Arthur, Beto e Miguel chegam à antiga residência de Crista Klein no início da tarde. Encontram sinais de arrombamento e materiais de pintura com uso recente. Decidem que, caso tudo mais venha a falhar, o lugar deve ser purificado pelo fogo.
  • Em um dos ambientes da casa abandonada Arthur testemunha uma cena que parece acontecer na sala do apartamento em que viveu com a ex-mulher. Julia é ameaçada por Nelson Ribeiro. Ele tem consigo uma arma. É o pai de Ana Ribeiro, a paciente que morreu por conta de um erro de Arthur. Ele não se aproxima e não toma parte naquilo. Após se afastar, Arthur ouve o som de um disparo e nada mais.
  • Por volta das 19h, o mundo ao redor dos personagens começa a se tornar estático e silencioso. Diante da casa, pessoas fazem uma vigília pela preservação do patrimônio histórico de Porto Alegre. Carregam placas com dizeres como “Nossa memória não pode ser apagada” e “O passado é para sempre”. Lá dentro, iluminada pelas lanternas da manifestação e pelos postes de luz da rua, a sala revela rascunhos por todos os lados. São estudos de todos locais onde os personagens estiveram e todas pessoas com quem travaram contato nos últimos dias. O rastro de papéis leva até o quarto onde Beto foi apunhalado dias antes. Ali, junto com tintas, pincéis e diversas medicações, pinturas completas apresentam o momento de maior horror dos personagens: um homem tentando sair de um container de lixo em chamas; uma pessoa com a cabeça coberta por um capuz ensopado de sangue; o olhar desesperado de uma mulher prestes a morrer.
  • Atrás de uma pequena passagem, antes escondida pelo papel de parede agora rasgado, Crista Klein pinta o fim da existência breve de suas personagens. A tinta nas mãos e no rosto parece sangue. Tentam interagir com ela, mas logo descobrem que não são além de vozes em sua cabeça. Inicialmente incerto, e após Miguel atacar Arthur com o intuito de fazer prevalecer seu desejo por sobrevivência, é Beto quem diz as palavras duras que confrontam Crista com a própria culpa e com o horror imposto a suas criações. Conclui a tela retratando a si própria e ao irmão, Marcos, como uma figura fantasmagórica. Então, a queima. As chamas tomam seu corpo. Arthur, Beto e Miguel deixam a casa. Do lado de fora, o fogo consome tudo, como uma fronteira entre o que existe e o vazio. Lentamente, sua existência chega ao fim.

Fim.

Estação Falkenstein VII – Sob as asas da ruína

Estação Falkenstein

Capítulo VII – Sob as asas da ruína

No qual sombras se alongam sobre Viena, um espetáculo fúnebre se avizinha e uma escolha de vida e morte é realizada.

– Foi Felix Bayard quem procurou Wilhelm Sieg. Já há semanas o industrial buscava formas de reverter a situação calamitosa em que se encontrava desde o incêndio na Siderúrgica Bayard. Tendo encontrado as portas fechadas no Palácio Imperial de Hofburg, a Embaixada do Reino da Baviera era sua última cartada. Em troca de uma promessa de aproximação, revelou que a entidade surgida em sua propriedade, batizada de Maquinismo, mostrara-se capaz de produzir pequenos autômatos, estes possuidores de uma fração de sua prodigiosa inteligência surgida a partir de óleo e engrenagens.

Yelena Blavatskaya

– Irina Wexner apontou a viajante russa e estudiosa do oculto Yelena Blavatskaya para auxiliar Frances Aurelian, Niklas Schneider e Wilhelm Sieg na busca por respostas para mistérios distantes do mundano. Figura execrada pela alta sociedade local por conta de seu passado recente ligado ao incendiário Giuseppe Garibaldi, estava prestes a deixar Viena a caminho da América. Foi convencida a ajudar em troca do Oneirômetro e do manual de desenvolvimento do falecido Friedrich Zöllner. Blavatskaya parecia uma jovem senhora cujo maior perigo que oferecia era viver com independência. Afirmou desconhecer Ingolf Dümmler, concluindo, portanto, que ele não seria capaz de mobilizar forças sobrenaturais por conta própria. Werner Naumann, esse sim um reconhecido ocultista prussiano, poderia cumprir tal papel. A respeito das Mariposas-Libadoras, Blavatskaya pouco pôde acrescentar. Sua sensibilidade a fazia sentir a perturbação de humores provocada pelas criaturas. Perguntava-se quando isso se estenderia a toda Viena, e com quais efeitos. Sugeriu que se perguntassem os seus interlocutores se perseguiam uma inteligência tal qual a humana, ou algo mais primitivo, como um animal, cujos anseios poderiam ser reduzidos à proteção, alimentação e reprodução.

– Na ânsia por encontrar a origem da moléstia que já impunha sono sem descanso a alguns vienenses, Yelena Blavatskaya chegou acompanhada pelos Srs. Sieg e Aurelian à Catedral de Santo Estevão. Diante dela, um cadafalso terminava de ser erguido. Sobre a execução pública prestes a ocorrer, Blavatskaya afirmou ter tido uma visão muito clara de que o evento funesto teria enormes repercussões sobre seus acompanhantes. Antes de despedir-se, contudo, deixou uma mensagem de esperança a Aurelian: ele carregava no coração as respostas para a sua tragédia.

– Ingof Dümmler foi surpreendido em seu escritório por Niklas Schneider. Aquele homem de aparência comum dizia ser ninguém menos do que Der Fliegen, o espetacular ladrão cujos feitos mantiveram Viena estupefata. Apenas se convenceu após um abridor de cartas ser arremessado entre seus dedos, impedindo que alcançasse a pistola na gaveta. Schneider era movido pela desconfiança de Aurelian: seu interlocutor moveria não somente as engrenagens mundanas, mas também os fios sobrenaturais na capital do Império Austro-Húngaro. Antes de desaparecer pela janela, o verdadeiro Der Fliegen desafiou Dümmler a jogar sobre ele seus cães, caçadores e o que mais guardasse sob a cartola.

– Heinrich Sauer permaneceu poucos dias sob o poder do Serviço Secreto da Baviera, quando foi vigorosamente interrogado. Pouco disse. Por influência da diplomacia bávara, foi então removido ao Hospital Geral de Viena, onde se criou a história de que teria sido lá internado após o incidente na Stahlwerk Bayard, demorando dias até que recuperasse a razão. Desde então, silenciou. Vinha sendo mantido sob a supervisão direta de homens do General Lothar Spitz, fiel conselheiro de sua Majestade Imperial, Franz Joseph I, e veterano de guerra. No saguão, Marcus Gehring buscava vencer o bloqueio imposto pela política vienense quando percebeu a presença de Hans Landa, disfarce de Frances Aurelian. A esta altura, o espião sob o disfarce de jornalista já havia conseguido garantias de que um bilhete chegaria às mãos do coronel Sauer. Gehring tentava um acordo para ter acesso à resposta. Com um portentoso cruzado seguido de brados e vivas à causa húngara, foi interrompido por Niklas Schneider. O surpreendido Gehring apenas servia para que seu agressor fosse preso, um plano cujos problemas em breve se revelariam, e Aurelian tivesse uma brecha para esgueirar-se até o quarto do ilustre paciente – os guardas já haviam sido atraídos pela confusão.

– Heinrich Sauer buscava se empertigar, mas parecia velho e frágil. Fora visitado nos últimos dias por Ingolf Dümmler, revelou. O industrial acreditava que a influência prussiana seria benéfica ao Império Austro-Húngaro decadente, e percebera a inclinação de Sauer ao fim das atividades em Viena. O coronel identificou o conflito ali posto e sabia que sua vida corria risco. A tentativa de Aurelian para tirá-lo dali, contudo, fracassou. Teria uma nova chance, sob outras circunstâncias, naquela noite.

– Niklas Schneider foi levado à Cadeia Pública e trancado numa espécie de jaula com uma dúzia de prisioneiros. Eram húngaros liderados por Zsófia Lakatos, quebrados após uma semana de privações, espancamentos e medo da morte. Entre os rostos familiares dos encontros em porões estava Lajos Székely. Todos ali eram acusados do ataque contra a Stahlwerk Bayard e, ainda assim, dizia-se que seriam libertados em um dia ou dois. Lajos temia o que poderiam ter feito a Zsófia. Circulava entre os guardas que a líder comunista havia “confessado”. Schneider não estava disposto a aguardar. Foi uma pena, portanto, quando a única gazua que escondeu rompeu-se na primeira tentativa de vencer a tranca.

Catedral de Santo Estevão

– O padre Schulze subiu com dificuldade os degraus que levavam até o alto da torre sul da Catedral de Santo Estevão. Estavam ali sob o pretexto da magnífica vista conhecida por poucos. Assim que se abriram as portas que davam acesso ao Pummerin, o sino de 20 toneladas há anos inutilizado pelas rachaduras, Wilhelm Sieg e Frances Aurelian não tiveram dúvidas a respeito de que se tratava daquele odor. O sentiram no vagão oriundo de Berlim. Em um canto escuro, um ninho vazio confirmava suas piores suspeitas. Em lugar de palha e madeira, canos, pedaços de ferro e lata. As insignificâncias da cidade arranjadas para receber um novo morador de Viena. Com sua mistura de uivo e piado cortante, as Mariposas-Libadoras denunciaram sua presença. Circulavam a torre em alta velocidade, quase invisíveis contra o céu noturno. Sieg e Aurelian protegeram-se por reflexo. Schulze apenas conseguiu benzer-se. As criaturas, contudo, não arremeteram contra eles. Voaram noite adentro, com seus sons dissonantes sobrepujando aleluias e arrastando fiéis curiosos para fora da catedral. Antes que sumissem da vista das três testemunhas no alto da torre, Sieg e Aurelian anteviram seu destino. O ninho atrás deles não estava reservado a um ovo. Aquelas criaturas, como profetizado por Yelena Blavatskaya, eram animais movidos pelo mais básico dos instintos: a proteção da cria. Voavam em direção à lagarta deixada na Embaixada do Reino da Baviera.

Estação Falkenstein VI – A Era dos Impérios

Estação Falkenstein

Capítulo VI – A Era dos Impérios

No qual nossos heróis se veem diante de situações definidoras dos dias que virão, e as dimensões do que está em jogo alcançam muito além de Viena.

– Niklas Schneider carregou Marko Hang madrugada adentro até Zsófia Lakatos, conforme havia se comprometido a fazer. O encontro se deu no porão utilizado dias antes para discutir possíveis ações em relação à Stahlwerk Bayard. Zsófia não conseguia esconder o nervosismo diante do homem atordoado. Com uma barra de ferro nas mãos, esbravejava e ameaçava Hang, responsabilizando-o pela morte do pai em troca de seu cargo na siderúrgica. Por um instante, Schneider se colocou entre ela e sua vingança. Contudo, certo de que não poderia demovê-la, preferiu se afastar para não ter ainda mais responsabilidade pelas escolhas de Zsófia.

O Caçador

– Wilhelm Sieg tinha Heinrich Sauer sob custódia. O conduzia por ruelas escuras até um ponto de encontro do Serviço Secreto da Baviera. Assim que se recompôs, o coronel apontou a Sieg a fragilidade de seu plano. A morte de tantos prussianos legalmente presentes em Viena causaria um incidente diplomático e, possivelmente, uma guerra. Colocá-lo em mãos bávaras apenas agravaria a situação. Sieg considerou aquelas palavras com cuidado, mas a possibilidade de libertar Sauer não foi cogitada.

– Ingolf Dümmler avaliou o trabalho feito por “Der Fliegen” como um estrondoso fracasso, indo muito além do solicitado. A coluna de fumaça no céu noturno de Viena não deixava dúvidas quanto à destruição da Stahlwerk Bayard. Por conta disso, foi com indisfarçada satisfação que revelou a Frances Aurelian que havia soltado o cão capturado da Caçada Selvagem sobre Hannah Verdoppeln. Quando Aurelian, em desespero, finalmente chegou à hospedaria, testemunhou Hannah sendo arrastada pelo animal através de uma abertura em pleno ar, um caminho para o Véu Feérico. O animal foi contido pela chegada de seu mestre, uma criatura com mais de dois metros de altura e enorme galhada sobre a cabeça. A única palavra que parecia conhecer era “presa”, pronunciada com os olhos vazios sobre Hannah. Frustrado pela própria impotência naquela circunstância delirante, Aurelian viu a garota levar consigo o lenço de seu bolso e deixar para trás palavras de desculpas por não ter sido sincera.

Stahlwerk Bayard em chamas.

– Após os eventos da noite anterior terem sido repassados, Irina Wexner faz um breve resumo do que foi possível extrair de Heinrich Sauer. Segundo o coronel prussiano, eles não conseguiriam provar sua fantasia sobre criaturas voadoras porque nada a respeito seria deixado para trás. Werner Naumann, responsável direto pelas Mariposas-Libadoras, teria meios de desaparecer por trilhas em que homem nenhum deveria pisar. Contudo, Sauer se dizia traído por Naumann, certamente com o auxílio de Balder Krumm. O magista desfigurado avançou passos no projeto concebido por Otto Von Bismarck ao testar os efeitos do Projeto Propaganda em Felix Bayard. Mesmo incapaz de reconhecer os próprios erros de julgamento, Sauer parecia disposto a ajudar a pegar Naumann, se isso evitasse uma guerra.

 

– A pedido de Irina Wexner, Wilhelm Sieg redigiu uma carta ao pai detalhando os eventos recentes. Esperava que sua influência junto ao Rei Ludwig II auxiliasse o líder bávaro a compreender de todo a dimensão dos acontecimentos em Viena.

– Em conversa com Heinrich Sauer, Frances Aurelian confirmou a simpatia de Ingolf Dümmler pela causa prussiana, mas em nada esclareceu a respeito de como o cão e seu mestre se encaixavam naquilo.

Culpados na mira da Guarda Real

– A suíte alugada no Hotel Imperial estava vazia desde o incidente na Stahlwerk Bayard. Por ordens expressas para que não fosse visitada sem supervisão, permaneceu como deixada por Heinrich Sauer. Para Schneider, entrar no local não foi um desafio, e abrir o cofre ali encontrado tampouco. Deparou-se com fichas de cada um dos prussianos presentes em Viena, incluindo uma anotação específica a respeito daqueles diretamente sob o comando de Werner Naumann; documentos dando conta do envio dos corpos de Balder Krumm e Friedrich Zöllner a Berlim; um detalhado manual de desenvolvimento e operação do Oneirômetro; e informações sobre o manejo da carga sob a responsabilidade de Werner Naumann, bem como instruções quanto à estrutura destinada às Mariposas-Libadoras, tanto em posicionamento dos espelhos, montagem dos capacetes de trabalho e posicionamento da pedra de serenar.

– Dois dias após o incidente que libertou as Mariposas-Libadoras, a Stahlwerk Bayard seguia abandonada. A presença da Guarda Real nos arredores se justificava pela necessidade de proteger o local que poderia se tornar o foco de um incidente diplomático e a busca pelos causadores de toda aquela destruição. Frances Aurelian e Wilhelm Sieg descobriram lá o que pareceu um incêndio secundário com o propósito específico de destruir os cadáveres das duas criaturas e toda a estrutura a qual estavam confinadas. Contudo, um documento apontava inequivocamente para a presença de Werner Naumann. Um diário relatando seu progresso no estudo das Mariposas-Libadoras.

– Do lado de fora da Stahlwerk Bayard, Zsófia Lakatos e outros trabalhadores húngaros eram presos pela Guarda Real.

Morte de prussianos. Guerra à vista?

– Com o propósito de compreender as últimas palavras de Hannah Verdoppeln, Frances Aurelian se dirigiu mais uma vez ao quarto da hospedaria. Descobriu que ela trouxe de Munique todas as cartas que enviou para Josephine. Tinha também consigo objetos pessoais, como documentos, peças de roupa e joias que foram presentes de Aurelian a mulher que amava e há mais de dez anos não via. Em seu diário, Hannah registrou como seu amor foi crescendo conforme lia as palavras que chegavam de diversas partes do mundo, a ponto de aprender a imitar a caligrafia de Josephine para que sua debilidade não fosse descoberta, vindo a tomar seu lugar quando ela finalmente faleceu, cinco anos atrás. Os registros mais recentes dão conta do encontro com Aurelian e o temor de que fossem separados por sua prisão. Hannah se perguntava quando teria coragem para contar-lhe a verdade…

Diário anotado encontrado na Stahlwerk Bayard:

– Um ovo de Mariposa-Libadora foi trazido ao mundo de algum lugar desconhecido além do Véu Feérico. As anotações sugerem o auxílio de um “Andarilho dos Espinhos”.

– Os frutos azuis foram utilizados para garantir a resistência necessária à escalada até o ninho de uma das criaturas.

Moléstia do sono aflige Viena.

– Mariposas-Libadoras possuem uma aparência insectoide, chegando a dois metros de altura. Suas enormes asas multicoloridas, em dois pares, permitem voos em grande altitude e velocidade. Elas produzem um padrão caleidoscópico com efeito hipnótico e paralisante sobre qualquer ser consciente.

 

– As criaturas se alimentam de emoções e pensamentos. Se extraídos diretamente de um ser vivo, deixa para trás uma casca catatônica com a mente esvaziada que sobrevive poucas horas após o contato. Ela poderia também subsistir extraindo seu alimento do ambiente.

– As Mariposas-Libadoras excretam um subproduto daquilo que consomem, perturbando com pesadelos as mentes conscientes da área que habitam. A “Pedra de Serenar” tem uma relação não esclarecida com isso.

– Elas são cegas, mas podem detectar mentes conscientes em praticamente qualquer circunstância.

Felix Bayard em desgraça?

– Hermafroditas, colocam ovos cujas larvas multicoloridas se desenvolvem captando as emoções a sua volta. As fases de crescimento das Mariposas-Libadoras são de quatro semanas.

– A secreção que produzem desde o ovo é um alucinógeno poderoso e causador de pesadelos horrendos, ainda que não seja viciante e cujos efeitos se desfaçam após encerrada a exposição.

– A inalação das secreções de uma criatura adulta causa debilidade mental e docilidade. Em grandes doses, pode levar à insanidade.

Estação Falkenstein V – Há cor na escuridão

Estação Falkenstein

Capítulo V – Há cor na escuridão

No qual os planos dos prussianos dão errado, muito pela intervenção dos nossos heróis, mas com repercussões que irão distender suas asas sobre toda Viena.

– Miklós Gál era um dos inúmeros trabalhadores húngaros que buscara trabalho braçal na ferrovia após as demissões na Stahlwerk Bayard. Zsófia Lakatos o conhecia, e por conta disso tomou para si a tarefa de cuidar de seus ferimentos até à noite, quando Frances Aurelian e Wilhelm Sieg teriam a chance de fazer perguntas. Desejavam saber mais a respeito do que vinha acontecendo ali e da carga com origem em Berlim movida para a siderúrgica. Niklas Schneider, cada vez mais próximo da causa dos húngaros e de Zsófia, tinha as habilidades necessárias para costurar os ferimentos que Gál arranjou ao atacar inimigos invisíveis, mas tendo sido revidado pelos seguranças da ferrovia.

– Naquela noite, em uma pequena casa usada como depósito de mantimentos pelos trabalhadores da ferrovia, Frances Aurelian e Wilhelm Sieg encontraram-se com Zsófia Lakatos e Niklas Schneider. Miklós Gál estava acamado e muito enfraquecido, mas capaz de relatar, não sem alguma dificuldade, os eventos dos últimos dias. Recordara que chegara a Viena uma composição com dois vagões de carga vindos de Berlim. O responsável era um passageiro de sobrenome Naumann, cujas feições desfiguradas pelo fogo causaram forte impressão em Gál. Os trabalhadores, húngaros demitidos da Stahlwerk Bayard, se incomodaram por estar recebendo ordens de um prussiano. Descarregaram o primeiro vagão sob ameaça das armas de uma dúzia de homens. Os volumes, equipamentos diversos e muitos espelhos, permaneceram no local por alguns dias. Quase que imediatamente circulara entre os trabalhadores a proibição expressa de aproximação do segundo vagão. Alguns homens, soldados em sua maioria, fizeram guarda permanente até que tudo fosse afinal movido para a Stahlwerk Bayard. O lugar ainda precisava de limpeza, e para isso Naumann em pessoa pagou a Miklós Gál, que sequer conseguiu entrar no vagão. Os miasmas o adoeceram de tal maneira que as lembranças dos dois dias seguintes desapareceram. Passou ardendo em febre até que a sensação de ameaça o fizera avançar contra as alucinações multicoloridas voando sobre sua cabeça. Estava claro para todos ali que os prussianos representavam uma ameaça comum, imediata o bastante para que ao menos ignorassem eventuais desconfianças mútuas.

– O Serviço Secreto da Baviera já deduzira que Niklas Schneider era Der Fliegen. E que fora o próprio a incriminar Frances Aurelian. Contudo, a natureza prática de Irina Wexner recomendava a Aurelian que detivesse qualquer impulso retaliatório. Contar com um aliado assim poderia ser fundamental ao Serviço Secreto da Baviera. Pela mesma razão, ela entregou ao espião a medalha roubada da residência de Ingolf Dümmler. Seu objetivo era manter o industrial acreditando que tinha Der Fliegen sob chantagem e, com sorte, fazer Dümmler se voltar contra os prussianos. A respeito da lagarta encontrada no vagão vindo de Berlim, Wexner ainda nada tinha a informar.

– Em um porão imundo, comunistas organizados por Zsófia Lakatos discutiam como avançar sobre a Stahlwerk Bayard. Falava-se desde o impedimento das atividades até a tomada violenta. Havia ainda os que cogitassem recorrer a Felix Bayard, certamente ignorante das decisões que vinham sendo tomadas por Marko Hang e os prussianos. Após o relato de Miklós Gál, Zsófia tivera seus ímpetos mais combativos abalados. Sofria com a desconfiança de que algo sinistro estava acontecendo na siderúrgica e temia colocar seus camaradas em risco. Havia ainda a presença certa de homens armados e a postura hostil da Guarda em relação aos trabalhadores. Discreto na forma como acompanhava tudo aquilo, Niklas Schneider garantiu a Zsófia que assumiria os riscos de qualquer iniciativa. E ainda prometeu entregar Marko Hang a ela, com quem contas antigas precisavam ser acertadas.

A Caçada Selvagem

– O encontro de Frances Aurelian com Ingolf Dümmler se deu no Zoológico de Viena. Atravessando portas que deveriam estar trancadas e passando por funcionários de olhos baixos, chegaram a uma ala reservada. Ali, apenas uma das jaulas era ocupada. Um cão de grande porte, coberto do focinho à cabeça por uma máscara de osso, ou quem sabe com o crânio exposto de uma forma não natural, encarava em silêncio, feito uma criança comportada. A grade que o continha era mantida fechada por um só pino metálico. Dümmler explicou que há semanas o animal fora trazido da antiga Valáquia. Teria sido capturado de uma Caçada Selvagem, uma reunião de seres feéricos criada com o único propósito de capturar humanos. Era uma criatura extraordinária e, segundo ele, de faro inescapável. Foi só então que Aurelian percebeu na jaula um trapo. Fora um vestido de Hannah Verdoppeln… Um incentivo à camaradagem, segundo Dümmler, que desejava saber o que acontecia na Stahlwerk Bayard, para tomar o lugar do rival, Felix Bayard, e garantir que a operação fosse arruinada, para facilitar a reconsideração dos prussianos em seu favor. Aurelian, ainda confundido com Der Fliegen, tinha dois dias até que aquela jaula fosse aberta.

 

– Felix Bayard convidou Sieg a sua propriedade de campo. Em plena recuperação, queria levar adiante o propósito de retomar do controle prussiano a siderúrgica que levava seu nome. Já entendera que Wilhelm Sieg estava associado à diplomacia da Baviera, e considerava fundamental tê-los ao seu lado neste momento crítico. Tratava-se de um acordo simples e de interesse mútuo, para o qual não havia impedimento. Contudo, foram interrompidos pelos empregados. O intruso avistado na mata em outras ocasiões fora visto novamente pelo cavalariço, Hans. Em companhia do rapaz e de dois homens, Sieg e Bayard se embrenharam nos bosque que cercava a propriedade.

O Autômato

– O que encontraram ali pareceu uma criança a observar pássaros, pelo menos à distância e sob o luar, mas se revelou um autômato, feitos de peças descartadas e mal arranjadas, de um corpo tubular inteiriço e um só olho brilhante, pernas curtas e braços finos, cujas mãos sem dedos emitiam um estalido metálico que não poderia ser outra coisa além de uma tentativa débil de comunicação. Seguiram-no até a montanha de sucata gerada pelos seguidos fracassos de Bayard. Décadas de peças descartadas se acumulavam no fundo de uma ravina, e sob aquilo, algo vibrava… Não haveria o que tirasse o velho cientista da estupefação ante aquela descoberta, que apenas se revelaria de todo após dias de remoção de entulho, e Sieg voltou a Viena sem contar com o auxílio direto de Bayard.

– Duas Mariposas-Libadoras espreitavam Viena dos céus, e não havia como saber o que aconteceria a partir disso… Foi assim que tudo se deu: Wilhelm Sieg e Frances Aurelian forjaram um documento que afastava Marko Hang da Stahlwerk Bayard e dava posse a Sieg. Contudo, viram-se no escritório da siderúrgica diante de Heinrich Sauer e em companhia de homens armados. Ciente ou não da assinatura falsa, o prussiano não aceitaria qualquer desafio a sua autoridade. Foi então que a explosão de uma caldeira, provocada por um Niklas Schneider à espreita e em posse de um dispositivo de Aurelian, causou a reação em cadeia que fez estremecer todo o prédio. “Vocês não sabem o que fizeram” foram as palavras do coronel, pálido e prostrado. Sob a ameaça da espada de Sieg após os demais terem sido rendidos por Aurelian, confessou que sua presença ali tinha a ver com a tentativa de ganhar influência sobre as figuras mais importantes da sociedade vienense. Uma tomada de poder sem cavalaria e sem canhões, pela força do que chamou de Propaganda. E para isso, as criaturas trazidas de Berlim eram fundamentais. Ele poderia dizer mais, mas algo voava sobre a siderúrgica, emitindo um aterrorizante silvo sobrenatural e atraindo os disparos de diversas armas de fogo.

Mariposa-Libadora

– Schneider testemunhou aquela sombra abrindo suas asas multicoloridas diante de guardas paralisados, transformados em cascas catatônicas após suas mentes terem sido esvaziadas. Desacordado por uma pancada, Sauer foi amarrado a uma poltrona enquanto Marko Hang era levado para fora da fábrica. A esta altura, todos que conseguiram deixaram o local. Aurelian avançou em direção à área controlada pelos prussianos, um enorme galpão antes utilizado como depósito. No caminho, se deparou com homens ainda respirando, mas de olhos vazios e feições contorcidas. No galpão, uma cúpula, toda construída com espelhos, fora erguida. O choque da explosão chegara até ali, comprometendo a estrutura e libertando uma das criaturas. Agora, ela se esforçava para libertar das amarras outra como ela. Aurelian disparou, mas apenas conseguiu chamar atenção para si. A Mariposa-Libadora rastejou em sua direção, abrindo as asas e provocando uma paralisia consciente aterradora. Schneider, buscando atingir a criatura com uma faca, também se viu estático. Foi Sieg quem conseguiu tirar Aurelian do caminho da criatura. Voltando a atenção para Schneider, a mariposa o envolveu com seus longos braços de inseto e estendeu a língua que parecia sorver o medo exalado da pele. Foi ali que Sieg atingiu com sua espada, quase decepando a protuberância asquerosa e fazendo com que a criatura desaparecesse no céu noturno. Lá dentro, contudo, ainda havia outras três. Uma delas rompera a contenção em forma de X e agonizava sob o peso da estrutura. Outra conseguiu se soltar e voava pelo galpão, chocando-se com objetos até encontrar a saída, não sem antes ser atingida em uma das asas por Schneider. A última foi inúmeras vezes golpeada até que Sieg finalmente conseguisse atingir um ponto vital. Duas das criaturas estavam mortas, mas duas Mariposas-Libadoras espreitavam Viena dos céus…

Estação Falkenstein IV – Eclosão

Estação Falkenstein

Capítulo IV – Eclosão

No qual nossos heróis tomam parte em variadas formas de violência, forjam alianças e veem a ameaça prussiana adquirir contornos insólitos.

– Dois dias haviam se passado desde a prisão de Der Fliegen, ao menos assim os jornais diziam, quando Christoph Fessler foi à procura de Niklas Schneider na alfaiataria da família. Em conversa privada, buscou instigar Schneider a fazer algo a respeito do homem encarcerado. Apelando ao seu senso de justiça, Fessler colocou sob a melhor ótica as ações noturnas do alfaiate, mas lembrou-lhe de que elas de nada valeriam se levassem um inocente à condenação. Antes de partir, recordou de seu envolvimento involuntário naquilo tudo, seja quando fez as peças com as quais Der Fliegen assinou suas ações, seja quando protegeu seu segredo das perguntas do jornalista Marcus Gehring.

– Em um sonho febril, Frances Aurelian via pontos multicoloridos voando como borboletas sob o céu de Viena. Seus mergulhos ocasionais produziam gritos de pavor seguidos de absolutos silêncios. Em um deles, uma daquelas coisas tomou-lhe Josephine das mãos… Ao despertar, o odor de óleo, tinta e cola produzido no sonho começava a se desfazer.  Estava confinado desde a captura à Cadeia Pública de Viena. Seus delírios não foram esclarecidos pelo médico responsável. Por sua condição, mesmo após dois dias, ainda não fora interrogado, permanecendo isolado em uma cela. Uma freira, Irmã Agnes, dedicada a tentar baixar-lhe a febre com panos úmidos, era a única companhia. Ela concordou em enviar para o Serviço de Inteligência da Baviera uma mensagem.

– O Serviço Secreto da Baviera adquirira até então uma compreensão muito superficial do material que Frances Aurelian removera da réplica da Fortaleza de Ferro. Tratava-se de uma substância alucinógena com efeitos debilitantes, mas expelida pelo organismo quando a exposição se encerrava. Contudo, havia uma forte suspeita de que não se tratava de algo natural. Por conta disso, fora solicitado a Wilhelm Sieg que fosse até Friedrich Zöllner. Talvez o seu Oneirômetro apontasse uma pista. Contudo, a palestra de Zöllner na Universidade de Viena também chegara a ouvidos prussianos. Balder Krumm estava no apartamento do cientista para uma visita que nada tinha de amistosa. Sieg já tinha a lâmina desembainhada da bengala quando com um chute escancarou a porta para quase pô-la abaixo. Krumm, vendo-se em desvantagem, cumpriu suas ordens como um cruel soldado e apunhalou Zöllner no coração. Mesmo aturdido por tamanha vilania, Sieg não teve dificuldade para sobrepujar o tenente prussiano. Não havia, contudo, ocasião para um interrogatório. Krumm apenas teve tempo de admitir que “estava ali porque Zöllner tinha razão” antes de ser estocado por Sieg. Levando o Oneirômetro consigo, e talvez trivializando um comportamento indigno do Serviço Secreto da Baviera, o espadachim deixou a cena da barbárie antes que as forças da lei atravessassem e porta.

– No submundo de Viena, onde Der Fliegen fazia desaparecer o produto de seus roubos espetaculares, dizia-se que Frances Aurelian era um homem de muitos rostos e identidades, um mercenário disposto a vender suas habilidades a qualquer um que se opusesse aos prussianos.

Ingolf Dümmler

– Frances Aurelian não saberia dizer como foi retirado pelo Serviço Secreto da Baviera da Cadeia Pública de Viena. Seus sonhos de febre ainda não haviam cessado. Via Josephine e a vida que há dez anos lutava para retomar, sempre dela sendo afastado, missão após missão. A pequena Hannah Verdoppeln estava ao lado da mulher amada, como uma lembrança quase desaparecida. Acordou pensando nas duas mulheres. Já na hospedaria onde foi preso, e após ser hostilizado pelo proprietário, teve uma breve e afetuosa conversa com Hannah. Dali, seria levado por um serviçal ao encontro de Ingolf Dümmler. O industrial acreditava que Aurelian seria Der Fliegen, e ameaçou devolvê-lo à cadeia caso não se colocasse a seu serviço. Não satisfeito, Dümmler ainda ameaçou Hannah e exigiu a devolução do segundo objeto roubado de sua casa, aparentemente muito mais valioso do que a adaga cravejada que fora plantada entre os pertences de Aurelian. Ao final da conversa repleta de meias-palavras, o espião concordou com o acordo desvantajoso. Contudo, como iria descobrir qual era o objeto roubado que Dümmler exigia que lhe fosse devolvido?

– Em uma carta entregue por Zsófia Lakatos à Embaixada da Prússia em Viena, Niklas Schneider relatava todas as suas descobertas recentes envolvendo militares prussianos, trabalhadores húngaros e proeminentes vienenses. Junto dela, ia a medalha roubada de Ingolf Dümmler, a ele dedicada pelo próprio Otto Von Bismarck.

– Wilhelm Sieg aguardava na sala e estar da residência de Felix Bayard para uma visita de cortesia. Pelo Serviço

Der Schcrutte

Secreto da Baviera, soubera que o industrial sofrera um forte colapso emocional fruto do contato prolongado com algum tipo de substância escamoteada na réplica da Fortaleza de Ferro. Seu papel ali era oferecer uma medicação que auxiliasse na recuperação do anfitrião e, com sorte, descobrir mais a respeito da sua relação com os prussianos. Antes disso, teve breve conversa com Leopold Billig. O mordomo estava em frangalhos por acreditar ser o culpado pela enfermidade do patrão. Afinal de contas, sua condição piorara definitivamente após Billig facultar acesso de um homem aos aposentos e segredos de Bayard. No dia seguinte a Fortaleza de Ferro desapareceria sem deixar vestígios. E o pior, Billig temia que o bandido pudesse voltar, pois alguém havia sido visto nos arredores da propriedade de campo recentemente… Tranquilizado por Sieg, o mordomo fez com que o patrão ingerisse a medicação. Bayard, terrivelmente debilitado, mas consciente, nada tinha a dizer que àquela altura que não fosse do conhecimento do Serviço Secreto da Baviera. Mas a perspectiva de ter sido envenenado pelos prussianos fez algo até então inédito ser dito ali: ele estava arrependido, e gostaria de em breve fazer algo a respeito.

– Os trabalhadores da Stahlwerk Bayard afastados pelos prussianos, húngaros em sua maioria, agora faziam de uma das áreas de carga e descarga das ferrovias seu local de trabalho e discussão política. Niklas Schneider, por conta da aproximação com Zsófia Lakatos, estava entre eles. Wilhelm Sieg e Frances Aurelian ali se encontravam sob um falso pretexto. Diziam-se interessados em alugar áreas para transporte e armazenamento. Em verdade, buscavam informações sobre o recente manejo de carga por parte de prussianos. Sabia-se, graças ao Serviço Secreto da Baviera, que o que viera de Berlim já fora movido dali para a Stahlwerk Bayard, mas algum vestígio poderia ter restado. A oportunidade surgiu quando a retórica de Zsófia atraiu atenção de guardas e um conflito começava a tomar forma. Os dois vagões visados puderam ser verificados. Um deles passara por descarga e limpeza. Nada mais restara ali. Mas o outro recebera apenas parte do tratamento. Ainda tinha o odor de jaula, pesadas correntes e estruturas em forma de X, com presilhas nas extremidades. Algum tipo de criatura fora transportada ali, quatro delas, possivelmente. E algo ficara para trás. Uma lagarta, do tamanho da mão de um homem adulto e cores impossíveis, se arrastava e ondulava sob a palha que escondia o piso do vagão.

– No lado de fora, um homem como que lutando contra monstruosidades que apenas ele podia ver iniciou de maneira inesperada uma briga que começava a ser controlada. Miklós Gál era seu nome e, entre seus pertences, Niklas Schneider encontrou uma ordem interna alertando todos os trabalhadores a se manterem longe dos vagões vindos de Berlim e boa quantidade de moedas de prata prussiana.

Estação Falkenstein III – Presságios Hostis

Estação Falkenstein

Capítulo III – Presságios Hostis

No qual o espírito de desconfiança impingido pelos prussianos toma nossos heróis, levando potenciais aliados à traição.

Zsófia Lakatos

– Niklas Schneider estava em uma de suas já rotineiras visitas a Patrik Zobor. Ele, a esposa Eszter e meia dúzia de filhos amontoavam-se ao redor do fogão para receber o benfeitor que, em segredo, culpava-se pelo acidente que já há alguns dias mantinha Zobor na cama, com a perna quebrada. Falava-se de trivialidades quando Zsófia Lakatos entrou carregando um homem desacordado. Após a guarda começar a rachar cabeças de trabalhadores conflagrados em frente à Stahlwerk Bayard, o casebre era o abrigo mais próximo, Zsófia explicou. Tirara o estranho do meio da confusão por conta das afirmações enigmáticas que fizera antes de ser derrubado, fruto de uma pancada. Queria saber quem era e a quem devia lealdade. Frances Aurelian teve dificuldade para encontrar respostas que satisfizessem a jovem, cuja determinação parecia ser apenas uma entre as qualidades que fizeram dela a principal liderança junto aos trabalhadores da siderúrgica. Ao abrir mão dos trejeitos que permitiam que passasse por um operário, bem como da barba e bigodes que lhe escondiam as feições, Aurelian buscava granjear alguma simpatia. Compartilhou também de seus receios em relação à presença de prussianos, mas não foi o bastante. Zsófia sentia que seu interlocutor ocultava as reais motivações. Aquele inesperado encontro, contudo, serviu para que Niklas Schneider o reconhecesse de seu primeiro encontro, na residência de Felix Bayard.

– Niklas Schneider recebeu Frances Aurelian em sua alfaiataria. Às coincidências que os aproximaram se somava uma nova complicação: a réplica da Fortaleza de Ferro estava ali, roubada da residência de Felix Bayard em circunstâncias que Schneider não tinha a intenção de esclarecer. Afirmava ter propósito de incriminar Marko Hang, responsável pela Stahlwerk Bayard e pela demissão de todos os trabalhadores húngaros da siderúrgica, Patrik Zobor entre eles. Ciente de que Hang respondia aos prussianos, Aurelian imaginava que a saída de cena do administrador poderia favorecer a luta contra seus inimigos. Chegaram a um acordo sobre plantar o produto do roubo.

– Friedrich Zöllner realizaria uma conferência na Real Imperial Universidade de Viena. Ao menos assim seria, se as refeições no trem vindo da Prússia não tivessem feito com que ganhasse centímetros na cintura a ponto de inutilizar todas as calças da sua bagagem. Felizmente, Niklas Schneider estava à disposição para remendar o problema. Já alinhado e com a plateia no lugar, Frances Aurelian aí incluído, Zöllner apresentou seus estudos sobre uma possível quarta dimensão, abrangendo os fenômenos mediúnicos. Ela conteria os espíritos e criaturas feéricas, que passariam a ser objeto de estudo da assim batizada Física Transcendental. Tinha consigo o Oneirômetro, capaz de detectar e identificar a presença do extraordinário a partir da captação de ondas sonoras e magnéticas tão sutis quanto peculiares. Durante uma breve sessão de perguntas e respostas, para exaltação de alguns, o dispositivo apresentou um inesperado surto de atividade. Zöllner desculpou-se, atribuindo o fato a um possível defeito decorrente do transporte pela ferrovia. Fato semelhante ocorrera no trajeto de Berlim a Viena, e ele ainda não havia sido capaz de identificar o problema. Certamente, não seriam trolls nos esgotos da universidade a causar aquilo…

– Entre os presentes estava Ingolf Dümmler, proeminente industrial armamentista prontamente identificado tanto por Frances Aurelian quanto por Niklas Schneider. O primeiro ouviu Dümmler ser mencionado pelos prussianos reunidos no Hotel Imperial. E o segundo roubou-lhe uma adaga cravejada e uma medalha, honraria entregue pelo próprio Otto Von Bismarck. Era pela segunda razão que ele estava ali. Numa conversa discreta com Marcus Gehring, o industrial revelou ter sido vítima de Der Fliegen, informação que ele mantivera em segredo até ali (ainda que apenas a adaga fosse mencionada). Sua proposta era simples: o jornalista contaria com seus recursos, desde que ele fosse informado com antecedência a respeito de qualquer novidade envolvendo o bandido misterioso. Jamais desconfiariam estarem sendo ouvidos pelo próprio…

– Em conversas nas quais preocupação genuína e maldade invejosa se misturavam, presentes trocavam informações imprecisas quanto ao estado de saúde de Felix Bayard, fragilizado por um colapso nervoso não esclarecido. Alguns atribuíam aquilo ao recente e embaraçoso confronto entre a guarda e operários diante da Stahlwerk Bayard.

Hannah Verdoppeln

– Frances Aurelian foi abordado diante da pensão onde residia por uma bela jovem que mal havia passado dos vinte anos. Hannah Verdoppeln trazia consigo uma carta escrita por Josephine, a mulher amada que há dez anos ele não via. No texto, entre palavras de saudades e afeto, relatava o temor de que suas correspondências pudessem ser interceptadas. Para contornar riscos, passaria a contar com a dama de companhia e querida amiga recém-chegada a Viena. Josephine prosseguia com escusas por confiar alguns segredos a Hannah, mas que ela era absolutamente fiel, e serviria como intermediaria para suas futuras correspondências. Josephine encerrava revelando como mal podia conter a expectativa para ver Aurelian outra vez após a última missão chegar ao fim.

– Os encontros de Frances Aurelian com representantes do Serviço Secreto da Baviera aconteciam em horários e locais que jamais se repetiam. Nesta ocasião, tratava-se de um teatro quase vazio. A mulher que lhe servia de contato percebeu seu nervosismo, mas nada mencionou. Antes disso, Aurelian tinha coletado a Fortaleza de Ferro nos fundos da oficina do artesão Christoph Fessler, onde fora deixada por Niklas Schneider. Seu propósito era incriminar Marko Hang, conforme haviam acordado, mas algo naquela peça provocava desconfiança e desconforto. Movido por isso, Aurelian procedeu ao desmonte da réplica, desafiado por partes móveis, encaixes intrincados e soldas persistentes. Lá dentro, encontrou uma pequena quantidade de um líquido armazenado junto de uma válvula destinada a aspergi-lo no ambiente. Horrorizado com a descoberta, uma possível contaminação poderia levá-lo à mesma condição enfermiça e desconhecida que se abatera sobre Felix Bayard, Aurelian destruiu e livrou-se de tudo. Quanto ao líquido, o embalaria com cuidado e entregaria ao contato do Serviço Secreto da Baviera. Apenas eles teriam condições de buscar compreensão a respeito da real natureza daquilo. Antes que partisse, recebeu uma orientação que soou como ordem irrevogável: cargas vindas de Berlim estariam sendo movimentadas pelos prussianos a partir da ferrovia.

– Niklas Schneider esperou três dias até que Frances Aurelian cumprisse a sua parte do acordo. Três dias haviam se passado desde que a Fortaleza de Ferro fora levada, e nada havia acontecido desde então. Deslealdade, concluiu Schneider. Quando retornou à pensão, Aurelian testemunhou as consequências. A Guarda de Viena estava lá. Do pequeno apartamento saíam homens carregando roupas as mais variadas, utensílios de maquiagem, barbas falsas, perucas… e uma adaga cravejada. Para Marcus Gehring ali presente, não restava dúvida. Finalmente fora capturado o vilão Der Fliegen.

Estação Falkenstein II – Algo sinistro vem por aí

Estação Falkenstein

Capítulo II – Algo sinistro vem por aí

No qual nossos heróis devassam hotéis, armazéns, mansões e fábricas e se veem tendo de lidar com prussianos, beberrões, mordomos e comunistas.

Balder Krumm

– O Hotel Imperial foi a residência sem sombra de modéstia escolhida por Heinrich Sauer para sua estada em Viena. Como hóspede permanente ao longo das últimas semanas, o coronel prussiano vinha recebendo compatriotas para reuniões regulares. Infiltrado no ambiente como um modesto camareiro, Frances Aurelian auscultava através da parede do quarto contíguo um pormenorizado relatório de prussianos buscando ganhar influência junto à aristocracia local. Os detalhes lhe escapavam, mas tudo indicava que Felix Bayard era o nome escolhido para o que era tratado como a fase seguinte de um plano por ser descoberto. Aurelian, após saltar com leveza entre sacadas graças ao auxílio da Vaportécnica bávara, ainda espiou nos papéis que restaram da reunião alguns nomes da nobreza local e, num mapa, um endereço junto ao Danúbio. Acabou enxotado pelo tenente Balder Krumm, surpreso com sua presença ali, mas não a ponto de reconhecê-lo de seu último encontro.

– Era madrugada, e mais uma vez Der Fliegen espreitava as nobres vizinhanças de Viena em busca de uma vítima rica que seria aliviada de suas posses. Observações meticulosas, avanços sorrateiros, escaladas graciosas, seu arsenal de sutilezas estava todo à disposição… Não fosse um maldito vaso atrás de uma cortina pesada, junto da janela que lhe serviu de entrada. Derrubada, a peça atraiu a atenção do único morador desperto. Invisível sob a cobertura de sombras, contudo, Der Fliegen estava seguro. Ao vento caberia responder por aquela perda modesta. De volta ao seu quarto de estudos aos resmungos, apenas na manhã seguinte Ingolf Dümmler daria conta dos reais prejuízos da noite: uma adaga cravejada e, mais importante, uma medalha em agradecimento por serviços prestados, estima entregue pelo próprio Otto Von Bismarck, da Prússia, menos de um ano antes. Em seu lugar, uma mosca de madeira assinava mais um roubo impossível perpetrado pelo infame Der Fliegen.

Leopold Billig

– Frances Aurelian não sabia como Leopold Billig tornara-se informante do Serviço Secreto Bávaro. Filho de alemães de Munique, ele explicaria hesitante durante uma insuspeita sessão de pães aos pombos às margens do Danúbio, temia as repercussões da aproximação do patrão, Felix Bayard, com os prussianos. Aquilo vinha ocorrendo nos últimos meses, inclusive com viagens a Berlim, e se acentuado em semanas mais recentes. Tudo se agravara desde um encontro na propriedade de Bayard nos arredores de Viena, ocasião ainda muito clara na memória de Aurelian, quando secretamente acompanhou Wilhelm Sieg. O mordomo reconhece que o convite a Sieg fora mero estratagema para amenizar a presença prussiana ali, assim como o convite a jornalistas. Billig acreditava que algo se dera naquela ocasião, pois desde então Bayard vinha se mostrado irritadiço, com sono agitado e passando quase todo o tempo entre sua oficina e o clube de cavalheiros que frequentava na capital. Nervoso, Billig despediu-se sem dar sinais de ter reconhecido Aurelian.

– O homem estava completamente bêbado, observou Der Fliegen sem um pingo de dúvida. Da claraboia, observava o andar trôpego e despropositado em meio ao grande armazém de um comerciante local. Der Fliegen estava ali porque o proprietário era um explorador dos produtores locais, a quem pouco pagava, e das famílias dos arredores, de quem muito cobrava. Massacrara concorrentes e agora multiplicava lucros. Nada disso passava pela cabeça do ladrão de ocasião lá embaixo, que se permitia no máximo colocar em dúvida entre a peça de pernil ou o punhado de toicinho. Decidido a evitar contato com o beberrão, Der Fliegen arremessou uma lata com intuito de distraí-lo. Atingiu, porém, a quina de uma estante. Assustou o homem, que se agarrou ao que tinha por perto e fez cair sobre si a própria estante, seu conteúdo e também o lampião que carregava. Um princípio de incêndio e uma perna quebrada eram resultado daquilo tudo. Der Fliegen, já reassumindo o papel de Niklas Schneider, socorreu o desesperado Patrik Zobor. Viria a descobrir, muito fruto de conversas motivadas pela culpa, que o húngaro era apenas um dos inúmeros que se viram em desespero após as demissões recentes na Stahlwerk Bayard.

– Graças a Leopold Billig, cada vez mais propenso à desobediência bem intencionada, foi facultado a Frances Aurelian, sob os trajes de um humilde jardineiro, acesso à oficina de trabalho de Felix Bayard. Suas anotações e projetos diversos era todos voltados à busca do que chamava “A Centelha”, a capacidade de atribuir inteligência a um autômato. Os reiterados fracassos o consumiam, a ponto de considerar o auxílio prussiano. Uma caderneta apresentada por Billig revelava que o estreitamento de relações já vinha de algum tempo. Anotações registravam viagens para Berlim ao longo do último semestre e contatos com representante diretos do próprio Otto Von Bismarck. Notas adicionais relatavam a dificuldade de Bayard para atender algumas das exigências, como a possibilidade de atuação sem interferência ou supervisão em instalações suas. Ele teria oferecido locais distantes da capital, mais discretos, mas a presença em Viena foi tida como essencial por Heinrich Sauer. Nas anotações das últimas semanas havia uma brusca mudança de tom no texto, com Bayard mostrando-se progressivamente mais inclinado em favor dos prussianos, inclusive cedendo espaço na Stahlwerk Bayard. Dizia saber que outros com tantos recursos quanto ele estavam sendo considerados, mas que apenas ele teria fibra moral para resistir ao pior daquele acordo. Contudo, havia também algo de ingênuo naquelas páginas, uma esperança de que as tratativas resultassem no contorno de fracassos e, finalmente, na realização de feitos memoráveis. Bayard concluía relatando um estranho e persistente sonho com cores que não existiam…

– A réplica da Fortaleza de Ferro, locomotiva que levava terror aos inimigos da Prússia, pelo menos àqueles próximos o bastante de trilhos de trem, estava bem diante de Der Fliegen. Havia na peça algo de insidioso, cujos odores de óleo e cola permaneciam presentes desde o momento em que fora desembalada por Balder Krumm e entregue como presente a Felix Bayard, e também de irresistível. Não à toa o ladrão voltou à propriedade na qual antes estivera como o alfaiate Niklas Schneider, seu disfarce diurno. Contudo, aquele não seria um mero golpe de Der Fliegen. Havia ali uma lição a ser dada. Faria com que Felix Bayard descobrisse a Fortaleza de Ferro em posse de Marko Hang. Isso o ensinaria sobre as consequências de demitir da Stahlwerk Bayard todos os trabalhadores de origem húngara em favor de prussianos.

Stahlwerk Bayard

– Nos arredores da Stahlwerk Bayard, comunistas buscavam mobilizar os trabalhadores demitidos. A distribuição de panfletos e a organização de rodas de conversa se davam abertamente. Era distração o bastante para que Frances Aurelian entrasse na fábrica como um de seus operários. O disfarce, contudo, não perdurou. Ao buscar localizar a área reservada ao projeto prussiano, acabou denunciando sua presença. Uma fuga foi empreendida, muito com o auxílio da confusão estabelecida na porta da fábrica onde, a esta altura, responsáveis pela segurança e trabalhadores demitidos trocavam as palavras de ordem por sopapos. Com a intervenção da força da lei e ordem, a situação agravou-se, sobrando para Aurelian um golpe que ele sequer viu chegar.

– O interesse de Marcus Gehring por Der Fliegen não era passageiro. Sua pista: uma das moscas de madeira que serviam como assinatura do criminoso. Tratava-se de um fino trabalho artesanal, do qual poucos seriam capazes em Viena. Um desses seria o já ancião Christoph Fessler. Enquanto Gehring lá estava, repleto de perguntas e palpites, Niklas Schneider tudo escutava. Teria o velho Fessler conseguido iludir o jornalista?

Estação Falkenstein I – Um Convescote Prussiano

Estação Falkenstein

Capítulo I – Um Convescote Prussiano

No qual nossos heróis dirigem-se à propriedade de Felix Bayard, riquíssimo industrial local, e por muito pouco Baviera e Prússia não retomam a guerra.

– Final de fevereiro de 1870, arredores de Viena.

Heinrich Sauer

– Wilhelm Sieg viajava como representante do Reino da Baviera e da empresa da família, famosa por produzir autômatos. Em sua companhia estavam o Coronel Heinrich Sauer e Tenente Balder Krumm, adidos da Prússia. Oficialmente, buscariam seduzir o empresário para as tecnologias de seus países. Extraoficialmente, Sieg atuava em nome do Serviço Secreto da Baviera para desvendar o intuito dos prussianos.

– Em outra carruagem ia um repórter do Jornal de Viena chamado Marcus Gehring. Era acompanhado pelo jornalista Hans Landa, do Der Schcrutte, e Niklas Schneider, um alfaiate chamado com urgência a pedido de Felix Bayard. Mal sabia Gehring que seu colega de profissão era na verdade Frances Aurelian, o espião bávaro. E ninguém ali desconfiava que o jovem tímido carregando linhas a agulhas era o infame Der Fliegen, ladrão e sensação de Viena.

– Anfitrião caloroso, Felix Bayard fazia o possível para contornar o ríspido temperamento dos prussianos. Após as apresentações, conduziu um passeio pela propriedade de campo, tão extensa quanto se esperaria de um dos homens mais ricos do Império Austro-Húngaro. Às margens de um lago e com um bosque particular, o casarão abrigava obras de arte e também peças dedicadas à Vaportécnica mais vanguardista, entre elas reproduções finamente detalhadas doNautilus, do Capitão Nemo, o horror dos sete mares; do Albatroz, de Robur, uma fortaleza aérea capaz de chantagear nações inteiras; do Gigante de Vapor, de Yoshiyuki Tomino, terror da Baía de Tóquio, contido apenas com mágika xintoísta; do Soldado de Engrenagens, do Conde Iglio Cagliostro, talvez o passo seguinte da guerra; e do Canhão Verne, de Julio Verne, dedicado a proteger a França e capaz de atingir até a Lua.

Nautilus

– Nada daquilo parecia impressionar Heinrich Sauer e Balder Krumm, que comportavam-se como se a Prússia tivesse de fato vencido a guerra na qual saiu derrotada pelo Reino da Baviera e sua Força Aérea Magnética. Quanto a Bayard, entendia que aqueles eram exemplares que deveriam ser superados, pois muitas das ideias produzidas para a guerra poderiam ser dirigidas ao bem comum se movidas por uma criatividade pacífica e ordeira.

– Entusiasta do esporte, Felix Bayard programara para aquela tarde uma partida amistosa de Eisstockschiessen. Contudo, a prática sobre o gelo pedia roupas e sapatos especiais. Para garantir isso aos convidados fora trazido Niklas Schneider. Enquanto tomava medidas dos convidados e realizava ajustes, Wilhelm Sieg e Heinrich Sauer eram entrevistados por Marcus Gehring e Hans Landa. Talvez sentindo-se pressionado pelas questões, quem sabe irritado pela demora, Sauer repreendeu Schneider vigorosamente, arrematando as ofensas com um tapa no rosto. Contudo, o alfaiate apresentou reflexos inesperados, esquivando-se da agressão e quase provocando a queda do orgulhoso prussiano. Um comentário jocoso de Sieg foi o que bastou para exacerbar ainda mais os ânimos.

– Do lado de fora do galpão onde eram realizados os preparativos para o Eisstockschiessen estava uma carroça repleta de peças descartadas. Foi o que observou Hans Landa, vulgo Frances Aurelian. As marcas das rodas na grama pareciam levar em direção ao bosque.

– Ao final do almoço, quando mais algumas farpas foram trocadas, os representantes da Prússia entregam um presente ao anfitrião. Uma reprodução cuidadosa da Fortaleza de Ferro, trem prussiano construído para abrir caminho sobre os trilhos da Nova Europa na guerra que se encerrara quatro anos antes. Peça artesanal de enorme refino, exalava ainda o que parecia ser o odor de óleo, tinta ou cola.

Felix Bayard

– Determinado a descobrir o que havia no bosque, Hans Landa, também conhecido como Frances Aurelian, teve ajuda do cavalariço Hans para selar uma montaria. O jovem estava evidentemente sob dores excruciantes, talvez até ferido, mas recusou-se a dar detalhes ao convidado. Além da mata, junto de uma encosta, Aurelian encontrou uma infinidade de porcas, parafusos, placas metálicas e todo tipo de peça que se esperaria ver em uma oficina avançada. Nos poucos dispositivos inteiros descartados ali ao longo de anos parecia haver um arranjo ilógico ou até mesmo irracional de itens.

– Não se sabe o que foi da conversa entre Heinrich Sauer e Felix Bayard, mas Wilhelm Sieg poderia dizer que saiu-se bem. Se não o fez pelo conhecimento técnico, ele jamais se interessou verdadeiramente pelas empresas da família, ao menos foi sincero e conseguiu apresentar uma ideia inesperada a Bayard: por que ele precisaria de prussianos ou bávaros para introduzir a Vaportécnica em suas indústrias quando podia buscar o auxílio de Mestres Anões?

– Originalmente, a disputa de Eisstockschiessen seria entre Prússia, representada por Heinrich Sauer e Balder Krumm, e Baviera, defendida por Wilhelm Sieg e Hans Landa (secretamente, Frances Aurelian). Contudo, este último foi admoestado pelo mordomo Leopold Billig após insistência no questionamento do cavalariço Hans, e uma desculpa foi apresentada para sua defecção. Em seu lugar, assumiu o alfaiate Niklas Schneider. Esse acaso teria repercussões grandiosas…

– Popular na Baviera e na Áustria no final do século XIX, o Eisstockschiessen é mais comumente jogado por equipes de quatro jogadores. A pista tem 28 metros de comprimento e 3 m de largura. O objetivo é chegar o mais próximo possível de um Runddaube (“anel de borracha”). O material pesa 5 kg e tem cerca de 35 cm de altura e 35 cm de diâmetro. Os pontos são ganhos por estar mais próximo do Runddaube após todos os jogadores terem deslizado seus discos.

– Ainda que desinteressado daquilo tudo, Marcus Gehring tinha uma questão a dividir com seu colega jornalista, Hans Landa (alter ego de Frances Aurelian): qual era o significado da presença de Wilhelm Sieg, convidado apenas quatro dias antes do encontro, quando os prussianos eram sabedores do evento com antecedência o bastante para presentear o anfitrião com uma peça única e artesanal?

– Tudo ia muito bem na disputa de Eisstockschiessen até a participação de Niklas Schneider. Equilibrada, a partida parecia se encaminhar a um diplomático empate quando o alfaiate arremessou seu disco sobre a cabeça, destruindo no processo qualquer vestígio da presença prussiana na pista de gelo. Felix Bayard cumprimentou com palmas a ousadia. Acusações foram feitas, palavras ríspidas foram trocadas. Em dado momento, o Tenente Krumm dirigiu-se a Wilhelm Sieg ao mesmo tempo em que buscava por uma espada que felizmente não se encontrava em sua bainha. Uma rivalidade se estabelecia…

– Heinrich Sauer e Balder Krumm partiram primeiro. Todos os demais, em seguida. Apenas mais tarde conheceríamos os produtos deste dia tão atípico.

Estação Falkenstein

Estação Falkenstein: Ficha da História

Tom:
Espionagem, Capa e Espada, Bélico, Grandiloquente, Sociedade.

Cenário:
A Batalha de Königssieg, ocorrida em 1866 – quando o Reino da Baviera liderou um compacto de aliados feéricos, tecnologia anã e países dispostos a enfrentar Otto Von Bismarck e seu desejo por um continente sob as botas prussianas – ficou para trás. O Chanceler de Ferro foi derrotado, mas a pretensão de esmagar a Nova Europa não foi debelada. Criaturas feéricas dispostas a quebrar os velhos acordos que as impedem de avançar sobre a humanidade o instigam. O conflito armado, contudo, deu lugar a disputas diplomáticas movendo interesses sombrios.

Em meio a tudo isso está o outrora orgulhoso Império Austro-Húngaro, aliado bávaro de primeira hora que se descobriu frágil e envelhecido quando a guerra estourou. O papel secundário feriu egos e colocou em xeque a aliança, sacramentada pelo casamento entre o Imperador Franz Joseph I e a Imperatriz Elizabeth da Baviera, prima do Rei Ludwig II.

As turbulências dos últimos quatro anos abriram brecha para a influência perniciosa da Prússia junto a nobres descontentes exortados à traição. A intrincada trama social do império, que abrange o Reino da Hungria e inúmeros grupos populacionais e étnicos, está sendo forçada ao rompimento por uma ameaça que combina aspectos militares, mágikos e feéricos. Na Viena de 1870, caberá aos personagens combater o mal sempre que puser à vista sua face horrenda.

Magia:
A magia se manifesta de muitas formas no cenário. A mais mundana delas é a Vaportécnica, uma série de princípios complexos passíveis de redução a uma só sentença: qualquer ideia que envolva uma caldeira é uma boa ideia. A Vaportécnica não chega a ser uma influência marcante na vida do cidadão médio, mas está presente nos campos de batalha e nas mãos daqueles que dispõem de vastos recursos. Os Anões são seus mestres naturais. Além disso, existe a Mágika. Complexa, ritualística e potencialmente perigosa, ela permite que os humanos realizem feitos sem precedentes. A Antiga e Mística Ordem dos Rosacruz, os Maçons Livres, a Aurora Dourada, os Templários, entre outras, buscam há séculos compreender e dominar os princípios Mágikos. Por fim, existem as próprias criaturas feéricas, seres de pura Mágika, pouco afeitos ao contato com humanos. Entre eles, o mais perigoso é O Adversário.

Adversários:
– As Mariposas-Libadoras, criaturas feéricas trazidas a Viena pelos prussianos.
– Heinrich Sauer, representante do implacável desejo prussiano por conquistar a Nova Europa.
– Ingolf Dümmler, líder da nobreza vienense buscando lucrar na disputa entre Prússia e Baviera.
– Werner Naumann, membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e responsável pela Operação Propaganda.