The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – A Escuridão Além das Nuvens*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 10/11/2015

Capítulo 2 – No qual um mapa leva os personagens a um local de veneração não abandonado de todo.

O mapa encontrado na torre da Ordem da Verdade em Pedra Vermelha apontava um lugar além das nuvens. Mais precisamente, o pergaminho sustentava a existência de uma estrutura à noroeste de Nebalich, em um dos pontos mais extremos dos canais artificiais que cortavam Seshar, planando quilômetros acima das águas.

Tendo em vista todo o tipo de coisa assombrosa com o qual já haviam tido contato Kronus, Strahl e Obi, não hesitaram em levar ao seu patrono a informação. A estranheza, nestes dias bilhões de anos no futuro, não era alvo de desconfiança; era apenas algo a ser desencavado, avaliado a colocado no mundo, junto com inúmeras outras.

Em Nebalich, Tvesh Szat era tido por um grande mercador, conduzindo inúmeros interesses legítimos. Era também um contrabandista, usufruindo da posição geográfica privilegiada para realizar o trânsito de Numenera entre os Noves Reinos, as Terras Além e o Sul Gélido. O mapa de anotações rudimentares trazido por Kronus, Strahl e Obi, considerando sua origem e suas promessas, representava o tipo de investimento que ele costumava fazer.

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Não demora até qualquer habitante do super-continente ser capaz de entender um pouco a respeito da Numenera. A primeira lição costuma ter relação com a sua volatilidade. Às vezes, acontece assim: o pequeno Jãn, auxiliar do pai nas lidas do campo, encontra, entre uma enxadada e outra, uma estranha caixinha com partes móveis e luzes faiscantes enterrada no solo. Jãn não sabe o que é, mas acha aquilo bonito e resolve guardá-la com todas as outras, que antes atrapalhavam a plantação e agora ocupam um baú nos fundos da casa. Em determinado momento, por algum motivo e sem aviso prévio, algo acontece, e a casa inteira torne-se um campo de ressonância para energias cósmicas. As paredes passam a reclamar dos pregos que lhes são impostos e Jãn e toda sua família acordam com a pele esverdeada e longas caudas escamosas. E assim, todos aprendem que a Numenera, quando reunida em grande quantidade, causa efeitos desastrosos.

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Tvesh Szat

Tvesh Szat, um generoso patrono com interesses por esclarecer

Kronus, Strahl e Obi tinham diante de si três itens semelhantes a mochilas, cujas alças eram adições posteriores ao que pareciam ser propulsores metálicos. Controlados pelo movimento do corpo, cada um dos dispositivos seria capaz de alçar uma pessoa aos céus e propeli-la em grande velocidade por cerca de quatro horas. Eram o incentivo de Tvesh Szat ao ímpeto exploratório de seus protegidos. Curiosamente, os itens eram perfeitamente idênticos, inclusive no padrão supostamente aleatório da ferrugem e da tinta descascada em alguns pontos.

Pelos cálculos dos três, a partir do que apontaram testes e o mapa sugeria, os propulsores, em velocidade de cruzeiro, demorariam uma hora para levá-los ao seu objetivo. Restariam outras três para a exploração e a descida segura. Sem temer o excesso de precaução, Kronus, Strahl e Obi optaram pela redundância, ao menos no que dizia respeito à queda controlada. Do mercado central de Nebalich, onde pessoas anunciavam aos gritos a Numenera que desejavam vender ou aquela que procuravam, saíram com três objetos: uma luva que permitia o controle de peso por repulsão, um cinto de anulação gravitacional e um curioso artefato capaz de retardar quedas por meio de um movimento rotacional semelhante ao das folhas caindo de uma árvore. Mais tarde, todos se mostrariam essenciais à sobrevivência do grupo.

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A viagem até o ponto marcado no mapa levou quase um dia. Em nova decisão movida pela precaução, optaram pela condução de Deymish. O barqueiro os havia levado até Pedra Vermelha dias antes, e de lá os trouxera, quando acompanharam de perto o carregamento de pedregulhos que lhes foi oferecido por Corl Vehm como pagamento após restabelecerem a tranquilidade onírica da vila. O novo trajeto pelos canais era um investimento caro, mas faria com que os propulsores apenas fossem acionados na ascensão à estrutura além das nuvens, garantindo com isso ao menos mais uma hora de exploração.

Sobre os canais, um local escondido pela nuvens

Sobre os canais, um local escondido pelas nuvens

Após elevarem-se, fazendo o deserto se tornar uma colcha pedregosa e os canais de Seshar não passarem de um conjunto de linhas azuis perfeitamente retas, Kronus, Strahl e Obi depararam-se com um enorme pedaço de rocha flutuante, escondido daqueles na superfície pelo material de que são feitas as nuvens. Havia ali construções esculpidas diretamente na pedra cercando um pátio grande o bastante para abrigar uma praça de mercadores. Ancestrais, as estruturas foram reduzidas a ruínas pela passagem das eras, e uma vegetação típica de locais úmidos reclamara o lugar para si. Por baixo de limo, líquen e fungos Kronus encontrou uma escotilha e, próximo dela, um painel de vidro com diversos sinais de desgaste.

Nas paredes do que pareciam ser templos, Kronus encontrou marcas remetendo à veneração de alguma espécie de entidade vinculada à informação ou conhecimento, um deus do fato e do dado. A elevação aos céus de toda a estrutura, portanto, além da sombra das nuvens e mais próxima das estrelas, seria de caráter também simbólico: mais próximos da luz do sol e das estrelas, aqueles que ali estiveram encontrar-se-iam igualmente mais próximos do saber, distantes da ignorância e protegidos da escuridão.

Enquanto isso, Obi e Strahl decifraram o painel. Suas marcas representavam sinais de uso. Tocado na correta ordem de movimentos, registrados pelo desgaste causado por usos anteriores, ele abriu a escotilha que levava aos subterrâneos da rocha flutuante.

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A coluna de luz invadiu a escuridão a partir da escotilha aberta. Mesmo ampla, com mais de dois metros de lado, a abertura não era o suficiente para mostrar muito daquele imenso salão. Imersos em trevas, pequenos pontos cintilavam, como que respondendo ao sol. Eram fragmentos de um tipo de cristal que preenchia o chão e parecia crescer por todo o subterrâneo da estrutura, transformando o que antes fora um espaço aberto num labirinto cortante desde o chão até o teto.

Durante uma hora, o único incidente enfrentado por Kronus, Strahl e Obi havia sido um globo de luz falhando ocasionalmente. Foi quando a estrutura, até então estável, oscilou e tremeu, como que respondendo a um impacto. Milhares de pequenos pedaços de cristal desprenderam-se do teto, trazendo consigo uma enorme estalactite. Obi foi salvo pela combinação da armadura sintética e um tecnotruque de proteção, enquanto Kronus reagiu utilizando sua luva de repulsão. O dispositivo não só afastou os estilhaços que vinham em sua direção como desviou o maior deles, minimizando os ferimentos em Strahl.

Já recuperados, os três chegaram a uma área mais bem preservada. Em bancadas de material translúcido e entre escombros encontraram dispositivos que poderiam justificar a vinda ao local. O primeiro se parecia com uma máscara, transparente e levemente maleável, cujas feições suaves não permitiam dizer quem ou o que lhe teria servido de molde. Havia ainda uma haste de aparência resistente, com pouco mais de um metro de comprimento. Tinha uma superfície plana em uma das extremidades, uma articulação no meio e a outra ponta abaulada. Lembrava uma perna artificial. Por fim, encontraram uma espécie de botão. Um dos lados era repleto de filamentos que chegavam a cinco centímetros. Do outro havia um símbolo que poderia ser traduzido como saber, ou conhecimento. Todos os itens eram feitos do mesmo tipo de cristal encontrado em abundância ali.

Foi quando aquilo emergiu da penumbra.

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A criatura na penumbra

A criatura na penumbra

Desde a descida ao subterrâneo da estrutura flutuante Strahl vinha usando uma tocha para orientar-se. Ela, e o globo de luz nas mãos de Obi, eram suas fontes de luz ali. O globo falhara inesperadamente em algumas ocasiões, mas a tocha era de uma simplicidade confiável. Até que se apagou. O fogo, contudo, continuava ali. Crepitava e aquecia, mas não emitia luz alguma. Sem compreender aquilo, Obi iluminou com um flash de luz o seu companheiro. E o que estava logo atrás de Strahl se revelou.

Os dentes de cristal eram a única parte sólida daquela criatura de escuridão serpentina. Quando ela fechou a bocarra em direção a Strahl, foi apenas um reflexo repentino que lhe salvou do ataque. Obi buscou afastá-la com um golpe telecinético, mas não havia substância para ser afetada. Kronus, numa tentativa desesperada de conseguir alguma vantagem, levou ao rosto a máscara que ainda tinha nas mãos, fazendo com que o cristal assumisse suas feições e um tubo dela se projetasse, lhe invadindo a garganta e se ancorando nos pulmões. Com a tocha, Strahl buscava afastar aquela massa dentada de penumbra enquanto gritava por Kronus, que engasgava, sem poder comunicar-se. Obi esperava fustigar a criatura utilizando o propulsor como arma, mas não tinha força o bastante para controlá-lo, e por pouco não foi jogado em direção a uma massa de cristais fragmentados.

Kronus, ao conjurar um ser primitivo avistado em viagens às fronteiras próximas ao Sul Gélido, uma ilusão de luz e fogo, conseguiu dar aos companheiros o espaço necessário para a fuga em direção à coluna de sol que entrava pela escotilha. Quando a criatura finalmente debelou a ilusão e arremeteu contra eles, o labirinto de cristais ainda não fora vencido. O propulsor de Kronus ficara para trás, cortado nas alças após um mau passo. Foi Obi quem o levou para fora do subterrâneo, este sim impulsionado pelo dispositivo entregue por Tvesh Szat. Mas Strahl não foi rápido o bastante. Ele, que até então se esquivara com sucesso de todas as investidas, tinha agora os dentes de cristal se fechando sobre o tronco, braços e pernas. Em desespero, acionou em potência máxima o seu propulsor. Ao entrar contato com a luz solar direta, a criatura desapareceu, como que sugada por Strahl, feito fumaça negra atraída de volta à fornalha.

Apenas com a escotilha cerrada se permitiram respirar aliviados.

*****

Enquanto Strahl descansava, Kronus finalmente teve a oportunidade de averiguar a máscara presa ao seu rosto. Aparentemente, aquilo lhe dava condições de respirar em qualquer condição. Contudo, a remoção forçada seria dolorosa, perigosa até. Decidiu permanecer assim pelo tempo necessário à desativação, ao passo que Obi realizava os preparativos para a descida.

Strahl foi o primeiro a vencer a cobertura de nuvens. Ainda não podia ver a embarcação de Deymish quando foi ultrapassado por Obi e Kronus. A energia de seu propulsor acabara, e eles mergulhavam em queda livre. Strahl acelerou vendo o solo cada vez mais próximo. Ao alcançá-los, Kronus soltou-se. Tinha consigo o dispositivo de queda controlada trazido do mercado de Nebalich, e isso garantiria sua segurança.

Agarrado a Obi, Strahl acionou seu cinto de inversão gravitacional ao mesmo tempo que ativava a máxima potência do propulsor. Estavam próximos demais dos canais para considerar uma manobra menos extrema. O tranco causado pela súbita força contrária à queda por muito pouco não venceu Obi, que escorregou e salvou-se agarrando as botas do companheiro. Quando atingiram as águas dos canais, foram pescados por Kronus e Deymish. Era hora do retorno a Nebalich.

* Sessão baseada no cenário The Hidden Price.

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