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Numenera – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Um)

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 31/05/2015

Numenera: The Wonder Weird
Capítulo 9 – Os Trabalhadores do Mar dos Segredos (Parte Um)

Um mês passou-se desde o evento cujo epicentro foi a propriedade de Lemsel Eczoz. O choque inicial e o desabamento de construções fizeram inúmeras vítimas, a maior parte delas em Terras Férteis. Demorou duas semanas até que a Ordem da Verdade lançasse luz sobre a tragédia.

Um grupo de mercenários liderados por um gaiano estava a caminho de Glavis. Deduziu-se que planejava detonar o dispositivo na cidade para minar os esforços de guerra que partem de Porto Frohm a caminho de Qi e, dali, para o norte, além do Campo sob as Nuvens de Cristal. O líder dos Pais Pretéritos em Glavis, Adhamastor Nerus, apresentou as conclusões ao próprio Rei Asour-Mantir, que em uma rara manifestação direta aos seus súditos, empenhou recursos e esforços de Ancuan em favor da causa da Ordem da Verdade.

Zippack Ranzz frequentou Porto Forhm nas últimas semanas e observou a partida de embarcações levando membros da Legião Azul para Qi. Ali, entre bebedeiras e apresentações performáticas, vendeu partes aproveitáveis do Fus-K, danificado além de qualquer possibilidade de reparo pelo choque de energia emitido pela esfera trazida de Ishlav. Nas ruas, falava-se dos gaianos como uma raça de nortistas desprezíveis, mesmo que até recentemente sua existência fosse ignorada. A população estava aliviada pelo ataque mal sucedido ter feito menos vítimas do que poderia, e a presença de homens de um Senhor de Guerra chamado Serec reforçava a sensação geral de segurança.

Mark ingressou entre as fileiras de Serec, informalmente chamado de O Relutante. Com o contingente presente nas ruas de Glavis, uma companhia de mercenários foi deslocada até Itzen a pedido de Lorde Wernard Streck. Por duas semanas, Mark acompanhou a construção de uma guarnição onde antes havia Itzen e patrulhou a fronteira de Ancuan com o Império de Phytaron. Da esfera que destruiu a vila não se tinha notícia desde sua remoção com a ajuda de homens de Serec, cuja força militar começa a se expandir para além dos arredores de Glavis. Seus capitães, em mais de uma ocasião, ordenaram que tropas se movimentassem além da fronteira, fomentando animosidades que justificariam, e quem sabe ampliariam, a necessidade de milicianos na região.

Stephen Dedalus investiu seu tempo buscando aproximar-se de Loig. O jovem Pai Pretérito de Ishalv é ambicioso, e aos poucos cedeu informações a respeito do que realmente estava acontecendo na Ordem da Verdade em Ancuan. Internamente, se dava como certa a relação entre o evento em Ishlav vinte anos atrás e o ocorrido em Glavis. As propriedades afastadas de Terras Férteis dificultavam apontar o centro da emissão de energia, mas a Ordem considerava em suas conjecturas a perda de quase todo o Conselho Numer na ocasião, inclusive com a propriedade de Lemsel Eczoz tendo sido seriamente afetada. A opção pelo uso político da tragédia se justificava, pois culpados punidos pelos seus atos são mais tranquilizadores para a população do que uma tragédia inexplicada capaz de se repetir a qualquer momento. Sugerindo a Loig o desejo de aproximar-se da Ordem da Verdade em Qi, Dedalus recebeu um contato: Pai Onald.

Czyran Eczoz tinha mais preocupações do que todos. Seu pai, Lemsel, foi uma entre tantas vítimas diretas da decisão de levar à propriedade em Terras Férteis a esfera resgatada de Ishlav. Durante as semanas seguintes, havia esse funeral e o de diversos servos por realizar, uma propriedade para reerguer e uma família a liderar. Em paralelo, a necessidade de manutenção do segredo em relação ao ocorrido. Recuperando-se lentamente, Yalacker-Siross era o único sobrevivente do Conselho Numer original, e demonstrava disposição para contribuir. Contudo, famílias nobres perderam subitamente seus membros, havia muito espaço para intrigas e disputas de poder se avizinhavam. O Conselho estava aberto para sucessores que quisessem ocupar uma cadeira, mas as circunstâncias faziam dele uma entidade sem força e praticamente inexistente, cujo vácuo seria preenchido por Czyran.

Causadora daquilo tudo, a esfera de Ishlav, exaurida, fora cerrada em um baú e enterrada nos arredores da propriedade dos Eczos, em Terras Férteis.

****

O Tonel era um cog com cerca de oitenta pés. Impulsionado por uma única vela quadrada e manejado por uma tripulação de dez pessoas, era comandado pela capitã Akelle, que acompanhava o embarque das últimas sacas de grãos e a chegada de Czyran Eczos, Stephen Dedalus, Mark e Zippack Ranzz. Por último veio Anders, acompanhado por Loig e levando uma grande quantidade de pertences. A previsão era de uma viagem de oito dias a partir da Baía Kelen e pelo Mar dos Segredos, apenas possível graças a uma rota que não incluía paradas nos portos de Rarrow e Kaparin, em Ancuan, e Mullen, em Iscobal. Dedalus, Mark e Zippack uniram-se à tripulação, assumindo tarefas menores já a partir de partida para Qi, enquanto Czyran, financiado por nobres locais e levando consigo uma carta de intenções e boa-vontade em relação aos esforços de guerra da Ordem da Verdade, era um passageiro.

Além da capitã, o Tonel levava seis marinheiras e uma responsável pela cozinha e mantimentos, um imediato e um oficial de carga. Mesmo com os cinco novos integrantes, estava mantida a maioria feminina que garantiria boa sorte à viagem, como manda a crença da Marinha Mercante do Reino de Ghan. Era final de tarde, momento de deixar Glavis.

****

Em seu primeiro dia no mar Mark se revelaria, entre cordas enroladas, nós desfeitos e um enjoo interminável, um péssimo marinheiro. Exatamente o contrário de Zippack, cujas tarefas de auxiliar na cozinha garantiam à tripulação as melhores refeições em muito tempo, para desagrado de Ziona, que supervisionava com zelo o espaço exíguo que antes era apenas seu. Navegar era muito mais simples do que voar, raciocinava ele. Dedalus tratava com o imediato e a capitã a respeito de métodos de orientação pelas estrelas, enquanto Czyran tentava se aproximar de Anders, um passageiro arredio e de ar doentio, responsável pela primeira parada do Tonel, em Ilhas Aras.

Dois botes deixaram o Tonel naquele final de tarde em sua direção. Levavam Anders, Czyran, Mark, Dedalus, o imediato London e a marinheira Amanethes, além de toda a bagagem do passageiro. As Ilhas Aras eram um bastião de independência, violência e morte situada no calcanhar da Península do Escorpião. Com suas praias pedregosas e montanhas permanentemente cobertas de neve, seria um destino pouco convidativo mesmo que nela não habitassem os Jaekels, uma população primitiva e conhecida por idolatrar deuses-animais e realizar modificações nos próprios corpos utilizando Numenera. Anders pretendia realizar observações desse grupo, mas as pequenas gaiolas presentes no acampamento montado em visitas anteriores diziam que sua intervenção poderia ser mais ativa do que se permitia revelar.

Foi deixado ali sob auspícios de boa sorte.

Zippack, tendo preferido a segurança do Tonel, teve uma experiência peculiar. Já percebera que seus pertences haviam sido objeto da curiosidade alheia, e durante o dia, sozinho na cozinha, sentiu como se alguém lhe observasse e fizesse companhia. Até então, desconfiava de algum truque da insatisfeita Ziona. Naquele final de tarde, viu a capitã Akelle conversando com uma pessoa. Suas feições não permitiam dizer se era homem ou mulher. Quando questionada, Akelle estranhou a abordagem, pois não conversara com ninguém e nem havia no Tonel ninguém que correspondesse à descrição de Zippack. Intrigado, vasculhou a embarcação tanto quanto pode, nada encontrando. Quando seus companheiros voltaram, não conseguiu relatar o ocorrido. Sentia que algo estranho havia se passado, mas não lembrava o que era.

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Os dias seguintes foram tranquilos. O Tonel avançava veloz, ultrapassando Rarrow e se aproximando do estreito entre as Ilhas da Última Migração e o continente. Mark dava lições de espada para Amanethes. A marinheira pretendia deixar a Marinha Mercante de Ghan e retornar a sua família, em Keford, em conflito com um nobre de Navarene que reclamava o direito sobre a Floresta Oeste. London, enquanto isso, entretinha a tripulação com histórias a respeito da Pedra Sorridente, um artefato capaz de trazer paz a pessoas e nações. Segundo ele, a pedra era levada ao norte por uma embarcação da Esquadra Vermelha quando foi afundada por gaianos que não desejavam a conciliação com os Nove Reinos.

A menção veio junto com o aviso de que uma armada se postava no caminho do Tonel. Akelle buscou tranquilizar a tripulação. A Esquadra Vermelha era formada por exploradores dos oceanos e estudiosos, e certamente estaria realizando algum tipo de pesquisa na região. Pirataria não era algo a se temer deles. Foi então que um submergível se postou junto ao Tonel. A escotilha, feita de material semelhante à pedra coberta de corais, se abriu e dela um homem solicitou que seu ingresso na embarcação fosse facultado.

O capitão Pierce dirigia-se somente à oficial de mesma patente, e juntos retiraram-se ao aposento de Akelle. Neste momento, era possível ver a Esquadra Vermelha abordando outras embarcações rumando ao norte. Aproveitando-se da distração proporcionada por aquele evento inesperado, e pelo emanador sonoro trazido pelo imediato de Pierce – o dispositivo enchia o convés com sons retirados do fundo do mar -, Zippack discretamente dirigiu-se ao compartimento de carga do Tonel. A sensação de uma presença o perturbava, e este era o único local que ainda não vasculhara com cuidado.

Ali embaixo, sobre duas sacas de grãos alinhadas como que para servirem de cama, ele encontrou um estranho objeto.

Àquela altura, Pierce e o imediato já estavam de volta ao submergível e a capitã Akelle explicava à tripulação o motivo de subida a bordo. A Esquadra Vermelha procurava algo em embarcações saídas de Glavis. Não diziam do que se tratava, mas parecia algo portátil, pois até mesmo gavetas foram vasculhadas. Contudo, o Tonel era uma embarcação amiga, e sua passagem foi admitida depois de uma visita protocolar.

Czyran, Mark, Dedalus e Zippack desconfiavam que a Esquadra Vermelha buscava o objeto encontrado pelo último. Tratava-se de uma espécie de óculos, com visor polido e hastes um pouco longas demais. Mais estranho eram os apêndices que se projetavam da parte superior do visor e tinham nas pontas pequenos orifícios de sucção, como se feitos para serem presos em diversas partes da cabeça do usuário e emitirem pequenas descargas elétricas.

E a viagem ainda estava na metade.

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2 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 06/06/2015 at 21:13

    Fiquei curioso. Daonde tu tira esses nomes de pessoas tão legais!?

  2. Carlos Hentges said, on 07/06/2015 at 11:43

    Tem um pouco de tudo. Anders é do próprio livro básico do Numenera. Amanethes é um álbum da banda Tiamat. Dos personagens, o Stephen Dedalus saiu do Ulysses, do James Joyce. Eu costumo usar dois recursos: pegar um nome normal e tirar ou mudar uma letra (Donald virou Onald, Bernard virou Wernard) e usar um site de geração de nomes: http://darkliquid.co.uk/playground/numenera/names/


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