The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – O Patrono, o Salteador e a Incerteza*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 23/11/2015

Capítulo 3 – No qual as relações com o submundo se estreitam, uma ameaça é parcialmente neutralizada e questões permanecem por responder.

Deymish esfregou nas mãos um punhado de sal retirado de Sere Marica e o arremessou por sobre os ombros. Um pequeno ritual de boa sorte, ao menos para quem cria na Senhora Salobra. Ele reconheceu, acanhado, que era uma bobagem, mas desde o falecimento da esposa se mantinha próximo daquilo que fora importante para ela. O culto, cuja origem remetia aos Pântanos Salpicados, pregava que toda vida advinha do sal. Durante a viagem de retorno a Nebalich, em diversas oportunidades Kronus conversou com o navegador, que se revelou um homem simples e prático, mais confortável sobre o casco de uma embarcação do que entre paredes, profundo conhecedor dos canais de Seshar e do grande mar salgado que era o Sere Marica.

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Em Nebalich havia muito a ser feito. Tvesh Szat esperava receber um relatório a respeito da incursão realizada graças ao seu auxílio, bem como toda a Numenera encontrada no local. Além disso, Obi, Kronus e Strahl perceberam que viveriam melhor se tomassem por empréstimo uma pequena propriedade na cidade, um galpão em local discreto junto à costa, transformado em residência e espaço de pesquisa para os três.

Aproveitando-se dos companheiros atarefados, Kronus desgarrou-se para levar adiante um pequeno projeto pessoal. Desde o retorno de Pedra Vermelha, quando o pagamento de Corl Vhem chegou na forma de um carregamento de pedregulhos que precisaram ser negociados, ele vinha se aproximando das pessoas do porto. Buscava, de algum modo ainda difuso, estabelecer uma rede de contatos. Seu objetivo era ganhar influência em uma das áreas mais importantes da capital de Seshar: apenas através de Nebalich se podia acessar os canais e alcançar o interior do território sem a necessidade de enfrentar o deserto.

Foi nessa circunstância que Kronus percebeu não ser o único empreendedor naquele porto. Um homem de aparência rude, feito um velho marinheiro, distribuía panfletos aos mais miseráveis entre os miseráveis que se encontravam por ali. Era um procedimento duvidoso, dado que a fluência na leitura era uma habilidade incomum. Contudo, o papel fino, escrito numa bela tinta e com letra garbosa impressionava os desatentos ao seu conteúdo:

Quer aventura? Deseja experimentar as delícias de viagens e a alegria da descoberta? Interessado em abrir o seu caminho no mundo? Seja qual for o desejo em seu coração, qualquer que seja o desejo que o mantém acordado à noite, você pode realizá-lo em Queslin. Nós estamos buscando aqueles dispostos a trabalhar duro para aumentar a prosperidade de Queslin e a sua própria! Todos que se comprometerem voluntariamente com nosso contrato de trabalho-para-a-vida de cinco anos serão recompensados. Não perca tempo. Não pergunte ao redor. Apenas venha a Queslin, onde o sal corre livre.

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Numenera Ex Machina – A Escuridão Além das Nuvens*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 10/11/2015

Capítulo 2 – No qual um mapa leva os personagens a um local de veneração não abandonado de todo.

O mapa encontrado na torre da Ordem da Verdade em Pedra Vermelha apontava um lugar além das nuvens. Mais precisamente, o pergaminho sustentava a existência de uma estrutura à noroeste de Nebalich, em um dos pontos mais extremos dos canais artificiais que cortavam Seshar, planando quilômetros acima das águas.

Tendo em vista todo o tipo de coisa assombrosa com o qual já haviam tido contato Kronus, Strahl e Obi, não hesitaram em levar ao seu patrono a informação. A estranheza, nestes dias bilhões de anos no futuro, não era alvo de desconfiança; era apenas algo a ser desencavado, avaliado a colocado no mundo, junto com inúmeras outras.

Em Nebalich, Tvesh Szat era tido por um grande mercador, conduzindo inúmeros interesses legítimos. Era também um contrabandista, usufruindo da posição geográfica privilegiada para realizar o trânsito de Numenera entre os Noves Reinos, as Terras Além e o Sul Gélido. O mapa de anotações rudimentares trazido por Kronus, Strahl e Obi, considerando sua origem e suas promessas, representava o tipo de investimento que ele costumava fazer.

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Não demora até qualquer habitante do super-continente ser capaz de entender um pouco a respeito da Numenera. A primeira lição costuma ter relação com a sua volatilidade. Às vezes, acontece assim: o pequeno Jãn, auxiliar do pai nas lidas do campo, encontra, entre uma enxadada e outra, uma estranha caixinha com partes móveis e luzes faiscantes enterrada no solo. Jãn não sabe o que é, mas acha aquilo bonito e resolve guardá-la com todas as outras, que antes atrapalhavam a plantação e agora ocupam um baú nos fundos da casa. Em determinado momento, por algum motivo e sem aviso prévio, algo acontece, e a casa inteira torne-se um campo de ressonância para energias cósmicas. As paredes passam a reclamar dos pregos que lhes são impostos e Jãn e toda sua família acordam com a pele esverdeada e longas caudas escamosas. E assim, todos aprendem que a Numenera, quando reunida em grande quantidade, causa efeitos desastrosos.

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Tvesh Szat

Tvesh Szat, um generoso patrono com interesses por esclarecer

Kronus, Strahl e Obi tinham diante de si três itens semelhantes a mochilas, cujas alças eram adições posteriores ao que pareciam ser propulsores metálicos. Controlados pelo movimento do corpo, cada um dos dispositivos seria capaz de alçar uma pessoa aos céus e propeli-la em grande velocidade por cerca de quatro horas. Eram o incentivo de Tvesh Szat ao ímpeto exploratório de seus protegidos. Curiosamente, os itens eram perfeitamente idênticos, inclusive no padrão supostamente aleatório da ferrugem e da tinta descascada em alguns pontos.

Pelos cálculos dos três, a partir do que apontaram testes e o mapa sugeria, os propulsores, em velocidade de cruzeiro, demorariam uma hora para levá-los ao seu objetivo. Restariam outras três para a exploração e a descida segura. Sem temer o excesso de precaução, Kronus, Strahl e Obi optaram pela redundância, ao menos no que dizia respeito à queda controlada. Do mercado central de Nebalich, onde pessoas anunciavam aos gritos a Numenera que desejavam vender ou aquela que procuravam, saíram com três objetos: uma luva que permitia o controle de peso por repulsão, um cinto de anulação gravitacional e um curioso artefato capaz de retardar quedas por meio de um movimento rotacional semelhante ao das folhas caindo de uma árvore. Mais tarde, todos se mostrariam essenciais à sobrevivência do grupo.

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Numenera Ex Machina – O Dispositivo do Pesadelo*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 19/10/2015

Capítulo 1 – No qual o sono de Pedra Vermelha é perturbado por uma aterrorizante transmissão de origem misteriosa.

Há um dia viajavam pelos canais artificiais de Seshar. Conduzidos por Deymish, um homem que passara toda a vida singrando a região, Obi, Kronus e Strahl esperavam chegar logo a Pedra Vermelha. Levavam consigo três grandes caixas solicitadas pelos Pais Pretéritos da pequena vila. Conheciam-se há algum tempo, mas pela primeira vez realizariam um trabalho para o mesmo patrono, a respeito do qual pouco sabiam. Certo é que a generosa quantidade de sucatas por receber justificara a mobilização dos três conhecedores da Numenera para uma tarefa tão pouco singular.

Travessia dos Canais de Seshar

Travessia dos Canais de Seshar

Deymish mencionara rapidamente as peculiaridades dos canais, escavados na rocha em ângulos retos e abertos na medida constante de quinze metros de largura. Havia ainda as indescritíveis esculturas em diversos pontos do trajeto, mas delas pouco sabia e os passageiros, silenciosos na maior parte do tempo, nada perguntaram. Deymish os considerou tipos estranhos e um pouco enervantes, sendo tomado por certo alívio quando finalmente deixaram a embarcação para realizar a entrega aos membros da Ordem da Verdade.

Erguida a partir de uma espécie de rampa que encaminhava aos canais, Pedra Vermelha recebera o nome por conta dos grandes blocos compactos retirados da pedreira ao norte, às margens do deserto. De cor viva e entrecortados por linhas negras angulosas, eram vendidos para toda Seshar e garantiam o sustento da vila. No porto vazio uma grande embarcação aguardava ser carregada.

O trato com os moradores revelou-se difícil e frustrante. Seu raciocínio era lento e a fala se arrastava. Perdiam-se em meio às frases. Há dias não podiam dormir mais do que poucos minutos, sendo sem exceção assaltados por pesadelos após caírem no sono. Vencidos pela exaustão, despertavam aos gritos. Obi, Kronus e Strahl estavam decididos a fazer sua entrega e deixar o local o mais rapidamente possível. (more…)

Numenera – O Futuro a partir de Qi

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 13/07/2015

Numenera: The Wonder Weird
Capítulo 11 – O Futuro a partir de Qi

O Tonel avançava ao sabor da consternação. A capitã Akelle, a marinheira Mia e Stolinson, responsável pela carga, estavam mortos. Sob o efeito daquela pintura insidiosa, mutilaram-se com lâminas e as mãos nuas. Jaziam no convés, sob sacos grosseiros que antes levavam grãos. O Glifo já era a lembrança de ninguém além de Mark, Zippack, Czyran e Dedalus. De algum modo, por conta das imagens que os tomou de assalto, sabiam todos ser a pintura que Akelle trouxera ao Tonel a responsável por aquilo. A tragédia apenas ocorrera a partir da intervenção dos quatro. Mas não estivessem ali, o horror talvez tivesse vitimado a todos. Essa tripulação dividida cabia a London manter estável o bastante para aportar em Qi.

Entre os pertences pessoais de Akelle pouco havia para descobrir a respeito de Propaganda, assim era chamada a pintura. As anotações da capitã limitavam-se a mencionar a necessidade de se reportar à Guilda dos Mercadores de Qi, um procedimento incomum sendo o cog parte da Marinha Mercante de Ghan.

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Novansko subiu ao Tonel no final da tarde. Avaliou a carga e os mortos. Ambos foram desembarcados, mas a tripulação permaneceria retida até a manhã seguinte. London, a quem caberia as justificativas, partiu com ele. As explicações foram acordadas entre toda a tripulação. Mia e Stolinson teriam se amotinado contra a capitã por conta do baixo pagamento pelo transporte de grãos. Acabaram os três feridos além dos recursos que o Tonel levava. Nada seria dito a respeito de Propaganda, mas dela muito se falara. Havia aqueles que acreditavam que a peça deveria ser destruída, colocada sob a responsabilidade da Marinha Mercante de Ghan ou entregue a quem contratou seu transporte. A última opção acabou escolhida. Era a única da três maneiras que daria acesso a recursos para pagar pelos serviços da tripulação e por seu silêncio.

Do alto do Tonel, Dedalus fez com que um bilhete fosse entregue por um moleque à Guilda dos Mercadores de Qi. Foi ele também o ultimo a falar com Glifo, ainda que dessa conversa não fosse lembrar. Devolveu-lhe o Visor de Memórias e recomendou que se dirigisse ao encontro dos Pais Pretéritos.

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Numenera – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Dois)

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 18/06/2015

Numenera: The Wonder Weird

Capítulo 10 – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Dois)

Dedalus ajustava o dispositivo à cabeça com alguma dificuldade. Ele era ligeiramente maior do que o adequado a um rosto humano. Já os eletrodos, um arbusto de fios eletrificados partindo do alto do visor, pareciam uma adição posterior à peça. Seu posicionamento adequado contava com a ajuda de Czyran, o segundo mais capaz na compreensão da Numenera. Mark e Zippack apenas observavam enquanto os arranjos para o teste eram feitos, todos apertados no pequeno cômodo que servia ao nobre.

O dispositivo tinha função semelhante à do registrador sonoro trazido a bordo do Tonel pelo imediato do capitão Pierce, ainda que mais complexo. Suas lentes eram capazes de registrar, por alguns minutos, tudo aquilo para que seu usuário olhasse, com imagens e sons podendo ser consultados posteriormente. Utilizado com os eletrodos corretamente posicionados, incutia memórias vívidas dos fatos gravados, permitindo que conversas fossem reproduzidas palavra a palavra e imagens recordadas em cada detalhe. Um recurso extraordinário, mas de efeito temporário.

A discussão que se seguiu tratou da maneria como o dispositivo foi encontrado, seu propósito e verdadeiro proprietário. Tomaria a madrugada inteira, não fosse o grito de surpresa e admiração que a interrompeu.

– Rhog!

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Os cerca de oitenta pés do Tonel significavam pouco mais de vinte metros. E o rhog, nadando ao seu lado, era tão grande quanto. Toda a tripulação estava à murada, observando a criatura que agitava enormes quantidades de água sem que nenhum ruído fosse ouvido. O prodígio era possível graças às vinhas que cresciam no dorso do rhog, um material raro e valioso. Foi Amanethes, marinheira a quem Mark vinha dando aulas de esgrima, a primeira a manifestar o desejo de descer. Com a ajuda de seu instrutor, ela arranjava cordas e iniciava os preparativos. A perspectiva de ganhos com as vinhas lhe davam a coragem necessária para correr tamanho risco.

Zippack e Dedalus, contudo, tinham planos próprios.

O primeiro carregava consigo há semanas um autômato de combate de porte médio. Pouco menor do que uma mulher adulta, tinha nos lugar de mãos serras circulares afiadíssimas. Em combinação com uma manopla manipuladora de metais, esta saída da sacola de Dedalus, seria possível alcançar, remover e trazer a bordo um ramo das preciosas vinhas. E assim foi feito. Amanethes, de quem partira a ideia de descer até o dorso do rhog, foi impedida pela capitã Akelle. O animal era dócil, mas poderia reagir a um novo ferimento, mesmo que superficial. Descer significaria colocar em risco o Tonel, a viagem e toda a tripulação.

– Não haveria riscos se eu recebe por mais do que o transporte de grãos.

Silêncio no convés. Pela primeira vez, em alto e bom som, a autoridade da capitã era afrontada e os receios financeiros da tripulação revelados. Akelle repetiu sua ordem, restabelecendo a autoridade, mas foi a ação de Dedalus que encerrou a questão, ao cortar as cordas que sustentariam a marinheira.

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Numenera – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Um)

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 31/05/2015

Numenera: The Wonder Weird
Capítulo 9 – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Um)

Um mês passou-se desde o evento cujo epicentro foi a propriedade de Lemsel Eczoz. O choque inicial e o desabamento de construções fizeram inúmeras vítimas, a maior parte delas em Terras Férteis. Demorou duas semanas até que a Ordem da Verdade lançasse luz sobre a tragédia.

Um grupo de mercenários liderados por um gaiano estava a caminho de Glavis. Deduziu-se que planejava detonar o dispositivo na cidade para minar os esforços de guerra que partem de Porto Frohm a caminho de Qi e, dali, para o norte, além do Campo sob as Nuvens de Cristal. O líder dos Pais Pretéritos em Glavis, Adhamastor Nerus, apresentou as conclusões ao próprio Rei Asour-Mantir, que em uma rara manifestação direta aos seus súditos, empenhou recursos e esforços de Ancuan em favor da causa da Ordem da Verdade.

Zippack Ranzz frequentou Porto Forhm nas últimas semanas e observou a partida de embarcações levando membros da Legião Azul para Qi. Ali, entre bebedeiras e apresentações performáticas, vendeu partes aproveitáveis do Fus-K, danificado além de qualquer possibilidade de reparo pelo choque de energia emitido pela esfera trazida de Ishlav. Nas ruas, falava-se dos gaianos como uma raça de nortistas desprezíveis, mesmo que até recentemente sua existência fosse ignorada. A população estava aliviada pelo ataque mal sucedido ter feito menos vítimas do que poderia, e a presença de homens de um Senhor de Guerra chamado Serec reforçava a sensação geral de segurança.

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Numenera – De: Ishlav. Para: Glavis.

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 17/05/2015

Numenera – The Wonder Weird
Capítulo 8 – De: Ishlav. Para: Glavis.

Amanhecia quando o Fus-K chegou à costa de Ancuan levando Zippack Ranzz, Czyran Eczoz , Mark e Stephen Dedalus. Viajava energizado pelo reator elétrico adquirido em Ishlav, e se comportava perfeitamente. De fato, o dispositivo produzia mais energia até do que era necessário para manutenção do veículo no ar e avançando, e planos de melhorias utilizando este excesso talvez fossem cogitados pela tripulação. Contudo, era a esfera retirada da Ordem da Verdade em Ishlav que de fato importava naquele momento. O grupo concordara que levá-la até Glavis seria um risco. Desativada e deixada em uma encosta rochosa, numa região escarpada banhada pela extensa Baía Kelen, permaneceria em segurança e segredo.

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Os 20 mil habitantes de Glavis vivem no que se parece com três cidades distintas. Porto Frohm, a menor e mais movimentada delas, compreende a região portuária. Há a Colina de Nurel, lar da nobreza e dos abastados, e Terras Férteis, onde se organiza toda a produção. A capital de Ancuan é comandada pelo Rei Asour-Mantir, que governa de um isolamento autoimposto em sua fortaleza transparente, 35 km a noroeste de Glavis, cercado por bajuladores e pela Legião Azul, soldados famosos pela habilidade como arqueiros. O povo de Glavis venera Relia e Bianes, deuses irmãos. Altares discretos são depósito de oferendas muitas vezes consumidas bem diante dos olhos dos fiéis. Seus templos e estátuas foram erigidos com uma espécie de pedra-sabão, muito resistente e abundante em todo o litoral.

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O Conselho Numer, assim Czyran explica aos demais, cumpre em Ancuan um papel semelhante e paralelo ao da Ordem da Verdade. Seu pai já fizera parte do grupo, mas a idade, somada ao desinteresse pelas aplicações bélicas e energéticas da Numenera em voga, o afastaram. Mantido por membros da nobreza local como um clube de cavalheiros interessados na promoção do conhecimento, é no pátio da sede do Conselho Numer que o Fus-K pousou, no início da noite.

Àquela altura, notícias de Ishlav já haviam chegado. A Ordem da Verdade, enfraquecida há meses, fora atacada por uma turba durante o surto de uma doença desconhecida. Um culto local, chamado de Monges de Mitos, seria o responsável. A situação fora controlada pela guarda local, com Galvin e os demais Pais Pretéritos agora sob a proteção direta de Choen Mohsen, líder do Conselho de Nobres. A mensagem, redigida por Galvin, em conjunto com Choen Mohsen, não mencionava o dispositivo que desencadeou a doença e nem seu destino.

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Numenera – (Segunda Metade de) Um Conto de Duas Verdades

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 27/04/2015

Numenera – The Wonder Weird
Capítulo 7 – (Segunda Metade de) Um Conto de Duas Verdades

A pequena sala comunal da Ordem da Verdade demonstrava naquela manhã, com sua refeição simples, cadeiras vagas e poeira acumulada onde os olhos não viam primeiro, a situação atual dos Pais Pretéritos em Ishlav. Apenas os mais jovens estavam ali, circunspectos, e ninguém ousava perguntar a respeito dos corpos sobre as mesas do laboratório. Já eram dois, e Galvin passara a madrugada examinando-os. Antes que fossem até ele, Zippack, Dedalus e Mark rumaram ao mercado central da cidade. O último desejava uma nova espada, enquanto os outros dois tinham ideias a respeito de como tornar o Fus-K uma aeronave mais eficiente.

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Czyran Eczos tinham mensagens a enviar a sua família e patrocinadores em Glavis. Ela levaria ao menos cinco dias até que chegasse à capital de Ancuan, muito mais tempo do que durariam os poucos shins que ainda levava consigo. A Ordem da Verdade era o único e melhor meio para empregar seu conhecimento a respeito da Numenera e, ao mesmo tempo, ganhar acesso aos dados sobre o evento que ocorreu na cidade vinte anos atrás.

Recebido por Galvin, Czyran foi confrontado com a realidade já há algum tempo estabelecida ali: não havia recursos. Contudo, ele facultaria acesso ao laboratório principal e à biblioteca. Gostaria apenas que o jovem nobre usasse de sua influência para tranquilizar o companheiro de Asther Vanita. Ela, também uma nobre, era a segunda vítima da estranha doença, e a divulgação das circunstâncias da morte causaria pânico entre a população.

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Numenera – (Metade de) Um Conto de Duas Verdades

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 13/04/2015

Numenera – The Wonder Weird

Capítulo 6 – (Metade de) Um Conto de Duas Verdades

Ishlav é uma cidade dividida pela própria história, com a linha traçada vinte anos atrás, quando um evento ainda carente de explicações cortou a cidade ao meio. O pouco que se sabe diz respeito a um artefato extraordinário levado por exploradores à Ordem da Verdade. Na ânsia por compreender aquilo, os Pais Pretéritos ativaram o dispositivo e tudo o que era inanimado a meia légua de distância foi partido em dois. Construções desabaram, vidas foram perdidas, tragédia e incerteza tomou Ishlav. No penoso processo de reconstrução que se seguiu, contudo, os cidadãos perceberam que sua saúde havia melhorado. Sentiam-se mais capazes para trabalho e adoeciam com menor frequência. Ishlav foi em frente, pesarosa pelas vidas perdidas, mas orgulhosa do que recebeu em troca, mesmo sem compreender os motivos de tamanha dádiva.

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Czyran Eczos jamais duvidou de que sua condição estivesse relacionada ao fenômeno ocorrido na cidade. Foi afetado ainda no útero materno, recebendo dádivas superiores, mas nascendo com a mão esquerda de aspecto membranoso, cuja pele ressecada e quebradiça até hoje exige umidade frequente. A doença avançaria até tomar o braço quase que por completo, estagnando apenas graças ao conhecimento técnico do pai adotivo. Passados vinte anos, estava de volta a Ishlav em busca de respostas.

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O Fus-K posou suavemente em um terreno vazio, junto da propriedade da Ordem da Verdade, despertando como sempre acontecia a curiosidade de transeuntes. Ishalv, entretanto, não era uma vila qualquer de aldeões facilmente impressionáveis, mas uma cidade de bom porte e quase 20 mil habitantes, e estes logo trataram de cuidar de suas vidas.

Zippack e Mark permaneceram na aeronave, enquanto Dedalus se dirigiu ao encontro de Galvin, líder da Ordem da Verdade em Ishlav e patrono ocasional de suas pesquisas. Surpreso pelo encontro – esperava que Dedalus agora estivesse cruzando a fronteira de Ancuan com o Império de Pytharon -, o Pai Pretérito recebeu os três. Coube a Mark relatar os extraordinários eventos em Itzen, minimizando os acontecimentos da masmorra na escuridão entre as estrelas e atribuindo a Cid as previsões mais catastróficas a respeito do que testemunharam, especialmente no que dizia respeito a Qi, capital de Draolis. Cid, que ficara para trás no dia anterior ao se decidir por permanecer em Itzen, não poderia contribuir com seus raciocínios tortuosos.

Antes que pudessem explicar quais eram suas intenções ali, foram interrompidos pela urgência de um recém-chegado.

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Numenera – PãnPãNãNãNãããnnnn…(ou, A Cavalgada das Valquírias)

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 16/03/2015

Numenera – The Wonder Weird

Capítulo 5 – PãnPãNãNãNãããnnnn…(ou, A Cavalgada das Valquírias)

Verdade seja dita, nem Zippack Ranzz e nem Stephen Dedalus sabiam ao certo como tirar do raster sacrificado os órgãos biomecânicos necessários à reenergização do Fus-K. Por isso, daremos mais tempo aos dois enquanto revemos episódios anteriores, inclusive apresentando o jovem freelancer Dedalus adequadamente e descobrindo o que aconteceu com Mark e Cid, nossos protagonistas originais.

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Stephen Dedalus vinha de Ishlav a mando de Pais Pretéritos. Estranhos fenômenos recentes no firmamento capturaram sua atenção, levando-o a convencer seus patrocinadores recorrentes de que havia algo que aprender com aquilo. Supunha que seria necessário chegar ao Império de Pytharon, passando pelas terras do Lorde Wernard Streck e pela vila de Itzen, para melhor observar a curiosa movimentação de algumas das luzes do céu noturno. Contudo, havia em seu caminho um soldado de nome Elandra.

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Mark precisou de toda uma manhã de descanso antes de sentir-se parcialmente refeito dos acontecimentos no subterrâneo de Itzen, e além dele. Finalmente pôde observar a tropa baseada ali: uma dúzia de homens, displicentes e mais interessados em saquear o que restou da vila do que erguer algum tipo organizado de defesa.

Foi no início da tarde que uma patrulha chegou com um prisioneiro. Era Lipke, o traidor. Havia sido maltratado, e desesperava-se feito um homem prestes à condenação. Mark interferiu antes que o rapaz fosse atirado na cratera aberta pela esfera. Sem Kellown por perto, a certificar-se da ausência de chirogs no subterrâneo, os soldados revelaram-se selvagens, e voltaram seu desejo de punição em direção a Mark. Defendendo-se da melhor maneira possível, ao menos evitou a execução de Lipke.

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