The Truth's For Sale

Mago: A Cruzada dos Feiticeiros – O Colar de Inês – Parte II

Posted in O Jogador, RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 04/12/2017

Aconteceu quando o abrigo improvisado sob a chuva já se mostrara insuficiente para lhes garantir qualquer possibilidade de repouso. Entre os três, Nuno era o único até então capaz de ouvir o som reiterado das entranhas da terra: dois ribombares e um retinir. Mas foi Lopo, em muito excedendo a proposta de Urkaim para imposição da vontade sobre a matéria, que abriu o caminho. Um túnel até profundezas desconhecidas punha-se diante dos três.

Aquela viagem, vista em retrospecto, destilara o que seria a existência de Nuno Monteiro dali por diante.

Tivera início de maneira a clamar à desconfiança. Parecia-lhe pouco natural que fosse um servo identificado da Coroa a lhes entregar animais, condução e mantimentos para uma tarefa a ser desempenhada sem o conhecimento de D. Afonso IV.

Mais tarde, à mercê da garoa premente e do balouçar do carroção na Estrada Real, o antigo pajem contemplara o mundano ao revisitar os trajetos percorridos a mando dos Álvares Pimentel, na busca banal por cartas, livros e documentos.

Havia ainda os novos companheiros, cujo contato ainda breve evocara apenas o misterioso e o diáfano. Era um desafio a certas concepções que sempre tivera por verdades reconhecer no estrangeiro – saído dos confins do Principado de Moscou e educado como estivador, caçador e cocheiro – o Desperto, ou Iluminado, segundo dizia ele, a lhe desvendar os primeiros segredos da nova existência. O outro viajante não seria mais fácil de compreender do que Urkaim. Tinham entre si o vínculo formado naturalmente entre aqueles que apreciam a companhia da poeira e do bolor típicos das bibliotecas de então. Contudo, Lopo pouco se interessara em levantar o nariz dos livros. As mãos queimadas, agora protegidas por luvas, sugeriam mais sobre si do que as escassas palavras que dividira.

Foi após serem forçados a deixar a estrada principal, numa dessas metáforas cuja falta de sutileza em nada contribui para sua imediata compreensão, que o mundo no qual se inserira involuntariamente começaria a expor suas estranhezas.

Lá embaixo encontraram uma espécie santuário. Um líquido espesso gotejava para acumular-se numa cavidade artificial, lançando luz azulada sobre a antiquíssima estátua representando um homem com a cabeça de um lobo. Sem entradas ou saídas, o local era extraordinário em todos os seus aspectos, tal qual seus guardiões.

Eram três, de feições lupinas aterrorizantes à semelhança do ídolo de pedra. Portaram-se feito selvagens e bandoleiros, despojando Lopo, Urkaim e Nuno de suas provisões e expulsando-os como a invasores de um solo sagrado. Se não foram vítimas de presas, o foram da própria ignorância ante o insólito.

A caminho da Quinta dos Namorados, Nuno ponderava a respeito de decisões futuras, sua aparência trivial como tomar um desvio no trajeto diante de si e suas possíveis consequências, muito além de meros dissabores e desassossego.

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