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Mago: A Cruzada dos Feiticeiros – O Colar de Inês – Parte III

Posted in O Jogador, RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 18/12/2017

75157eeb1d0511a46d073772233f3d9dJá há alguns dias designado à exígua biblioteca da Quinta dos Namorados, Nuno Monteiro cogitava qual artifício seria o mais apropriado para aproximarem-se de Inês de Castro, a quem ele e seus companheiros haviam sido designados como protetores. Urkaim recebera como tarefa o manejo de animais e a lida com o campesinato, enquanto Lopo tinha para si toda a burocracia daquele pequeno enclave de aparente tranquilidade, uma anomalia em meio à reverberação produzida pela relação escandalosa entre Dona Inês e o infante D. Pedro, prometido a outra mulher.

No domingo, à vista da meia centena de servos da Quinta, João e Miguel apresentaram-se, mãos dadas com a mãe, para a consagração matinal. Com seis e quatro anos, trouxeram consigo a ideia que Nuno buscaria levar adiante: era necessário que alguém se encarregasse de sua instrução.

Nuno ainda teve, naquela manhã, a possibilidade de travar breve conversa com o padre responsável pela celebração. Estava curioso a respeito da arquitetura da capela. Não era uma história bíblica retratada em seus vitrais, mas uma epopeia romântica. Outra extravagância acintosa acerca da relação de Pedro e Inês.

Ao que parecia, apenas Nuno se incomodava com a circunstância pouco cristã que determinava o enlace do casal. Aos servos da Quinta soava muito mais abominável que seu futuro Rei tivesse se enamorado de uma espanhola, sendo os dois filhos fora do casamento uma questão meramente circunstancial. Os mexericos, a bisbilhotice e os olhares de reprovação davam o tom do convívio ali.

Inês revelou conhecimento de tal circunstância na primeira ocasião em que Nuno teve a oportunidade de falar-lhe em particular. Ainda que demonstrasse indiferença à situação – nada lhe aconteceria enquanto estivesse sob a proteção de seu amado –, a franqueza despertou a honestidade de Nuno, confessando estar ali, como seus companheiros, com o intuito de prevenir qualquer mal contra ela. Entre palavras não ditas, Nuno compreendeu que Inês depositava grande confiança no padre que visitara a Quinta. Ela, por sua vez, concluiu que os três recém-chegados eram enviados de Pedro.

Naquela noite, a sutil malícia que Nuno, Lopo e Urkaim vinham captando afligiu toda a Quinta dos Namorados. A vítima foi uma menina, filha de uma das cozinheiras, surpreendida e apunhalada na garganta, descoberta por Nuno com sangue ainda a preencher ladrilhos.

A convulsão fomentada na propriedade pela descoberta do corpo impediu que fossem sentidas as ausências de Urkaim e de Inês de Castro. Ela dirigira-se ao convento nas proximidades após deixar a Quinta furtivamente, sendo acompanhada à distância com igual discrição. Era aguardada pelo mesmo padre que celebrara a missa na propriedade. Um padre capaz, para a aflição de Urkaim, de perceber o escrutínio mágico que o estrangeiro lançara sobre os dois…

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Déloyal – Sessão em um Brasil estranhamente familiar

Posted in Déloyal, RPG by Carlos Hentges on 11/12/2017

Após ter sido um dos financiadores de Déloyal, finalmente consegui organizar uma sessão para apresentar o jogo a meu grupo. A história se passa em uma versão do nosso país, marginalmente identificada com o final da década de 1960, período de endurecimento da ditadura militar, e inspirada por eventos recentes que ocorreram aqui em Porto Alegre.
O grupo conseguiu cumprir dois dos três objetivos iniciais, restando os demais para uma futura sessão. Abaixo, uma breve descrição do cenário desenvolvido para o jogo e os resultados obtidos pelos libertadores.

-GERAL-
Final da década de 1960 em um país estranhamente familiar. Os direitos pessoais estão sendo cerceados pelas ordens e desmandos da ideologia estatal. As palavras que incitam dúvida são sistematicamente alteradas ou proibidas, ao mesmo tempo em que a arte e a religião se transformam em amálgamas para a manutenção do poder.
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-LOCAL-
Baluarte, uma grande exposição de arte regulamentada, está prestes a ser realizada na Cidade. A inauguração oficial acontece dentro de alguns dias, com farta cobertura da imprensa oficial e a presença confirmada de inúmeras autoridades. Será uma celebração da ordem e do bom-senso que endireitaram o país desde a amplamente vitoriosa Reforma Geral do Bem-Estar. Os personagens são a resistência, e esta é uma excelente oportunidade para defender a sua causa.
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-Objetivos-

– Organizar um protesto diante do local da exposição. (x)
– Os personagens obtiveram um sucesso parcial. Alguns artistas foram mobilizados, assim como estudantes. Contudo, uma denúncia fez com que a distribuição de material de promoção do ato viesse ao conhecimento dos Reformistas. Manifestações diante do museu não devem ficar sem resposta, especialmente após dois membros da Polícia terem sido atacados, um deles ainda desparecido.

– Furar o bloqueio da Imprensa oficial. (v)
– A ação em duas frentes teve sucesso. Impressos de uma carta de João Goulart, redigida durante o exílio no Uruguai, chegaram a veículos da imprensa que tem resistido à Reforma. Além disso, uma cadeia de rádio foi organizada para divulgação desta e outras mensagens.

– Evitar que um grupo anarquista antecipe as ações dos personagens (v)
– Os anarquistas não foram dissuadidos da intenção de sequestrar Henrique Sujeito Alves, autor da principal obra a ser exposta em Baluarte, mas o ato foi adiado para a noite inaugural da exposição. Os personagens sabem que terão que lidar com as ações do grupo ao mesmo tempo em que levam adiante seus próprios planos.

– Resgatar peças de arte pré-Reforma no subsolo do museu.
– Destruir a exposição oficial.
– Capturar Malaquias Jr., a maior autoridade presente.

Mago: A Cruzada dos Feiticeiros – O Colar de Inês – Parte II

Posted in O Jogador, RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 04/12/2017

Aconteceu quando o abrigo improvisado sob a chuva já se mostrara insuficiente para lhes garantir qualquer possibilidade de repouso. Entre os três, Nuno era o único até então capaz de ouvir o som reiterado das entranhas da terra: dois ribombares e um retinir. Mas foi Lopo, em muito excedendo a proposta de Urkaim para imposição da vontade sobre a matéria, que abriu o caminho. Um túnel até profundezas desconhecidas punha-se diante dos três.

Aquela viagem, vista em retrospecto, destilara o que seria a existência de Nuno Monteiro dali por diante.

Tivera início de maneira a clamar à desconfiança. Parecia-lhe pouco natural que fosse um servo identificado da Coroa a lhes entregar animais, condução e mantimentos para uma tarefa a ser desempenhada sem o conhecimento de D. Afonso IV.

Mais tarde, à mercê da garoa premente e do balouçar do carroção na Estrada Real, o antigo pajem contemplara o mundano ao revisitar os trajetos percorridos a mando dos Álvares Pimentel, na busca banal por cartas, livros e documentos.

Havia ainda os novos companheiros, cujo contato ainda breve evocara apenas o misterioso e o diáfano. Era um desafio a certas concepções que sempre tivera por verdades reconhecer no estrangeiro – saído dos confins do Principado de Moscou e educado como estivador, caçador e cocheiro – o Desperto, ou Iluminado, segundo dizia ele, a lhe desvendar os primeiros segredos da nova existência. O outro viajante não seria mais fácil de compreender do que Urkaim. Tinham entre si o vínculo formado naturalmente entre aqueles que apreciam a companhia da poeira e do bolor típicos das bibliotecas de então. Contudo, Lopo pouco se interessara em levantar o nariz dos livros. As mãos queimadas, agora protegidas por luvas, sugeriam mais sobre si do que as escassas palavras que dividira.

Foi após serem forçados a deixar a estrada principal, numa dessas metáforas cuja falta de sutileza em nada contribui para sua imediata compreensão, que o mundo no qual se inserira involuntariamente começaria a expor suas estranhezas.

Lá embaixo encontraram uma espécie santuário. Um líquido espesso gotejava para acumular-se numa cavidade artificial, lançando luz azulada sobre a antiquíssima estátua representando um homem com a cabeça de um lobo. Sem entradas ou saídas, o local era extraordinário em todos os seus aspectos, tal qual seus guardiões.

Eram três, de feições lupinas aterrorizantes à semelhança do ídolo de pedra. Portaram-se feito selvagens e bandoleiros, despojando Lopo, Urkaim e Nuno de suas provisões e expulsando-os como a invasores de um solo sagrado. Se não foram vítimas de presas, o foram da própria ignorância ante o insólito.

A caminho da Quinta dos Namorados, Nuno ponderava a respeito de decisões futuras, sua aparência trivial como tomar um desvio no trajeto diante de si e suas possíveis consequências, muito além de meros dissabores e desassossego.