The Truth's For Sale

Numenera – (Segunda Metade de) Um Conto de Duas Verdades

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 27/04/2015

Numenera – The Wonder Weird
Capítulo 7 – (Segunda Metade de) Um Conto de Duas Verdades

A pequena sala comunal da Ordem da Verdade demonstrava naquela manhã, com sua refeição simples, cadeiras vagas e poeira acumulada onde os olhos não viam primeiro, a situação atual dos Pais Pretéritos em Ishlav. Apenas os mais jovens estavam ali, circunspectos, e ninguém ousava perguntar a respeito dos corpos sobre as mesas do laboratório. Já eram dois, e Galvin passara a madrugada examinando-os. Antes que fossem até ele, Zippack, Dedalus e Mark rumaram ao mercado central da cidade. O último desejava uma nova espada, enquanto os outros dois tinham ideias a respeito de como tornar o Fus-K uma aeronave mais eficiente.

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Czyran Eczos tinham mensagens a enviar a sua família e patrocinadores em Glavis. Ela levaria ao menos cinco dias até que chegasse à capital de Ancuan, muito mais tempo do que durariam os poucos shins que ainda levava consigo. A Ordem da Verdade era o único e melhor meio para empregar seu conhecimento a respeito da Numenera e, ao mesmo tempo, ganhar acesso aos dados sobre o evento que ocorreu na cidade vinte anos atrás.

Recebido por Galvin, Czyran foi confrontado com a realidade já há algum tempo estabelecida ali: não havia recursos. Contudo, ele facultaria acesso ao laboratório principal e à biblioteca. Gostaria apenas que o jovem nobre usasse de sua influência para tranquilizar o companheiro de Asther Vanita. Ela, também uma nobre, era a segunda vítima da estranha doença, e a divulgação das circunstâncias da morte causaria pânico entre a população.

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Ao retornarem, Mark, Dedalus e Zippack foram apresentados ao que Galvin descobrira ao longo da madrugada. Pouco havia a ser dito a respeito dos dois corpos, mas a água que trouxeram da Margem Sul apresentava propriedades curiosas. Nela, gramíneas e folhas comuns, do tipo que crescia em qualquer lugar de Ishlav, irradiavam uma leve fosforescência nas bordas. Perceptível apenas quando examinadas por meio de complexos painéis, que agigantavam sua aparência sob vidros e películas transparentes, era o primeiro indício a respeito de como se espalhava a doença.

Discretamente, Galvin e Dedalus conversaram a sós sobre o que ocorria na cidade e como o auxílio do pesquisador e de seus dois companheiros seria útil. Mais importante do que um pagamento, uma impossibilidade para a Ordem, a intervenção faria com que os três caíssem nas graças do grupo organizado mais importante dos Nove Reinos. E faria com que fosse esquecido o investimento feito na viagem inconclusa de Dedalus a Rarmon, no Império de Pytharon, para estudo do Grande Planetário de Ferro.

Do lado de fora, enquanto isso, Zippack recusava uma oferta de 5 mil shins e dois aneens domesticados pelo Fus-K. A nobre solicitante, Choen Mohsen, acreditava que aquele era o veículo capaz de levá-la adequadamente à capital de Draolis. “Chegar por cima é o único modo certo de chegar a Qi”.

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Já fazia algum tempo que Czyran conversava com Évoro, garboso companheiro de Asther Vanita, na mansão que dividiam. Ele já se mostrara um companheiro dedicado, um amante enlutado e um jovem egoísta. A contragosto, concordava com a possibilidade de adiar o digno funeral merecido por ela. Servo com funções e privilégios especiais, Évoro era responsável por alimentar a maior obsessão de Asther Vanita: a manutenção de sua juventude. Isso o ultrajava mais do que os boatos de que seriam amantes.

Quando Mark, Dedalus e Zippack chegaram ali, Czyran já encontrara, em meio a pós, unguentos, pomadas e xaropes, uma garrafa muito semelhante àquela que trouxeram da Margem Sul. A Água de Ishlav fora despejada numa cuba de vidro e tinha os mesmos resquícios de plantas da outra amosta. Já há alguns meses Évoro a adquiria de um homem chamado Strepicus. Asther passava o líquido nas mãos, rosto e colo, além de bebê-lo regularmente.

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Naquela tarde, Dedalus, Zippack e Czyran fizeram testes com o pequeno reator elétrico adquirido na Margem Sul. Sua intenção era fazer com que a fonte de energia alimentasse o Fus-K. Mesmo tendo o laboratório da Ordem da Verdade à disposição, não foi possível realizar a conversão. Galvin se recusou a ajudá-los, mas não impediu a tarefa. Os Pais Pretéritos eram os responsáveis pela restrição à Numenera em Ishlav, e tomar parte naquilo feriria a crença na necessidade de tal proteção. Segundo Galvin, se mesmo a Ordem da Verdade, em posse de todo conhecimento acumulado a respeito da Numenera, não pôde controlar o desastre do passado, a livre circulação de dispositivos de origem misteriosa e propósitos inescrutáveis apenas colocaria a cidade em risco.

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Mark, por sua vez, se dirigia ao local que servia ao encontro e treinamento dos Monges de Mitos. Fora abordado mais cedo por Mikhal, que na noite anterior o vira enfrentando o devastador no fosso. Ele parecia ter aquilo que interessava a uma ordem que buscava a iluminação dos capazes de provar seu valor em combate.

Naquele momento, cerca de quarenta pessoas se esforçavam para acompanhar os movimentos de Kollos e seus mais graduados seguidores. Era disciplinados, mas diferiam do tradicional treinamento militar na maneira com que golpes de mãos nuas eram intercalados por um discurso de purificação pacífica. Ensinavam a defesa, e não o ataque. Observando de longe, Mark podia ver que os Monges de Mitos haviam ocupado, com suas famílias e associados, todo um bairro de Ishlav.

Não era estranho ao soldado mover-se sem a proteção da armadura ou o peso do escudo; lutar de mãos nuas era algo que aprendera em tavernas de Thaemor. Mesmo assim, em nenhum momento foi capaz de surpreender Kollos, cuja reputação pela capacidade de luta de fato se confirmava com poucos movimentos.

Antes de despedirem-se, um brinde ao guerreiro que talvez encontrasse a elevação espiritual. Era a Água de Ishlav que Kollos e Mikhal bebiam e com a qual Mark apenas umedeceu os lábios.

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Os quatro deixaram o capitulo da Ordem da Verdade durante a noite. Naquele momento, um grande número de soldados da Guarda de Ishlav já se postava ali. Protegeriam uma reunião da nobreza local, convocada por Galvin. Era hora de dividir com o conselho da cidade as notícias a respeito das mortes e os riscos que a cidade poderia correr.

O plano do grupo consistia em fazer Czyran passar-se por um nobre munido de shins e ingenuidade, disposto a adquirir de Strepicus a famosa Água de Ishlav em grande quantidade. Os demais seriam seus protetores e conselheiros, o acompanhando ao endereço do comerciante, fornecido por Évoro.

Lá chegando, em uma viela discreta num dos pontos mais extremos da Margem Sul, se depararam com uma residência vazia. Sobre uma mesa simples estavam plantas e folhas, além de cordas e baldes usados para recolhimento de água de poços. Havia diversas garrafas grosseiras, semelhantes àquela encontrada no quarto de Asther Vanita. A cama fora arrastada da parede, deixando à vista um buraco no chão de terra batida. Possivelmente um esconderijo para shins ou pequenos objetos. Nos fundos, Mark e Dedalus encontraram árvores sem folhas um poço no qual água corrente se fazia ouvir. Sem dúvida era dessa combinação que Strepicus produzia sua água milagrosa.

Em frente à casa, à espera dos companheiros, Zippack e Czyran apenas tiveram a oportunidade de observar a inesperada passagem de dois Monges de Mitos.

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A terceira morte ocorreu subitamente. Um homem, transportando caixas, simplesmente desabou em meio à rua. Curiosos se aproximaram, um alarido se formou, mas ninguém pareceu disposto a ajudá-lo. Pelo menos não até que Mark abrisse caminho, buscando aproximar-se. A pele do jovem já apresentava empalidecimento. Ao tocá-lo, buscando por sinais vitais, o soldado já podia sentir os estalidos do ressecamento anormal.

O cadáver foi coberto, vozes se fizeram ouvir mais do que outras e o grupo de curiosos dispersou-se, dando aos quatro a chance de descobrir mais a respeito do morto. Morador da Margem Sul, era um criador de animais que serviam de alimento às bestas da pequena arena de combates local. Parecia ter negócios com Strepicus, ainda que não fosse clara sua natureza.

Levando consigo o corpo do criador, ocultado por cobertores, e um de seus animais, que apresentava feridas na boca à semelhança dos animais da arena, retornaram ao capítulo da Ordem da Verdade. Com a reunião da nobreza ainda em andamento, foram impedidos de entrar. Deixaram seus despojos nos fundos do prédio e um bilhete alarmante dirigido a Galvin. “Uma pessoa morreu na Margem Sul”.

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O complexo subterrâneo de Ishlav é formado por um conjunto de cavernas sobre os quais a cidade foi erguida duas vezes. Ali correm os riachos que abastecem diversos fontes e poços pela cidade. O avanço inicialmente se deu através da escuridão iluminada por tochas, com a fosforescência detectada nas plantas recolhidas junto da Água de Ishlav se acentuando conforme dirigiam-se tortuosamente ao norte.

Após uma hora de exploração a partir de um riacho na Margem Sul, junto da arena, as paredes úmidas das cavernas já davam lugar a uma vegetação exuberante, formada basicamente por fungos de pulsação luminescente. As tochas sequer eram necessárias quando chegaram ao centro daquilo.

O grande salão natural era iluminado por uma piscina fosforescente. Com dez metros de diâmetro e cortada por passarelas, estava prestes a transbordar. Do teto da caverna, pingava a partir de uma estalactite uma substância da mesma cor da luz que os guiou até ali.

Debruçado sobre uma das passarelas, Kollos recolhia o líquido da piscina sem preocupação aparente quanto aos efeitos daquilo sobre si.

– Vocês chegaram até aqui, mas não sabem onde estão. Logo acima de nós, os nobres de Ishlav decidem apenas preocupando-se consigo o destino de toda a cidade. Estes são os subterrâneos da Ordem da Verdade.

Kollos parece plenamente seguro de suas conclusões, demonstrando pouca inclinação a explicá-las, especialmente por tomar seus quatro interlocutores por associados aos Pais Pretéritos. Ele tem plena ciência de que, se divulgadas, provocarão um revolta de consequências imediatas.

– A população tem o direito de decidir por conta própria, mesmo que isso signifique que tudo fique pior antes de melhor.

Nenhum dos quatro faz menção a colocar-se no caminho de Kollos. Não é difícil imaginar o que faria ele em posse da confirmação de suas suspeitas.

A possível negligência que pode resultar numa tragédia impulsiona Czyran, Dedalus, Mark e Zippack de volta à Ordem da Verdade.

Nas ruas da Margem Sul, mais mortes eram lamentadas.

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Na Ordem da Verdade, tudo aconteceu rapidamente.

Apesar das primeira negativas, Galvin não podia esconder que sim, ainda tinha em seu poder o artefato causador da tragédia de vinte anos atrás. Permanecia tão inerte e misterioso quanto no momento imediatamente posterior ao efeito que causou. Ou não?

Enquanto Czyran recolhia seus pertences na estalagem de Ebunike, e Zippack fazia os preparativos para uma rápida decolagem do Fus-K, Mark se deparava nos porões da Ordem da Verdade com uma esfera metálica produzindo uma familiar e desconcertante vibração. De algum modo, estava ativada, ou reativada, e interagindo com todos ou alguns dos dispositivos descartados ali. Havia motivos,para que as alegações de Kollos fossem verdadeiras. E, mais importante, havia mais do que o suficiente ali para fazer parecer com que estivessem completamente certas.

Importava apenas tirar a esfera dali, a esta altura já desativada por Dedalus, e foi por isso que Galvin ingressou na arriscada tarefa de associar urgência e o reator elétrico necessário à partida.

Quando o Fus-K levantou voo, levava Zippack, Dedalus, Mark e Czyran. Levava também a misteriosa esfera. Do alto, era possível ver a multidão guiada por Monges de Mitos prestes a chocar-se contra a Ordem da Verdade. No prédio esvaziado, Galvin era o único Pai Pretérito que restava.

Qualquer que fosse o futuro de Ishlav, uma brusca mudança parecia prestes a novamente cortar a cidade ao meio.

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2 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 13/05/2015 at 19:04

    Desculpa a ignorância, mas qual era o propósito do tal de Kollos? Derrubar a nobreza local? Destruir a Ordem da Verdade?

  2. Carlos Hentges said, on 14/05/2015 at 11:43

    Não é ignorância. O relato apenas contém as informações com as quais os personagens tiveram contato. O que se pode dizer de Kollos é que ele é um homem com um plano. Quem sabe os detalhes surjam em futuros capítulos


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