The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – O quinhão que lhes cabe

Posted in Este Corpo Mortal, Numenera, RPG by Carlos Hentges on 04/04/2016

Capítulo 7 – No qual consequências confluem e empurram para longe de Nebalich.

A multidão se comportava feito uma fera acuada, rugindo na expectativa de que aquilo fosse o bastante, mas sem demonstrar toda a energia excitada que a faria saltar sobre a presa. Moradores do Cálice, descontentes com o descaso da realeza e da Ordem da Verdade diante da Numenera que poderia ter destruído a residência de centenas de famílias, comerciantes, acossados pela violência de gatunos maltrapilhos, e marinheiros, frustrados pela perda de trabalho resultante da ação de piratas na costa do Sere Marica, formavam um caldo de insatisfação difusa que Strahl trabalhara para engrossar e dar propósito claro. Ao agredir sorrateiramente um marinheiro na orla, esperava apontar as tochas e pedras da multidão para o Rompante e sua tripulação.

Obi testemunhava o resultado desse esforço quando chegou ao porto, logo após selar um acordo com Millian.

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Admoestha

Admoestha, militar, burocrata e impaciente.

Lenora deixara claro que não tinha o menor apreço por ele. Talvez soubesse que Kronus interferira em sua apresentação na praça central, dias antes, quem sabe julgasse inconsequentes seus métodos quanto à Ehvera e Martelo, ou, opção que lhe parecia a mais plausível, sentia-se ameaçada por ele e, na sugestão de que Tvesh Szat poderia enxergar a verdade além de suas narrativas tortuosas, revelara uma estratégia simplória para dissuadi-lo de seus objetivos e bloquear o caminho entre ele e o patrono poderoso.

Tendo isso em mente, Kronus sabia que caberia apenas a si trazer Admoestha para a causa de Szat. O senescal do Rei Falton e da Rainha Sheranoa era um soldado que demonstrara na política a mesma tenacidade do campo de batalha. Tornara-se responsável pela maior guarnição de Nebalich e, muito a contragosto, interrompera o treinamento de soldados em preparativos para singrar os Canais de Seshar e combater margr ao norte de Pedra Vermelha e escutava o que tinha a dizer o homem que acompanhava Lenora.

Impaciente, Admoestha não compreendia a relação entre seus soldados e os marinheiros de um navio recém atracado, eventos no Cálice e uma ameaça representada pelos varjellen que viviam em uma das regiões mais afastadas da cidade. Por consideração a Lenora, se mantinha atento, minimamente, enquanto gritava ordens a seus homens.

O argumento que colocou em movimento a máquina de guerra de Nebalich, afinal, foi o anúncio trazido pelas palavras de um garoto esbaforido: o porto estava mais agitado do que de costume.

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Numenera Ex Machina – A respeito de diversas Paixões

Posted in Este Corpo Mortal, Numenera, RPG by Carlos Hentges on 22/02/2016

Capítulo 6 – No qual um lapso recente manifesta um antigo desejo.

Havia todos os motivos do Nono Mundo para acreditar que Tvesh Szat os convocara para um encontro definitivo, encerrando em termos inamistosos a parceria estabelecida poucas semanas antes. A certeza era tamanha que se dirigiram à propriedade às margens do Sere Marica com mochilas abarrotadas de pertences pessoais. Seu objetivo era tão somente sobreviver ao encontro e imediatamente rumar a Queslin, onde uma porção do passado de Strahl e do futuro de Obi aguardavam. Kronus já decidira os acompanhar, não importando o destino.

Tvesh Szat, em um momento mais amistoso do que o esperado

Tvesh Szat, em um momento mais amistoso do que o esperado

Contudo, antes era preciso explicar os eventos da última madrugada, quando se apropriaram da Numenera do Rompante para então acabarem traídos por Visixtru e seu grupo de varjellen, e aqueles ainda anteriores, quando Kronus atacou o que deveria ser seu contato e aliado, Martelo. Brindado por Kronus com um relato algo extravagante a respeito da Numenera ir parar intencionalmente nas mãos dos varjellen, e distraído por Obi ante a possibilidade de um contato em Queslin oferecer muito mais do que os porões no Rompante guardavam – Theobald seria a chave para a Cidadela do Prodígio -, Szat elaborou uma estratégia que se apropriava dos eventos recentes para a realização de um desejo antigo. Atuando em várias frentes, varreriam a raça de desumanos de Nebalich.

A Strahl caberia descobrir o paradeiro dos tripulantes do Rompante atacados por marinheiros no porto. A notícia de uma briga se espalhava desde a noite anterior, mas era preciso transformar o fato em um incidente mais sangrento.

Obi voltaria com o Martelo ao local onde Visixtru realizara a reunião com seus comparsas. Era preciso se assegurar de que a Numenera permanecia em Nebalich.

E a Kronus foi dada a tarefa de angariar a simpatia de Admoestha, soldado feito senescal do Rei Falton e da Rainha Sheranoa. Sua argumentação giraria em torno dos efeitos de negociatas entre os mal reputados piratas comandados por Tarae e os varjellen, uma raça de criminosos. Um jogo de traidores estaria em andamento, e seria sábio intervir para evitar que corpos com gargantas cortadas começassem a surgir nas ruas.

Tudo se dando a contento, os três rumariam a Queslin com o apoio de Szat, que teria para si a Numenera do Rompante e, ainda melhor, livraria a cidade dos varjellen.

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Numenera Ex Machina – De Piratas e Negociatas

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 27/01/2016

Capítulo 5 – No qual todos os olhos se voltam ao Rompante. E acordos escusos cobram seu preço.

– Vocês não vão machucá-la mais. Ehvera contou o que fizeram.

Bastaram poucas horas para Martelo cair sob os encantos da prisioneira. Alimentava-a quando Kronus e Strahl retornaram do encontro com Tvesh Szat, no qual foram exortados a serem mais ambiciosos em relação ao suposto conteúdo do Rompante. A embarcação comandada por Tarae lançara âncora na baía de Nebalich naquela tarde.

Ehvera observava em silêncio a discussão entre os três. As bandagens que recebera não davam conta dos ferimentos recebido no Cálice e nem do ataque da criatura na penumbra. Não corria riscos mas, naquelas condições, não melhoraria. De algum modo, convencera Martelo a interceder em seu favor, algo que Kronus não aceitava, atribuindo-lhe algum truque.

– Seu brutamontes cretino, essa bruxa enfeitiço-o para colocá-lo contra nós e contra Szat.

Apenas quando já estava nos braços de Martelo, que a levaria até alguém que lhe avaliasse os ferimentos, Ehvera revelou seu trunfo. Millian estaria escondido no capítulo da Ordem da Verdade em Nebalich. Fizera favores aos Pais Pretéritos no passado, e por certo os estaria cobrando. Ela não tinha condições de alcançá-lo, mas ajudaria no que fosse necessário. Pragmática, imaginava que favorecer os interesses de Tvesh Szat lhe seria vantajoso no futuro.

Kronus, contudo, nada disso escutou. Estava de tocaia, esperando a bruxa e sua marionete passarem pela porta. Quando o fizeram, saltou sobre os dois, apunhalando com uma seta de besta quem estivesse em seu alcance.

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Tarae espiando sobre a murada do Rompante.

Tarae espia por sobre a murada do Rompante.

Obi era levado em direção ao Rompante em uma canoa. Não sabia o que esperar de Tarae. Tinha para si apenas a imagem pintada por Strahl de uma capitã feroz por quem a tripulação nutriria uma admiração amedrontada. Sem deixar seu transporte, aos gritos em direção à murada do veleiro, explicou que tinha consigo o Revitalizador e o negociaria em lugar de Ehvera.

– Eu espero por Ehvera e o Revitalizador. Não apenas um deles, e nada além deles.

O remador que conduzia Obi de volta à costa fez inúmeras perguntas. Foi quando decidiu levar adiante uma estratégia que seria expandida mais tarde. Ciente de que tudo o que dissesse se espalharia rapidamente pelo porto, fez do Rompante um alvo para todo flibusteiro naquelas margens.

– Aquela embarcação tem os porões repletos de Numenera.

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Ehvera estava ensopada pelo próprio sangue. Em busca de atendimento médico, era levada por Martelo nos braços. Para trás deixaram Kronus, ferido de faca na reação ao ataque traiçoeiro. Estava estirado aos pés de Strahl, não tendo sido degolado apenas graças à intervenção deste. Quando compreendeu o que se passara ali, Obi não se furtou a chutar o companheiro, que começava a se recuperar. Os cortes, afinal de contas, não haviam sido profundos o bastante para ensinar-lhe uma lição.

Nenhum dos dois compreendia suas razões. Ehvera e Martelo deixariam a condição de possíveis aliados para se tornarem ameaças em potencial. Contudo, Kronus não demonstrava arrependimento. Ehvera era uma bruxa e Martelo um parvo, ambos indignos de confiança.

Ainda debilitado, ficou aguardando na residência dos três. Mais tarde se dirigiria até o capítulo da Ordem da Verdade para fazer contato com Moristheu. O Pai Pretérito lhes devia um favor, e ele seria cobrado para que chegassem até Millian. Strahl e Obi dirigiram-se à praia, de onde observariam o Rompante em busca de ideias, caso uma abordagem direta se fizesse necessária.

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Numenera Ex Machina – Ambições Sombrias

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 18/01/2016

Capítulo 4 – No qual uma circunstância inesperada aproxima os interesses de Strahl e Obi. E Kronus tateia uma oportunidade.

Desde o Cálice, Strahl, Obi e Kronus carregavam a caixa retirada da residência de Millian e também a mulher que se dizia sua verdadeira proprietária, desacordada. Estava ferida numa gravidade que não sabiam mensurar, menos pela luta nos corredores da construção que servia de abrigo para centenas de pessoas, do que pela violência que se seguiu, quando Kronus a estrangulou até que perdesse os sentidos. Se não foi incentivado pelos companheiros, também deles não escutou qualquer reprimenda.

Ehvera

Ehvera, em um raro registro sem cordas

Ao chegarem ao galpão transformado em residência, algumas providências foram tomadas de imediato. Strahl cuidou de amarrar a convidada forçada, enquanto Kronus juntava o equipamento necessário à análise da caixa que trouxeram consigo. Obi, ao realizar a conferência de todas as entradas, buscava qualquer sinal de invasores, notou algo estranho. A saída de ar sobre o fogareiro, uma peça inteiriça de ferro, presa a uma coluna de pedra, estava retorcida, com pedaços faltando na sua porção mais baixa, pela qual a fumaça era sugada. Nem mesmo uma criança se esgueiraria através daquela passagem estreita. Sequer saberia dizer se alguém tentara entrar ou – o que seria mais estranho – sair.

Enquanto confabulavam a respeito, os três tiveram a atenção atraída pela mulher amarrada. Buscava, freneticamente, livrar-se das cordas. Os olhos, arregalados, voltavam-se à escuridão diante dela. Uma escuridão serpentina, de olhos vermelhos e pontiagudos dentes de cristal. Aquilo que os três enfrentaram, e do qual fugiram, na fortaleza além das nuvens, estava bem ali, adensando as trevas.

Por um instante, talvez, tenham considerado a fuga. Sair dali significaria sobreviver, enquanto permanecer traria consigo a incerteza diante da ameaça por enfrentar. Contudo, entre a criatura na penumbra e Tvesh Szat lá fora, e as repercussões diante de um fracasso, atiraram-se em direção à primeira opção.

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Numenera Ex Machina – Ficha-Tema para Este Corpo Mortal

Posted in Este Corpo Mortal, Numenera, RPG by Carlos Hentges on 21/12/2015

Cenário: Sobre os resquícios de civilizações gloriosas, o Nono Mundo é construído
Os personagens são parte do Nono Mundo, uma civilização em estágio medieval de evolução em um planeta Terra bilhões de anos no futuro. Pelo menos oito civilizações nasceram e desapareceram, morreram e transcenderam, e sobre os resquícios de sua existência vivem os seres humanos do presente, constantemente se deparando com artefatos tecnológicos ultramodernos que simplesmente não são capazes de compreender ou distinguir de magia: a Numenera.
Referências:
– Spelljammer
– Planescape: Torment
– Star Wars
– Duna
– Incal
Numenera no TvTropes
Mapa do Nono Mundo

Tom: O assombro por revelar
O Nono Mundo não permite indiferença. Fatos extraordinários são parte do cotidiano, transformando a vida dos habitantes de um vila isolada ou de uma nação inteira. Por conta da capacidade espetacular e potencialmente ilimitada da Numenera, muitos se dedicam à encontrá-la e estudá-la, tarefa que costuma vir acompanhada por uma boa dose de risco e aventura. Os que têm sucesso veem-se cercados pelos interesses mais diversos; a Numenera significa poder.

Nível da Magia: Moderado (10 fichas)
– A Numenera é poderosa e presente, mas poucos conseguem fazer dela algo útil. Usualmente, ela surge na forma de dispositivos, mas sua manifestação também pode se dar no organismo das pessoas, resultando em Aptidões Sobrenaturais as mais diversas, em raças inteiras de seres fantásticos, ou em gigantescas estruturas, transformadas em lares, fortalezas e até mesmo cidades.
– De um modo geral, as pessoas nutrem um respeito receoso em relação à Numenera e àqueles que sabem manipulá-la.
– A Numenera, ao longo das eras, afetou a Terra de inúmeras maneiras. O resultado disso são mutações em pessoas e criaturas, além da criação de paisagens alienígenas e fenômenos incompreensíveis. Por conta disso, os jogadores podem definir qualquer um desses aspectos livremente. Não há um cânone estabelecido de antemão.
– Qualquer um que encontre a Numenera pode tentar utilizá-la. O sucesso permite que isso ocorra com segurança, relativa, e produzindo um efeito útil. Ainda que existam grupos dedicados a compreender a Numenera, como a Ordem da Verdade, não existem escolas formais para o ensino do seu uso. Alguns nascem abençoados, outros são curiosos ou apenas imprudentes o bastante para tentar.
– Marcadores de Magia são adquiridos com o Sacrifício de três Marcadores de Poder. (more…)

Numenera Ex Machina – O Patrono, o Salteador e a Incerteza*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 23/11/2015

Capítulo 3 – No qual as relações com o submundo se estreitam, uma ameaça é parcialmente neutralizada e questões permanecem por responder.

Deymish esfregou nas mãos um punhado de sal retirado de Sere Marica e o arremessou por sobre os ombros. Um pequeno ritual de boa sorte, ao menos para quem cria na Senhora Salobra. Ele reconheceu, acanhado, que era uma bobagem, mas desde o falecimento da esposa se mantinha próximo daquilo que fora importante para ela. O culto, cuja origem remetia aos Pântanos Salpicados, pregava que toda vida advinha do sal. Durante a viagem de retorno a Nebalich, em diversas oportunidades Kronus conversou com o navegador, que se revelou um homem simples e prático, mais confortável sobre o casco de uma embarcação do que entre paredes, profundo conhecedor dos canais de Seshar e do grande mar salgado que era o Sere Marica.

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Em Nebalich havia muito a ser feito. Tvesh Szat esperava receber um relatório a respeito da incursão realizada graças ao seu auxílio, bem como toda a Numenera encontrada no local. Além disso, Obi, Kronus e Strahl perceberam que viveriam melhor se tomassem por empréstimo uma pequena propriedade na cidade, um galpão em local discreto junto à costa, transformado em residência e espaço de pesquisa para os três.

Aproveitando-se dos companheiros atarefados, Kronus desgarrou-se para levar adiante um pequeno projeto pessoal. Desde o retorno de Pedra Vermelha, quando o pagamento de Corl Vhem chegou na forma de um carregamento de pedregulhos que precisaram ser negociados, ele vinha se aproximando das pessoas do porto. Buscava, de algum modo ainda difuso, estabelecer uma rede de contatos. Seu objetivo era ganhar influência em uma das áreas mais importantes da capital de Seshar: apenas através de Nebalich se podia acessar os canais e alcançar o interior do território sem a necessidade de enfrentar o deserto.

Foi nessa circunstância que Kronus percebeu não ser o único empreendedor naquele porto. Um homem de aparência rude, feito um velho marinheiro, distribuía panfletos aos mais miseráveis entre os miseráveis que se encontravam por ali. Era um procedimento duvidoso, dado que a fluência na leitura era uma habilidade incomum. Contudo, o papel fino, escrito numa bela tinta e com letra garbosa impressionava os desatentos ao seu conteúdo:

Quer aventura? Deseja experimentar as delícias de viagens e a alegria da descoberta? Interessado em abrir o seu caminho no mundo? Seja qual for o desejo em seu coração, qualquer que seja o desejo que o mantém acordado à noite, você pode realizá-lo em Queslin. Nós estamos buscando aqueles dispostos a trabalhar duro para aumentar a prosperidade de Queslin e a sua própria! Todos que se comprometerem voluntariamente com nosso contrato de trabalho-para-a-vida de cinco anos serão recompensados. Não perca tempo. Não pergunte ao redor. Apenas venha a Queslin, onde o sal corre livre.

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Numenera Ex Machina – A Escuridão Além das Nuvens*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 10/11/2015

Capítulo 2 – No qual um mapa leva os personagens a um local de veneração não abandonado de todo.

O mapa encontrado na torre da Ordem da Verdade em Pedra Vermelha apontava um lugar além das nuvens. Mais precisamente, o pergaminho sustentava a existência de uma estrutura à noroeste de Nebalich, em um dos pontos mais extremos dos canais artificiais que cortavam Seshar, planando quilômetros acima das águas.

Tendo em vista todo o tipo de coisa assombrosa com o qual já haviam tido contato Kronus, Strahl e Obi, não hesitaram em levar ao seu patrono a informação. A estranheza, nestes dias bilhões de anos no futuro, não era alvo de desconfiança; era apenas algo a ser desencavado, avaliado a colocado no mundo, junto com inúmeras outras.

Em Nebalich, Tvesh Szat era tido por um grande mercador, conduzindo inúmeros interesses legítimos. Era também um contrabandista, usufruindo da posição geográfica privilegiada para realizar o trânsito de Numenera entre os Noves Reinos, as Terras Além e o Sul Gélido. O mapa de anotações rudimentares trazido por Kronus, Strahl e Obi, considerando sua origem e suas promessas, representava o tipo de investimento que ele costumava fazer.

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Não demora até qualquer habitante do super-continente ser capaz de entender um pouco a respeito da Numenera. A primeira lição costuma ter relação com a sua volatilidade. Às vezes, acontece assim: o pequeno Jãn, auxiliar do pai nas lidas do campo, encontra, entre uma enxadada e outra, uma estranha caixinha com partes móveis e luzes faiscantes enterrada no solo. Jãn não sabe o que é, mas acha aquilo bonito e resolve guardá-la com todas as outras, que antes atrapalhavam a plantação e agora ocupam um baú nos fundos da casa. Em determinado momento, por algum motivo e sem aviso prévio, algo acontece, e a casa inteira torne-se um campo de ressonância para energias cósmicas. As paredes passam a reclamar dos pregos que lhes são impostos e Jãn e toda sua família acordam com a pele esverdeada e longas caudas escamosas. E assim, todos aprendem que a Numenera, quando reunida em grande quantidade, causa efeitos desastrosos.

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Tvesh Szat

Tvesh Szat, um generoso patrono com interesses por esclarecer

Kronus, Strahl e Obi tinham diante de si três itens semelhantes a mochilas, cujas alças eram adições posteriores ao que pareciam ser propulsores metálicos. Controlados pelo movimento do corpo, cada um dos dispositivos seria capaz de alçar uma pessoa aos céus e propeli-la em grande velocidade por cerca de quatro horas. Eram o incentivo de Tvesh Szat ao ímpeto exploratório de seus protegidos. Curiosamente, os itens eram perfeitamente idênticos, inclusive no padrão supostamente aleatório da ferrugem e da tinta descascada em alguns pontos.

Pelos cálculos dos três, a partir do que apontaram testes e o mapa sugeria, os propulsores, em velocidade de cruzeiro, demorariam uma hora para levá-los ao seu objetivo. Restariam outras três para a exploração e a descida segura. Sem temer o excesso de precaução, Kronus, Strahl e Obi optaram pela redundância, ao menos no que dizia respeito à queda controlada. Do mercado central de Nebalich, onde pessoas anunciavam aos gritos a Numenera que desejavam vender ou aquela que procuravam, saíram com três objetos: uma luva que permitia o controle de peso por repulsão, um cinto de anulação gravitacional e um curioso artefato capaz de retardar quedas por meio de um movimento rotacional semelhante ao das folhas caindo de uma árvore. Mais tarde, todos se mostrariam essenciais à sobrevivência do grupo.

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Numenera Ex Machina – O Dispositivo do Pesadelo*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 19/10/2015

Capítulo 1 – No qual o sono de Pedra Vermelha é perturbado por uma aterrorizante transmissão de origem misteriosa.

Há um dia viajavam pelos canais artificiais de Seshar. Conduzidos por Deymish, um homem que passara toda a vida singrando a região, Obi, Kronus e Strahl esperavam chegar logo a Pedra Vermelha. Levavam consigo três grandes caixas solicitadas pelos Pais Pretéritos da pequena vila. Conheciam-se há algum tempo, mas pela primeira vez realizariam um trabalho para o mesmo patrono, a respeito do qual pouco sabiam. Certo é que a generosa quantidade de sucatas por receber justificara a mobilização dos três conhecedores da Numenera para uma tarefa tão pouco singular.

Travessia dos Canais de Seshar

Travessia dos Canais de Seshar

Deymish mencionara rapidamente as peculiaridades dos canais, escavados na rocha em ângulos retos e abertos na medida constante de quinze metros de largura. Havia ainda as indescritíveis esculturas em diversos pontos do trajeto, mas delas pouco sabia e os passageiros, silenciosos na maior parte do tempo, nada perguntaram. Deymish os considerou tipos estranhos e um pouco enervantes, sendo tomado por certo alívio quando finalmente deixaram a embarcação para realizar a entrega aos membros da Ordem da Verdade.

Erguida a partir de uma espécie de rampa que encaminhava aos canais, Pedra Vermelha recebera o nome por conta dos grandes blocos compactos retirados da pedreira ao norte, às margens do deserto. De cor viva e entrecortados por linhas negras angulosas, eram vendidos para toda Seshar e garantiam o sustento da vila. No porto vazio uma grande embarcação aguardava ser carregada.

O trato com os moradores revelou-se difícil e frustrante. Seu raciocínio era lento e a fala se arrastava. Perdiam-se em meio às frases. Há dias não podiam dormir mais do que poucos minutos, sendo sem exceção assaltados por pesadelos após caírem no sono. Vencidos pela exaustão, despertavam aos gritos. Obi, Kronus e Strahl estavam decididos a fazer sua entrega e deixar o local o mais rapidamente possível. (more…)

Numenera – O Futuro a partir de Qi

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 13/07/2015

Numenera: The Wonder Weird
Capítulo 11 – O Futuro a partir de Qi

O Tonel avançava ao sabor da consternação. A capitã Akelle, a marinheira Mia e Stolinson, responsável pela carga, estavam mortos. Sob o efeito daquela pintura insidiosa, mutilaram-se com lâminas e as mãos nuas. Jaziam no convés, sob sacos grosseiros que antes levavam grãos. O Glifo já era a lembrança de ninguém além de Mark, Zippack, Czyran e Dedalus. De algum modo, por conta das imagens que os tomou de assalto, sabiam todos ser a pintura que Akelle trouxera ao Tonel a responsável por aquilo. A tragédia apenas ocorrera a partir da intervenção dos quatro. Mas não estivessem ali, o horror talvez tivesse vitimado a todos. Essa tripulação dividida cabia a London manter estável o bastante para aportar em Qi.

Entre os pertences pessoais de Akelle pouco havia para descobrir a respeito de Propaganda, assim era chamada a pintura. As anotações da capitã limitavam-se a mencionar a necessidade de se reportar à Guilda dos Mercadores de Qi, um procedimento incomum sendo o cog parte da Marinha Mercante de Ghan.

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Novansko subiu ao Tonel no final da tarde. Avaliou a carga e os mortos. Ambos foram desembarcados, mas a tripulação permaneceria retida até a manhã seguinte. London, a quem caberia as justificativas, partiu com ele. As explicações foram acordadas entre toda a tripulação. Mia e Stolinson teriam se amotinado contra a capitã por conta do baixo pagamento pelo transporte de grãos. Acabaram os três feridos além dos recursos que o Tonel levava. Nada seria dito a respeito de Propaganda, mas dela muito se falara. Havia aqueles que acreditavam que a peça deveria ser destruída, colocada sob a responsabilidade da Marinha Mercante de Ghan ou entregue a quem contratou seu transporte. A última opção acabou escolhida. Era a única da três maneiras que daria acesso a recursos para pagar pelos serviços da tripulação e por seu silêncio.

Do alto do Tonel, Dedalus fez com que um bilhete fosse entregue por um moleque à Guilda dos Mercadores de Qi. Foi ele também o ultimo a falar com Glifo, ainda que dessa conversa não fosse lembrar. Devolveu-lhe o Visor de Memórias e recomendou que se dirigisse ao encontro dos Pais Pretéritos.

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Numenera – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Dois)

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 18/06/2015

Numenera: The Wonder Weird

Capítulo 10 – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Dois)

Dedalus ajustava o dispositivo à cabeça com alguma dificuldade. Ele era ligeiramente maior do que o adequado a um rosto humano. Já os eletrodos, um arbusto de fios eletrificados partindo do alto do visor, pareciam uma adição posterior à peça. Seu posicionamento adequado contava com a ajuda de Czyran, o segundo mais capaz na compreensão da Numenera. Mark e Zippack apenas observavam enquanto os arranjos para o teste eram feitos, todos apertados no pequeno cômodo que servia ao nobre.

O dispositivo tinha função semelhante à do registrador sonoro trazido a bordo do Tonel pelo imediato do capitão Pierce, ainda que mais complexo. Suas lentes eram capazes de registrar, por alguns minutos, tudo aquilo para que seu usuário olhasse, com imagens e sons podendo ser consultados posteriormente. Utilizado com os eletrodos corretamente posicionados, incutia memórias vívidas dos fatos gravados, permitindo que conversas fossem reproduzidas palavra a palavra e imagens recordadas em cada detalhe. Um recurso extraordinário, mas de efeito temporário.

A discussão que se seguiu tratou da maneria como o dispositivo foi encontrado, seu propósito e verdadeiro proprietário. Tomaria a madrugada inteira, não fosse o grito de surpresa e admiração que a interrompeu.

– Rhog!

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Os cerca de oitenta pés do Tonel significavam pouco mais de vinte metros. E o rhog, nadando ao seu lado, era tão grande quanto. Toda a tripulação estava à murada, observando a criatura que agitava enormes quantidades de água sem que nenhum ruído fosse ouvido. O prodígio era possível graças às vinhas que cresciam no dorso do rhog, um material raro e valioso. Foi Amanethes, marinheira a quem Mark vinha dando aulas de esgrima, a primeira a manifestar o desejo de descer. Com a ajuda de seu instrutor, ela arranjava cordas e iniciava os preparativos. A perspectiva de ganhos com as vinhas lhe davam a coragem necessária para correr tamanho risco.

Zippack e Dedalus, contudo, tinham planos próprios.

O primeiro carregava consigo há semanas um autômato de combate de porte médio. Pouco menor do que uma mulher adulta, tinha nos lugar de mãos serras circulares afiadíssimas. Em combinação com uma manopla manipuladora de metais, esta saída da sacola de Dedalus, seria possível alcançar, remover e trazer a bordo um ramo das preciosas vinhas. E assim foi feito. Amanethes, de quem partira a ideia de descer até o dorso do rhog, foi impedida pela capitã Akelle. O animal era dócil, mas poderia reagir a um novo ferimento, mesmo que superficial. Descer significaria colocar em risco o Tonel, a viagem e toda a tripulação.

– Não haveria riscos se eu recebe por mais do que o transporte de grãos.

Silêncio no convés. Pela primeira vez, em alto e bom som, a autoridade da capitã era afrontada e os receios financeiros da tripulação revelados. Akelle repetiu sua ordem, restabelecendo a autoridade, mas foi a ação de Dedalus que encerrou a questão, ao cortar as cordas que sustentariam a marinheira.

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