The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – O quinhão que lhes cabe

Posted in Este Corpo Mortal, Numenera, RPG by Carlos Hentges on 04/04/2016

Capítulo 7 – No qual consequências confluem e empurram para longe de Nebalich.

A multidão se comportava feito uma fera acuada, rugindo na expectativa de que aquilo fosse o bastante, mas sem demonstrar toda a energia excitada que a faria saltar sobre a presa. Moradores do Cálice, descontentes com o descaso da realeza e da Ordem da Verdade diante da Numenera que poderia ter destruído a residência de centenas de famílias, comerciantes, acossados pela violência de gatunos maltrapilhos, e marinheiros, frustrados pela perda de trabalho resultante da ação de piratas na costa do Sere Marica, formavam um caldo de insatisfação difusa que Strahl trabalhara para engrossar e dar propósito claro. Ao agredir sorrateiramente um marinheiro na orla, esperava apontar as tochas e pedras da multidão para o Rompante e sua tripulação.

Obi testemunhava o resultado desse esforço quando chegou ao porto, logo após selar um acordo com Millian.

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Admoestha

Admoestha, militar, burocrata e impaciente.

Lenora deixara claro que não tinha o menor apreço por ele. Talvez soubesse que Kronus interferira em sua apresentação na praça central, dias antes, quem sabe julgasse inconsequentes seus métodos quanto à Ehvera e Martelo, ou, opção que lhe parecia a mais plausível, sentia-se ameaçada por ele e, na sugestão de que Tvesh Szat poderia enxergar a verdade além de suas narrativas tortuosas, revelara uma estratégia simplória para dissuadi-lo de seus objetivos e bloquear o caminho entre ele e o patrono poderoso.

Tendo isso em mente, Kronus sabia que caberia apenas a si trazer Admoestha para a causa de Szat. O senescal do Rei Falton e da Rainha Sheranoa era um soldado que demonstrara na política a mesma tenacidade do campo de batalha. Tornara-se responsável pela maior guarnição de Nebalich e, muito a contragosto, interrompera o treinamento de soldados em preparativos para singrar os Canais de Seshar e combater margr ao norte de Pedra Vermelha e escutava o que tinha a dizer o homem que acompanhava Lenora.

Impaciente, Admoestha não compreendia a relação entre seus soldados e os marinheiros de um navio recém atracado, eventos no Cálice e uma ameaça representada pelos varjellen que viviam em uma das regiões mais afastadas da cidade. Por consideração a Lenora, se mantinha atento, minimamente, enquanto gritava ordens a seus homens.

O argumento que colocou em movimento a máquina de guerra de Nebalich, afinal, foi o anúncio trazido pelas palavras de um garoto esbaforido: o porto estava mais agitado do que de costume.

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Quando Kronus, acompanhado de Lenora e um punhado de homens de Admoestha, chegou às imediações, a multidão não era mais aquela de uma hora antes. Acuara Ehvera e seus homens no cais, onde alguns marinheiros do Rompante terminavam de desembarcar. Debaixo das armaduras, os soldados decidiram que suas espadas não serviriam àquela situação, seja pelo inferioridade de cinquenta para um, seja por serem aquelas pessoas nada além de uma multidão exaltada, e não uma turba descontrolada.

A transição de uma para outra se deu pelo incentivo de Strahl e Obi. O primeiro beneficiou-se do anonimato para arremessar uma garrafa de cerâmica sem destino certo. Já o segundo fez uso das capacidades que chamava “A Força” para influenciar um entre os tantos em meio à multidão. Com a vontade condicionada, o marinheiro avançou em direção a Ehvera e agrediu-a, primeiro com palavras, e então com um soco. Dobrada sobre os joelhos, sequer viu a punhalada que respondeu ao ataque e deu início ao descontrole e violência generalizados.

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Obi avançou para concluir o que seu títere começara. Contudo, não contava com a intervenção de Martelo, saído do meio da multidão. Naquele exato instante, pela força dos eventos desencadeados por Kronus, Strahl e Obi, finalmente ele se encontrava em condições de escolher entre o dever para com Szat e a paixão por Ehvera.

Após subjugar Obi pela força do braço metálico que lhe valia o apelido, Martelo voltou-se à Ehvera, à merce de Strahl, carregado instantaneamente até ali pelo relâmpago sob seu comando. Prestes a arremeter contra ele, Martelo foi interrompido por Kronus, dando início a uma luta que apenas não foi derradeira para ambos pela intervenção de Lenora e dos soldados, que dispersavam a multidão. Preocupado com o estado de Obi, Strahl desapareceu dali do mesmo modo como surgiu, levando-o em segurança para longe.

A Kronus restou ouvir a reprimenda de Lenora. Cansara de ver nos três a origem de tantos problemas. Dividiria suas opiniões com Szat logo após ter com Martelo, a quem só importava acudir Ehvera mais uma vez.

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Obi precisou de um dia inteiro para se recuperar. Mais do que ferimentos, o esforço dos últimos dias cobrara um alto preço de sua vontade. Respirar aliviado e pensar com clareza era quase todo o remédio de que necessitava.

Kronus, por sua vez, ativou o Replicador Humano. O recipiente, pouco maior que uma dessas banheiras dos nobres, possuía uma cúpula transparente através da qual  mal se podiam ver os contornos de um corpo jovem em formação. Propriedade de Obi, a Numenera fora o único dispositivo que não colocaram nas mochilas antes do último encontro com Tvesh Szat.

Posto em uso, o Replicador traria Tempus à luz, um ser idêntico ao jovem Kronus, com um propósito claro e uma existência destinada a ser breve.

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Revestido de ilusão, Kronus passaria por varjellen para qualquer um que o observasse. Tendo vivido por apenas dois dias uma existência onde tudo era maravilha, Tempus não o reconheceu. Na espada empunhada pelo criador pousaram seus olhos. Pensou na maneira como a lâmina refletia as tochas das ruas quase desertas da noite de Nebalich. Foi eviscerado enquanto sorria.

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Em uma ruela próxima de onde até pouco tempo fixava residência, Obi negociava. Millian levara adiante o acordado, pelo menos até suas intenções serem descobertas por Visixtru. As circunstâncias recentes, contudo, com um jovem viajante tendo sido cruelmente morto por um varjellen, modificavam o tanto que cada um tinha a oferecer e exigir. Obi desejava ter em seu poder toda a Numenera subtraída do Rompante. A Visixtru, apoiado por Millian, interessava impedir que soldados adentrassem a morada dos varjellen. Antevia o confronto e o massacre que disso resultaria.

Em comum acordo, decidiram que Visixtru e Millian entregariam metade do que tinham consigo no dia seguinte e o restante dali a uma semana, tempo suficiente para confirmarem que o ânimo dos soldados arrefecera.

0209

O 0209, máquina de combate transformada em unidade de pacificação.

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Tvesh Szat não os receberia. Uma embarcação com mantimentos para alguns dias os aguardava no porto de Nebalich, levando-os ao destino que escolhessem. Os laços estavam rompidos.

Naquele dia, as piores previsões de Visixtru se confirmariam. Dezenas foram mortos quando uma ocupação punitiva encontrou focos de resistência. O exército real fizera dos varjellen seus objetos de treino antes da incursão à caça dos margr ao norte de Pedra Vermelha. Não havia notícia de Visixtru, Millian e da outra metade da Numenera do Rompante, cuja partida de Nebalich se dera dias antes.

Abastecidos, sem vínculos e temendo retaliações, Obi, Kronus e Strahl partiram em direção a Queslin, onde esperavam encontrar pistas a respeito de Theobald e da Cidadela do Prodígio.

Nebalich ficaria para trás, mas por certo não se poderia dizer o mesmo do que se dera ali.

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