Cartas Selvagens I - O Despertar

Julho 1, 2008 at 8:54 pm (RPG) (, , , , , , , , , , )

29/06/2008 - 1º Dia

Abrindo os Olhos

A primeira sensação ao abrir os olhos é de que não o fazia há muito tempo. Mesmo sob a luz tênue das lâmpadas de emergência - que revela um quarto de hospital com outras duas camas ocupadas - o efeito é desagradável.

No braço direito, uma grossa camada de esparadrapos esconde uma agulha. Os hematomas ao seu redor revelam que ela está aí há muito tempo. A bolsa que despejava algo parecido com soro em suas veias encontra-se vazia. Examinando o próprio corpo, descobre diversas cicatrizes, algumas antigas, outras recentes. Essa constatação, somada a total ausência de memória, criam um sentimento alarmante.

O ocupante da cama ao lado é um gigante, com mais de dois metros de altura. O outro é comum. Alguém em quem se tropeça na rua sem perceber. Sem se importar com eles, vai até a porta. Trancada. Enquanto estuda o que fazer, seus companheiros acordam.

Não trocam palavras. O gigante, sob a mesma incômoda sensação nos olhos, aperta o botão de emergência, mas ninguém responde. Frustrado, simplesmente o arranca da parede, junto com parte do reboco. Enquanto os recém despertos se ocupam de analisar a porta, ele observa a existência de prontuários médicos juntos às camas.

Ás V - C0139 November é o que está escrito na sua ficha. O conteúdo revela que foi removido ao local para “exames em nível cromossômico”. Abaixo, vê a data de chegada, 15/01/2008. A última anotação, referente a uma avaliação de rotina, foi feita em 20/06/2008. Ás II - C0003 Alpha e Ás V - C0246 Delta são os códigos que identificam seus companheiros. Nenhum tem lembranças anteriores ao despertar, e compartilham das mesmas cicatrizes. Alpha, porém, lembra de um nome: Nathan.

Subterrâneo

Nathan demonstra uma capacidade muscular descomunal, mesmo para os seus mais de dois metros de altura e 160 quilos. Com as mãos nuas, empurra a porta metálica até que as dobradiças cedam. Ainda que se impressionem, Delta e November não se surpreendem de todo. Em seu íntimo, já são capazes de sentir que neles também há algo diferente.

O corredor revela outra porta arrombada. É idêntica àquela de onde Nathan, Delta e November saíram. O primeiro constata, pelas marcas, que o metal foi submetido a golpes poderosos antes de ser destroçado. Enquanto November apenas especula sobre a estranha situação, Delta chama atenção para a inscrição nas duas portas: Perigo Biológico - Não entre sem proteção.

O quarto adjacente é idêntico ao que os três se encontravam, com exceção de um detalhe. Apenas uma cama. O prontuário revela outro código - Ás III - C0427 Foxtrot. A identificação confirma a suspeita de que os dados, de alguma forma, são organizados segundo um código de comunicação militar.

Depois de passar por uma área de esterilização, o grupo se depara com um laboratório. Como todo o resto do ambiente, está iluminado apenas por luzes de emergência. Os três circulam pelo local, buscando informações a seu respeito. Na ausência de documentos físicos ou amostras nos freezers, Delta manifesta sua capacidade pela primeira vez, quando adquire uma aparência metálica resistente o bastante para rasgar o gabinete de um dos computadores com as mãos, do qual ele remove o hard disk.

O Hospital

Após escalar o fosso do elevador sem maiores dificuldades, Nathan, Delta e November chegam ao andar térreo. Apesar dos móveis, é óbvio que o hospital está vazio há dias. A atenção do grupo se volta ao som vindo do lado de fora do prédio. Uma multidão de cerca de duzentas pessoas se aglomera no estacionamento para ouvir alguém que discursa:

Sim, vocês lembram. Em 1997 eles nos pediram desculpas. O presidente esteve aqui pedindo desculpas. Disseram que foi um erro. É claro que foi um erro! Um erro que durou quarenta anos para ser descoberto. Durante quarenta anos nossos homens foram testados. Eram cobaias. Sim, eles consertaram tudo. Pagaram indenizações e pediram desculpas. Mas agora, nos tiram o hospital. Fecham suas portas e negam atendimento à população carente…

As palavras inflamam a população. Os mais exaltados arremessam tijolos e pedras. Vidros se partem. Deixar o local é a melhor opção. Mas como fazer isso? A porta do saguão leva diretamente aos braços da multidão exaltada.

Após se livrarem dos aventais típicos de pacientes e vestirem uniformes de enfermeiros, os três se dirigem ao estacionamento, no subsolo. Confirmam a expectativa de encontrar uma ambulância. Enquanto Delta avalia a resistência da porta da garagem, November argumenta que o veículo é chamativo demais para uma fuga discreta. Nathan, por sua vez, encontra as chaves em um almoxarifado.

Sua atenção, porém, é despertada pelo barulho da multidão em frente ao hospital. Ao invés de gritos e palavras de ordem, um murmúrio de desaprovação. Junto a uma janela, Nathan constata a aproximação de caminhões e jipes pintados com padrões de camuflagem: o Exército chegou.

Tuskegee/AL

Deixando o hospital pelos fundos, os três caminham por cerca de trinta minutos através de um bosque, até chegarem a um perímetro urbano. As placas dão a primeira informação a respeito de sua localização: Tuskegee, Alabama. Nada lhes é familiar, e a sensação de estranheza apenas aumenta.

Sem dinheiro ou documentos, em uma cidade com a presença do Exército, precisam pensar rápido a respeito de quais são as suas possibilidades. A primeira idéia é conseguir transporte. November o faz sem uma palavra. Abordando um homem que entrava em casa, consegue que este lhe entregue as chaves do carro, enquanto Nathan toma as compras, em busca de comida.

É o que eu faço. Eu controlo as pessoas, reconhece November.

30/06/2008 - 2º Dia

Abordagem Policial

Delta é o primeiro a acordar quando a viatura encosta do outro lado da estrada. Sem dinheiro, os três decidiram buscar um lugar afastado para passar a noite. Enquanto November dormiu no bando de trás, Delta e Nathan tentaram arrancar algum conforto do chão.

Ao se aproximar, o policial pede se está tudo bem. Supõe inicialmente que Delta tenha sido vítima de algum acidente. Assim que ele constata a presença de Nathan e November, sua postura se torna mais desconfiada. Imediatamente ele exige documentos de todos. Tudo que tem a oferecer são os papéis do automóvel. A situação seria facilmente controlável, caso November conseguisse exercer sua vontade. A impossibilidade cria uma situação tensa, e Nathan percebe que a qualquer momento Delta pode atacar.

O patrulheiro ordena que os três permaneçam fora do veículo. Ele observa a placa e se dirige até a viatura. Quando toma o rádio nas mãos, algo estranho acontece. Ele se vira na direção da estrada e, fitando o vazio, grita uma ordem. Imediatamente, corre cerca de trinta metros e se embrenha na mata. É a deixa para que os três dêem meia-volta e acelerem. November explica que, apesar de não conseguir controlar as ações do policial, foi capaz de projetar uma ilusão em sua mente.

Os três relaxam avaliando as possibilidades disso em uma mesa de Las Vegas. Sem saber, Delta emite uma frase repleta de significados obscuros:

Quem vai estar fodido com esses poderes é o crupiê.

Informações

A rápida naturalidade com que encaram suas aptidões leva à sua banalização, quando, para conseguir alguns jornais, November controla a mente de uma atendente de posto de gasolina ao mesmo tempo em que cria a ilusão de que deixou o dinheiro do combustível sobre uma das bombas.

Entretanto, as considerações a respeito perdem o valor diante das notícias do Montgomery Advertiser e The Tuskegee News. O pequeno jornal local, publicado dois dias antes, informa que o Hospital do Alabama para Veteranos encerrou as atividades na semana anterior. De forma súbita e inesperada. O Departamento de Assuntos dos Veteranos, responsável pela administração das unidades, informa que o hospital passará por melhorias antes de ser reaberto ao público. Nenhuma data é informada. As mesmas informações são reproduzidas no diário da capital do Alabama.

O Reverendo Thomas Jones

Não é difícil descobrir o endereço da Igreja da Divina Inspiração. O local, onde são celebrados os cultos, é de aparência simples. Entretida com a limpeza do chão, apenas uma mulher pode ser avistada. Martha é pouco amistosa com os três brancos estranhos pedindo a respeito do reverendo Thomas Jones. Apesar disso, concorda em chamá-lo, após o pedido vigoroso de Nathan.

Thomas Jones é um homem na casa dos cinqüenta anos, negro, um pouco acima do peso e de olhar tranqüilo. Assim que ele se apresenta, não resta dúvida de que era ele no comando da multidão na noite anterior.

Ele se ressente dos acontecimentos, especialmente da depredação e a subseqüente resposta dura do Exército, cuja chegada foi inesperada. Nathan lhe mostra os prontuários que estavam juntos às suas camas, e afirma que eles estavam no subsolo do hospital, sendo cobaias, como aquelas que o reverendo mencionou em seu discurso. Jones fica confuso, e acaba sendo induzido pelas palavras de November. Eles são veteranos que ficarão sem atendimento. Estão abalados. Contavam com aquilo. Onde poderão procurar ajuda agora?

Guardando algumas suposições para si, o reverendo informa que em Montgomery, capital do Alabama, existe um hospital semelhante. Claro que isso não é um alívio para a população carente de Tuskegee.

A respeito de seu discurso, Jones afirma que estava fazendo referência à Pesquisa de Sífilis de Tuskegee, na qual, entre 1937 e 1977, dezenas de homens foram usados como cobaias para estudo do avanço da doença, enquanto recebiam apenas placebo para o tratamento. Herman Shaw é o nome do único sobrevivente. O grupo combina de encontrar o revendo naquela tarde, para lhe fazerem uma visita.

Perseguição

Enquanto deixa a Igreja da Divina Inspiração, o grupo confabula. Delta afirma possuir capacidade para entrar no Hospital do Alabama para Veteranos sem ser notado, e poderia descobrir que está à frente das operações. Nathan acredita que pode vencer todo o Exército. November pergunta de que adiantaria, e o que poderiam descobrir.

A troca de idéias é interrompida logo após entrarem no carro. Um jipe com soldados passa ao lado deles. O Exército está nas ruas. Certamente já são procurados. Mas fugir não é uma opção.

Decidem seguir o veículo. A discrição permite que estabeleçam a rota cumprida pelo grupo, mas não é o bastante para que passem despercebidos. Nathan constata pelo retrovisor a aproximação de um segundo jipe. Para surpresa dos outros ocupantes, Delta assume sua forma metálica e escorre como água até o asfalto. No chão, completamente camuflado, ele golpeia um dos pneus. O rasgo obriga o veículo a parar, encerrando a perseguição. Ainda mesclado ao asfalto, Delta envolve o jipe, permanecendo invisível aos ocupantes.

November e Nathan, enquanto isso, se aproximam do primeiro grupo de soldados. Antecipando sua rota, criam a oportunidade para que November aviste o condutor e exerça seu poder mental sobre ele. Sob seu controle, o motorista encaminha o veículo na direção de um local ermo, indiferente aos protestos dos companheiros.

Confronto

Assim que Nathan e November se aproximam do jipe, os soldados notam sua presença. E os reconhecem. Apontando os fuzis, fazem sinais para que encostem imediatamente. Nathan encosta e sai do carro. Os quatro soldados fazem o mesmo. Calmamente, o gigante caminha na direção do grupo. E ruge. A combinação da imponência física e o urro primitivo ativa algo no fundo dos cérebros de cada soldado. Dois deles largam as armas e fogem imediatamente. Um deles recua, atordoado. O último atira. O disparo, porém, passa longe de Nathan, mas estilhaça o pára-brisa, para desespero de November.

Vencendo a distância que o separa dos soldados com poucos passos, Nathan salta. Na queda, atinge o solo com violência o suficiente para estilhaçar o asfalto e fazer o jipe vibrar. Ambos os soldados caem. Um deles encontra perseverança para atirar mais uma vez, mas os projéteis ricocheteiam no corpo do alvo. Nathan agarra um dos fuzis e o quebra com as mãos. Em instantes, o jipe está virado e os dois soldados, subjugados.

Temendo pelo pior, November exerce seu controle mental sobre Nathan. Apenas o bastante para que o gigante não faça vítimas fatais e perceba a aproximação do segundo grupo de soldados que os perseguiram mais cedo. Imediatamente, ele corre na sua direção. Ao mesmo tempo, Delta assume sua forma sólida, com força e peso suficientes para conter o avanço do veículo.

Delta atinge a traseira do veículo, alertando os ocupantes. Ao mesmo tempo, Nathan se aproxima do veículo e golpeia o capô brutalmente. Enquanto isso, November manobra o carro para proteger-se ao mesmo tempo em que ataca diretamente a mente de um dos soldados. Em retaliação, os quatro atiram. O fogo combinado vence a rijeza de Nathan, ferindo-o no ombro. O metal do corpo de Delta também não resiste o bastante para protegê-lo completamente.

Transformando todos os seus músculos e ossos em metal, Delta adquire força o bastante para virar o jipe. O resultado, porém, é trágico. Dois dos soldados acabam embaixo do veículo, esmagados. Os outros dois acabam sendo dominados facilmente. Mais do que um interrogatório, Nathan tortura um dos soldados em busca de respostas. O homem grita apenas o nome do responsável pelas operações do Exército com base no Hospital para Veteranos do Alabama: Tenente Robinson.

Mais tarde, November reconheceria que usou seu poder contra Nathan, o que por muito pouco não provoca um desentendimento potencialmente fatal.

Epílogo

É hora de sair de Tuskegee. Delta, Nathan e November conseguem uma caminhonete da mesma forma que fizeram antes, e deixam um dos soldados e o proprietário no porta-malas do antigo veículo. Seu destino é Montgomery, capital do Alabama.

Resumo da Campanha Cartas Selvagens, que utiliza o sistema de regras do livro Mutantes & Malfeitores, da Green Ronin/Jambô.
Narrador: Carlos Hentges
Delta: Brunetto
Nathan: Gói
November: Luiz

Permalink Não Há Comentários

London em Londres V - Conclusão e Bibliografia

Junho 17, 2008 at 2:22 pm (Jornalismo, Literatura) (, , , , , , )

Não se tem notícia, além das críticas positivas recebidas por Jack London após a publicação de O Povo do Abismo, sobre a maneira como a obra, isoladamente, afetou seus leitores. Certamente afetou o autor, pois deu início a uma escalada que culminaria em títulos como O Tacão de Ferro e Martin Éden, todos impregnados de forte crítica social, amparadas na sua crença a respeito do aprimoramento da sociedade através da aplicação dos preceitos marxistas do Socialismo.

Jack London foi um combatente que saiu da miséria para transformar-se no escritor mais lido e bem pago de sua época. Ainda que, segundo críticos, tenha sido o primeiro exemplar de autor norte-americano a verdadeiramente conhecer os caminhos para a criação de um mito em torno de sua pessoa, é certo que viveu diversas vidas no período de uma única e breve existência. Teve tempo, inclusive, para deixar de ser um socialista, seis meses antes de sua morte. Alegou que o Partido havia perdido sua capacidade de ênfase na importância da manutenção da luta de classes.

A pergunta que se impõe a partir desse fato, e esse trabalho não encontrou meios de responder, é a seguinte: não fosse Jack London um ferrenho defensor do Socialismo, seria diferente o conteúdo impresso nas páginas de O Povo do Abismo?

Uma resposta, simplista, e, portanto, com a capacidade de encerrar prematuramente este trabalho, seria: se Jack London não fosse um socialista, não haveria O Povo do Abismo. Ponto.

A afirmação vai contra uma colocação feita por Jack London quando questionado a respeito de que seus livros, todos eles, deveriam abordar a causa socialista. Teria respondido: “primeiro sou um homem, depois sou um escritor, e depois sou socialista”. Menos do que diminuir o papel dos preceitos marxistas em sua vida, a colocação evidencia a importância da literatura e do ser humano para London.

Mas isso ainda não responde a questão inicial. Não fosse Jack London um ferrenho defensor do Socialismo, seria diferente o conteúdo impresso nas páginas de O Povo do Abismo?

Talvez pode ser a única resposta precisa. Retomemos o que disse Truman Capote a respeito do resultado do fazer jornalístico.

Tudo que consta aqui é factual, o que não significa que seja a verdade, embora dela se aproxime o quanto pude conseguir. O jornalismo nunca pode ser totalmente puro – e nem a câmera, pois afinal a arte não é água destilada: impressões pessoais, preconceitos e a seletividade subjetiva comprometem a pureza da verdade cristalina. (CAPOTE, 2006, p. 10).

Ora, conclui-se que a “verdade” de O Povo do Abismo é também a “verdade” de seu autor. Os livros de História quando tratando do período, pode-se conferir, dizem a mesma coisa que afirmou Jack London. A diferença é que o fazem de uma distância segura. Optando por um ponto de vista menos confortável, o escritor buscou apresentar a sua “verdade” com socialismo, jornalismo e literatura, elementos que isoladamente podem até ter entrado no East End de Londres, mas nunca o haviam feito, até então, de forma conjunta.

A combinação se deveu à necessidade de combater a Espiral do Silêncio, ainda que a hipótese então não existisse, e fosse conhecida por outros nomes quando compreendida em relação àquela população de maneira específica: descaso, indiferença, invisibilidade. Tanto que se pode detectar em O Povo do Abismo um anúncio mal-disfarçado do desejo de Jack London pela precipitação de uma revolução, qualquer revolução, que seja capaz de tirar a população londrina de sua condição desumana.

São uma nova espécie, uma raça de selvagens urbanos. As ruas e as casas, becos e vielas são seu campo de caça. As ruas e construções são para eles o que os vales e montanhas são para o selvagem natural. Os bairros miseráveis são sua selva, e eles moram e caçam na selva. As pessoas bondosas e delicadas que freqüentam os teatros e vivem nas belas mansões do West End não vêem essas criaturas nem sonham que elas existem. Mas elas estão ali, vivas, bem vivas em sua selva. Maldito seja o dia em que a Inglaterra estiver lutando em sua última trincheira, com seus homens mais preparados na linha de tiro! Porque nesse dia eles vão rastejar para fora de suas tocas e covis e as pessoas do West End vão vê-los, assim como os bondosos e delicados aristocratas da França feudal os viram e perguntaram uns aos outros: “De onde vieram? São humanos?”. (LONDON, 2004, p. 292).

Este é, não resta dúvida, um trabalho incompleto, e também, espera-se, um ponto de partida. Se fomos capazes de demonstrar a importância da formação do autor na construção de sua obra, e como a dinâmica entre as técnicas do jornalismo e da literatura pode beneficiar o conteúdo e a compreensão do trabalho de reportagem, não foi possível dar conta de aspectos como a abordagem pré-existente na relação entre a imprensa e o proletariado socialista.

Igualmente, ficamos aquém do desejado no que diz respeito a análise da hipótese da Espiral do Silêncio. Na ausência de dados que permitissem a realização de um comparativo entre o trabalho publicado por Jack London em 1903 e o realizado pela imprensa britânica no mesmo período a respeito do tema, buscamos compensação dirigindo a análise no sentido de traçar paralelos entre os passado e o presente. Mesmo não sendo o procedimento considerando por nós o mais adequado, tornou possível apresentar algumas considerações entre a hipótese e o papel dos meios de comunicação em um contexto, acreditamos, ainda pouco explorado.

Referências Bibliográficas:

BETTI, Maria Sílvia. Jack London, um homem do seu tempo. In. London, Jack. O Povo do Abismo: Fome e miséria no coração do império britânico – uma reportagem no início do século XX. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

CAPOTE, Truman. Os Cães Ladram. Porto Alegre. L&PM Editores. 2006.

COSSON, Rildo. Romance-reportagem: o império contaminado. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex. Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. São Paulo, Escrituras Editora, 2002. p. 57-70.

COSTA, Cristiane. Pena de Aluguel. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

FONSECA, Francisco. O Consenso Forjado: A grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil. São Paulo, Editora Hucitec, 2005.

GENRO, Tarso Fernando. A imprensa operária e os intelectuais. In Filho, Adelmo Genro et al. Fazendo o amanhã: Partido de Vanguarda, Política Revolucionária e Crítica da Economia. Porto Alegre, Editora Tchê, 1987, p. 62-70.

HOHLFELDT, Antônio; Martino, Luiz C.; França, Vera Veiga (Org.). Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. Porto Alegre, Editora Vozes, 2001.

LENINE, V. I. Sobre a Imprensa e a Literatura. Lisboa. Editora Estampa, 1975.

LIMA, Edvaldo Pereira. O que é Livro-Reportagem. Campinas. Editora Unicamp, 1993a.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas. Campinas. Editora Unicamp, 1993b.

LONDON, Jack. De Vagões e Vagabundos. Porto Alegre. L&PM, 1997.

LONDON, Jack. O Povo do Abismo: Fome e miséria no coração do império britânico – uma reportagem no início do século XX. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

LONDON, Jack. O Tacão de Ferro. São Paulo. Boitempo Editorial, 2003.

MARCHEZAN, Isabel. Monografia A Reportagem Longe das Redações. Porto Alegre. 2000.

MEDINA, Cremilda. Notícia ― um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. São Paulo, Summus, 1993.

MENEZES, Rogério. Relações entre a crônica, o romance e o jornalismo. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex. Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. São Paulo, Escrituras Editora, 2002, p. 163-171.

NETO, Accioly. O Império do Papel: Os Bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre. Editora Sulina, 1998.

NOELE-NEUMANN, Elisabeth. La Espiral del Silencio – Opinión Pública: Nuestra piel social. Barcelona. Paidós Comunicación. 1995.

STONE, Irving. A Vida Errante de Jack London. Rio de Janeiro, José Olympio, 1952.

SUZUKI, Matinas. Jornalismo com H. In. Hersey, John. Hiroshima. São Paulo. Companhia das Letras. 2002.

WERNECK, Humberto. A arte de sujar os sapatos. In: TALESE, Gay. Fama & Anonimato. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.

WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo. Companhia das Letras. 2005.

Permalink Não Há Comentários

London em Londres IV - O Desafio à Espiral do Silêncio

Junho 13, 2008 at 5:07 pm (Jornalismo, Literatura) (, , , , , )

Nascida na Alemanha em 1916, Elisabeth Noelle-Neumann especializou-se em demoscopia, isto é, na pesquisa da opinião pública sob organização científica. A partir dos anos 50, ela começou a se interessar pela relação entre imprensa e opinião pública.

Uma de suas primeiras pesquisas apontava que a auto-estima dos alemães diminuía à medida que a mídia fazia mais referências negativas ao povo. A pesquisadora começou a basear seus estudos em uma outra hipótese já existente, a da Agenda Setting, segundo a qual “a imprensa teria o poder de determinar os assuntos principais da população, através da divulgação repetitiva de artigos e notícias sobre certos temas” (HOHLFELDT, p. 191).

Através de uma fundamentação teórica apoiada em Platão, Rousseau, John Locke, David Hume, Alexis de Tocqueville, Walter Lippmann e Gabriel Tarde, Noelle-Neumann começou a perceber que as pessoas tendem a expressar menos sua opinião quando elas imaginam que ela pode estar em minoria ou ser recebida com desdém. Essa posição seria tomada para evitar um possível isolamento do indivíduo, temeroso do que pode acontecer caso declare uma opinião contrária à da maioria.

…a opinião que recebia apoio explícito parecesse mais forte do que realmente era, e a outra opinião mais fraca. As observações realizadas em ambos os contextos se estenderam a outros e incitaram a população a proclamar suas opiniões ou a “engolir” e manter-se em silêncio até que, em um processo em espiral, um ponto de vista chegou a dominar a cena pública e o outro desapareceu da consciência pública ao emudecer seus partidários. Este é o processo que podemos qualificar como de Espiral do Silêncio . (NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 22).

Simbólica e visualmente, a influência da suposta opinião majoritária é encarada por Noelle-Neumann como uma espiral do silêncio, porque tende a ampliar-se enquanto silencia aqueles que a opõem, e daí nasce o nome da hipótese que a alemã desenvolveu.

Enfim, em 1972, Noelle-Neumann apresenta um artigo chamado Return to the Concept of Powerfull Mass Media num congresso em Tóquio, onde, segundo Antônio Hohlfeldt.

Partindo do conceito de percepção seletiva e retomando o de acumulação provocada pela mídia, conceito aliás que a então ainda recente hipótese de Agenda Setting havia colocado em circulação, Noelle-Neumann destacava a onipresença da mídia como eficiente modificadora e formadora de opinião a respeito da realidade. (HOHLFELDT, 2001, p.221).

Sete anos depois, a pesquisadora voltaria a estudar a ligação entre mídia e opinião pública, dando uma nova conceituação a esta expressão: “opiniões sobre temas controvertidos que podem ser expressas em público sem isolamento ” (NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 88).

Nos anos 80, Noelle-Neumann lançaria A Espiral do Silêncio - Opinião Pública: Nossa Pele Social, livro em que sintetizaria todos os seus estudos sobre o assunto. Nele, a pesquisadora lista as quatro hipóteses que sustentam sua pesquisa, todas relacionadas entre si: primeiro, que as pessoas tem um medo inato do isolamento; segundo, a sociedade ameaça com o isolamento o indivíduo que se desvia; terceira, como conseqüência desse medo, o indivíduo busca captar correntes de opinião; e quarto, os resultados desse cálculo afeta a expressão ou a ocultação de suas opiniões. Sem dúvida, essas suposições podem ser resumidas em um único raciocínio: a opinião pública é entendida como um mecanismo social que torna possível a coesão e a integração dos grupos humanos.

4.1 Opinião Pública e Clima de Opinião

É preciso explicar porque a Espiral do Silêncio é considerada uma hipótese e não uma teoria. Segundo Hohlfeldt,

“uma hipótese é sempre uma experiência, um caminho a ser comprovado e que, se eventualmente não der certo naquela situação específica, não invalida necessariamente a perspectiva teórica. Pelo contrário, levanta, automaticamente, o pressuposto alternativo de que uma outra variante, não presumida, cruzou pela hipótese empírica, fazendo com que, na experiência concretizada, ela não se confirmasse” (HOHLFELDT, 2001, p. 189).

Enquanto uma teoria é um “paradigma fechado, um modo acabado e, neste sentido, infenso a complementações ou conjugações, pela qual traduzimos uma determinada realidade segundo um certo modelo” (HOHLFELDT, 2001, p. 189). Dadas as circunstâncias que serão expostas neste texto, portanto, é mais adequado classificar os estudos de Noelle-Neumann como uma hipótese.

A pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann, através de sua hipótese da Espiral do Silêncio - proposta em 1972 - amplia a definição de opinião pública na direção de temas não exclusivamente políticos. A autora concebe a opinião pública em sua dimensão social, distanciando-se assim das teses elitistas que dominaram sua interpretação no século XIX e grande parte do século XX, convertendo-a em uma espécie de olhar público que vigia todos os âmbitos da esfera social.

Segundo Noelle-Neumann, deve entender-se o publico como um tribunal, como um júri ante o qual devemos nos comportar corretamente se queremos evitar sermos isolados, alienados da vida comum. Essa noção da opinião pública como controle social, que tudo vê e tudo julga, é invisível aos olhos da sociedade.

“Nos damos conta da enorme pressão que exerce sobre todos os membros da sociedade da mesma maneira que não nos fixamos na pressão atmosférica, ainda que por certo ela seja tremenda ” (NOELLE-NEUMANN, 1995, p 107).

Se entendermos que as emoções têm uma natureza lingüística e uma conotação simbólica, o denominado medo do isolamento não é uma exceção. Partimos do princípio que o medo é uma emoção que aprendemos a sentir, produto de um complexo processo de socialização. Apresenta-se como algo criado, intangível, que apenas pode ser expresso através da linguagem e em cujo significado estão presentes discursos dominantes carregados de uma grande dose ideológica. Em síntese, se trata de um imaginário social.

Um imaginário social que depende de condições próprias para existir. O principal argumento que se sustenta a Espiral do Silêncio é o de uma visão individualista das relações. O medo que dá origem à Espiral do Silêncio tem validade única e exclusivamente em formas de organização como a nossa: onde o discurso individualista de prestígio social é básico para alcançar uma boa auto-estima (se não é igual ao outros se é inferior), com um sistema econômico baseado na livre competência e na igualdade individual, com um sistema político baseado na participação democrática, com meios de comunicação influentes e onde a dimensão individual do ser humano constitui o ponto de partida para o conhecimento. Todo esse conjunto de normas escritas e não escritas, convencionais, hábitos e costumes representam o repertório discursivo perfeito capaz de alimentar as idéias de respeito, apreço e aceitação, e que o indivíduo aceita como se fossem resultado de leis cósmicas e universais. Novamente, imaginários sociais.

Esse imaginário social é construído a partir do “clima de opinião”, como afirma Hohlfeldt. Trata-se de uma capacidade que a pesquisadora atribui à população para reconhecer as opiniões alheias. Ao perceber, ou cogitar, que a maioria da população defende um ponto de vista oposto ao seu, o indivíduo tem uma reação previsível: em um primeiro momento se cala, e em seguida se adapta à opinião aparentemente majoritária. O silêncio faz com que uma opinião que inicialmente poderia ser minoritária angarie prestígio e conquiste a simpatia dos indecisos, tornando-a, em um processo em espiral, majoritária.

A influência que exerce sobre o indivíduo aquilo que eles imaginam ser o pensamento dos demais realiza-se num movimento constante, no tempo, ascensional, a que Noelle-Neumann vai denominar de Espiral do Silêncio porque tenderá a ampliar-se, crescendo à medida mesmo que faz com que os demais que eventualmente se lhe oponham silenciem ou sejam silenciados. Assim, uma determinada opinião que, num primeiro momento, ainda que parecesse ser majoritária, fosse na verdade minoritária, tende a efetivar-se como tal, vencendo as eventuais barreiras, graças à tendência à sua verbalização e expressão que ocorrerá de modo crescente no meio social, como que numa espécie de amparo mútuo entre aqueles que a defendem e aqueles que imaginam que tal posicionamento é, de modo efetivo, majoritário. (HOHLFELDT, 2001, p. 231).

4.2 O Papel dos Meios de Comunicação

Na análise que faz a autora não estão ausentes os meios de comunicação de massa. Pelo contrário, o fenômeno da Espiral do Silêncio se baseia na suposição de que são os meios de comunicação a fonte mais importante de observação da realidade com que conta o indivíduo para inteirar-se de quais são as opiniões dominantes e quais que conduzem ao isolamento. Segundo o raciocínio de Noelle-Neumann, o que dizem ou deixam de dizer os meios de comunicação é relevante na construção da opinião pública.

Noelle-Neumann resume essa particular influência midiática naquilo que denomina princípios de “consonância” e “acumulação”, segundo os quais todos os meios de comunicação e todos os jornalistas insistem nos mesmos temas e adotam as mesmas posições, canalizando a atenção do público. Se trataria de uma espécie de pressão ambiental com o efeito de amplificação ou unificação temática, criadora - como disse Noelle-Neumann - de uma “maioria silenciosa” incapaz de compartilhar publicamente sua opinião quando a posição da mídia aparece como oposta. Segundo Noelle-Neumann isso ocorre devido à maneira como está fundamentado o funcionamento dos meios de comunicação, qual seja, uma completa oposição à forma mais tradicional de comunicação, a conversação.

A comunicação pode dividir-se em unilateral e bilateral (uma conversação, por exemplo, é bilateral), direta e indireta (uma conversação é direta), pública e privada (uma conversação pode ser privada). Os meios de comunicação de massa são formas de comunicação unilaterais, indiretas e públicas. Contrastam, pois, de maneira tripla com a forma de comunicação humana mais natural, a conversação. Por isso os indivíduos se sentem desvalidos diante dos meios de comunicação. (…) Essa impotência se expressa de duas formas. A primeira ocorre quando uma pessoa almeja conseguir a atenção pública, e os meios, em seu processo de seleção, decidem não prestar atenção. (…) O segundo aspecto da impotência entra em jogo quando os meios de comunicação são utilizados como um pelourinho; quando orientam a atenção pública anônima entregando a ela o indivíduo como um bode expiatório para ser exibido. Não pode defender-se. Não pode desviar-se das pedras e das flechas. As formas de réplica são grotescas pela sua debilidade, por sua torpeza em comparação com a clara objetividade dos meios . (NOELLE-NEUMANN, 1995, p. 204).

A respeito da Espiral do Silêncio Antônio Hohlfeldt aponta na direção da hipótese como algo que deve ser melhor compreendida, pois elucida as formas como grupos de interesse se apropriam dos meios de comunicação e através deles dialogam com a sociedade a partir de orientações que visam atender sua própria agenda, seja ela explícita ou não.

A hipótese da Espiral do Silêncio é um campo de pesquisa que nos deve alertar para o fato de que todos os que trabalhamos com comunicação social não podemos ser nem preconceituosos nem ingênuos; a mídia, se não tem aquele poder absoluto que se lhe emprestou até a década dos anos 20, por certo possui uma força ainda de todo não dimensionada, graças às diferentes estratégias com que é sucessivamente apropriada por diferentes grupos, políticos ou não, em nossa sociedade. (HOHLFELDT, 2001, p. 240)

4.3 O conservadorismo nos meios de comunicação

Profundas alterações marcaram o Brasil de 1985 ao final da década de 1990, abrindo caminho à disputa pela hegemonia que as crises da Nova República tão bem revelaram. Nesse cenário de rearranjo das forças econômicas e das relações de poder, a grande imprensa nacional desempenhou relevante papel no que diz respeito à difusão dos princípios do novo consenso, pavimentando o caminho para as mudanças que viriam, sobretudo, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, de 1995 até 2002.

Buscando desvendar o papel dos meios de comunicação nesse período, Francisco Fonseca traça um panorama dos órgãos da grande imprensa nacional, a partir da análise dos periódicos Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil.

Assim, a grande imprensa é considerada, neste trabalho, a instituição que, nas sociedades complexas, é capaz de simultaneamente publicizar, universalizar e sintetizar as linhagens ideológicas. Isso porque a periodicidade diária (que lhe confere maior agilidade que as revistas semanais), com todo o aparato de manchetes, editoriais, artigos, charges, fotos, reportagens, dentre outros recursos, possibilita aos jornais uma influência sutil, capaz de sedimentar - embora de forma não mecânica - uma dada idéia, opinião ou representação. (FONSECA, 2005, p. 29).

Essa capacidade de influência que o autor atribui à imprensa, e que encontra paralelo na hipótese da Espiral do Silêncio, torna os meios de comunicação um “instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na vida social”, uma estrutura em que “se mesclam o público e o privado”, em que “os direitos do cidadão se confundem com os do dono do jornal” (FONSECA, 2005, p. 30). Trata os grandes jornais brasileiros como formadores de opinião, órgãos que veiculam idéias que pretendem modelar a opinião de seus leitores.

Segundo Francisco Fonseca, essa capacidade detectada na imprensa tende a se manifestar, invariavelmente, através da simplificação e vulgarização de temas. Seu objetivo seria a ausência de debate a respeito das pautas que os órgãos de comunicação consideram ofensivas ao seu espectro ideológico.

Com isso, intentou-se a sua divulgação - para conquistar adeptos - em detrimento, contudo, do aprofundamento do debate e da discussão, que, a rigor, inexistiram no período analisado por essa obra. Afinal, não apenas os grupos considerados adversários foram desqualificados como as idéias que professoram - em razão de estarem em campos ideológicos opostos ao da grande imprensa e portarem outros interesses - foram igualmente desconsideradas e estigmatizadas, o que implicou dar-lhes tratamento hostil, a ponto de considerá-los inimigos. Tal procedimento significa um espetáculo de autoritarismo. (FONSECA, 2005, p. 442).

Esse comportamento, segundo o autor, se deve ao temor de associação da grande imprensa com teses à esquerda. Trata-se da manifestação de uma visão de mundo patronal que busca a “defesa precedente da ‘ordem’ em relação aos direitos sociais e políticos dos trabalhadores” (FONSECA, 2005, 432).

Tudo isso demonstrou que, perfis histórico-editoriais e ideológicos à parte, o limite intransponível para todos os jornais foi (e ainda é) o conflito de classe. Daí a unanimidade quanto à rejeição radical às greves e a todas as expressões de conflito social; a pregação em prol da harmonia entre as classes e a demanda para que os conflitos se resolvam de forma “não conflituosa”, recorrendo à coerção estatal quando esses assim não ocorressem; e daí ainda o apoio à minimização do Estado nas relações econômicas conviver paralelamente ao apelo por sua intervenção nos conflitos sociais, justificando também a aplicação da legislação autoritária provinda do regime militar e mesmo a inscrição de “direitos restritivos” nos que tange à Ordem Social e, sobretudo ao exercício da greve. (FONSECA, 2005, p. 444).

4.3.1 Paralelos no passado

Cem anos antes, Jack London expressou opiniões semelhantes a respeito dos órgãos de imprensa. Em O Tacão de Ferro, os jornalistas em geral são retratados como instrumentos que servem aos desígnios da burguesia capitalista. Praticamente incapazes de relatar a verdade quando o tema são os trabalhadores e suas demandas, os membros da imprensa, na ficção de London, são o ponto mais baixo de uma corrente que mantém atado o proletariado.

Em determinada passagem de O Tacão de Ferro, Ernest Everhard, protagonista da história e alter-ego de Jack London, prevê que a imprensa, comprometida com o capital privado representado pelas empresas, será propositalmente imprecisa no relato de um discurso com traços socialistas realizado por um personagem da trama.

Nenhuma palavra do que ele disse será impressa. Você se esquece dos editores. O que determina o salário que eles recebem são as políticas que eles mesmos traçam, e essa política consiste em não dizer nada que coloque em risco o sistema. As idéias do bispo representam uma agressão contra a moral estabelecida. Foi uma heresia. Eles o retiraram do palanque para que não blasfemasse mais. Os jornais purgarão essa heresia no anonimato do silêncio. A imprensa norte-americana? É um parasita que engorda às custas da classe capitalista. Sua função é servir ao sistema moldando a opinião pública, e desempenha essa função muito bem. (LONDON, 2003, p. 95).

Ao mesmo tempo em que retoma conceitos da Espiral do Silêncio a respeito da poder da imprensa na formação da opinião pública, o trecho apresenta tese semelhante àquela defendida por Francisco Fonseca quando atenta para a rejeição temática diante da possibilidade do conflito social. Em passagem posterior, Jack London apresenta de que forma a imprensa age no sentido de desqualificar aqueles que considera inimigos dos interesses que defende, a partir da análise do destino do mesmo personagem atacado anteriormente.

Foi atacado sem piedade pela imprensa, em editoriais cheios de abuso, com acusações de anarquismo e insinuações de colapso mental. Esse comportamento por parte da imprensa capitalista não era novidade, contou-nos Ernest. Era costume, disse ele, enviar repórteres a todos os encontros socialistas para o expresso propósito de distorcer e relatar de maneira imprópria o que se dizia nesses encontros, com o objetivo de impedir que a classe média pudesse se afiliar ao proletariado. (LONDON, 2003, p. 129).

4.3.2 Semelhanças com a vida real

Jack London, o autor, e não um personagem de ficção baseado no próprio, foi alvo de semelhante tratamento por parte da imprensa. Em 1905, falando a um grupo de empresários, London defendeu abertamente a Revolução Socialista. Na ocasião, afirmou que seus interlocutores “tinham pouca leitura e ainda menor visão” (STONE, 1952, p. 198.) a respeito da classe trabalhadora e suas demandas. A resposta não tardou.

Até então, a Sociedade tinha insistentemente procurado atraí-lo, acoberta-lo, como um gênio literário da Califórnia. Dizia-se como desculpa: “O Socialismo é apenas a sua mania. Um pouco extremado, não resta dúvida. Mas é tão jovem, tão original! Todas essas teorias políticas não passam de fogo de palha. Acabam com o tempo”. Mas agora a coisa era outra. Todas as portas se trancavam diante dele. Não era mais convidado a chás mundanos nem a jantares de cerimônia, onde aparecia antes com a sua camisa branca de seda, a sua gravatinha borboleta e seu terno de linho bem engomado. Porque a “sociedade” descobrira afinal que ele falava sério quando dizia com tanta graça, naquelas mesas de banquete, que ela era uma classe de parasitas. (STONE, 1952, p. 199).

No mesmo ano foi lançado Guerra de Classes. London aproveitou-se da polêmica desencadeada em torno de seu nome pelas palestras defendendo o Socialismo para apresentar uma obra que condensa seu pensamento a respeito da evolução da doutrina e da maneira como ela era percebida pela população norte-americana graças à mediação da imprensa.

Quando eu era mais jovem, eu era olhado como uma espécie estranha de criatura, porque, na verdade, eu era socialista. Repórteres dos jornais locais me entrevistavam, e as entrevistas, quando publicadas, eram estudos patológicos de uma estranha e abominável espécie de homem.

O texto aborda a ausência de debate a respeito da doutrina Socialista na sociedade norte-americana devido ao silêncio de três instituições fundamentais na formação social a respeito do tema: a imprensa, a igreja e a academia.

Centrando a discussão no que tange os órgãos de comunicação, o texto de Jack London, publicado originalmente em 1905, aponta um comportamento também detectado por Francisco Fonseca em O Consenso Forjado. Ao passo que London enfrenta um clima de opinião que se recusa a apreender o conflito de classes na sociedade norte-americana, Fonseca denuncia a desconsideração e estigmatização de pontos de vista que divergem do conteúdo ideológico da chamada grande imprensa.

Apesar de seu otimismo constitucional, e porque o conflito de classes é uma coisa aborrecida e perigosa, o grande povo Americano é unânime em afirmar que não há conflito de classes. E por “povo Americano” se quer dizer as reconhecidas e autoritárias bocas do povo Americano, que são a imprensa, o púlpito e a universidade. Os jornalistas, os religiosos e os professores são praticamente uma voz única declarando que não há coisa como o conflito de classes ocorrendo agora, e um conflito de classes jamais ocorrerá nos Estados Unidos. E esta declaração continuamente constrói a aparência de uma multidão de fatos que impedem, não tanto sua sinceridade, como afirmam, especialmente, o seu otimismo .

Segundo Tarso Fernando Genro, os meios de comunicação são um dos campos de embate entre as classes dominantes e o movimento operário. É nele em que, enquanto o capital busca formas de acentuar a alienação, o proletariado visa encarar o enfrentamento ideológico com os valores globais do capitalismo. Trata-se, na visão do autor, uma disputa desigual, mas que não pode ser abandonada.

Para os intelectuais de vanguarda, hoje acresce-se à tradicional tarefa de sistematizarem e criarem, a partir de experiências do movimento operário, um combate pela organização de instituições político-culturais para discutir a hegemonia também num outro nível, a saber: no espaço em que os meios de comunicação, originários do capitalismo monopolista lançam a sua ética desagregadora pretendendo passar por universais os seus valores típicos. Além da disputa pela “opinião operária” devemos enfrentar a disputa desigual pela “opinião pública”, que principalmente nos momentos de evolução pacífica da luta de classes jogam um papel extremamente importante na luta política. (GENRO, 1987, p. 62).

A luta pelo fortalecimento da classe trabalhadora, na opinião de Tarso Fernando Genro, tem como fim a ampliação de sua influência na sociedade em geral. Para tanto, aponta dois caminhos possíveis, ambos tendo como princípio fundamental a utilização dos órgãos de comunicação.

A formação de referências políticas radicais, que abram trânsito nos órgãos da grande imprensa (rádio, jornais, TV), referências essas apoiadas na necessidade objetiva dos órgãos de imprensa de concorrerem entre si, torna-se uma tarefa de primeira grandeza. Estas referências culturais, políticas e intelectuais, que tanto podem ser pessoas quanto entidades, não substituem a imprensa operária, quer a de caráter formativo/organizativo, quer a de caráter agitativo, esta amparada na denúncia política e na disputa entre os valores do capitalismo e do socialismo revolucionário. Elas podem, porém, neutralizar, com meia dúzia de verdades, centenas de manipulações, jogando a máquina de manipulação burguesa contra a própria classe dominante. (GENRO, 1987, p. 64).

4.4 Ataque contra o silêncio

Se não tinha o propósito de jogar a máquina de manipulação burguesa contra a própria classe dominante, Jack Lodon ao menos acreditava que poderia fazer um bom trabalho na pregação do Socialismo. Não lhe escapava a certeza de que, mesmo polêmicos e ponto de partida para acirradas críticas nos órgãos de comunicação, seus discursos, palestras e textos contribuíam para a expansão de seu ideário no país modelo do Capitalismo, os Estados Unidos da América.

Sua percepção a respeito do comportamento social, fruto de ávidas leituras nos campos da política, economia e sociologia, apontavam para a necessidade de um texto forte, capaz de atingir a consciência embotada da burguesia para a miséria chocante que existia e se expandia na Londres de 1900.

Para tanto, produziu em O Povo do Abismo um tipo de reportagem que visava, mas do que dialogar com o leitor, despertá-lo. Não bastava que o leitor fosse informado, ele precisava ser conscientizado da situação que ocorria. Passando por temas como a alimentação, a taxa de mortalidade, as condições de higiene e a legislação aplicada aos moradores mais pobres de Londres, Jack London buscou cumprir esse objetivo.

Uma das situações que intrigou o autor era o fato de que, enquanto transitava como um marinheiro norte-americano enfrentando tempos difíceis em Londres, constantemente se deparava com pessoas dormindo, durante o dia, em parques, calçadas e qualquer lugar onde pudessem descansar por alguns minutos com um mínimo de conforto. Descobriu que havia uma lei que proibia os moradores de rua de dormir à noite. Aqueles que não conseguiam vagas no albergues noturnos, e eram muitos, ou não tinham condições de pagar uma cama, mesmo a mais imunda, e eram quase todos, precisavam vagar pela madrugada.

Naquele mesmo dia, a uma da tarde, fui ao Green Park e contei dezenas de pobres maltrapilhos dormindo na grama. Era domingo à tarde, o sol aparecia de forma intermitente, e os moradores bem-vestidos do West End, com suas esposas e filhos, ocupavam as ruas aos milhares, tomando um ar. Para eles não era agradável olhar para aqueles vagabundos horríveis, descabelados, sonolentos, e sei que os vagabundos, se dependesse deles, teriam preferido dormir bem na noite anterior. E assim, meu querido e bondoso povo, quando visitarem a cidade de Londres e virem esses homens dormindo nos bancos e na grama, pro favor não pensem que são criaturas preguiçosas, que preferem dormir a trabalhar. Saiba que os poderes constituídos os obrigam a perambular a noite inteira e que, durante o dia, ele não tem outro lugar onde dormir. (LONDON, 2004, p. 158).

Sobre as condições de vida dos moradores de rua, Jack London insiste na questão a respeito das oportunidades que tem os membros dessa população para descansar.

Para os bem-alimentados e inocentes, deixe-me explicar o que é um abrigo ou um albergue noturno. É um lugar onde os sem-teto, sem-cama e sem-tostão, se tiverem sorte, eventualmente podem descansar os ossos exaustos e pagar por isso no dia seguinte, trabalhando como operários em escavações, construções de estradas etc. (LONDON, 2004, p. 119).

A insistência pode ser observada não apenas no tema, mas também na forma de apresentá-lo. London não apenas fala aos londrinos aparentando maior propriedade sobre algo que ele, norte-americano, encontra, mas o faz como se os moradores da capital inglesa jamais, em outras condições, teriam ciência dos fatos que narra.

E há 35 mil deles, homens e mulheres, em Londres nessa noite. Por favor, não pense nisso quando for para a cama; se você for tão bondoso quanto deveria, talvez não consiga dormir como o faz toda noite. Para homens de 60, 70, 80 anos, mal-nutridos, sem carne e sem sangue, saudar o amanhecer sem ter tido a chance de se revigorar, passar o dia cambaleando numa busca insana por restos, com a noite inexorável novamente se aproximando, e fazer isso cinco dias e noites…Ah, gente bondosa e bem-nutrida, como é que um dia poderão entender? (LONDON, 2004, p. 128).

Jack London não acreditava que a imprensa poderia fazer bem o seu trabalho quando o objeto de uma reportagem eram os moradores de rua. Não fosse essa crença, não haveria necessidade de apresentação do tema aos leitores como algo estranhamente novo. Ainda que faça uso de dados apresentados pela imprensa londrina da época em suas pesquisas, em apenas um momento o autor explicita esse ponto de vista crítico a respeito da atuação dos órgãos de comunicação em O Povo do Abismo.

Tudo isso foi muito ruim para os proprietários, com certeza, mas, na pior das hipóteses, nenhum deles, sequer por uma refeição, ficaria sem comida ou bebida. E foi justamente a eles que os jornais dedicaram colunas e colunas, detalhando suas perdas pecuniárias por páginas sem fim. (…) Já os colhedores, eram como se não existissem. E ainda assim ouso afirmar que as diversas refeições perdidas pelo subnutrido Willian Buggles, e pela subnutrida senhora Buggles, e pelos filhos subnutridos dos Buggles, eram uma tragédia bem maior do que as 10 mil libras perdidas pelo senhor F. Além disso, a tragédia do subnutrido Willian Buggles podia ser multiplicada aos milhares, ao passo que a do senhor F. não podia ser multiplicada por cinco. (LONDON, 2004, p. 197).

A passagem narra os efeitos de uma tempestade sobre as plantações de frutas, e conseqüentemente, sobre o resultado da colheita. Os personagens em questão são Willian Buggles e sua família de colhedores, e o senhor F., um rico proprietário.

Permalink Não Há Comentários

London em Londres III - O Impérios dos Fatos e o Jardim da Imaginação

Junho 12, 2008 at 1:09 pm (Jornalismo, Literatura) (, , , , , , )

O Dicionário Eletrônico Michaelis de Língua Portuguesa define notícia como: “conhecimento, informação, novidade. Escrito de pouca extensão sobre um assunto qualquer”. A descrição é adequada para boa parte daquilo que se publica cotidianamente em jornais e revistas. Para avançar um pouco mais, apresenta-se o conceito de reportagem: “ato de adquirir informações para os periódicos. O serviço prestado pelos repórteres nos periódicos em que colaboram. As notícias que eles preparam para os periódicos”.

Comparadas ambas as definições dicionarizadas, fica-se com a sensação de que a primeira refere-se ao resultado da segunda. Combinando acepções, poderíamos ter que o serviço prestado pelos repórteres nos periódicos em que colaboram é um escrito de pouca extensão sobre um assunto qualquer.

Isso não deixa espaço, porém, para os trabalhos mais longos de reportagem, comumente publicados em revistas, e menos corriqueiramente em jornais. Uma definição mais ampla é concedida por Edvaldo Pereira Lima.

O instrumento básico para o relato jornalístico é a notícia, forma de comunicação que condensa a reprodução dos fatos sociais. Mas como há temas que requerem abordagem mais ampla, o jornalismo desenvolveu, ao longo do tempo, uma forma de mensagem mais rica, cujo teor procura redimensionar a realidade sob um horizonte de perspectiva onde não raro existem várias dimensões dessa mesma realidade. Essa forma é a reportagem, que nos casos mais felizes oferece, em torno do núcleo frio que marca a face árida de um acontecimento, todo um contexto embelezado pela dimensão humana, pela tradução viva do ambiente onde ocorrem os fatos, pela explicação de suas causas, pela indicação dos rumos que poderá tomar. (LIMA, 1993a, p. 10).

Tendo compreendido o que é uma notícia e o que é uma reportagem, passemos à análise a que esse trabalho se propõe, qual seja, a relação entre o trabalho de reportagem e a literatura, passando, necessariamente, pelo livro-reportagem, onde essa hibridização encontra terreno fértil.

3.1 Reportagem no Brasil: um breve histórico

O livro-reportagem é conhecido no Brasil como gênero híbrido entre o jornalismo e a literatura desde 1897. Neste ano, como correspondente do jornal Estado de São Paulo, Euclides da Cunha retratara o cenário da Guerra de Canudos em suas reportagens enviadas ao periódico. Uma coletânea que deu origem ao livro Os Sertões, publicado em 1902.

Não importa muito, do ponto de vista da observação de um processo no tempo histórico, que Os Sertões não sejam um livro-reportagem no sentido estrito do termo. Importa que tenha exibido algumas importantes possibilidades do tratamento jornalístico. Importa que, por analogia de raciocínio, tenha estado para o futuro desenvolvimento do livro-reportagem no Brasil assim como, digamos, Por quem os sinos dobram , tenha estado como estímulo para o jornalismo literário americano dos anos 40 ou 50. (LIMA,1995b, p. 163)

3.1.1 A Cidade Maravilhosa de João do Rio

Alguns anos após o lançamento de Os Sertões, surgiu no Rio de Janeiro um formato urbano do que seria chamado mais tarde de reportagem. Foi através das palavras do jornalista João Paulo Alberto Coelho Barreto, mais conhecido pelo seu pseudônimo João do Rio, que as transformações urbanas da capital entre 1900 e 1920 ganharam vida. João do Rio foi pioneiro em explorar uma nova forma de coletar de informações. Ele não somente costumava entrevistar as fontes, como também se dedicava a uma observação minuciosa da realidade. Duas novas técnicas que seriam amplamente utilizadas no jornalismo interpretativo no país a partir da década de 60.

A ampliação das informações imediatas (notícias) já se encontra nos três rumos hoje consagrados: o rumo da humanização (”Um mendigo original”), que individualiza um fato social por meio de um perfil representativo; o rumo da ampliação do fato imediato no seu contexto (a maior parte de suas reportagens sobre problemas sociais da época; embora a necessidade de opinar de vez em quando ou até freqüentemente, as matérias permanecem como reportagens mais do que como artigos opinativos, com juízo de valor); e o rumo da reconstituição histórica. Nesta última categoria de jornalismo interpretativo, o autor só toca de leve - são passagens curtas das reportagens, onde a erudição de bolso oferece alguns subsídios para completar a informação presente no seu lastro histórico. O fato significativo como método de trabalho é que João do Rio não se satisfaz com a notícia imediata, o telegrama esqueleticamente informativo. Lança-se na reportagem que pretende mais, vale-se da enquete para ampliar as possibilidades informativas. (MEDINA, 1993, p. 62).

3.1.2 O Cruzeiro

Após a Segunda Guerra Mundial, e com o fim do Estado Novo, a imprensa passou por um processo de desenvolvimento tecnológico acelerado. O que garantiu não só uma expansão dos recursos gráficos, mas também da própria reportagem.

Na década de 50 surge a primeira revista semanal brasileira - O Cruzeiro. Periódico merecedor de destaque por consolidar o gênero jornalístico da reportagem no Brasil, a revista O Cruzeiro não é merecedora de elogios quando são questionados alguns dos princípios éticos que orientavam membros proeminentes da redação.

Segundo Accioly Neto, diretor de redação da revista por mais de 40 anos, a primeira dupla de repórteres que se formou no Brasil não parecia ter muita preocupação com a veracidade do que era retratado.

…esses dois personagens extraordinários, (Jean) Manzon e (Davi) Nasser, formaram, como já disse, em O Cruzeiro uma dupla de grande fama, cuja filosofia podia ser resumida na seguinte frase: a verdade fica mais verdadeira quando exposta com uma razoável dose de fantasia. (NETO, 1998, p. 109).

Apesar da linha editorial que se preocupava mais com as figuras em destaque na época, do que com a realidade da população, a revista O Cruzeiro representou um marco na história da reportagem brasileira. Abriu um espaço até então inédito para a grande reportagem, além de ter atingido a tiragem de 850.000 exemplares nos anos 50, quando a população do Brasil na passava de 50 milhões. Sem falar de nomes como Ziraldo e Millôr Fernandes, que também tiveram passagem pela revista. Enfim, uma publicação que viu seus anos dourados e sucumbiu definitivamente na década de 70.

3.1.3 Realidade

Lançada em novembro de 1965 como a primeira revista brasileira de informação geral, Realidade foi publicada pelo Grupo Abril. O veículo surgido em um ambiente de rápidas mudanças políticas e de amadurecimento da atividade jornalística no país é classificado por Edvaldo Pereira Lima como a mais significativa experiência estilística vivida pelo jornalismo brasileiro.

O Brasil acabara de sair há pouco dos ‘50 anos em 5 de Juscelino’, tínhamos a nova Capital Federal em Brasília, a indústria automobilística já se implantara, o surto desenvolvimentista caminhava para o Centro-Oeste, a juventude optava por novas expressões artísticas na Bossa Nova, no Cinema Novo, na música popular brasileira, no tropicalismo e, menos sofisticadamente, na Jovem Guarda de Roberto Carlos. Fora, o mundo agitava-se com a continuidade da Guerra Fria, a corrida espacial, a rebelião hippie, as novas propostas de liberação sexual. E a nova audiência em constituição no Brasil queria compreender o país em mudança, os novos tempos, o planeta. (LIMA, 1995b, p. 168).

Realidade ocupa a lacuna deixada pela decadência de O Cruzeiro e pela falta de um texto contundente de sua maior concorrente, a Manchete de Adolpho Bloch. Mas a Realidade não tomou este espaço reproduzindo o modo de reportar das outras revistas até então existentes. Ao contrário, ela inovou e imprimindo características que até hoje inspiram repórteres no Brasil.

A universalidade temática é uma delas. Ao invés de se limitar aos personagens em destaque na mídia, como fazia freqüentemente O Cruzeiro, Realidade atribuía maior importância aos anônimos esquecidos no meio da multidão. Proporcionava a seus repórteres liberdade para a escolha da pauta, sempre demonstrando preocupação em não reportar somente o factual. Com isso, Realidade procurava fornecer um panorama contextualizado da contemporaneidade.

Outro aspecto é o avanço que a revista Realidade conquista no que se refere à documentação. Mesmo não tenha atingido o nível de experimentalismo alcançado pelo New Journalism , a revista Realidade representou o ápice da liberdade estética na história do jornalismo brasileiro. Até mesmo a falta de unidade de estilo contribuía para que cada profissional pudesse explorar sua expressão pessoal mais adequada a cada circunstância como constata Edvaldo Pereira Lima.

…por isso o texto literário valia. O texto onde cada profissional testava a sua força de expressão. Onde cada um manipulava como lhe aprouvesse os elementos da artesania literária emprestados à escritura do real contemporâneo. (LIMA, 1995b, p.173)

Apesar de ter estreado tantos elementos que influenciam até hoje os rumos da reportagem no Brasil, a revista não chegou a ocupar o espaço jornalístico específico em que o livro-reportagem pode atuar. O primeiro seria a dificuldade de realizar uma abordagem aprofundada de um único tema. A não ser nas edições especiais que traziam todas as matérias sobre o mesmo assunto, porém com enfoques diferentes. E a segunda seria derivada do formato reportagem-conto - adotado pela revista -, pois ele nem sempre é capaz de preencher todas as necessidades que o leitor tem para entender um assunto. Em outras palavras, por particularizar demais, quase sempre relegava o contexto geral essencial ao jornalismo interpretativo. Mesmo que tenha havido falhas, não se pode deixar de reconhecer a contribuição do veículo para a evolução da reportagem no Brasil, como bem coloca Edvaldo Pereira Lima.

Evidentemente não se trata de negar o papel importante de uma publicação desta natureza. Tem a sua função: ocupa um patamar superior aos periódicos convencionais. E por seu caráter tanto mais extensivo no plano do aprofundamento de abordagem quanto mais refinado no plano da proposta estética, contribui para que a audiência se acostume a produções jornalísticas nessa linha, fazendo com que uma parcela se interesse em consumir livros-reportagem que ofereçam uma modalidade de informação mais densa. Ao mesmo tempo, modelos como Realidade produzem o efeito benéfico de aperfeiçoar o domínio instrumental dos jornalistas que queiram explorar o vôo de altitude elevada do livro-reportagem. (LIMA, 1995b, p. 176).

3.2 O Livro-reportagem

Ao longo de suas duas obras tomadas como referência nesse trabalho, Edvaldo Pereira Lima aponta o livro-reportagem como um refúgio para o jornalista que busca escapar da imposição de padrões que assola a imprensa contemporânea. Segundo ele, são inúmeras as concessões que se deve fazer pelo repórter de um periódico até que uma história faça o caminho do bloco de anotações até a página impressa.

O livro-reportagem, por outro lado, carrega a marca do autor, estando à parte das limitações impostas pelas empresas jornalísticas e, portanto, livre para buscar experimentações capazes de estimular o leitor.

A resposta passa pelos dois princípios elementares: o livro-reportagem não estando, como não está, preso à rotina industrial dos veículos periódicos, tem o potencial, teoricamente, para se livrar da captação premida pelo tempo; estando liberto da objetividade reducionista e puramente tecnicista que habitualmente impera na imprensa regular, pode, em tese, experimentar novas formas de captação, expandir o leque de fontes de consulta, criar novas maneiras de interação entre o repórter e seus entrevistados, munir-se de instrumentos inovadores na observação do real em suas múltiplas complexidades, já que, de princípio, não há necessidade de se submeter a um “gosto médio”. (LIMA, 1995a, p. 84).

Jack London tinha experiência jornalística como correspondente de guerra. Quando decidiu iniciar a pesquisa que culminaria em O Povo do Abismo, estava a caminho da África do Sul. A parada em Londres tinha por objetivo entrevistar generais ingleses a respeito das batalhas que se desencadearam durante a Guerra dos Bôeres. (STONE, 1952, p. 162).

O contrato com a companhia Macmillan acabou desfeito, encaminhando o autor na direção do acalentado plano de observar a miséria de Londres em primeira pessoa. Sobre esse plano, tinha objetivos claros e metodologia simples, explicitas no prefácio de O Povo do Abismo.

As experiências relatadas nesse livro assaltaram-me durante o verão de 1902. Foi quando desci ao submundo de Londres com uma disposição mental melhor comparável a de um explorador. Queria ser convencido pela evidência de meus olhos, e não pelos ensinamentos de quem não havia visto, ou pelas palavras dos que tinham visto e ido até lá anteriormente.Também levei comigo alguns critérios simples para avaliar a vida no submundo: o que resultava em mais vida, saúde física e espiritual, era bom; o que significava menos vida, o que feria, apequenava e deformava a vida, era ruim. (LONDON, 2004, p. 65).

Ao tornar objeto de reportagem a população miserável de Londres, Jack London cumpre o que Edvaldo Pereira Lima considera uma das mais importantes funções do livro-reportagem, qual seja, penetrar em campos desprezados ou superficialmente tratados pelos veículos jornalísticos periódicos (LIMA, 1995a, p. 7).

Jack London tinha plena consciência de que escrevia sobre algo que não era do conhecimento do cidadão de Londres. Quebrar a invisibilidade dos miseráveis e a apatia do seu leitor o encaminhou na direção de seguidos momentos de “diálogo”. Momentos esses que, em mais de uma oportunidade, carregam um ácido tom de crítica a postura da “gente bondosa de Londres”.

E há 35 mil deles, homens e mulheres, em Londres nessa noite. Por favor, não pense nisso quando for para a cama; se você for tão bondoso quanto deveria, talvez não consiga dormir como o faz toda noite. Para homens de 60, 70, 80 anos, mal-nutridos, sem carne e sem sangue, saudar o amanhecer sem ter tido a chance de se revigorar, passar o dia cambaleando numa busca insana por restos, com a noite inexorável novamente se aproximando, e fazer isso cinco dias e noites…Ah, gente bondosa e bem-nutrida, como é que um dia poderão entender? (LONDON, 2004, p. 128).

A combinação do tema e da abordagem realizada por Jack London faz com que O Povo do Abismo se enquadre em duas das categorias propostas por Edvaldo Pereira Lima para definição dos tipos de livro-reportagem.

Livro-reportagem-retrato: Exerce papel parecido, em princípio, ao do livro-perfil. Mas, ao contrário deste, não focaliza uma figura humana, mas sim uma região geográfica, um setor da sociedade, um segmento da atividade econômica, procurando traçar o retrato do objeto em questão. Visa elucidar, principalmente, seus mecanismos de funcionamento, seus problemas, sua complexidade. É marcado, na maioria das vezes, pelo interesse em prestar um serviço educativo, explicativo. Por isso, trabalha a metalinguagem, na troca em miúdos de um campo específico do saber para um grande público não especializado. (LIMA, p. 45, 1995b).

E:

Livro-reportagem-denúncia: Com propósito investigativo, esse tipo de livro apela para o clamor contra as injustiças, contra os desmandos dos governos, os abusos das entidades privadas ou as incorreções de segmentos da sociedade, focalizando casos marcados pelo escândalo. (LIMA, p. 49, 1995b).

3.3 Além das Fronteiras

Como já foi observado anteriormente, Os Sertões delineou os primeiros traços do caminho que o livro-reportagem viria a percorrer anos mais tarde. Mas não foi apenas no Brasil que o livro-reportagem começava a dar seus primeiros passos. No hemisfério norte escritores como Charles Dickens, Mark Twain e George Orwell usavam artifícios do realismo social em suas peças literárias que contribuíram enormemente para aproximar o jornalismo da literatura e, conseqüentemente, a reportagem do livro. Um marco dessa trajetória foi o lançamento em 1919 de Dez dias que abalaram o mundo, um relato minucioso do jornalista americano John Reed sobre a Revolução Russa.

Infelizmente, o contexto social da primeira metade do século XX não era muito animador para o desenvolvimento do livro-reportagem. Nessa época, o jornalismo ainda era visto como atividade marginal, enquanto que a literatura de ficção era tida como nobre. Tal disparidade fazia com que escritores como Ernest Hemingway fizessem uso da primeira apenas como forma de aperfeiçoar suas habilidades narrativas, para então, se dedicar inteiramente a segunda como coloca Edvaldo Pereira Lima.

Se de um lado Hemingway contribuiu em alguma medida para a renovação estilística da reportagem, de outro parece-nos evidente que a sua atividade jornalística jamais foi um fim em si mesmo, e sim, sempre um meio para alavancar sua produção primordial, que era a literatura de ficção. Mesmo que, hipoteticamente, desejasse se dedicar integralmente ao jornalismo, é possível que não encontraria, nesse campo condições para se perpetuar tanto quanto conseguia na literatura. Contextualmente, no bojo dessa preferência residia o fato de o jornalismo permanecer como espaço marginal da atividade moderna da escrita. O reconhecimento artístico continuava reservado à prosa e à poesia de ficção, talvez ao ensaio. Em ebulição, porém, o jornalismo teria ainda de re-elaborar e projetar, para níveis superiores, sua contínua interação simbólica com a arte literária. (LIMA, 1995b, p. 146).

O valor atribuído ao livro-reportagem começou a ser alterado a partir do fim da Segunda Guerra, quando surgem reportagens como Hiroshima de John Hersey, publicada originalmente em 1946 ocupando uma edição inteira da revista The New Yorker, e mais tarde sendo editada como livro-reportagem.

3.4 O “New Journalism”

Percebendo a existência do espaço vazio deixado pelos escritores de ficção da época, os jornalistas americanos dos anos 60 começam a penetrar na realidade social para contar o que estava acontecendo no país. Começam pelos features (matérias frias) nos jornais diários, passando então para as edições dominicais dos mesmos, crescendo até atingir as revistas independentes como The New Yorker e Esquire para finalmente desdobrarem seus talentos sobre o veículo mais adequado para renovação estilística proposta por estes representantes do New Journalism, qual seja, o livro-reportagem.

E assim em 1966, o jornalista e escritor Truman Capote publica a primeira grande obra do New Journalism em formato de livro-reportagem: A Sangue Frio. O livro, resultado de uma investigação de vários meses do autor sobre a chacina de uma família, já nasceu como um clássico. Da mesma geração de Capote, pode-se destacar ainda jornalistas como Tom Wolfe, autor de O teste do ácido do refresco elétrico, Norman Mailer e Gay Talese, entre outros autores que também contribuíram de forma significativa para o reconhecimento do livro-reportagem.

3.4.1 A reportagem feita nas ruas

Reportagem é sujar sapatos, afirma Humberto Werneck no posfácio de Fama & Anonimato, de Gay Talese. Representante do estilo de reportagem que veio a receber o nome de New Journalism, Novo Jornalismo, ou Jornalismo Literário, o norte-americano se notabilizou por uma série de características: abominava o uso de gravadores, fazia anotações apenas quando considerava essencial, e passava todo o tempo que julgava necessário em companhia de quem pretendia entrevistar, conversando, inclusive, com seus familiares, amigos, subalternos e associados. Esse período poderia ser de dias ou até mesmo semanas, dependendo da quantidade de dados que Talese considerasse necessários para conclusão de seu trabalho.

Tom Wolfe foi um dos mais experimentais repórteres que atuou a serviço do New Journalism. Ele escreveu o seguinte a respeito das primeiras reações que o estilo causou na imprensa e na literatura, especialmente devido aos seus métodos de apuração e desenvolvimento das histórias.

O tipo de reportagem que faziam parecia muito mais ambicioso também para eles. Era mais intenso, mais detalhado e sem dúvida mais exigente em termos de tempo do que qualquer coisa que repórteres de jornais ou revistas, inclusive repórteres investigativos, estavam acostumados a fazer. Eles tinham desenvolvido o hábito de passar dias, às vezes semanas, com as pessoas sobre as quais escreviam. Tinham de reunir todo o material que o jornalista convencional procura - e ir além. Parecia absolutamente importante estar ali quando ocorressem cenas dramáticas, para captar os diálogos, os gestos, as expressões faciais, os detalhes do ambiente. A idéia de dar a descrição objetiva completa, mais alguma coisa que os leitores sempre tiveram de procurar em romances e contos: especificamente, a vida subjetiva ou emocional dos personagens. Por isso foi tão irônico quando os velhos guardiões tanto do jornalismo quanto da literatura começaram a atacar esse Novo Jornalista como “impressionista”. As coisas mais importantes que se tentava em termos de técnica dependiam de uma profundidade de informação que nunca havia sido exigida do trabalho jornalístico. (WOLFE, 2005, p. 37).

Essa não exigência a que Wolfe se refere é justamente pelo que clama Lima, ao afirmar que a imprensa executa de forma indigente o trabalho de apuração necessário para que se constitua uma reportagem digna do nome. Mais do que validar a piada com forte conotação crítica de que a imprensa reporta até enchente por telefone, a postura afirma as características de reportagem que Jack London apreendeu.

Contudo, além disso, a imprensa executa insuficientemente outra etapa importante de construção do trabalho de reportagem: a captação. Isto é, o sair a campo, entrevistar pessoas, observar cenas e cenários, entrar em ambientes, consultar fontes registradas de informações; relacionar-se com o mundo, enfim, para descrevê-lo. (LIMA, 1995a, p. 24).

Não deixa de ser irônico, portanto, quando nesse contexto - a análise da obra em que Jack London viveu entre mendigos para escrever uma reportagem - que Wolfe compara o trabalho do bom repórter com a indigência.

A gentil tradição da não-ficção é resumida pela expressão “o ensaio polido”. Bater pernas, “cavar”, fazer reportagem, especialmente do tipo Vestiário é… bem, coisa que não está à altura da dignidade. Isso coloca o escritor numa posição tão esquisita. Ele não só tem de penetrar no ambiente das pessoas sobre quem escreve, mas também de se escravizar de seus horários. O trabalho de reportagem pode ser tedioso, confuso, fisicamente sujo, cansativo, até perigoso. Mas o pior de tudo, do ponto de vista gentil, é a contínua postura de humilhação. O ponto de partida do repórter é invadir a privacidade de alguém, fazer perguntas que não tem o direito de esperar que sejam respondidas - e, assim que se rebaixou a esse ponto, transformar-se em um suplicante de canequinha na mão, esperando que venha a informação ou que aconteça alguma coisa, esperando ser tolerado o bastante para que consiga o que precisa, adaptando sua personalidade à situação, insinuando-se, servindo, fazendo o que for preciso, suportando insultos, abusos, até choques ocasionais na eterna busca da “história” - comportamento que chega bem perto do servilismo ou mesmo da mendicância. (WOLFE, 2005, p. 72).

Truman Capote foi extremamente sagaz ao descrever seu modo de ver as relações que se estabelecem entre o fazer jornalístico e literário. Partidário da causa que defendia a possibilidade de ser o jornalismo uma manifestação artística tão elaborada quanto o ensaio, o conto ou a novela, o autor norte-americano afirmou sobre uma série de seus textos, enquadrados na classificação New Journalism.

Tudo que consta aqui é factual, o que não significa que seja a verdade, embora dela se aproxime o quanto pude conseguir. O jornalismo nunca pode ser totalmente puro - e nem a câmera, pois afinal a arte não é água destilada: impressões pessoais, preconceitos e a seletividade subjetiva comprometem a pureza da verdade cristalina. (CAPOTE, 2006, p. 10).

A colocação encaminha diretamente para a série de perguntas formuladas por Cristiane Costa e que lhe serviram de ponto de partida para Pena de Aluguel. Buscando saber se o ofício de jornalista era prejudicial ou não à criação literária, realizou extensa pesquisa com jornalistas-escritores brasileiros. Mais importante do que o resultado da empreitada são algumas perguntas que seu desenvolvimento encoraja:

Quem tem melhores condições para contar a história: quem a vê a partir de um ângulo privilegiado ou quem a vive na própria pele marcada pela tortura, marginalidade, engajamento, patrulhismo ou cooptação? O que acontece quando os mesmo personagens ocupam as duas posições? (COSTA, 2005, p. 15).

London acreditava que a imersão no cenário era essencial para captura correta dos humores que apenas um nativo do local visitado poderia corretamente apreender. Para que esse processo fosse efetivo, se fez passar por um dos habitantes do East End. Sua primeira impressão durante o trabalho de reportagem foi causada pela imediata depreciação pessoal produzida pela queda de qualidade das roupas que utilizava. “A jaqueta rasgada e de cotovelos puídos era o emblema e o anúncio da minha classe, que era a classe deles”. (LONDON, 2004, p. 77). A mudança obrigou o escritor a permanecer mais atento nas ruas, já que os condutores de carruagem se esforçavam pouco ou nada para poupar a população de baixa ou nenhuma renda de um atropelamento potencialmente fatal.

Mas tudo isso tinha suas compensações. Pela primeira vez fiquei cara a cara com as classes baixas inglesas e as conheci de perto. Quando vagabundos e trabalhadores, nas esquinas e botequins, conversam comigo, conversavam como um homem conversa com outro, e conversavam como homens comuns deveriam conversar, sem a menor intenção de obter alguma coisa em função do que falassem ou do modo como falassem. (LONDON, 2004, p. 78).

O pano de fundo que inspira e impulsiona tanto o jornalismo, quanto a crônica e o romance é a crua e nua realidade, com todas as cores e dores que lhe são peculiares. Essa inspiração tem sentido: nada, nem a mais desvairada ficção, é mais fascinante, mais rica e mais pródiga de sentidos, sentimentos, significados, revelações e paixões do que a vida real.

Isso, unido aos preceitos do romance realista, que apresenta uma narrativa preocupada com a análise psicológica, fazendo crítica à sociedade a partir do comportamento de determinados personagens e possui forte caráter documental, sendo retrato de uma época, é a própria descrição de O Povo do Abismo.

Lima (1995a, p. 23 e 37), condena o processo de captação insuficiente da reportagem nos periódicos contemporâneos. Segundo ele, entrevistar pessoas, observar cenários e relacionar-se com o mundo é nada menos do que fundamental para o trabalho do jornalista. Menezes segue o mesmo tom, mas advoga em favor do processo secreto de captação, no qual o repórter não se identifica como tal.

Há quem ache que o cronista deve sair às ruas e se identificar como se fosse jornalista-cronista às pessoas que encontra e que podem ser temas de suas crônicas e ouvi-las e entrevistá-las formalmente. Discordo. O cronista tem que ter cara de paisagem, agir anonimamente, incógnito. Só assim conseguirá chegar perto do mundo real, e vê-lo, santíssima pretensão, exatamente como ele é. Ou parece ser. Acho que, muitas vezes, a percepção da presença de jornalistas em determinados locais pode mudar os rumos de determinada história. (MENEZES, 2002, p. 167).

Em uma única passagem de O Povo do Abismo Jack London revela o resultado obtido após, diante de dois moradores do East End, identificar-se como um estudioso em busca de informações a respeito do local e das pessoas que nele habitam.

Claro que tive que explicar que era apenas um pesquisador, um estudante, procurando descobrir como se vivia na outra metade do mundo. Eles imediatamente se fecharam como ostras. Eu não era da espécie deles - minha fala mudara, o timbre da minha voz era diferente; em resumo, eu era superior. Eles tinham um espírito de classe extraordinário. (LONDON, 2004, p. 134).

Ao longo de todo O Povo do Abismo Jack London não poupa descrições repletas de adjetivos e subjetividade. A aproximação com os moradores do East End se reflete de forma acentuada em todo o texto. Como veremos no capítulo seguinte, trata-se de uma marca do autor visando encaminhar o leitor para fora da Espiral do Silêncio que se forma quando o tema são as classes menos favorecidas de qualquer sociedade.

Autor de Hiroshima, um dos livros-reportagem mais famosos, John Hersey foi na direção contrária de London em relação ao método de abordagem, como afirma o posfácio Jornalismo com H, de Matinas Suzuki.

Humanizando o que havia ocorrido por meio do relato de seis sobreviventes - duas mulheres e quatro homens, sendo um deles um estrangeiro no Japão -, ele aproximou a abstração ameaçadora de uma bomba atômica à experiência cotidiana dos leitores. O horror tinha nome, idade e sexo. Ao optar por um texto simples, sem enfatizar emoções, ele deixou fluir o relato oral de quem realmente viveu a história. O tom da reportagem é um prolongamento da dor silenciosa que os sobreviventes de Hiroshima notaram nos conterrâneos feridos. Quarenta anos depois, Hersey escreveu a Paul Boyer que “o estilo direto foi deliberado, eu ainda penso que estava certo ao adotá-lo. Um maneirismo de alta literatura ou a demonstração de paixão poderiam ter me conduzido à história como mediador; eu queria evitar essa mediação, assim a experiência do leitor poderia ser o mais direta possível”. (SUZUKI, 2002, p 168).

Sobre essa fronteira cinza entre o fazer jornalismo e fazer literatura no fazer jornalístico, Rildo Cosson afirmou:

Nos limites do império dos fatos com o jardim da imaginação, o romance-reportagem constrói o seu lugar como gênero híbrido. Reunindo nessa condição de gênero a força política do jornalismo com a força poética da literatura, o romance-reportagem demanda que se aceite a fronteira não como limite, barreira, separação, mas sim como um território de trânsito, espaço de contato, lugar de suspensão e negociação de identidades. Do mesmo modo, requer que a contaminação das fronteiras do jornalismo com a literatura por ele proposta seja considerada como um modo legítimo de atribuir sentido e organizar a experiência em narrativas que interpretam e traduzem o que somos e o mundo em que vivemos. (COSSON, 2002, p. 70).

3.5 A busca por dados

Como já foi dito anteriormente, Jack London não poupou os moradores do East End de Londres das descrições mais brutais. Aproveitando-se da ignorância da população abastada da capital inglesa a respeito de seus irmãos menos afortunados, o autor de O Povo do Abismo leva seus leitores a um novo cenário através de termos que emulam o preconceito de classe.

No fundo do Abismo estão os fracos, os estúpidos e os imbecis. Quando se reproduzem, a vida que nasce deles é tão precária que forçosamente perece. Estão sujeitos às engrenagens do mundo, do qual não desejam nem estão aptos a participar. Além dos mais, o mundo não precisa deles. Há muitos homens muitos mais aptos, que escalam a ladeira íngreme e lutam furiosamente para não escorregar. (LONDON, 2004, p. 98).

Mas Jack London, tal qual um repórter, não poderia se dar ao luxo de permanecer restrito apenas ao registro daquilo que seus olhos testemunhavam. Mesmo desfrutando então de alguma reputação devido a obras como O Filho do Lobo e O Chamado Selvagem, London ainda não tinha consolidado a fama que faria dele o escritor mais lido de seu tempo. E mesmo isso não seria o bastante.

O autor precisava do amparo de dados para que suas afirmações não perdessem o valor e fossem qualificadas como denúncias vazias propagadas por “um anarquista, um incendiário” (STONE, 1952, p. 199).

Para tanto, suas pesquisas abarcaram jornais, artigos, documentos oficiais.

Ao longo de O Povo do Abismo London espalha os frutos desse trabalho. Um deles diz respeito a um jornal londrino. Sob a manchete Autonegligência, o texto dá conta do falecimento de uma senhora chamada Elizabeth Crews. Segundo a notícia, “a ambulância e o cocheiro tiveram que ser desinfetados após a remoção”, pois “a morte se deveu a uma infecção sangüínea causada por escaras, ocasionadas por autonegligência e pelo ambiente sujo”. (LONDON, 2004, p. 99).

Que uma velha senhora de 77 anos de idade tenha morrido de AUTONEGLIGÊNCIA é a maneira mais otimista possível de encarar o fato. A culpa por ter morrido foi da velha morta e, uma vez identificada a responsabilidade, a sociedade segue satisfeita, para resolver outras questões. (LONDON, 2004, p. 100).

Em outra passagem, London se debruça sobre a forma como eram ministradas sentenças, tendo como base relatórios da Polícia Metropolitana de Londres. A partir do que reportou, ele afirma que “numa sociedade francamente materialista e baseada na propriedade, não na alma, é inevitável que a propriedade seja exaltada em detrimento da alma, e que os crimes contra a propriedade sejam considerados mais sérios que crimes contra a pessoa”. (LONDON, 2004, p. 211).

Distrito Policial de Kirkcaldy. Perante o corregedor Dishart. Simon Walker, declarado culpado por agredir um homem atingindo-o e derrubando-o no chão. Foi uma agressão intencional, e o magistrado descreveu o acusado como um grande perigo para a comunidade. Multa de 30 xelins . (LONDON, 2004, p. 212).

E:

Distrito Policial de Eckington. Perante o major L. B. Bowden e os senhores R. Eyre, H. A. Fowler e o Doutor Court. Joseph Watts, acusado de roubar nove samambaias de um jardim. Um mês de prisão. (LONDON, 2004, p. 214).

Segundo Jack London, em uma passagem em que não identifica a fonte de seus dados:

…na periferia de Londres há 1.292.737 pessoas que recebem 21 xelins ou menos por semana para manter toda a família, (e) é preciso lembrar que tratamos aqui de uma família de cinco vivendo com 21 xelins semanais. Há famílias maiores, há inúmeras famílias que vivem com menos do que isso, e há muitos trabalhadores irregulares. (LONDON, 2004, p. 229).

São pessoas apenas à espera do momento da morte, sem condições para nada além dessa sobrevivência de expectativa mórbida.

Os números são impressionantes: 1,8 milhão de pessoas em Londres na linha de pobreza ou abaixo dela , e outro 1 milhão vive separado da miséria apenas por um salário semanal. Em toda a Inglaterra e no País de Gales, 18% de toda a população depende de caridade pública e, em Londres, de acordo com estatísticas do Conselho do Condado de Londres, o número chega a 21%. Entre isso e ser um miserável com uma mão na frente e outra atrás vai uma grande diferença, mas mesmo assim Londres ajuda 123 mil pobres, mais do que a população inteira de muitas cidades. Uma pessoa em cada quatro, em Londres, morre em instituições de caridade, enquanto 939 em cada 1.000, no Reino Unido, morrem na pobreza. Oito milhões simplesmente lutam para não morrer de fome, e 20 milhões ainda não vivem em situação confortável, na acepção mais simples da palavra. (LONDON, 2004, p. 261).

No capitulo em que trata do confinamento de populações indesejadas em guetos, Jack London faz uma reflexão a respeito de suas descrições e o distanciamento crítico necessário para sua realização. Por um instante demonstra temor diante de possíveis “generalizações sobre a miséria disseminada entre os moradores do gueto”. (LONDON, 2004, p. 243). Para amparar suas impressões, recorre a testemunhos anteriores, como o de Frederick Harrison, um filósofo social com pendores para o positivismo e obras publicadas ao longo das últimas décadas do século XIX.

Para mim, pelo menos, a sociedade moderna representa um avanço praticamente insignificante em relação à escravidão e à servidão, caso a situação da indústria continue desse modo, em que 90% dos verdadeiros produtores de riqueza não tem uma casa que possam chamar de suas; não tem um pedaço de terra, ou ao menos um cômodo que lhes pertença; não tem bens de nenhuma natureza. (…) Se essa é a organização definitiva da sociedade moderna, então a civilização é também uma maldição que se abate sobre a grande maioria da humanidade. (LONDON, 2004, p. 243).

Em outra passagem, quando descreve a migração de desempregados de Londres na direção da cidade de Kent para a colheita do lúpulo que alimentará a produção cervejeira, London empilha termos para descrever os protagonistas da marcha: “podridão”, “exército de almas penadas”, “curvados”, “castigados”, “repulsiva prole do subterrâneo”, “vigarice encarquilhada” e “pegajosa execração”. (LONDON, 2004, p. 195). Após, ele se pergunta.

Há exagero nesse retrato? Depende. Para quem vê e pensa a vida em termos de números e estatísticas, certamente há exagero. Mas para quem vê e pensa a vida em termos de humanidade e desumanidade, ele não é excessivo. Tais hordas de miséria deplorável e bestial não justificam a existência do dono de cervejaria milionário que mora num palácio do West End. (LONDON, 2004, p. 195).

Jack London não esperava que O Povo do Abismo, pela sua temática, tivesse grande repercussão. Além da editora Macmillan, que o publicou originalmente, alguns jornais socialistas norte-americanos demonstraram interesse em reproduzir a obra mediante a cessão gratuita dos direitos para tanto. London tinha como propósito uma empreitada mais pessoal do que comercial. Desvendar aquele mundo era parte de seu interesse sobre o socialismo e o homem, além de ser parte do processo de coleta de dados para O Tacão de Ferro, obra que já planejava. Mas, apesar da despretensão, do tema espinhoso e da possibilidade de que a sociedade britânica visse com maus olhos a intromissão de um ianque na suas entranhas, O Povo do Abismo foi um grande sucesso.

O Povo do Abismo, lançado nesse mês, estava obtendo louvores fora do comum. A crítica acentuava que era um livro sem igual como documento sociológico, destinado a confundir e dar o que pensar a uma civilização pretensiosa e displicente. Dizia ainda que, se não tivesse escrito nada mais do que essa obra, mesmo assim Jack London merecia a fama literária. A própria imprensa inglesa, da qual se poderia esperar que o tratasse como um intruso desclassificado, não lhe negou justiça. Embora o acusasse de exagero e de haver cortado brutalmente o assunto, reconhecia que ninguém conseguira chegar tão perto quanto ele do coração dos bairros miseráveis de Londres. (STONE, 1952, p. 185).

Por acreditar mais na humanidade do que em números, e pela capacidade de chegar aos miseráveis de uma forma que a imprensa da época parecia não ser capaz, Jack London escreveu O Povo do Abismo. Seu trabalho teve, entre suas intenções, o desejo de romper a Espiral do Silêncio erguida em torno da população marginalizada de Londres. A maneira como essa empreitada foi levada adiante será analisada no próximo capítulo.

Permalink Não Há Comentários

London em Londres II - Marinheiro a Cavalo

Junho 10, 2008 at 2:39 pm (Jornalismo, Literatura) (, , , , , )

Nascido em São Francisco, em 12 de Janeiro de 1876, Jack London cresceu em um mundo que testemunhava a mudança. Os dias de uma economia dominada pela agricultura eram substituídos pelo mundo da máquina, da fábrica, e do capital financeiro.

Filho de um astrólogo, William Henry Chaney, Jack foi batizado pela mãe John Griffith Chaney. Manteria esse nome ao longo de apenas oito meses, até Flora Wellman se casar com John London. A vida do casal não foi fácil, passando por dificuldades financeiras e seguidas falências e mudanças de moradia. Já na fase adulta, Jack London lembraria desses dias atribulados da infância como um período assustador e de amarga pobreza.

O espírito de Jack London era como um sismógrafo que registrava o mais ligeiro tremor. E tremores não faltaram, pois os treze anos que se seguiram na vida da família foram gastos nas privações e em sucessivos fracassos. Disse muitas vezes que nunca teve propriamente uma infância e que as primeiras recordações de sua existência eram sombreadas pela pobreza. E não havia nada que apagasse essa sombra. (STONE, 1952, p. 36).

Sua família estava continuamente em movimento para encontrar subsistência. Aos dez anos Jack London vendia jornais para suplementar a renda magra dos familiares. A vida de trabalho duro, porém, não lhe roubou a atenção da leitura, prazer que descobriu cedo, ainda que tivesse tempo restrito para dedicar à atividade.

Tinha assim pouco tempo para ler, mas, em compensação, começava a aprender diretamente as lições da vida, brigando com outros jornaleiros, assistindo as rixas de botequim, entrando em contato com a pitoresca realidade do cais de Oakland , onde se viam embarcações de toda a natureza, navios de pesca à baleia, cargueiros que vinham dos mares do sul, barcos de contrabandistas de ópio, veleiros americanos, juncos chineses, barcos gregos, escunas, chulapas, lanchas de polícia marítima etc. E da mesma forma que aos dez anos saiu da casa dos London para viver no mundo de aventuras dos livros, agora, aos treze, resolveu fugir de novo, ganhando o caminho das docas e do mar. (STONE, 1952, p. 39).

Transformou-se em “uma besta de carga” que trabalhou em uma fábrica de conservas, uma fiação de juta, uma lavanderia, e em uma usina de força da estrada de ferro de Oakland. Trabalhou por dez centavos à hora, de treze a quatorze horas por dia, sete dias por semana. Nesse período, aos dezessete anos, recebeu uma lição que seria fundamental para os rumos que sua vida viria a tomar, como anota Maria Sílvia Betti na introdução de O Povo do Abismo.

A procura por um melhor salário o levou a empregar-se numa usina de força da estrada de ferro de Oakland, onde passou a trabalhar alimentando as fornalhas com carvão. Tal foi a eficiência demonstrada por ele na execução da tarefa, que dois outros operários do período diurno e um do noturno foram imediatamente demitidos após a sua contratação, sendo que um deles veio a cometer suicídio em decorrência da depressão pela perda do emprego. Esse acontecimento levou Jack London a repensar seriamente sua relação com o trabalho e a desenvolver o mais absoluto horror pelas condições de exploração e de miséria vigentes. Sua análise da situação o fez concluir que dispunha de duas alternativas diante do sistema: matar-se ou tornar-se um vagabundo. E sua escolha recaiu sobre a segunda. (BETTI, 2004, p. 14).

2.1 O Socialismo de Jack London

Curiosamente, a vida continuou lhe prestando lições, pois antes de seguir o caminho da vagabundagem, imaginava que os vagabundos o eram por gosto, porque queriam a malandragem e a aventura sem responsabilidade ou porque eram preguiçosos, estúpidos ou beberrões. Mas, embora acreditasse que muitos desses homens seriam sempre elementos inadaptáveis sob qualquer ordem econômica, não tardou a ver que a maioria era de gente tão boa quanto ele próprio - marinheiros e operários naufragados na vida, postos fora de forma pelo excesso de trabalho, privações e acidentes; velhas bestas de carga como ele fora, criaturas que rodavam nas estradas sem um cobertor, sem roupa para mudar, sem ter o que comer. Quando batia de porta em porta, pedindo comida em companhia desses pobres diabos, ou quando tiritava de frio com eles nos vagões de bagagem ou nos bancos de jardins, London ouvia histórias de vida que tinham começado sob promessas tão risonhas quanto as da sua, e que terminavam tropeçando de degrau em degrau até o plano mais baixo da sociedade.

O tema é ponto de partida para o conto Como me tornei socialista. Nele, após uma temporada na prisão por vadiagem, London reflete a respeito do período em que viajou clandestinamente em trens pelos Estados Unidos durante a juventude, vivendo na companhia de homens muito parecidos com ele.

Lá me deparei com todas as espécies de homens, muitos dos quais já haviam sido, uma vez, tão aptos, ousados e aventureiros quanto eu; homens do mar, homens das armas, trabalhadores, todos exaustos, comidos e desfigurados pelos esforços, pelas asperezas e acidentes imprevistos, agora deixados de lado por seus senhores como velhos cavalos. Eu me arrastei pelas ruas e mendiguei nas portas dos fundos das casas junto com eles, sentindo os mesmo calafrios em vagões e parques da cidade, ouvindo aqui e ali histórias devidas que tinham começado tão auspiciosas quanto a minha, com estômagos e corpos tão bons ou talvez até mais fortes que os meus e que findavam ali, ante os meus olhos, na destruição do Abismo Social. (LONDON, 1997, p. 112).

Eram homens cujos ofícios tinham desaparecido na mudança dos tempos e que não souberam encontrar novas condições de vida ou a elas se adaptarem. Homens suplantados pelas máquinas, substituídos por mulheres e crianças que recebiam salários mais baixos, postos fora do emprego pela crise e nunca mais recolocados. Gente que preferia vagabundear de terra em terra a ficar parada no desconforto dos cortiços. Eram homens que tinham feito greve contra o excesso de trabalho e baixo salário e viram os seus empregos tomados por furadores de bloqueios, ficando na lista negra dos patrões.

London viu que dentro de cinco, dez ou vinte anos, também teria o lugar tomado por outro homem mais jovem e mais forte, também ficaria fazendo parte da miséria dos cortiços e da vagabundagem da estrada. Duas coisas se firmaram em sua cabeça: primeiro, que teria de educar-se para poder trabalhar com o cérebro e não com os músculos, mais fáceis de serem substituídos; segundo, que devia existir qualquer coisa de errado num sistema econômico que tirava de um homem os melhores anos da sua vida produtiva, para depois atirá-lo no desemprego e na miséria, criando uma tragédia para o indivíduo e a sua família, brutalidade e desperdício para a sociedade. Sobre isso, anos mais tarde, ele registraria nas páginas de O Povo do Abismo:

Quando há mais homens do que trabalho a ser feito, ocorre a inevitável peneiragem. Em cada ramo da indústria, os menos eficientes são passados para trás. E sendo passados para trás por causa da ineficiência, não podem crescer, apenas decair, e continuam decaindo até atingirem seu nível adequado, um lugar no sistema industrial onde são eficientes. Segue-se, portanto, e isso é inexorável, que os menos eficientes têm de decair até o fundo, onde mora a destruição na qual definham miseravelmente. (…) Aqui, então, temos a construção do Abismo e das ruínas. Por todo o sistema industrial está em curso uma eliminação constante. Os ineficientes são extirpados e jogados para baixo. (LONDON, 2004, p. 221).

O caminho de Jack London na direção do socialismo dos livros começou cedo, por volta dos dezessete anos. Suas primeiras leituras tiveram forte conotação utópica.

Estudando as obras de Bebeuf, Saint-Simon, Fourier e Proudhon, Jack ali encontrou os primeiros ataques contra a propriedade privada e a primeira diferenciação classes econômicas. (…) Mas também anotou que esses precursores, embora tivessem preparado o caminho para a revolução, não tinham sido capazes de criar um mecanismo por meio do qual viesse a instituir-se o Estado socialista. Esperavam que os patrões dessem o socialismo aos operários pela bondade cristã de suas almas… (STONE, 1952, p. 77).

Foi um viajante que teria lhe dado a primeira lasca de informação a respeito do Manifesto Comunista, de Karl Marx. O livro iluminou seus pensamentos, pois continha aquilo que London considerou serem os instrumentos para a construção do Estado socialista.

Jack observou em seu caderno: “Toda a história da humanidade tem sido a História das lutas entre exploradores e explorados; a história dessas lutas de classe mostra a evolução da civilização econômica da mesma forma que os estudos de Darwin mostram a evolução do homem. Com o advento do industrialismo e da concentração de capitais atingiu-se um estágio social em que os explorados não podem emancipar-se da classe dirigente sem com isso, e de uma vez por todas, emancipar a sociedade em geral de explorações futuras, de opressão, de diferenças e lutas de classe”. (STONE, 1952, p. 78).

2.2 O papel do Socialismo em sua obra

Esse conjunto de leituras encaminhou Jack London na direção do socialismo. Isso fez com que ele se juntasse a um grupo de estudiosos na cidade de Oakland. Ele viria a ser conhecido como “o menino socialista de Oakland” (STONE, 1952, p. 83). Eram intelectuais, teóricos não diretamente envolvidos na luta de classes, pois nenhum trabalhador se havia ainda juntado ao partido. Embora grato pelo bom acolhimento e pela instrução que ali encontrava, Jack não podia crer que o socialismo pertencesse aos intelectuais. Acreditava que pertencia aos operários e que devia surgir uma nova etapa no desenvolvimento da civilização.

Em O Tacão de Ferro, obra que une ficção científica e polêmica social ao tratar das ações de um grupo de proletários buscando alcançar a Revolução Socialista nos Estados Unidos da América, Jack London coloca na boca de um personagem aquela que é sua opinião a respeito da apropriação da doutrina por parte de intelectuais que pouco ou nada conhecem a classe operária.

Sejam fiéis ao salário e ao aluguel; guardem, em suas prédicas, os interesses de seus patrões, mas não se dirijam à classe operária para servir-lhe de falsos guias. Os senhores não conseguiriam estar nos dois campos ao mesmo tempo. A classe operária tem-se virado muito bem sem os senhores; e, podem acreditar, ficará muito bem assim. E, além disso, ela se dá melhor sozinha do que com os senhores. (LONDON, 2003, p. 30).

Publicado originalmente em 1908, O Tacão de Ferro - título que referencia o instrumento que a elite capitalista utiliza para controlar o proletariado - retoma alguns dos pontos que Jack London já havia abordado em O Povo do Abismo.

As pessoas que tentam ajudar! As suas obras sociais, missões, demonstrações de caridade, e todo o resto, são embustes. Ainda que bem-intencionados, seus projetos são concebidos equivocadamente. Essas pessoas pensam na vida a partir de um juízo malfeito sobre a vida dos pobres. Não entendem o West End e, mesmo assim, vão para o East End como se fossem professores e sábios. (…) Como disse alguém, fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas. (LONDON, 2004, p. 310).

É interessante perceber como o homem Jack London precisa lutar contra um dilema interior. Ao passo que percebe no Socialismo uma possibilidade para a salvação do outro, deseja o conhecimento e o sucesso que o levariam acima da planície degradada da pobreza. Nos primeiros trabalhos de Jack London é clara uma filosofia individualista. Em seu coração e simpatias, era um socialista; não poderia esquecer-se dos sofrimentos de seu passado. Mas nas ações que se esforçou para levar adiante, era um individualista. Ele não poderia esquecer-se de suas realizações. Durante toda a vida ele buscou conciliar essas filosofias se opondo.

Esse dilema, porém, não o impediu de escrever sobre e para a classe trabalhadora com precisão que viria a ser reconhecida. Em 1929, a publicação New Masses, voltada para a classe operária, escreveu o seguinte a respeito do autor, já treze anos após a sua morte:

Um escritor proletário não deve utilizar apenas a sua vida proletária como material; a sua obra deve arder com o espírito da revolta. Operários que lêem, lêem Jack London. É o único autor que todos tem lido, a única experiência literária que todos tiveram em comum. Trabalhadores de fábricas, de fazendas, marinheiros, mineiros, jornaleiros, já o leram e lêem de novo. É o escritor mais popular da classe operária norte-americana. (STONE, 1952, p. 153).

A vida entre operários lhe valeu a experiência que, aliada à capacidade intelectual, concebeu mais de cinqüenta livros ao longo de vinte anos de produção literária contínua. Identificado com essa parcela da população, Jack London trouxe suas mazelas à tona por meio da literatura realista na virada do século XIX para o XX.

Essa aproximação leva Maria Sílvia Betti a pontuar as diferenças entre Jack London e seus predecessores dentro do estilo literário realista norte-americano. Stephen Crane e Frank Norris eram estranhos nos submundos da sociedade em que London cresceu e amadureceu física e intelectualmente.

Embora realista, como Crane e Norris, London diferencia-se de seus antecessores por dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar, pelo fato de ter experimentado na carne a realidade da miséria tanto do trabalhador explorado como do morador de rua e do imigrante e, em segundo, pelo fato de ter sido, durante grande parte de sua vida, um militante fervoroso da causa socialista, que abraçou ainda adolescente e defendeu até pouco tempo antes de sua morte prematura, aos 40 anos de idade. Ao contrário do que ocorreu com tantos outros escritores, a opção de Jack London pelo socialismo não proveio dos contatos literários ou intelectuais, e sim de sua vivência da condição proletária, da fome e da falta de perspectivas de subsistência. Foi isso que lhe deu elementos para encontrar no socialismo um importante instrumento de análise e de crítica das condições vividas e documentadas em seus escritos. (BETTI, 2004, p. 10).

Munido da experiência e dos dados que acumulou ao longo de toda a vida e matinha organizado em extensos fichários de obras anotadas, Jack London encaminhou-se na direção do que sabia ser o mais profundo abismo social conhecido. O mais acabado retrato do fracasso capitalista: o East End de Londres.

Sua história de vida combinada à disposição pessoal em lançar-se em todo o tipo de aventura forneceu-lhe material bruto para um tipo de narrativa que ao mesmo tempo em que atendia a um público preexistente, afeito a narrativas exóticas e romanescas, abria perspectivas para a captação de novos leitores, atraídos pelos aspectos de denuncia social e pelo realismo de expressão, conforme aponta Irving Stone.

Passou como um marinheiro americano que deixara o navio. Tornou-se mais uma vez o marinheiro Jack, representando tão facilmente o papel como se nunca tivesse sido outra coisa na vida. Não era nenhum estranho, nenhum pesquisador que olhasse academicamente, de alto a baixo. Era um homem como os outros homens da zona, um marujo que andava mal de vida. O pessoal de East End aceitou-o, deu-lhe confiança, conversou com ele. E o que pode aprender no meio desse rebotalho humano está nas páginas de O Povo do Abismo, livro ainda atual, vigoroso e verdadeiro, uma das obras clássicas do mundo sobre a sorte dos miseráveis. (STONE, 1952, p. 163).

Sobre O Povo do Abismo, Maria Sílvia Betti escreveu o seguinte:

…O Povo do Abismo é sem sombra de dúvida um livro que coloca de forma muito clara a necessidade de se realizar a crítica do sistema capitalista dominante e de fazê-lo a partir do olhar dos explorados. Ainda que este fosse seu único mérito, ele já justificaria plenamente o convite que o livro faz ao leitor contemporâneo de mergulhar no abismo social do East End e de flagrar alguns aspectos alarmantes da exclusão social que continuam sendo dolorosamente atuais. (BETTI, 2004, p. 56).

Esclarecida a infância e adolescência de trabalho duro que levaram Jack London a forjar seu caráter e encaminhá-lo na direção da doutrina socialista, no próximo capítulo vamos analisar de que forma O Povo do Abismo foi escrito. Para isso, levaremos em conta as técnicas de reportagem jornalistica empregadas na obra, bem como vamos explorar a zona cinza que alguns autores afirmam existir entre o jornalismo e a literatura.

Permalink Não Há Comentários

London em Londres I - Introdução

Junho 9, 2008 at 3:33 pm (Jornalismo, Literatura) (, , , , )

No ano de 1902, o escritor Jack London se dirigiu até o coração da miséria londrina para descobrir como viviam, se é que o faziam, as criaturas mais pobres do país mais rico do mundo. Entre sua chegada aos bairros que formavam o East End e o fim de suas pesquisas, três meses se passaram. Nesse período, o autor reuniu material para o livro que viria a batizar de O Povo do Abismo.

O resultado do trabalho de Jack London é uma longa reportagem. Para sua concepção, o escritor não apenas entrevistou, fotografou e comparou dados. Ele viveu com os habitantes do East End. Não encarnou um acadêmico com olhar superior de analista, mas retomou o papel de marinheiro norte-americano passando por tempos difíceis em uma terra de reis e rainhas. Não precisou compor um personagem, apenas trouxe à tona as memórias de sua juventude. Dessa aproximação resultou o material necessário para um livro que tem o autor e todos os miseráveis de Londres como personagens.

Ao longo de O Povo do Abismo Jack London apresenta “onde”, “como” e “por que” - as clássicas perguntas do jornalismo - os moradores do East End comem, dormem, trabalham, se relacionam e sobrevivem. Explicita seus desesperos e suas pequenas satisfações. Apresenta como vêem o mundo e de que maneira se tornam invisíveis a ele. Em pouco mais de duzentas e cinqüenta páginas o leitor se depara com reportagem, opinião e crítica. Puro jornalismo!

Mas Jack London era um escritor, ainda que tenha atuado como repórter em mais de uma oportunidade. Suas raízes estavam fincadas no “jardim da imaginação”, e não no “império dos fatos”, segundo as definições criadas por Rildo Cosson (2002, p. 57). Escritor profissional desde os vinte anos, encontrou na literatura realista o seu espaço. Através de relatos vigorosos da vida em ambientes inóspitos, se tornou o autor mais popular e mais bem pago do mundo nas primeiras décadas do século XX.

O colorido das histórias que escreveu se deve especialmente ao toque autobiográfico de sua produção. Diversos de seus livros são versões romanceadas de acontecimentos que o próprio vivenciou. Suas primeiras obras se caracterizam pela união de entretenimento com relato de viagem e contato com ambientes exóticos.

Mas a vida de Jack London, e por conseqüência sua obra, não foram apenas influenciadas pelo seu gosto pela aventura. Muito cedo ele se descobriria socialista. E se não tinha o conhecimento da letra revolucionária na adolescência, tivera desde a infância experiências que moldaram um caráter que, já na fase adulta, viria a descobrir nos livros uma doutrina compatível.

O Povo do Abismo é o livro que inaugura uma vertente da obra de Jack London que atingirá seu ápice em O Tacão de Ferro. Neste, o autor utiliza-se de uma combinação de ficção e extensa pesquisa para contar a história de um grupo articulando a revolução socialista nos Estados Unidos da América. No primeiro, London realiza um trabalho igualmente extenso de reportagem para demonstrar o que a civilização está fazendo com os seus integrantes, por motivos diversos, menos eficientes. E com isso, busca conscientizar para a necessidade da revolução socialista.

A veemência de certos argumentos, a agressividade de outros, iremos ver, demonstram o entusiasmo do autor pelo tema. E nubla a sua visão para os fatos em si, temor manifesto em mais de uma oportunidade. Nessas ocasiões, London dá voz a terceiros que antes dele realizaram trabalhos semelhantes. As fontes se somam e traçam um panorama mais preciso dos fatos.

London queria ver, sentir, experimentar. Segundo o autor, a realidade precisa ser apreciada para ser corretamente apresentada para a população bem alimentada e vestida que lerá sua obra. Analisar o resultado dessa proposta é o objetivo deste trabalho, tendo como base o que London deixou registrado nas páginas de O Povo do Abismo.

O primeiro capítulo trata da vida de Jack London, especialmente no que diz respeito aos seus rumos na direção do Socialismo. A importância de tal abordagem se justifica diante da, já citada, forma como a literatura produzida pelo autor se apropriava de acontecimentos de sua vida.

O segundo capítulo irá buscar uma an