The Truth's For Sale

Numenera Ex Machina – O Dispositivo do Pesadelo*

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 19/10/2015

Capítulo 1 – No qual o sono de Pedra Vermelha é perturbado por uma aterrorizante transmissão de origem misteriosa.

Há um dia viajavam pelos canais artificiais de Seshar. Conduzidos por Deymish, um homem que passara toda a vida singrando a região, Obi, Kronus e Strahl esperavam chegar logo a Pedra Vermelha. Levavam consigo três grandes caixas solicitadas pelos Pais Pretéritos da pequena vila. Conheciam-se há algum tempo, mas pela primeira vez realizariam um trabalho para o mesmo patrono, a respeito do qual pouco sabiam. Certo é que a generosa quantidade de sucatas por receber justificara a mobilização dos três conhecedores da Numenera para uma tarefa tão pouco singular.

Travessia dos Canais de Seshar

Travessia dos Canais de Seshar

Deymish mencionara rapidamente as peculiaridades dos canais, escavados na rocha em ângulos retos e abertos na medida constante de quinze metros de largura. Havia ainda as indescritíveis esculturas em diversos pontos do trajeto, mas delas pouco sabia e os passageiros, silenciosos na maior parte do tempo, nada perguntaram. Deymish os considerou tipos estranhos e um pouco enervantes, sendo tomado por certo alívio quando finalmente deixaram a embarcação para realizar a entrega aos membros da Ordem da Verdade.

Erguida a partir de uma espécie de rampa que encaminhava aos canais, Pedra Vermelha recebera o nome por conta dos grandes blocos compactos retirados da pedreira ao norte, às margens do deserto. De cor viva e entrecortados por linhas negras angulosas, eram vendidos para toda Seshar e garantiam o sustento da vila. No porto vazio uma grande embarcação aguardava ser carregada.

O trato com os moradores revelou-se difícil e frustrante. Seu raciocínio era lento e a fala se arrastava. Perdiam-se em meio às frases. Há dias não podiam dormir mais do que poucos minutos, sendo sem exceção assaltados por pesadelos após caírem no sono. Vencidos pela exaustão, despertavam aos gritos. Obi, Kronus e Strahl estavam decididos a fazer sua entrega e deixar o local o mais rapidamente possível.

Carregaram as caixas à torre da Ordem da Verdade, única construção destacada no cenário de pequenas casas quadradas e vermelhas da vila. Ali, diante dos portões, estava Hataniah. Protegida por uma armadura leve e mantida alerta por convicções ainda mais resistentes, impediu a passagem dos três. Segundo ela, há dois dias os Pais Pretéritos estavam fechados em busca de uma cura para Pedra Vermelha. Recebera ordem clara: sob hipótese alguma deveriam ser perturbados. Além disso, nada lhe fora dito a respeito de mantimentos vindos de Nebalich. Diante do impasse, palavras ríspidas foram trocadas, tendo a conversa se encerrado após a pobre escolha de palavras de Strahl, que lhe valeram a ameaça de uma lança diante dos olhos.

Hataniah

Hataniah

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Sendo a única taverna de Pedra Vermelha, não precisava de nome. Era simplesmente a taverna. Ali, além do proprietário, estava apenas Malthus. O primeiro tinha pouco a acrescentar a respeito de Pedra Vermelha. Foram dez dias desde a última noite de sono. Algumas pessoas partiram e um homem, Kriuss, atirou-se da pedreira. A esperança de todos estava nos Pais Pretéritos. Sugeriu-se durante a conversa que talvez Corl Vehm, o mais rico dos moradores, pudesse sensibilizar Hataniah quanto à necessidade de serem abertos os portões da torre. Kronus dirigiu-se à residência do comerciante de pedras, enquanto Obi e Strahl foram ter com Malthus.

O viajante tinha os mesmos sinais de debilidade percebidos nos aldeões, ainda que em menor grau. Estava em Pedra Vermelha há dois dias e trazia consigo uma dispositivo repleto de engrenagens e pontos de encaixe, aparentemente controlado por um visor de cristal no qual luzes coloridas piscavam em um padrão incompreensível. Malthus revelou que pretendia dirigir-se à Torre de Yrkallak e chegar à Árvore da Ascensão, escalá-la, comer um de seus frutos e atingir outros mundos. Tinha pouca clareza a respeito do local, mas contava com seu dispositivo para prever as manifestações do Vento de Ferro, bastante comuns nos arredores de Yrkallak. Malthus acreditava que as águas que passavam por Pedra Vermelha, bem como todos os canais, estariam contaminadas por Yrkallak.

“Eu estava na Torre de Yrkallak quando a nuvem laranja e vermelha encobriu toda a paisagem ao longe. Através da minha luneta, vi a formação de uma colina que não existia antes. No seu topo cresceram árvores de pólipos azuis, que então balançaram e morreram. O campo de grãos que crescia nas proximidades tornou-se uma mistura de vidro, vapor verde e serpentes se contorcendo. Um aneen tentou correr quando o Vento de Ferro se aproximou, mas suas pernas se tornaram pequenas asas, e então ele caiu. De suas costas brotaram mil pernas de insetos e sua cabeça se transformou em cobre, e só então ele morreu. Muitos outros horrores eu testemunhei, não vou descrevê-los. Desejaria não tê-los visto. Assombrarão meus sonhos para sempre. Verdadeiramente, essa era uma tempestade nascida na treva primordial, carregada nas costas de seres invisíveis da loucura e tragédia.”

— Do diário da Senhora Charalann

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O casal de senhores rechonchudos que tomava chá no jardim diante da mansão teve a atenção despertada pelo rapaz em trajes de viagem. Gillis Vehm era a responsável por toda a extração de Pedra Vermelha, e o seu irmão, Corl, por sua comercialização. As vestes de ambos denunciavam que a riqueza chegara antes do refinamento. Falavam aos atropelos, e a ânsia de superar um ao outro quase era o bastante para contornar de todo a debilidade causada pela falta de sono.

Ambos mostravam-se encantados ante a possibilidade de seu visitante trazer a Pedra Vermelha a cura para a moléstia que sofriam, mas não se encontravam em condições de enfrentar diretamente uma ordem expressa dos Pais Pretéritos. Garantiam que nada seria capaz de desmobilizar Hataniah. Seu irmão, Dalias, contudo, assim foi dito a Kronus, seria um homem mais inclinado aos argumentos da ponderação e do ganho financeiro, podendo ser convencido a relaxar certas regras pelo bem da vila e de seu próprio bolso.

Após uma série de encontros envolvendo o investimento de algumas sucatas, o emprego de ilusões e alterações de humor, feitas do modo natural e também artificial, Obi, Strahl e Kronus finalmente conseguiram um acordo com Dalias para adentrar a torre e fazer a entrega dos mantimentos. Mas isso apenas seria possível na manhã seguinte, quando Hataniah seria rendida pelo irmão. Antes disso, os três pretendiam investigar a pedreira.

Margr

Um margr

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A pedreira, às margens do deserto ao norte, era de onde Pedra Vermelha extraía seu sustento. Pela primeira vez em décadas estava inativa, sendo o local escolhido por Kriuss, subjugado pela exaustão, para cometer suicídio. Teria sido uma incursão infrutífera, não fosse a presença de uma criatura de chifres pronunciados nas imediações. Em busca de seus rastros, Obi, Strahl e Kronus encontraram marcas de cascos na areia. Era um margr, uma raça de desumanos que habitava deserto. Mesmo dispondo de um conhecimento exclusivamente teórico, os três chegaram a um palpite de quais sons o desumano utilizaria para comunicação. Contudo, o chamado produzido pelas ilusões de Kronus atraiu algo bem maior.

Aquilo veio voando e pousou bem diante deles. O bico pontiagudo e as imensas asas pálidas petrificaram os três, que demoraram um instante a entender que a criatura falava diretamente às suas mentes. O xi-drake era jovem, e parecia insatisfeito por ter sido atraído por algo que não fossem margr saborosos. Contudo, não estava inclinado a devorar os três humanos diante de si. Mesmo exausto pela falta de sono, perseguir a refeição, a noroeste, era sua prioridade. Quando partiu, para imenso alívio dos três, foi em direção a um ponto de luz que refletia em meio às areias vermelhas do deserto a lua daquela noite de céu claro.

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Na manhã seguinte, já sentindo os efeitos de uma noite evitando o sono e os pesadelos, Obi, Kronus e Strahl afinal conseguiram, com a anuência de Dalias, adentrar a torre da Ordem da Verdade. Estava vazia. Os Pais Pretéritos haviam deixado o local. Entre os pertences de um deles, Xarmum, encontraram um diário iniciado meses atrás. As anotações mais recentes tratavam da doença em Pedra Vermelha e mencionavam outro Pai Pretérito, Brogun. Ele estaria convencido de que os sonhos eram transmitidos de um local chamado Domo Facetado, à noroeste de Pedra Vermelha. Xarmun não parecia tão certo das conclusões do colega, mas não vira alternativa. Ainda aguardavam os mantimentos de Nebalich e, após o suicídio de Kriuss, decidiram partir. A viagem ao domo demoraria cerca de um dia, e os três monges decidiram realizá-la em segredo. Temeram que a população suspeitasse de que estariam abandonando a vila à própria sorte. Além de alguns dispositivos interessantes e uma boa quantidades de sucatas escondidas por um painel, Obi, Kronus e Strahl deixaram a torre com um mapa apontando uma estrutura identificada como um laboratório de Numenera, flutuando um quilômetro acima dos canais, a noroeste de Nebalich.

Ainda que não houvesse quem recebê-los, consideraram que a entrega havia sido realizada. A presença do margr e de um xi-drake no deserto fazia suspeitar de que os Pais Pretéritos pudessem ter sofrido algum revés na tentativa de resolver a moléstia do sono. Iriam na mesma direção, mas sem altruísmo. A possibilidade de encontrar Numenera e a promessa de uma recompensa por parte da Corl Vehm os movia.

Kronus, antes de partir, ainda cuidou de espalhar entre a população de Pedra Vermelha mais um tanto de desesperança: os Pais Pretéritos os abandonaram.

Um Pai Pretérito e seu instrumento de localização solar

Um Pai Pretérito e seu instrumento de localização solar

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Marcharam oito horas a noroeste, deserto adentro. As indicações breves do diário de Xarmum eram complementadas pelo brilho avistado na noite anterior, fortalecido pelo sol matutino.

Sangue seco na areia, uma lança quebrada e um manto amarelo rasgado eram claros indícios de luta diante do Domo Facetado. Havia ainda um dispositivo, composto por uma haste com um complexo conjunto de cristais e símbolos matemáticos, parcialmente coberto pela areia. As muitas pegadas nos arredores eram incompreensíveis.

O Domo tinha seis metros de altura e quarenta metros de diâmetro, sendo formado por triângulos de cristal frio ao toque. Assim que tocados, recolheram-se para formar uma larga abertura. O ar ali dentro era fresco e limpo, como em um jardim, ainda que apenas máquinas preenchessem o ambiente. Era um labirinto de turbinas, painéis de controle e estações de comando, com o chão feito de algum tipo de cerâmica multicolorida. Todas as máquinas estavam em perfeitas condições, à exceção de uma. Seu painel fora removido e ferramentas espalhadas em volta dele, junto a fios, cabos e condutores. O maquinário removido tinha um vão do mesmo tamanho do cilindro no chão, ainda que esse tivesse seu núcleo obviamente queimado de dentro para fora. Uma peça de reposição estava posicionada ao seu lado. Concluíram que os Pais Pretéritos estiveram prestes a realizar o reparo quando algo os interrompera, atraíra para fora e selara seu destino.

Discernir a natureza do problema não foi a parte mais complexa da tarefa. Ao que tudo indicava, o Domo Facetado emitia e recebia mensagens para um lugar desconhecido. Com o defeito, o sinal se dispersara, atingindo Pedra Vermelha. As imagens terríveis, provocadoras dos pesadelos, nada mais seriam do que um defeito naquele imenso dispositivo. O conserto dependeria de que fosse apontada a correta posição solar por meio da haste encontrada diante do Domo e do reposicionamento adequado do cilindro ao mesmo tempo em que uma série de comandos reorientasse o sinal. A tarefa, em perfeita coordenação, foi realizada por Obi, Kronus e Strahl com sucesso.

Quando retornassem a Pedra Vermelha, e dali para Nebalich, recolheriam os benefícios de seu duplo sucesso.

* Sessão baseada no cenário The Nightmare Switch.

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4 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 27/10/2015 at 18:50

    Que bom que voltaste a jogar (ainda mais com Numenera), Hentges! Acompanharei os relatos dessa nova campanha.

    Boa sorte na empreitada.

  2. Carlos Hentges said, on 29/10/2015 at 08:41

    Mesmo que eu quisesse, não consigo parar. Essa história deve corrigir dois erros da história anterior:
    1 – Formar o grupo de personagens desde o início, e não ao longo das sessões. Isso permite a criação de objetivos comuns e coesos.
    2 – Sessões independentes. Quer dizer, o que aconteceu antes tem importância e repercussões, mas cada capítulo deve ter seu próprio começo, meio e fim, sem aquela eterna sensação de transição para algo prestes a acontecer de verdade.

  3. R.G. Caetano said, on 29/10/2015 at 17:03

    Interessante essas correções.

    Tá com cara de consequência de Falha Crítica essa aparição do Xi-drake na aventura, hehe.

  4. Carlos Hentges said, on 30/10/2015 at 09:08

    ahahah….bem observado, e quase na mosca. o cypher system conta com um mecanismo de intervenção do mestre. ele me permite “impor” uma falha crítica ou criar uma mudança na história que seja desfavorável aos personagens. em troca disso, eu dou dois pontos de experiência, um para o jogador do personagem afetado diretamente, outro para ele conceder a quem desejar. os jogadores também podem impedir a minha intervenção, desde que paguem um ponto de experiência por isso.

    na cena em questão, os personagens debatiam como atrair o margr avistado. a falha crítica se deu na análise de qual som seria o adequado. logo, quando o reproduzissem, por meio das ilusões de kronus, não haveria meio de funcionar. contudo, usando uma intervenção, eu fui além e coloquei um xi-drake no caminho deles. foi inesperado e me deu a chance de falar do grupo de margs a noroeste sem parecer forçado demais. além disso, os colocou em uma situação perigosa. durante o diálogo, kronus sugeriu ao xi-drake que devorasse hataniah, mas acabou não entrando no relato.

    é um mecanismo que mistura narração e mecânica de um modo que eu gosto muito.


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