The Truth's For Sale

Numenera – (Metade de) Um Conto de Duas Verdades

Posted in Numenera, RPG by Carlos Hentges on 13/04/2015

Numenera – The Wonder Weird

Capítulo 6 – (Metade de) Um Conto de Duas Verdades

Ishlav é uma cidade dividida pela própria história, com a linha traçada vinte anos atrás, quando um evento ainda carente de explicações cortou a cidade ao meio. O pouco que se sabe diz respeito a um artefato extraordinário levado por exploradores à Ordem da Verdade. Na ânsia por compreender aquilo, os Pais Pretéritos ativaram o dispositivo e tudo o que era inanimado a meia légua de distância foi partido em dois. Construções desabaram, vidas foram perdidas, tragédia e incerteza tomou Ishlav. No penoso processo de reconstrução que se seguiu, contudo, os cidadãos perceberam que sua saúde havia melhorado. Sentiam-se mais capazes para trabalho e adoeciam com menor frequência. Ishlav foi em frente, pesarosa pelas vidas perdidas, mas orgulhosa do que recebeu em troca, mesmo sem compreender os motivos de tamanha dádiva.

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Czyran Eczos jamais duvidou de que sua condição estivesse relacionada ao fenômeno ocorrido na cidade. Foi afetado ainda no útero materno, recebendo dádivas superiores, mas nascendo com a mão esquerda de aspecto membranoso, cuja pele ressecada e quebradiça até hoje exige umidade frequente. A doença avançaria até tomar o braço quase que por completo, estagnando apenas graças ao conhecimento técnico do pai adotivo. Passados vinte anos, estava de volta a Ishlav em busca de respostas.

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O Fus-K posou suavemente em um terreno vazio, junto da propriedade da Ordem da Verdade, despertando como sempre acontecia a curiosidade de transeuntes. Ishalv, entretanto, não era uma vila qualquer de aldeões facilmente impressionáveis, mas uma cidade de bom porte e quase 20 mil habitantes, e estes logo trataram de cuidar de suas vidas.

Zippack e Mark permaneceram na aeronave, enquanto Dedalus se dirigiu ao encontro de Galvin, líder da Ordem da Verdade em Ishlav e patrono ocasional de suas pesquisas. Surpreso pelo encontro – esperava que Dedalus agora estivesse cruzando a fronteira de Ancuan com o Império de Pytharon -, o Pai Pretérito recebeu os três. Coube a Mark relatar os extraordinários eventos em Itzen, minimizando os acontecimentos da masmorra na escuridão entre as estrelas e atribuindo a Cid as previsões mais catastróficas a respeito do que testemunharam, especialmente no que dizia respeito a Qi, capital de Draolis. Cid, que ficara para trás no dia anterior ao se decidir por permanecer em Itzen, não poderia contribuir com seus raciocínios tortuosos.

Antes que pudessem explicar quais eram suas intenções ali, foram interrompidos pela urgência de um recém-chegado.

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Com os recursos de um passado de nobreza escasseando, Czyran se vira obrigado a adotar hábitos mais simples, especialmente no que dizia respeito à hospedagem. Disso resultava tratar com um estalajadeiro grosseiro feito Ebunike e dividir o quarto com viajantes, como Velson. Ebunike ainda teria pela frente muitos dias de rabugice e maus modos. Velson, contudo, teve na noite passada sua última oportunidade para reserva e circunspecção.

Quando Czyran abriu a janela ao lado de sua cama, constatou que ninguém vivo poderia ter aquele aspecto assustador e tão familiar.

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Simpatizar com Czyran não era tarefa fácil.

Ele interrompeu uma reunião, anunciou um problema complexo e arrematou mostrando a todos a deformidade em sua mão. A interrupção era inconveniente passageiro, mas o problema apresentado poderia ter implicações maiores. Quanto à mão, parecia a cena de alguém acostumado ao preconceito, buscando de imediato avaliar reações a sua condição incomum.

Entre todos, Zippack foi o único a abertamente demonstrar intolerância. Tanto que decidiu circular por Ishlav enquanto os demais, Galvin entre eles, se dirigiam ao local onde Czyran estava hospedado.

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A pele de Velson ressecara ao ponto de descolar-se do corpo, tornando-se um pó tão fino quanto as cinzas que repousam numa lareira pela manhã. Era um cadáver horrível de se olhar, com músculos, tendões e ossos expostos. Tocar seu corpo evocava perigo, pois era misteriosa a moléstia que lhe tomara a vida. Os pontos onde a pele ainda não se desprendera da carne em muito se pareciam com a deformidade de Czyran. Um olhar descuidado ou uma interpretação incorreta, e o jovem sem dúvida seria acusado de ser o causador daquilo.

Decidiu-se por levar o corpo até a sede da Ordem da Verdade, onde ficaria confinado e menos sujeito à transmissão de uma possível doença. Discretamente, entre lençóis e cobertores, foi retirado da estalagem, com Ebunike sendo convencido de que o sigilo a respeito do destino do viajante seria fundamental e benéfico a todos.

Entre os pertences de Velson, apenas aquilo que se poderia esperar encontrar na mochila de um viajante, além de alguns pedaços retangulares de pedra com pontos marcados em quantidade que variavam de um e cinco.

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Na praça em frente à sede da Ordem da Verdade, um grupo se formava. Homens e mulheres com a aparência de servos, mercadores e artesões. Todo o tipo de gente se juntava para atender aos comandos de um homem de nome Kollos. Líder dos Monges de Mitos, ele e seus companheiros mais antigos ensinavam à população as táticas de defesa da Prece de Punhos: chutes, socos e combinações de ambos para utilização em caso de ameaça. Junto com a atividade física ao qual cerca de cinquenta pessoas se integraram, Zippack entre elas, Kollos dizia frases de iluminação: “Se você ama a vida, não perca tempo. É de tempo que a vida é feita; A posse de qualquer coisa começa na mente; Exibicionismo é a ideia que o tolo tem da glória.”

De volta, com Mark, Dedalus e Czyran carregando um fardo um pouco para trás, Galvin não conseguiu disfarçar seu descontentamento diante daquela demonstração.

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A sede da Ordem da Verdade em Ishlav tem em seu primeiro andar uma combinação de biblioteca e oficina. Ali as pessoas costumam circular em busca de orientação dos Pais Pretéritos a respeito dos mais diversos assuntos, inclusive muitos dos quais em nada têm relação com a sua área de saber, a Numenera. É raro que o local esteja vazio, e por força das ordens de Galvin, esta era uma dessas raras ocasiões.

Entre dispositivos desmontados, remontados e desmontados novamente, diagramas complexos e plantas exóticas dissecadas, o corpo de Velson foi acomodado. O transporte tratou de desmantelar o que de pele ainda tinha no corpo, espalhando um pó claro no ar e causando novamente uma impressão forte em todos os presentes.

Galvin demonstrava disposição para examinar o cadáver, ainda que não soubesse ao certo como começar. Não fosse o estado assombroso de Velson, certamente poderia se dizer que era um homem saudável e bem constituído. Descobrir o que se passara com ele não seria tarefa simples.

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Do ponto de vista sempre prático de Zippack, Ishlav era simplesmente um ponto de passagem para Qi ou outro destino qualquer. O certo a se fazer, portanto, seria buscar meios de reabastecer o Fus-K enquanto Galvin não pudesse auxiliá-los com isso, ocupado que estava em examinar o falecido Velson.

Infelizmente, não seria tarefa tão simples assim. O comércio de Numenera era proibido à população pelos Pais Pretéritos, uma determinação cuja explicação não chegou a ser adequadamente formulada. Como a posse dos dispositivos maravilhosos do passado não era proibida, juntos carregavam meia dúzia deles, era o caso de descobrir onde o comércio ilegal acontecia.

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Ao longo de vinte anos, Ishlav recebeu um enorme influxo de pessoas, todas ansiando pelos mesmos benefícios que a população original da cidade experimentava. Não se tem notícia de um só caso em que esse propósito foi atingido. Restou aos recém-chegados partir ou permanecer. Deste segundo grupo, a maior parte não tinha recursos para outro local que não fosse a Margem Sul, a Ishlav arruinada, a porção da cidade devastada e sobre cujas lembranças ruins nada foi reerguido.

Lentamente, esses cidadãos considerados de segunda categoria organizaram sua própria forma de viver, em muito amparada pela mendicância, criminalidade e violência. É nesse local que Czyran, Dedalus, Mark e Zippack esperam encontrar o que procuram.

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Na Margem Sul há jogos de azar, prostituição e comercialização de drogas. As pedras retangulares encontradas entre os pertences de Velson serviam como moeda para apostas, e saíram dali. Sem dinheiro o bastante para adquirir um pequeno reator elétrico que poderia alimentar o Fus-K, viram na indicação de Czyran uma boa saída para multiplicar seus recursos: colocar Mark em um fosso para lutar com animais selvagens. Após Dedalus adquirir a maravilhosa Água de Ishlav, garantia de benefícios para a saúde sem o risco de sua casa desabar repentinamente sobre sua cabeça, chegaram ao local onde o soldado teria a chance de provar seu valor.

Dentro do fosso estava o animal mais perigoso que Mark já tivera a chance de ver tão de perto. Com o peso de seis homem e pelagem grossa, são conhecidos como devastadores. Sem olhos, a besta se orienta pelo som e olfato para despedaçar coisas com presas tão compridas quanto a perna de uma mesa.

Ignorando as apostas de três para um contra ele e demonstrando imensa habilidade com o machado e escudo, Mark deu cabo do devastador em quatro movimentos, causando frustração entre os apostadores e obrigando seus três companheiros a impedir que mais animais fossem jogados no fosso para desafiar o soldado.

Saíram de lá com shins o bastante para negociar o reator elétrico para o Fus-K, “apenas porque preciso do dinheiro para minha mãe doente”, e depois de constatar que um bom número de animais utilizados no fosso tinha na boca eczemas que em nada se pareciam com feridas de combate.

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Ao retornarem à sede dos Pais Pretéritos, Galvin examinava um cadáver. Apenas não era Velson. A moléstia misteriosa fizera uma segunda vítima.

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