The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – A Revolução numa Casca

Posted in Este Corpo Mortal, Numenera, RPG by Carlos Hentges on 18/05/2016

Capítulo 9 – No qual Queslin prepara-se para a celebração de uma Festividade da Desobrigação como nenhuma outra.

Já do Sere Marica era possível ver em Queslin uma cidade como nenhuma outra. A riqueza de suas minas de sal escoava para a superfície, transformando-se em construções majestosas e adensando as águas, sobre as quais servos caminhavam e puxavam botes de carga tal qual o fariam com animais em terra.

Do Rompante se destacavam a limpeza e a organização daquela pequena cidade de nobres, em cujo porto repousavam embarcações de construções distintas, revelando muitas origens diferentes.

Para Strahl, aquele era um horizonte algo familiar. Vivera nos arredores de Queslin em companhia da família que o criou, sobrevivendo do reaproveitamento da Numenera que os ricos consumiam em profusão. Em suas lembranças de menino, contudo, nada estava mais vivo do que as sombrias figuras de negro que cruzaram seu caminho por aquelas ruas, responsáveis pela segurança da cidade e do Feitor, seu líder desde sempre.

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Já era noite quando o Rompante desembarcou os passageiros vindos de Nebalich. Eram voluntários trazidos para as minas de sal, onde buscariam sobreviver pelos próximos cinco anos para, então, tornarem-se nobres, com direito à cidadania e residência em Queslin. Seus contratos lhes foram explicados por uma jovem em trajes simples. Parecia recém saída dos subterrâneos.

Todos os movimentos no porto eram acompanhados pela milicia do Feitor, em seus rugosos trajes negros e rostos que se pareciam com máscaras. Impassíveis até então, colocaram-se em movimento apenas quando objetos pessoais da capitã do Rompante foram retirados da embarcação. Estalidos secos, sua estranha forma de comunicação, se intensificavam conforme aproximaram-se dos baús. Obi, Strahl e Kronus, assim como Tarae, não tinham dúvidas a respeito do que os atraía. A revelação do conteúdo, porém, foi impedida pela registradora dos recém-chegados.

– Estes são convidados do Feitor para a Desobrigação, e vocês não devem perturbá-los.

Era impossível deixar de notar raiva no tom imperativo daquela jovem.

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Queslin vivia os preparativos para as festividades da Desobrigação, quando aqueles que cumpriram seus contratos de escravidão seriam libertados. Com convidados vindos de terras distantes, as raras estalagens, hospedarias e tavernas da cidade estavam totalmente ocupadas. Restava a Strahl, Kronus e Obi, assim como fizera Tarae, buscar abrigo na residência de algum nobre. Acabaram diante da enorme propriedade de Marxene, cujos portões abertos convidavam a entrar todos os viajantes que por ali passassem.

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– Não me admira que essa criaturinha asquerosa não tenha merecido lugar na parede.

Jacopo

Um entre os muitos desenhos deixados por Jacopo de Glavis.

A observação desdenhosa de Halina tratava do quadro em torno do qual Kronus, Strahl e Obi gastaram alguns minutos. O inseto retratado, recolhido em sua casca e repousando sobre uma mesa, era idêntico àquele trazido para Queslin no Rompante. Filha de Marxene, Halina já há alguns minutos conversava com os recém-chegados com a naturalidade de quem está habituada à presença de convidados que regulamente vem e vão. Sequer se importou em fazer ressalvas aos hábitos da mãe, entusiasta de qualquer pintor obscuro, como Jacopo de Glavis, autor daquela obra de apreciação tão difícil.

A curiosidade de seus três interlocutores a respeito levou Halina a mostrar-lhes rascunhos deixados por Jacopo. Os traços retratavam paisagens e cidades, com especial atenção ao Sul Gélido, além do Sere Marica e da Passagem Cerrada, mesmos locais cujo interesse de Theobald fora confirmado pelos mapas encontrados em posse de Tarae. A originalidade do artista estava no ponto de vista, sempre a revelar imensidões a partir dos céus.

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Strahl e Kronus foram apresentados a Marxene por Brennan. Com especial apreço por baladas de caserna, o convidado foi entretido pela lembrança de versos que Kronus ouvira durante o período com a Legião de Vohr, um bando de salteadores de caravanas que assolou a região entre Far Brohm e Nihliesh até ser dizimado pelas forças do Império de Pytharon.

Alegre e dispensando com desenvoltura o tanto de atenção que cada convidado demandava, Marxene mostrou-se feliz por receber convidados de Nebalich – de fato, esperava mais pessoas vindas de lá.

A conversa entre eles tratou de arte, festividades e da Desobrigação. Marxene fez imediatamente evidente sua visão divergente da do Feitor a respeito do modo como se organizava a sociedade de Queslin e da distribuição de seus proveitos, relegados a uma classe de nobres cujo último esforço consistiu em sobreviver às minas e seus vermes produtores de iguarias. Uma interrupção provocada por Halina, contudo, impediu que mais fosse dito a respeito. Havia algo estranho com os Mímicos.

Marxene

A anfitriã.

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Obi ficara na residência de Marxene, onde os três passariam a noite e os próximos dias, se assim desejassem. A expectativa do encontro com Theobald no dia seguinte – parte do acordo firmado com Tarae – o deixava ansioso. Tinha muito a dizer, ouvir e mostrar. Dispensou o convite a acompanhar os companheiros e sua anfitriã em um breve deslocamento de carruagem para debruçar-se sobre as próprias anotações a respeito da Cidadela do Prodígio.

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Uma dúzia de Mímicos, levados por suas asas rugosas e empoleirados sobre telhados, silenciosos e imóveis, estavam voltados à residência de Agos. Eram chamados assim, Tarae explicaria mais tarde, porque suas feições consistiam num arremedo grosseiro das de seu mestre. Uma máscara impassível a disfarçar sua real natureza. Por meio da obediência das criaturas o Feitor mantinha o controle sobre Queslin.

No pátio da residência, em companhia de Tarae e alguns tripulantes, além dos poucos convidados temerosos demais para partir, Agos demonstrava preocupação. A presença dos Mímicos nas imediações era por si só enervante, mas aquele comportamento inesperado era um agravante.

Kronus sugeriu que poderia intervir, quem sabe estabelecendo algum tipo de comunicação com as criaturas, sendo rechaçado por Marxene. Era impossível prever as repercussões de um mal passo. Strahl, por sua vez, esteve brevemente com Tarae em seus aposentos. No baú estofado a casca do inseto trazido da ilha nas proximidades de Queslin começava a se romper.

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Naquela noite, enquanto Obi estudava e Kronus se recuperava de uma estranha indisposição, idêntica àquela que sentira no Sere Marica, Strahl achou por bem buscar algo para comer. Os convidados haviam partido ou se recolhido, e a residência de Marxene afinal assossegara-se. Todo aquele silêncio permitiu a Strahl ouvir uma conversa rude em um dos aposentos. Duas mulheres mal podiam conter suas vozes em um diálogo que dizia respeito ao Feitor, entre outros assuntos que não se discerniam. Uma porta batida com raiva foi o último dos argumentos.

Theobald

A Theobald, o perseguidor da Cidadela do Prodígio.

Quando adentrou o recinto, pela primeira vez naquela noite Strahl viu sua anfitriã fragilizada. Apoiando-se levemente numa mesa, Marxene parecia sofrer de um cansaço terrível. Ao notar a presença do convidado, recompôs-se e voltou a sorrir. Mesmo sem revelar a identidade de sua interlocutora, a conversa deixou claro que o Feitor tinha adversários em Queslin. Alguns buscavam uma oportunidade para romper completamente a forma como se organizava a cidade. Outros, Marxene entre eles, defendiam uma mudança gradual iniciada pela queda do líder.

****

Theobald ficou visivelmente emocionado quando reconheceu em Obi o jovem filho de Kyle, seu amigo e companheiro. Ele, assim como Kronus e Strahl, foi apresentado por Tarae. A capitã do Rompante omitiu completamente a interferência dos três na entrega da Numenera solicitada por Theobald, cumprindo o acordo firmado no convés até a última linha. Seus caminhos podiam se separar, e ela estava feliz por isso, deixando o local imediatamente. O pagamento pelos serviços viria mais tarde.

Obi logo esclareceu sua chegada ali. Também ele estava em busca da Cidadela do Prodígio. Kyle fora assassinado pelas forças do Império de Pytharon no início dessa jornada, e ele via como seu dever concluí-la. Esperava estar à altura da tarefa e da companhia de Theobald.

****

O Feitor chegou pairando sobre o chão de Queslin, acompanhado por uma pequena comitiva de soldados e um grupo de Mímicos. Confrontava Tarae, que se preparava para partir da residência de Theobald, exigindo para si o conteúdo do baú que ela levava na carruagem.

Feitor

Os pés do líder de Queslin jamais tocam o chão.

– Eu sei o que trouxe a Queslin. É uma afronta à minha autoridade e hospitalidade.

No que fazia parecer um gesto magnânimo, o Feitor oferecia a Tarae uma residência e a possibilidade de permanência ali, desde que lhe fosse dada a criatura na casca. Qualquer outra decisão seria considerada um ultraje, com punição imediata. Numa situação que não permitia negociar, Tarae assentiu. Não desejava um lugar em terra, mas isso poderia ser discutido mais tarde.

Eram quatro os Mímicos, cercavam o baú, mas não pareciam ser capazes de tocá-lo. Detiveram-se assim que se aproximaram uns poucos passos. Nem mesmo as ordens diretas do Feitor fizeram sobrepujar aquela condição, numa situação que alarmou o líder de Queslin a ponto fazê-lo ordenar a retirada imediata dali, mesmo que de mãos vazias.

Sem entender ao certo o que se dera, Tarae olhou em direção de Kronus e Strahl, testemunhas daquela cena. O que havia naquele baú era muito mais do que supunham até então.

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