The Truth's For Sale

Linha da Vida – Cena 2

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 23/07/2013

Os pulmões inflam-se com dificuldade, num movimento quase esquecido. Está nu, deitado sobre um colchão fino. Conforme movimenta-se, espantando aos poucos o formigamento dos músculos ainda adormecidos, velhas molas protestam.

Está coberto de viscosidade escura.

Olha para o próprio corpo, naquele quartinho escuro em lugar nenhum, sem fazer ideia de quem seja.

Com esforço a musculatura dorsal se retesa. Braços, antebraços e mãos tentam se coordenar em uma coreografia quase epilética, até que, após algum tempo, estes seres desgovernados conseguem se entender e içar o tórax para além do decúbito dorsal.

As mãos apalpam a barriga, sentindo a gosma negra que a impregna. Qualquer ser humano reagiria com nojo ou asco. Ele? Não… Desconhece ambos, assim como desconhece a sensação escorregadia ao friccionar os dedos besuntados.

– Medo

Ele murmura conforme contempla a escuridão.

Algo que se parece com um homem desperta. Falta-lhe um olho. Faltam-lhe lembranças. Imerso, a mais tênue agitação basta para romper seu confinamento membranoso.

O útero artificial se rompe. O líquido amniótico se espalha.

Ofegante sob a lâmpada amarela, mal consegue acreditar no que o velho espelho tem a mostrar.

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Changeling: The Lost – Alienados em definitivo

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 15/05/2013

Como todo narrador já deve ter experimentado, algumas histórias nunca chegam ao fim. Alienados será uma dessas.

Depois de prelúdio e doze capítulos, eu tenho certeza de que tomei decisões que tornaram o avanço da crônica nebuloso demais para manter o meu próprio interesse nela, especialmente tendo em vista o tempo de dedicação reduzido. Apesar disso, todos os méritos para o Lucas, que fez um excelente trabalho como protagonista solitário de tudo o que criamos juntos até aqui.

Abaixo, algumas anotações. Nem todas elas farão sentido, mas é uma tentativa de preservar um material que, sem publicação, certamente se perderia.

Gracias aos leitores, em especial aos que fizeram comentários ou enviaram mensagens privadas.

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Changeling: The Lost – Democracia e outros Monstros

13º Capítulo da Alienação

Finalmente irá acontecer a votação que decidirá o destino dos caminhos do Banhado. Até o momento em que o primeiro voto for pronunciado, nenhum dos presentes terá segurança quanto ao resultado. Antes que os presentes pronunciem sua escolha, os dois postulantes terão a oportunidade de sustentar seus pontos de vista.

O Antiquado faz uma declaração focada no desenvolvimento de uma comunidade na Ruína, algo apenas possível após os caminhos do Banhado serem resguardados. Ele vê o transtorno e a dificuldade de locomoção como um preço pequeno a se pagar. Segundo o Antiquado, o desejo de Juliano Terceiro é o de simplesmente retomar seu poder fazendo uso das vantagens que o Banhado proporciona, não havendo um senso coletivo nele. Ele não revalará os meios que deram acesso ao poder que lhe permitirá controlar a Mascote, mas concorda em posteriormente submeter essa autoridade à votação.

Juliano Terceiro é mais direto. Ele assume que deseja sim retomar o controle do Maria Degolada, e que o Banhado é fundamental nesse aspecto. Contudo, afirma que ao cortar caminhos estarão sendo também cortadas as possibilidades de que outros encontrem o caminho de casa. Votar no que propõe o Antiquado é pensar apenas nas próprias necessidades em detrimento daqueles que não tiveram a sorte de fugir, e isso aproxima todos ali dos carcereiros.

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Changeling: The Lost – Com o que sonham as mães

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 18/02/2013

12º Capítulo da Alienação.

Eleuthério deixa o Hospital Moinhos de Vento sob a fria brisa noturna. Otávio Clemente não pode ajudá-lo a partir de agora. A promessa feita à Deise diz repeito unicamente a si próprio. Para alcançar os sonhos de sua mãe, é necessário encontrar um lugar seguro no Banhado.

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Os túneis verdes formados por espinhos e vegetação entrelaçada são cada vez mais familiares. As trilhas antes alienígenas agora apontam caminhos e revelam referências. Não é o suficiente para Eleuthério sentir-se à vontade, mas é o bastante para aliviar a permanente tensão que o acompanhou desde as primeiras vezes aqui.

A falsa segurança se dissipa no odor de fumaça.

Não há chamas visíveis ou crepitar. Eleuthério permanece imóvel. Escuta alguém embrenhar-se entre os espinhos e desaparecer. Só então avança, agora em passos rápidos.

Diante dele, um dos caminhos mais largos do Banhado, a menos de vinte minutos da Ruína, encontra-se bloqueado. Vinhas e galhos de toda a vegetação que cresce naquele pântano onírico se entrelaçam, criando uma massa coesa e impenetrável. É como se o verde buscasse curar a ferida escura marcando onde o fogo lambeu. Colhida na reação do Banhado, uma garrafa plástica recende gasolina.

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Changeling: The Lost – Convicção e outros Vínculos

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 29/10/2012

11º Capítulo da Alienação.

Dias dedicados ao exercício de certas convicções. Assim Eleuthério procede no contato com os outros como ele. São muitos em Porto Alegre. O bastante para que seja incerto o resultado da divergência que tem em Juliano Terceiro e O Antiquado sua personificação. Alinhado ao pensamento do antigo dono do Maria Degolada, Eleuthério não abriu mão do senso crítico. As passagens do Banhado devem permanecer abertas aos que fugirem, assim pensa ele; sua obstrução em nada impediria que outras fossem escavadas. Até onde testemunhou, o poder dos carcereiros é apenas limitado pela amplitude de seus desejos. Mais do que a oposição de ideias, percebe a disputa entre Terceiro e O Antiquado pela liderança desta pequena comunidade, uma lacuna ante o papel de conselheiro que o Dr. Quimera escolheu para si.

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É começo da madrugada e ele está novamente no Parque da Redenção. No bolso, as páginas escritas por Ulisses. Já há algumas noites espera pela sorte de reencontrar Lucia. O acaso apenas lhe sorri, contudo, quando reúne coragem o bastante para deixar os pés seguirem até os arredores onde a viu pela primeira vez. O local de onde emergiu do Banhado.

Está sentada em um banco de pedra, sob um solitário facho de luz. Apesar de abatida, não descansa. Lucia espera.

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Changeling: The Lost – Encontros & Encruzilhadas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 31/08/2012

Décimo Capítulo da Alienação.

Eleuthério segue por uma trilha desconhecida do Banhado. Avança sem dificuldade, apesar dos pés encharcados. O espaço é o bastante para mantê-lo longe dos espinhos, mas não o suficiente para que alguém ande ao seu lado.

A ponte é feita de velhas cordas e madeira desgastada. Não mais do que duas dúzias de passos bastam para se chegar ao outro lado. Bem no meio da travessia, vê a si próprio segurando-se à borda. Não há temor nem esforço para erguer-se. Brumas escondem o que vem após a queda.

– Você já está condenado. A única salvação é decidir quem salvar.

A voz solitária daquele espectro ganha a companhia de murmúrios. Todas as pessoas que Eleuthério conheceu recentemente e lhe são caras, e também aquelas cujo afeto tornou possível que encontrasse o retorno por entre os espinhos, penduram-se às margens.

Vai primeiro na direção das crianças. Claudio e depois Amanda.

– E quem condenar.

Desperta com o zumbido do interfone.

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Changeling: The Lost – Olhar de Quimera

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 29/06/2012

Nono Capítulo da Alienação.

Na tarde de hoje, Eleuthério esteve em meu escritório. Ao que parece, adotou em definitivo o novo nome. Uma menina estava sob seus cuidados: Amanda. Tem cerca de onze anos. Saudável, ainda que um pouco retraída. É mais do que se pode dizer da maioria dos que recém deixaram o Banhado.

A chegada de Eleuthério foi inesperada e também inoportuna. Em minha companhia estava O Antiquado. Expunha seus planos. Ganhavam em grandiloquência na medida em que se acumulava a poeira que dele se desprende sem cessar.

Eleuthério relatou coisas preocupantes. Amanda foi resgatada quando ele buscava seu filho, Claudio. Os dois, de certa maneira, pareciam atrelados ao raptor de Eleuthério. A respeito da entidade, disse algo interessante. “Ele parece não levar ninguém contra vontade e, de fato, jamais se esforçou para impedir qualquer fuga”.

O Antiquado foi bastante rude ao acusar Eleuthério de ingenuidade. Não acredita que os seres além do Banhado façam algo que possa ser reconhecido como bondade, no que concordamos. Mas o guarda-livros, que tanto valoriza o passado, parece ter-se esquecido como é o período logo após o retorno, repleto de erros de avaliação.

A respeito dos planos do Antiquado, eles podem modificar completamente o modo como vivemos. Deseja destruir os caminhos do Banhado que trazem até aqui, à exceção de um. Este seria guardado pela Mascote. Garante ter meios de executar a segunda parte da ideia. Para a primeira, precisa da concordância e auxílio de boa parte de nós.

Tal ideia impediria que mais pessoas fossem levadas, mas também tornaria a locomoção discreta pelos caminhos do Banhado algo impossível. E colocaria nas mãos do Antiquado um poder extraordinário. Ficou evidente que o cão Ótimo Máximo e o Elo Perdido desempenharam papel recente no intento. Ainda há muito a se esclarecer.

Eleuthério acompanhou apenas parte da conversa. Tem preocupações diferentes, ainda que nada ordinárias. Claudio, seu filho,viveu brevemente experiência muito semelhante ao rapto. É justo pensar que o menino tenha sido afetado. O mais provável é ter adquirido a capacidade ver o mundo do mesmo modo que Eleuthério, eu e os outros vemos. Como sua família preencherá as lacunas dessa estranha história é outro ponto a se considerar. Há ainda o Espantalho, que em breve receberá alta do São Pedro e vai juntar-se a este núcleo de perturbações, com resultados imponderáveis.

Concordei com o pedido de tomar conta de Amanda. O fiz para impedir que os fardos que Eleuthério carrega façam dele um problema. Imagino que a partir de agora ele consiga tomar as decisões que o tragam para a sua nova família. Contudo, não vejo dias de harmonia no futuro imediato.

Changeling: The Lost – Sonhos de Criança

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 22/05/2012

Oitavo Capítulo da Alienação.

É uma procissão curiosa aquela. Através dos caminhos cada vez mais estranhos do Banhado, avança uma dúzia de ex-pessoas mais dois que nunca o foram. O raptor sem nome tem no colo o bebê Espantalho. O nina como qualquer pai faria a qualquer filho. Ao procurar pontos de referência naquele caminho em permanente mutação, Eleuthério percebe os olhares de desconfiança e admiração de seus silenciosos companheiros de caminhada.

Apenas Ulisses se aproxima. O adolescente tem traços lívidos, olhos vermelhos e movimentos febris.

– Por que tu foi embora? Lá a gente tem tudo!
– Tinha uma coisa que esse lugar não podia me dar.
– Eu odiava as coisas como eram antes. Agora eu sou feliz. Eu nunca vou voltar.
– Tudo bem. Mas tu tem que ter certeza de que essa escolha é só tua.
– É claro que… Sai daqui, Amanda! Isso é conversa de adulto.

Eleuthério, quando ainda se chamava Claudio e já tinha planos de fugir, foi apresentado a Ulisses e a toda avidez e agressividade que haviam dentro dele. Mas agora há algo mais ainda.

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Changeling: The Lost – Motivos singelos

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 19/04/2012

Sétimo Capítulo da Alienação.

Eleuthério está na sala de espera de um consultório. Pacientes de olhares perdidos usam gesso e têm sinais de lacerações. A luz oscila constantemente. Toda vez que isso acontece, as cadeiras são ocupadas por novas pessoas.

– Esperávamos pelo senhor.

O médico o conduz até um ambiente do qual, através do vidro, pode-se ver a sala cirúrgica contígua. Uma equipe de três médicos dá início aos procedimentos. No abdome dilatado do paciente é feito um corte de vinte centímetros. Eletrodos são posicionados em suas têmporas. Por um instante, Eleuthério pode ver as feições de Claudio. Então, a luz oscila e tudo é escuridão.

Um dos médicos tem o recém-nascido nos braços e um sorriso nos olhos. Leva-o até próximo do vidro. Sobre a mesa de aço inoxidável, o corpo de Claudio é coberto por uma mortalha.

A criança é então oferecida a alguém que aguarda na escuridão, além do que as luzes da sala cirúrgica permitem ver.

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Estrela está parada diante de Eleuthério. Tem meia dúzia de frutos verde-alaranjados nas mãos.

– Me desculpe, eu apaguei por um instante.
– Sonhou?
– Sim. Foi estranho.
– Sempre é esquisito. Ainda mais quando é aqui.
– Tinha a ver com meu filho.
– Vamos em frente. Come um desses, vão te fazer bem. O despertador parou de tocar já tem um tempo.
– Tu disse que foi algo que…
– Sim, eu coloquei no menino, no apartamento. Não quando te encontrei. Da outra vez. Pra me avisar. A gente não sabe o que abriu a passagem no Banhado. E ele podia passar por acidente pro lado de cá.

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Promethean: The Created – Transmutations

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 12/04/2012

Lista altamente simplificada dos principais poderes dos Promethean.

Alchemicus, das substâncias materiais.

* – Aperfeiçoa a forma física de objetos – Sem rolagem
* – Revela os componentes de objetos – Inteligência + Ofícios
** – Enfraquece objetos – Sem rolagem
** – Fortalece objetos – Sem rolagem
*** – Dissolve ao toque – Sem rolagem
*** – Transforma um objeto em outro – Azoth + Ciência
**** – Deforma e remodela objetos – Azoth + Ofícios
**** – Faz perdurar os efeitos de Alchemicus – Sem rolagem
***** – Faz da carne do alvo pedra – Inteligência + Ofícios – Vigor
***** – Controla a carne morta – Azoth + Ocultismo

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A Vigília – Roteiro 2.2 – Incursão

Posted in Cinema, RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 24/02/2012

1 – Ext. – Ermos – Noite

Alice levanta-se e olha ao redor. Busca qualquer indício da presença de Davi. Os faróis do carro estão ligados; projetam um círculo de luz ao redor de Alice. Ela vasculha as imediações. A arma ainda manchada de sangue pende como um peso em sua mão. Ela caminha até a margem da luz, onde então a escuridão se torna inexpugnável. Lança olhares ao redor. Segura a arma com ambas as mãos, desajeitada. Ensaia um passo hesitante e não avança.

Correndo em direção à fonte de luz. Alice se detém por um instante, e então se aproxima do próprio carro. Tem a arma ainda respingada de sangue em uma das mãos. Com a outra, abre o porta-malas e procura por uma lanterna. Ao encontrá-la, a testa rapidamente.

Alice se dirige até o carro de Davi. Abre a porta e senta-se no banco do motorista. Olha a arma em sua mão, suja de sangue. Ela segura o volante. Permanece um instante em silêncio, encarando o prédio iluminado pelos faróis. Ela está suada e abatida. Recobrando-se, percebe que as chaves permanecem na ignição. As toma. Faz o mesmo com o celular deixado sobre o banco do passageiro.

Após desligar os faróis do veículo e trancá-lo, podemos vê-la, à distância, com a única fonte de luz do ambiente nas mãos, rumando na direção do prédio.

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