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Este Corpo Mortal – Marias

Posted in Este Corpo Mortal, RPG by Carlos Hentges on 16/07/2016

Este é um cenário de investigação sobrenatural para ser jogado em uma ou duas sessões. Trata-se de uma história relacionada a um mito muito conhecido em Porto Alegre, mas que pode ser adaptado para outras cidades sem maiores dificuldades. Ele foi desenvolvido para iniciantes, tendo em mente três personagens prontos e com vínculos prévios e de confiança bem estabelecidos: um jornalista, um policial civil e um criminoso. Os números entre aspas em algumas cenas são sugestões de dificuldades para ações fora do conflito e as informações que o sucesso pode revelar.

Este Corpo Mortal – Marias

Contexto:

Maria Degolada chamava-se Maria Francelina Trenes. Era uma prostituta de nacionalidade alemã e tinha 21 anos quando, em 12 de novembro de 1899, foi morta pelo amante, Bruno Soares Bicudo, soldado da Brigada Militar.

O casal, em companhia de outros pares, fazia piquenique no Morro do Hospício, em frente ao Hospital Psiquiátrico São Pedro. Em uma determinada hora, separaram-se dos demais e, depois de uma discussão, enciumado, Bruno pegou uma faca e degolou a amada. As testemunhas disseram que foi algo muito rápido e nada puderam fazer para salvar a vida da pobre moça.

Mesmo em uma cidade cada vez mais urbanizada e povoada, o crime foi considerado um ato de barbárie, trazendo ecos da infame Revolução Federalista, vulgarmente chamada de Revolta da Degola, ocorrida poucos anos antes.

Pouco tempo depois da morte de Bruno, na prisão, um forte vendaval fustigou a região, derrubando a figueira junto da qual o corpo de Maria foi encontrado. Na década de 1960 os moradores da região construíram ali uma pequena capela em homenagem a Maria Francelina Trenes, a Maria Degolada, que passou a ser conhecida como Nossa Senhora da Conceição.

Circunstâncias:

Antônia Xavier é assistente social no Partenom, em Porto Alegre. Durante anos ouviu das mulheres daquele bairro violento os relatos de abusos e injustiças sofridos todos os dias. Religiosa, buscava na fé o suporte para si e para as pessoas a quem ajudava por dever e compaixão. Recentemente, essa fé encontrou lugar na pequena e esquecida Capela de Nossa Senhora da Conceição, onde passou a depositar imagens de vítimas e a pedir proteção. Suas preces permaneceriam sem resposta até recentemente, quando uma disputa entre traficantes nas imediações fez com que se tornasse a vítima de uma bala perdida, morrendo na capela. O evento despertou a Maria Degolada, ela também vítima de um homem cruel.

A Maria Degolada:

Apresenta-se como uma mulher jovem, na casa dos vinte anos, usando um vestido simples e com um corte profundo e sangrento na garganta, de orelha a orelha. A garganta cortada impede que fale, apenas murmurando uma velha cantiga alemã de ninar: Adormece, Meu Principezinho. Ela não pode ferir mulheres e nem homens que jamais tenham feito o mesmo a uma mulher. Como um ser incorpóreo, não está sujeita a barreiras físicas. Seu objetivo é vingar a própria morte degolando homens com histórico de violência contra mulheres. Sua única forma de interação física com o mundo é quando tem nas mãos uma faca ou navalha. Ela se manifesta quando uma mulher sob sua proteção é agredida. Para aplacá-la. os personagens deverão garantir a segurança de ao menos uma das três mulheres colocadas sob sua proteção. Caso fracassem, Maria Degolada estará livre para transformar mais preces em mortes.

Cena 1 – Capela Nossa Senhora da Conceição, no Partenon – Manhã de Sábado

É encontrado o corpo de Antônia Xavier, vítima de uma bala perdida, dentro da capela. Cerca de cem metros adiante, numa praça abandonada, houve uma troca de tiros. Curiosos observam. Os personagens tem um passado em comum, e se encontrarão no local:

– O Policial Civil está acompanhando a investigação como observador. Ele é um novato em busca de uma chance de mostrar trabalho.

– O Jornalista especializado em crimes está buscando informações a respeito da vítima.

– O Criminoso é parte de uma das facções envolvidas no tiroteio, e busca descobrir se houve mortos e feridos entre os rivais.

– Vítima (5): Antônia Xavier foi alvo de uma arma de alto calibre pelas costas. Ela não morreu instantaneamente, se arrastando por alguns metros em busca de proteção. Ela tem em uma das mãos a foto de uma mulher impressa em papel usado. Entre seus pertences está uma carteira de identificação como Assistente Social.

– Capela (6): A capela é pouco mais do que uma abertura na rocha do morro, com a imagem desgastada de Nossa Senhora da Conceição atrás de grades. O espaço para doações está arrebentado. Ali, sob uma pedra solta, estão fotos impressas em papel comum de duas mulheres da região que recorreram a Antônia, tendo algumas marcas de umidade.

– Local dos Disparos (5): Foram usadas armas de vários calibres, inclusive fuzis, possivelmente numa emboscada entre traficantes. Pelo menos um dos participantes se feriu com seriedade, fugindo em direção ao pé do morro.

– Multidão (4): Se a identidade de Antônia Xavier for revelada, pode-se descobrir que trabalhava na Igreja da Nossa Senhora da Resignação como assistente social, sendo bastante popular.

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Cena 2 – HPS – Criminoso

O Criminoso está diante do HPS junto de um comparsa numa motocicleta. Foi ordenado a despachar Felipe “Filó”, sobrevivente do tiroteio.

– Invasão (6): Filó recebe atendimento de emergência às escondidas graças a uma combinação de suborno e ameaça contra a equipe médica. Quando se aproximar para atirar, o Criminoso verá que ele está ligado a aparelhos e em estado grave. Filó será degolado pelo vazio ao som do murmurar de uma cantiga de ninar.

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Cena 3 – Nossa Senhora da Resignação – Jornalista

Antônia Xavier devotava seu tempo ao trabalho na Igreja Nossa Senhora da Resignação, comandada pelo Padre Camilo. No local, todos estão devastados pela notícia da morte.

– Fiéis (3): Antônia estava afastada recentemente das missas, apesar de ser uma devota.

– Padre Camilo (5): É preciso receber a aprovação de Camilo para consultar os arquivos de Antônia. Além disso, ele recolheu entre seus pertences uma faca comum, com cabo de osso, com mais de 100 anos de fabricação. Não parece um objeto óbvio para alguém procurando proteção, mas ele não consegue pensar em outra razão para aquilo. A faca é resultado do interesse e pesquisa de Antônia a respeito da Maria Degolada.

– Arquivos (5): Entre os pertences de Antônia estão arquivos que revelam a identidade das mulheres cujas fotos estavam na capela, além da residência de duas delas, Ana Calisto e Fernanda Silveira. Todas estiveram ali após terem sido vítima de alguma tipo de violência. Além disso, chama atenção um livro a respeito da Maria Degolada com diversas anotações (o resumo do conteúdo é o trecho Contexto, que abre o texto).

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Cena 4 – Policial – Ana Calisto, A Mãe Ameaçada – Agressor: O Marido que rouba

Na residência, Marcos Calisto jaz morto na sala, com a garganta cortada. Há sinais de luta, com vários móveis quebrados. Ana estará escondida no banheiro com os três filhos.

– Ana Calisto (4): Ela está muito abalada, e irá demorar algum tempo até ficar coerente. Ela tem no rosto e no braço hematomas recentes. Conta que, quando viu o marido chegando, escondeu as crianças no banheiro. Ele parecia bêbado ou drogado, e sempre ficava violento nessas circunstâncias. Normalmente, queria dinheiro e, desde que ela o expulsou de casa, ficou mais agressivo. Foi por conta disso que Ana procurou ajuda de Antônia Xavier. Eles discutiram e ele bateu nela, ameaçando-a com uma faca. Ela se escondeu com as crianças e Marcos começou a quebrar a casa inteira. Até que parou. Ele ficava repetindo “o que você quer?”, até que deu um suspiro e caiu. Ana viu o corpo no chão, mas ficou com medo de sair e de que os filhos vissem o pai machucado ou morto. Vizinhos podem confirmar o histórico de violência.

– O Corpo (6): Marcos é um homem grande e com sobrepeso. Foi morto com um só corte, na garganta, de orelha a orelha, algo impossível de se fazer com um único golpe. Já estava morto quando tocou o chão.

– A Canção (6): Marquinhos, o filho mais velho do casal conta que, quando o pai parou de gritar, ouviu uma canção ser murmurada. Parecia com a música que uma tia que passou pela escola cantava para as crianças: uma canção de ninar alemã chamada Adormece, meu Principezinho.

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Fernanda Silveira, A Protestante – Agressor: O Pai que deseja controlar o corpo

Fernanda foi estuprada há quatro meses por um traficante da região e não contou a ninguém. Quando descobriu o que houve, o pai a agrediu e quase provocou a perda da criança. Ela carrega a criança apenas com o apoio temeroso da mãe, Helena. Procurou Antônia querendo ajuda para fazer um aborto, algo inadmissível para o seu pai.

– Vizinhos (4): Fernanda é uma menina boa, expulsa de casa pelo pai depois que uma gravidez foi descoberta. Ninguém sabe de um namorado.

– Amigas/Redes Sociais (5): Fernanda fugiu porque o pai bateu nela e a prendia em casa. Nas redes sociais ela parecia interessada em questões a respeito de estupro, inclusive confirmando presença em uma manifestação a respeito.

– Fernanda poderá ser encontrada, com um grupo de amigas, em um protesto no Centro de Porto Alegre contra o assédio sexual e a cultura do estupro. Osmar também estará lá para levá-la para casa. Impaciente, ele facilmente se tornará agressivo, o que pode despertar a manifestação protetora/vingativa da Maria Degolada. O objetivo dessa cena é mostrar que o fantasma não está “fazendo justiça” ao punir quem merece. Fernanda, apesar de discordar do pai, nunca o quis ferido ou morto.

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Leonardo Lorelei, A Transexual – Agressor: O Amante que ataca a sexualidade

Lorelei se envolveu com Juliano Terceiro, um dos “donos da boca” no Partenom, em uma relação doentia. Ele está apaixonado, mas não admite tal coisa para si e muito menos para os comparsas do tráfico, no qual o machismo é a regra. Ela também, mas tem medo demais de uma retaliação caso fuja. Está trancafiada nos arredores do bairro, sendo guardada dois homens armados e de confiança total de Terceiro. Um deles é o estuprador de Fernanda Silveira, e pode ser vítima da Maria Degolada nas circunstâncias adequadas. Além deles, uma senhora da vizinhança leva comida a todos três vezes por dia.

Como esta é a vítima mais difícil de encontrar entre as três, é possível que esta seja a cena final da sessão. Ela pode ser uma cena dramática, com os personagens tentando convencer Lorelei a abandonar o amante violento por vontade própria, e assim aplacando a vingança da Maria Degolada, ou de ação, com os personagens tendo que enfrentar Juliano Terceiro e seus homens para tirar Lorelei do cárcere.

 

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