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Numenera Ex Machina – Ambições Sombrias

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 18/01/2016

Capítulo 4 – No qual uma circunstância inesperada aproxima os interesses de Strahl e Obi. E Kronus tateia uma oportunidade.

Desde o Cálice, Strahl, Obi e Kronus carregavam a caixa retirada da residência de Millian e também a mulher que se dizia sua verdadeira proprietária, desacordada. Estava ferida numa gravidade que não sabiam mensurar, menos pela luta nos corredores da construção que servia de abrigo para centenas de pessoas, do que pela violência que se seguiu, quando Kronus a estrangulou até que perdesse os sentidos. Se não foi incentivado pelos companheiros, também deles não escutou qualquer reprimenda.

Ehvera

Ehvera, em um raro registro sem cordas

Ao chegarem ao galpão transformado em residência, algumas providências foram tomadas de imediato. Strahl cuidou de amarrar a convidada forçada, enquanto Kronus juntava o equipamento necessário à análise da caixa que trouxeram consigo. Obi, ao realizar a conferência de todas as entradas, buscava qualquer sinal de invasores, notou algo estranho. A saída de ar sobre o fogareiro, uma peça inteiriça de ferro, presa a uma coluna de pedra, estava retorcida, com pedaços faltando na sua porção mais baixa, pela qual a fumaça era sugada. Nem mesmo uma criança se esgueiraria através daquela passagem estreita. Sequer saberia dizer se alguém tentara entrar ou – o que seria mais estranho – sair.

Enquanto confabulavam a respeito, os três tiveram a atenção atraída pela mulher amarrada. Buscava, freneticamente, livrar-se das cordas. Os olhos, arregalados, voltavam-se à escuridão diante dela. Uma escuridão serpentina, de olhos vermelhos e pontiagudos dentes de cristal. Aquilo que os três enfrentaram, e do qual fugiram, na fortaleza além das nuvens, estava bem ali, adensando as trevas.

Por um instante, talvez, tenham considerado a fuga. Sair dali significaria sobreviver, enquanto permanecer traria consigo a incerteza diante da ameaça por enfrentar. Contudo, entre a criatura na penumbra e Tvesh Szat lá fora, e as repercussões diante de um fracasso, atiraram-se em direção à primeira opção.

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O Martelo era o elo do grupo com seu patrono. Recebera o apelido por conta do hábito de tratar todo problema como um prego a ser golpeado até a submissão. Desde o início da madrugada observava o local que se tornara a residência de Obi, Kronus e Strahl. Sabia que os três estavam incumbidos de encontrar Millian e o Revitalizador, e imaginou que, em caso de qualquer problema, esse seria seu ponto de encontro. Quando chegaram carregando alguém, pensou ser aquele o indício de que teriam cumprido a tarefa. Mas a estranha agitação das luzes e os gritos que se seguiram o levaram à porta. Quando ela se escancarou, aberta subitamente por uma pancada seca, ele nada conseguiu ver. Apenas depois de um segundo, tempo necessário até que uma névoa densa e negra se desfizesse, Martelo percebeu os ferimentos em Strahl e a situação de Kronus, à beira de um colapso.

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A chegada do Martelo fora tão providencial quanto sua rasa curiosidade a respeito do que acontecera ali. Saiu sem explicação clara, em busca de alguém que se dispusesse a tratar Kronus, que fora arremessado para o alto após uma arremetida da criatura, chocando-se contra uma mesa ao cair. Respirar era todo esforço que se permitia.

Até o retorno do Martelo, tinham algumas preocupações. A primeira dizia respeito a abrir a caixa trazida do Cálice, o que coube a Obi. Sem a pressão causada pelo dispositivo de segurança deixado por Millian, tornou-se simples encontrar uma forma de interpretar os sinais na tela. Traziam questões morais apresentadas em ordem aleatória, na linguagem do varjellen. Foram vencidas por meio de tentativa e erro e a apreensão de certos padrões. Lá dentro estava o Revitalizador.

A segunda questão se mostrava mais difícil de solucionar. De algum modo, trouxeram consigo a criatura que os perseguira na fortaleza suspensa sobre os Canais de Seshar. Não concebiam como isso ocorrera, mas lembravam com clareza a maneira como ela parecia ter sido absorvida por Strahl quando este se propeliu para fora da estrutura. Na ocasião, julgaram ser o efeito da luz solar sobre um ente feito de trevas sólidas. Contudo, o mesmo se dera agora, quando o Martelo escancarou a porta. E dessa vez Obi protagonizara o estranho fenômeno, semelhante à sucção.

A pista necessária veio por meio de Kronus, já parcialmente refeito. Ao liberar um fluxo de informações emanados por Obi, percebeu a ruptura nos dados vindos da algibeira usada pelo companheiro. Algo ali transmitia uma nota dissonante. Seu conteúdo era um par de lentes, algumas sucatas e um pequeno recordador de sons e imagens, todos compostos por vidro ou cristal.

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Kronus permaneceu em companhia de Strahl, recebendo atendimento médico. Mesmo ferida, Ehvera, esse era seu nome, seguiu escondida e amarrada em um depósito, nos fundos. Combinaram o retorno do Martelo no dia seguinte, quando o próximo passo estaria decidido com mais clareza.

Penumbra

A criatura na penumbra

Obi, enquanto isso, rumava para a praia. Coube a ele dar fim à criatura. Deduziram que ela se manifestava apenas em ambientes fechados e abrigados da luz. Logo, a destruição do objeto onde se refugiara, em condições adversas, seria seu fim. Jogados ao fogo, a algibeira e seu conteúdo logo começaram a crepitar e queimar, revelando as peças de cristal já enegrecido em seu interior. A criatura chegou a projetar-se além das chamas, tornando a noite mais escura por um momento, mas foi só. Desfez-se com a fumaça, desaparecendo no ar.

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Ao longo daquela madrugada, todos tiveram a chance de ter com Ehvera. A cada um, conforme seu instinto guiava, ela liberava um naco de informação. Esperava angariar alguma simpatia e a liberdade. Se não tanto, pelo menos o suficiente para garantir sobrevida até se encontrar em condições de negociação mais favoráveis.

O que ela disse, somadas todas as porções, foi mais ou menos o seguinte:

– O Revitalizador era uma peça que Ehvera fez chegar de Ingwald, através dos Canais de Seshar, para ser entregue a Tarae, líder de um grupo de piratas atuante sobre as águas salobras do Sere Marica. O responsável pela solicitação, chamado Theobald, era um erudito que se encontraria em Queslin e pretenderia rumar até algum ponto do Sul Gélido. O Revitalizador e diversos outros artefatos guardados no Rompante, a embarcação de Tarae, estariam sendo recolhidos a seu pedido. Millian se atravessou na negociação sob a influência de Visixtru, seu amante varjellen, que buscava meios de se associar aos piratas. Tvesh Szat, por sua vez, conheceria o Revitalizador e o desejaria para si por razões desconhecidas. Estaria tentando reforçar sua influência sobre o submundo de Nebalich por meio da remoção de Ehvera desse cenário complexo.

Haviam particularidades, contudo. Tarae era a mulher que sequestrara Strahl ainda jovem. Era para ela, até sua fuga ainda por ser punida, que prestara serviços forçados na identificação de Numenera. E Theobald, seu suposto contratante, era o homem com quem o pai de Obi estaria buscando contato em sua perseguição à mítica Cidadela do Prodígio.

****

Ao final da manhã seguinte, descansados e após trocarem impressões a respeito do que dissera Ehvera, posta sob os cuidados de cordas e do Martelo, os três dirigiram-se à residência de Tvesh Szat. Sua disposição era de entregar o Revitalizador, atendendo à metade do pedido de seu patrono, e dar início à perseguição de Millian. Fosse verdadeira sua intenção de interferir nos negócios entre Ehvera e Tarae, ele certamente estaria escondido nalgum ponto de Nebalich.

No caminho, foram abordados por Deymish. O marinheiro estava desassossegado. Como morador do Cálice, soube logo dos estranhos eventos da noite anterior, pontuados por explosões, fogo, golpes de faca e virotes de besta. Nada sabia dos responsáveis, mas já circulava entre seus vizinhos um temor palpitante: a coisa piscando e vibrando encontrada após uma espiadela na residência de Millian.

Sendo os bons senhores Kronus, Strahl e Obi conhecedores da Numenera e seus perigos, Deymish muito humildemente implorou que fizessem algo a respeito, preservando assim os lares e as vidas de centenas de pessoas. Em lugar de qualquer resposta, saiu da conversa com duas tarefas: a de exercitar a paciência, pois seus interlocutores se encontravam engajados em assuntos mais importantes, e a busca por Millian, real responsável pelo risco oferecido a todos no Cálice. Strahl, Obi e Kronus estavam muito interessados em qualquer notícia, rumor ou mesmo fofoca a respeito dele.

****

Tvesh Szat

Tvesh Szat demonstra seu contentamento

– Qual acreditaram ser o real trabalho delegado a vocês?

Tvesh Szat os recebeu na mesma varanda. Além de tudo o que puderam ver na visita anterior, havia agora a adição do Rompante ao horizonte da baía de Nebalich.

– Julgam que isso importa?

Por um instante, o patrono manipulou grosseiramente o Revitalizador, como se divisasse um mistério muito além da sua compreensão. Então, de pronto, passou a utilizá-lo com a facilidade com que um artesão prepara as ferramentas de seu ofício. Apontou a tela transparente em direção a Kronus, aquele entre os três com as cicatrizes mais evidentes, e, num rápido deslizar e pressionar de botões, lhe conferiu imediato bem-estar e vigor. Era essa a função do Revitalizador.

– Sim, eu sabia do conflito entre o pobre Millian e a desesperada Ehvera. E sim, não me escapou o papel de Tarae como catalisador da coragem de ambos. A questão é, e vocês? Sua ambição é atendida por esse desprezível rastejar de quem oferece uma tarefa cumprida parcialmente? Ou vai além, a ponto de cogitar tomar parte em algo que envolve uma embarcação supostamente carregada de Numenera?

Cientes de que deveriam fazer algo, qualquer algo que fosse, os três trataram de sair dali e afiar suas ambições.

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