The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Despertares

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 27/12/2011

Quinto Capítulo da Alienação.

Nem sempre Estrela é coerente. Seus raciocínios escapam, ideias correm para debaixo do tapete e, uma vez, algo muito importante que tinha para dizer se transformou em um balão cor de rosa e estourou fazendo “POP”. Dessa vez, porém, não é apenas isso a impedir que Claudio a compreenda.

– São as Embaracejas. Elas confundem a cabeça da gente.

Confundem a ponto de fazer ver o que não está ali, ouvir o que só se pensou e sentir os sabores das cores.

—-

Eleuthério abre os olhos para o São Pedro. Não desperta. Apenas abre os olhos para um sonho que não é só dele. Está preso à cama em um dos quartos sujos e vazios do final da adolescência, internado para se livrar das drogas. Uma das tentativas desesperadas e sem resultado da família a cochichar além da porta reforçada.

– Estrela, Estrela, Estrela, eu preciso de você aqui comigo.

Aberta, a porta mostra todas as pessoas com quem se importa. Os pais têm a aparência do início de sua adolescência, quando deles começou a se afastar. A namorada que viria a ser esposa de outro, com o mesmo olhar de quando se percebeu apaixonado por ela. O filho, a criança que acabou de conhecer. E o Espantalho. O Espantalho se aproxima com olhos tão vazios quanto bolas de gude e o rosto inexpressivo feito de placas justapostas.

– Você precisa acordar, Claudio. Você precisa acordar e voltar. Eu entendi tudo. Finalmente, eu entendi tudo. Agora, é hora de assumir o papel que é meu.

O Espantalho – havia tomado a mão de Claudio – se afasta. Sorri. Quando despertar, Eleuthério vai guardar a perturbadora impressão causada por aquele sorriso.

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Diários (Ir)Radiados – Retorno pra casa

Posted in GURPS, O Jogador, RPG by Carlos Hentges on 20/12/2011

A noite foi tranquila. Mais do que se poderia esperar no Deserto (Daqui para frente, vou escrever Deserto assim. Ele é grande e perigoso o bastante para merecer a letra maior). Fiquei com um olho na Hellen o tempo todo. Ainda não sei como ela vai reagir às coisas. Não gosto de pensar no que ela passou para aceitar tão bem tudo o que aconteceu. Talvez seja mais fácil por ser tão criança. Duvido que tenha mais do que quatro anos. E é tão pequena. De manhã, seguimos em marcha sob o sol, economizando na água e nas palavras. Quando chegamos aos arredores do Forte, Thorne achou melhor dar uma olhada antes de ir em frente. O sol estava no pico, e os mantimentos para uma viagem de moto (aquela que explodiu) estavam acabando. Mesmo assim, não valia o risco das confusões que podem encontrar qualquer um em um assentamento como o Forte. Enquanto observava Thorne se afastando, me ocorreu que eles devem ter escolhido esse nome só para inventar uma reputação. O Forte é feito de placas soldadas, arame e carcaça empilhada para bloquear o caminho. Umas cem pessoas sobrevivem ali do jeito que dá. Deve ter um jeito de melhorar a vida dessa gente. Hellen, protegida do sol sob a capota de um Cadillac aos pedaços, é tudo o que posso fazer agora. Meus planos para salvar o mundo (que idiota, Erza) são afastados pelo escapamento de um velho Interceptor. Fico torcendo para que não me vejam, e depois, para que passem reto. Até parece! São dois, como eu adivinhei. Um mais novo, incentivado pelo mais velho. O pequeno Johnny Boy catando a primeira mulher na beira da estrada. Não vou ser eu. Não vai ser Hellen. Tive sorte do ímpeto não ser tanto. Todos acabaram inteiros. Johnny Boy e o Papi seguem para o Forte, o que meio que inviabilizou seguirmos até lá. Thorne, quando voltou, cuspiu qualquer coisa a respeito de problemas envolvendo um conhecido (Thorne não é muito bom falando, e fica pior quando tenta mentir). Nós seguimos até o que sobrou de um bairro residencial. Não valia a pena explorar os arredores. Melhor descansar e esperar que o tal Sanders não nos tenha seguido desde o Forte. Megaton está algumas horas adiante, mas precisamos esperar o sol baixar para continuar. São os guinchos de dois ratoupeiras na casa ao lado que dão o alerta. Sanders nem vê Thorne se aproximando. Foi desacordado por um disparo de agulha. Sei lá mais o que ele guarda naquela mochila; mais armas é uma boa aposta. Ele o revista e encontra um contrato por sua cabeça. Foi impressão minha, ou ficou decepcionado com o valor da recompensa? De qualquer forma, eu não acho nada de útil com o tal Sanders. Thorne sabe o que tem que fazer, e eu entendo. O cara não vai desistir. Qual é a pior parte disso? Precisar de tão poucas palavras para justificar a degola de uma pessoa desacordada… Chegamos a Megaton à noite, finalmente. Preciso falar com Lucas a respeito do robô. Quem sabe instalar uma nova rotina de boas-vindas. Megaton é um lugar legal demais para ter um Protectron tão impessoal fazendo a segurança do portão. Na manhã seguinte, Hellen e Sarah já eram as melhores amigas do mundo. Tive dificuldade para separá-las. Outro assunto para tratar com Lucas: a menina é pequena, mas é mais uma boca para alimentar, e a trazer até aqui não encerra minhas responsabilidades. Quando encontro Thorne, as ferramentas encontradas no Vault e a noite em claro analisando diagramas ajudam a abrir o Pip-Boy de uma vez. E as coisas que têm nele: o meu vault, e um plano para envenenar a água que resta no Deserto, e nomes de pessoas e nomes de lugares… Thorne me paga e me manda embora. Mas aquilo é maior do que eu e do que ele. Eu tenho que falar com alguém a respeito do que eu vi…

Meu nome é Erza. Bem, não é meu nome de verdade, mas é como meus pais me chamavam, então, acho que conta. Eu vou continuar escrevendo esse diário enquanto puder.