The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – O Patrono, o Salteador e a Incerteza*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 23/11/2015

Capítulo 3 – No qual as relações com o submundo se estreitam, uma ameaça é parcialmente neutralizada e questões permanecem por responder.

Deymish esfregou nas mãos um punhado de sal retirado de Sere Marica e o arremessou por sobre os ombros. Um pequeno ritual de boa sorte, ao menos para quem cria na Senhora Salobra. Ele reconheceu, acanhado, que era uma bobagem, mas desde o falecimento da esposa se mantinha próximo daquilo que fora importante para ela. O culto, cuja origem remetia aos Pântanos Salpicados, pregava que toda vida advinha do sal. Durante a viagem de retorno a Nebalich, em diversas oportunidades Kronus conversou com o navegador, que se revelou um homem simples e prático, mais confortável sobre o casco de uma embarcação do que entre paredes, profundo conhecedor dos canais de Seshar e do grande mar salgado que era o Sere Marica.

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Em Nebalich havia muito a ser feito. Tvesh Szat esperava receber um relatório a respeito da incursão realizada graças ao seu auxílio, bem como toda a Numenera encontrada no local. Além disso, Obi, Kronus e Strahl perceberam que viveriam melhor se tomassem por empréstimo uma pequena propriedade na cidade, um galpão em local discreto junto à costa, transformado em residência e espaço de pesquisa para os três.

Aproveitando-se dos companheiros atarefados, Kronus desgarrou-se para levar adiante um pequeno projeto pessoal. Desde o retorno de Pedra Vermelha, quando o pagamento de Corl Vhem chegou na forma de um carregamento de pedregulhos que precisaram ser negociados, ele vinha se aproximando das pessoas do porto. Buscava, de algum modo ainda difuso, estabelecer uma rede de contatos. Seu objetivo era ganhar influência em uma das áreas mais importantes da capital de Seshar: apenas através de Nebalich se podia acessar os canais e alcançar o interior do território sem a necessidade de enfrentar o deserto.

Foi nessa circunstância que Kronus percebeu não ser o único empreendedor naquele porto. Um homem de aparência rude, feito um velho marinheiro, distribuía panfletos aos mais miseráveis entre os miseráveis que se encontravam por ali. Era um procedimento duvidoso, dado que a fluência na leitura era uma habilidade incomum. Contudo, o papel fino, escrito numa bela tinta e com letra garbosa impressionava os desatentos ao seu conteúdo:

Quer aventura? Deseja experimentar as delícias de viagens e a alegria da descoberta? Interessado em abrir o seu caminho no mundo? Seja qual for o desejo em seu coração, qualquer que seja o desejo que o mantém acordado à noite, você pode realizá-lo em Queslin. Nós estamos buscando aqueles dispostos a trabalhar duro para aumentar a prosperidade de Queslin e a sua própria! Todos que se comprometerem voluntariamente com nosso contrato de trabalho-para-a-vida de cinco anos serão recompensados. Não perca tempo. Não pergunte ao redor. Apenas venha a Queslin, onde o sal corre livre.

Queslin, famosa por suas minas de sal, ficava do outro lado do Sere Marica. Uma travessia de quase mil quilômetros a ser realizada por uma embarcação destinada a todos “interessados em abrir seu caminho no mundo”. O grupo de maltrapilhos para quem Kronus lera o folheto sabia apenas que se chamava Thálcathus o homem que os distribuía no porto.

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Lenora

Lenora, uma entre tantos a serviço de Tvesh Szat

A praça central de Nebalich era tomada todos os dias por comerciantes e seus gritos com ofertas as mais variadas. Hoje, a curiosidade mobilizava a população. Quatro animais de grande porte, de pelos longos e chifres curvados, do tipo encontrado comumente nas planícies geladas ao sul, puxavam um enorme cubo. A estrutura, feita de hastes metálicas, feixes de energia e longos cabos unidos por circuitos, parecia uma daqueles raros prodígios de Numenera complexa construída a partir de muitas outras. Quando foi posicionada, uma multidão já se acumulava para saber que maravilha era aquela. Membros da guarda real postavam-se nos arredores, evitando a aproximação demasiada.Junto à estrutura, uma mulher preparava-se para falar. Foi quando Kronus projetou, por meio de ilusões, uma imagem no interior oco do cubo – mais uma vez, ele individualizaria decisões e socializaria consequências. Era o brasão da família real, flutuando em cores vivas para toda a praça ver. Obi, acompanhado por Strahl, reconheceu naquilo uma das habilidades do companheiro, complementando-a. Cores, luzes e estalos surgiram sobre a multidão, provocando o regozijo de todos e rapidamente fazendo um murmúrio se espalhar: aquele deleite era fruto da generosidade do Rei Falton e da Rainha Sheranoa.

– Não. Não! É Tvesh Szat quem oferece a Nebalich o Hexaedro – Junto do Hexaedro, a mulher tentava, em vão, superar a versão que as circunstâncias impuseram sobre todos os presentes e também sobre aqueles que, mais tarde, ouviriam dizer a respeito da novidade. Frustrada, encerrou o que havia vindo fazer, ativando o dispositivo.

De imediato, imagens surgiram dentro dos limites do Hexaedro. Um grande painel, cujos botões coloridos piscavam e emitiam sons em sequência aleatória. A cada bip e mip, a cada luz amarela e faísca vermelha, os presentes soltavam vivas. Encantada, a multidão andava em círculos, contornando o artefato para ver sob todos os ângulos as imagens, então revelando um campo de grama vermelha, árvores de um laranja intenso e pequenos animais voadores, semelhantes a borboletas com três pares asas.

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– Eu os vi em meio à multidão. E sei quem são vocês: os novatos de Szat – As palavras dela saíram entre dentes semicerrados. Ainda não superara o que ocorrera minutos antes.

Lenora sequer chegou a dizer seu nome. Não tinha tempo para uma conversa sem propósito com aqueles três quando estava a caminho de explicar seu fracasso para Tvesh Szat. Strahl preferiu a prudência do silêncio, enquanto Kronus não abriu mão de cumprimentá-la ironicamente pelo sucesso obtido. Obi, com meia dúzia de palavras, fez o bastante para que Lenora desconfiasse da relação dos três com o ocorrido mais cedo.

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Distante milhares e milhares de quilômetros de Qi, sede da organização, a Ordem da Verdade em Nebalich fazia o papel de última fronteira da civilização ante a nebulosa incerteza que sobrevinha das Terras Além, a leste de Seshar. Ainda assim, Moristheu, líder do capítulo, encontrou ocasião para receber, a seu pedido, os três heróis de Pedra Vermelha.

Após uma rodada de elogios e agradecimentos que pareceu interminável, finalmente o Pai Pretérito entrou no assunto que lhe interessava de fato: gostaria que seus convidados lhe arranjassem um encontro pessoal com Tvesh Szat. Evidentemente, sua posição e orgulho não permitiram que reconhecesse tal circunstância. A Obi, Strahl e Kronus afirmou que apenas gostaria da oportunidade de dizer pessoalmente quão bem-sucedidos haviam sido os três. Ao perceber a oportunidade, e em troca de acessar a biblioteca da Ordem, concordaram em intervir em favor de Moristheu. No que mais elogios e agradecimentos se seguiram.

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Lar

O lar de Tvesh Szat

A residência de Tvesh Szat era uma construção única. Dizem que fora erguida às margens do Sere Marica em um só dia, feita de pura Numenera e apenas semelhante à pedra, mas muito mais resistente e extraordinária. Servos receberam Strahl, Kronus e Obi e os acompanharam pelo interior oco da estrutura, percorrendo plataformas, escadas e corredores até chegarem à área residencial, ricamente decorada para seu único morador de fato, onde eram aguardados.

Nos trajes amarelos que o faziam parecer um membro da Ordem da Verdade, Szat ofereceu aos visitantes uma iguaria caríssima e saborosa vinda de Queslin: um pequeno verme salgado de dentro para fora. Do pátio, era possível ver toda Nebalich e os canais que se projetavam continente adentro.

– Eis as peças que resultaram de sua incursão. Como bem observaram, podem servir ao propósito de fazer de vocês associados mais capazes. Se tiverem a coragem para enfrentar os riscos de intervenções dessa natureza, eu poderia dizer quem devem procurar. Pouco me importa se derem outro destino a elas – Szat se referia ao pedaço de cristal flexível, muito mais poderoso e eficiente do que os ossos e musculatura de uma perna natural, e ao botão com filamentos, capaz de realizar conexões desconhecidas com o cérebro do usuário, tornando-o mais sagaz. Em ambos os casos, o uso dependia de cirurgias em circunstâncias muito delicadas.

Em seguida, trataram do real motivo de sua presença ali. Tvesh Szat sofrera um inesperado e irritante contratempo. Um artefato chamado de Revitalizador fora roubado por Millian, um salteador com mais coragem do que juízo. Sua única serventia a partir de agora seria a de exemplo para todos que ousassem tocar nas posses de Szat. Uma recompensa de acordo aguardaria o sucesso de Strahl, Kronus e Obi.

Sem fornecer informações além de uma descrição precisa do Revitalizador e suas funções, era bastante evidente aos três que Szat os testava por meio da tarefa. Antes de partirem, e depois de mencionarem o desejo de Moristheu – ele seria atendido a contento -, Szat despediu-se com uma pergunta.

– Na tarde de ontem um momento muito caro foi malogrado além de qualquer possibilidade de correção, causando profunda humilhação. Vocês sabem algo a respeito disso?

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Cálice

O Cálice

Durante horas os três estiveram em todos os locais onde Millian poderia ter buscado negociar o Revitalizador. Não queriam fazer perguntas a seu respeito diretamente: temiam que isso o alertasse e fizesse com que desaparecesse. Apenas depois de muita insistência um comerciante revelou que um homem chamado Millian negociara com ele um artefato com características muito semelhantes às do Revitalizador. Infelizmente, depois de chegarem a um acordo, ele jamais retornou, fosse para entregar o artefato, fosse para recolher as sucatas referentes ao negócio. Isso fora há quase uma semana.

Pressionados pela possibilidade de perder seu alvo, os três dirigiram-se ao Cálice, uma gigantesca estrutura de propósito original perdido. Seus corredores, escadarias e túneis eram basicamente feito de material sintético, sendo que algumas porções ainda possuíam energia própria de fonte desconhecida. Transformado na morada de mais de uma centena de famílias de Nebalich, era uma espécie de favela vertical, cuja ocupação se tornava mais esparsa conforme se avançava aos andares superiores. Millian viveria lá com um companheiro, um navegador varjellen de nome impronunciável, segundo as pessoas com quem falaram Strahl, Kronus e Obi.

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Ehvera

A suposta proprietária do Revitalizador

No cubículo de Millian, tudo menos dois dispositivos muito específicos foi tirado do lugar. O primeiro era um dispersor sônico capaz de gerar enorme quantidade de ondas vibratórias. Era comumente usado para esfacelar rochas em atividades de mineração. Preso a uma das paredes, estava unido por cabos sintéticos a um mecanismo transformado em cofre. Sua abertura dependia da correta interpretação de uma série de imagens que não faziam sentido a qualquer um sem familiaridade com a cultura varjellen. Juntos, convertiam-se em uma armadilha letal. Uma falha na tentativa de desvendar o segredo do cofre, ou na desativação do dispositivo vibratório, colocaria o segundo em operação, fazendo ruir as paredes e comprometendo todo o Cálice e seus habitantes numa dimensão imensurável.

Enquanto Strahl e Obi buscavam uma solução, Kronus os alertou. Alguém se aproximava.

Era uma mulher do outro lado do corredor. Pelo menos duas pessoas a acompanhavam. A primeira suspeita de Obi, Kronus e Strahl apontava para Lenora, mas ela não se confirmaria. Aos gritos, sem revelar-se, sustentava que aquilo que se encontrava no cofre de Millian chamava-se Revitalizador. O artefato pertencia a ela e fora roubado. Se o entregassem, permitira aos três deixarem o Cálice com vida.

Encurralados e sem considerar a possibilidade de fracasso diante de uma ordem direta de Tvesh Szat, atacaram primeiro. No corredor, a luta envolveu ilusões flamejantes, golpes de faca, disparos de besta e a ativação de um dispositivo explosivo que afugentou os associados daquela mulher absolutamente tenaz. Após subjugá-la – Kronus ainda assassinou um de seus homens – os três a arrastaram, desacordada, para fora dali. Consigo levavam também o cofre, separado do rompedor de rochas, ainda ativado.

* Sessão baseada no cenário The Hidden Price.

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2 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 26/11/2015 at 17:04

    “…individualizaria decisões e socializaria consequências’. Hahaha.

  2. Carlos Hentges said, on 26/11/2015 at 17:06

    essa foi uma daquelas frases ótimas que saem do nada na mesa e que eu me forcei a lembrar para colocar no texto


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