The Truth's For Sale

Linha da Vida – Cena 3

Posted in RPG by Carlos Hentges on 12/08/2013

Um labirinto. É a porcaria de um labirinto, com corredores que dão voltas e voltas, escadas que levam a andares idênticos, janelas encobertas por cortinas e grossas tábuas de madeira.

– Eu já posso sentir o tutano.

Evidente que vocês são caçados. Óbvio que ambos são guiados. Aquilo, seja lá o que aquilo for, se aproxima e distancia. Açoita e desaparece. Não é a falta de fôlego que empurra a ambos para dentro da primeira sala com uma porta minimamente resistente. É a certeza de que aquela corrida às cegas não os levará longe.

– Isso, lanchinhos. Aproveitem o tempo que ainda têm.

É possível ouvir o som das unhas se quebrando conforme riscam a porta, mas não há tentativa de invasão. No cubículo com uma só saída, ganharam um minuto para pensar.

A sala é pouco mais organizada do que qualquer um dos locais em que estiveram até então. Sobre a mesa, papéis e anotações que leem com dificuldade – é mais difícil quando sequer se sabe como aprendeu-se a ler. Há fotos, desenhos, diagramas.

Há partes de cada um de vocês ali, mas é impossível saber quanto e o quê.

Ainda mais agora, quando o arrastar de unhas se transforma nas pancadas de um crescendo que é puro ódio.

– Preparados ou não, aqui vou eu!

Invade a sala em toda sua glória desfigurada. Vocês podem ver, um no outro, por baixo de cicatrizes e secreções, algo de humano. Ao menos algo que foi humano. Mas naquilo, naquilo não há nada além de paródia e putrefação.

Aquilo é algo, é coisa, é o desconhecido além de qualquer compreensão. E o fato de movimentar-se espasmodicamente, produzir o som pesado de respiração, e de com sua voz áspera dirigir-se a vocês, em nada ameniza o significado da visão diante de ambos. Pelo contrário, expande, consolida e estabelece para sempre a certeza inescapável:

São espelhos daquilo.

Reflexos em que o horror empalideceu, mas idênticos nas profundezas.

– Em você a essência é forte.

Ele avança arremessando em todas as direções o que se coloca no caminho até o que nasceu sob a benção da mucosidade escura.

Não há mais tempo… Não há tempo… Nunca houve. Pensar? Como? Entre papéis, atlas médicos, livros e materiais de escritório flutuando no espaço, só aquela coisa amorfa chama sua atenção. Suas mãos alcançam algo de madeira, à sua esquerda… Ele saberia se tratar de um cabideiro, e para o que serve, caso tivesse sido apresentado anteriormente às roupas. Mas nada disto importa, ele não alcançou um cabideiro… O que está em sua mão é na melhor das hipóteses uma arma, na pior, uma extensão de seu braço, que o permita golpear sem entrar em contato direto com o pesadelo à sua frente.

– ARRRRwwWWWWwwww!!!!! SAIA DAQUI! SUMA!

Ele golpeia o ar à sua frente em uma manobra defensiva, tentando afugentar a besta! Ao mesmo tempo em que se volta para o outro igual a ele.

– LUTE!!!

Não há mais para onde fugir. Olhando por toda a sala à procura de algo que possa lhe ser útil em sua defesa, mas nada há além de papeis e materiais de escritório e partes de seres humanos.

– Há pedaços de pessoas aqui dentro!

Mal ele termina de falar, aquela coisa já está dentro da sala, arremessando tudo o que há em sua frente em direção de ambas as presas.

Ele ouve a voz daquela outra criatura ordenando que lute também. Sua única saída é unir forças com este outro ser, mais parecido com um ser humano que o outro. Então tentando juntar toda sua força ele pega a cadeira e arremessa em direção ao monstro.

De onde veio essa força? Embora ainda não faça sentido, um sentimento de esperança surge em sua mente:

– Nós podemos enfrentar ele!

– Isso. Lutem, formiguinhas, lutem! Façam a alegria do carcereiro.

Não haviam percebido até então sua esqualidez ágil nem a altura imponente. Parece ter a capacidade de transformar o próprio corpo para ajustar-se às circunstâncias. E, no momento, suas dimensões são proporcionais à própria confiança e ao temor despertado em ambos.

Então, a cadeira o atinge nas costas. O sibilar que escapa por entre os dentes pontiagudos faz a escuridão se adensar e a fiação elétrica estala em lampejos azulados.

– Melhores do que os últimos. Vão acabar como os últimos.

Agarra aquele que o vê com um só olho no pescoço e no pulso. A força é descomunal. Sente como se todo o braço pudesse ser arrancado em um instante. Ossos, ligamentos, músculos. É impossível saber qual deles emite os ruídos mais altos.

– Vamos testar a qualidade dessa costura.

As extremidades tanto do monstro quanto do outro parecem se dissolver imperceptivelmente, como o fluir da areia de uma ampulheta, agitando-se, contraindo e retraindo-se à medida dos movimentos bruscos e das provocações sarcásticas da besta.

Reação? Só uma… O cabideiro em suas mãos atinge o torso da criatura, na altura no ombro. Algo de um escarlate intenso jorra da ferida aberta pelo gancho do cabideiro, que após o impacto, escapa das suas mãos e acerta um busto de gesso de Sócrates localizado em cima de um arquivo empoeirado. A escultura oscila e cai no chão e reduzindo-se a pedaços.

Ele grita, ao ver que a criatura ainda mantém firme a pegada no pulso do seu colega de fuga:

– SOLTA!!!

Os ossos trincam. Os tendões estiram. Os músculos se rompem. Até poderia haver mais sangue. Seria esperado que houvesse. Mas nada ali acontece segundo as expectativas. O que tem apenas um olho agora tem também apenas um braço, arrancado à força até a altura do ombro. Cai atordoado, quando o certo seria morto, mas disso já falamos…

O golpe que a criatura absorveu, que a faz sangrar, não passa de distração.

Segura o troféu na mão quando volta-se ao outro. No caminho dos seus olhos, o busto destruído do filósofo que morreu por conta da própria teimosia. Observa-o e assim permanece. Completamente imóvel, feito uma estátua cuja matéria-prima recolheu-se num matadouro.

– Meu braço! Essa coisa arrancou o meu braço!

Enquanto o sangue de seu corpo escorre, ele passa a tolerar mais a dor e se arrasta olhando pela sala a procura de algo que possa salvá-lo; enquanto o monstro encara o outro que talvez seja sua próxima vítima.

Somos aberrações criadas pelo diabo? Ele não consegue parar de pensar em tudo isso mesmo sentindo tanta dor…

Até então de um azul oscilante, a iluminação recupera o doentio tom amarelado.

Indiferente a tudo, aquilo permanece em sua imobilidade corrupta. Ainda assim, apenas por existir, parece transformar em veneno o ar a sua volta.

Algo no busto despedaçado, com olhos e cabelos de cerâmica, fragmentos de orelhas e testa, lábios fendidos e nariz fraturado, domina sua atenção.

Demora apenas um instante para que ambas as obras de arte, a quebrada e a mal arranjada, interajam. Sem que seja tocado, o busto lentamente começa a ser refeito. Primeiro, detritos mínimos reencontram seu lugar. Logo depois, pedaços maiores unem-se sem marcas.

Não vai demorar nem um minuto até aquilo chegar ao fim.

Algo capturou a atenção da criatura, como se a peça de gesso estilhaçada lhe doesse mais que o profundo corte feito no ombro.

A improvável regeneração do filósofo caído é um feito que de tão absurdo impressiona até mesmo quem não tem parâmetro algum para diferençar a realidade de um pesadelo.

Os olhos correm a sala rapidamente, mais uma vez…

” … ela se importa com o rosto de pedra… “

É a primeira coisa que ocorre em sua mente. Ele faz um esforço sobre-humano e empurra o pesado arquivo de metal sobre o qual o Sócrates de gesso recepcionava, imponente, quem ingressasse no recinto.

Durante a queda, um insuportável ranger metálico rasga os tímpanos de todos na sala; o móvel desmorona, abrindo suas gavetas e esparramando fichas e papéis por toda parte, e com um baque surdo esmaga o busto em processo de reconstrução.

SSSSSSSSSSSSshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

A criatura sibila, furiosa.

A destruição além de qualquer reparo. O despedaçamento que mal permite a identificação de fragmentos. O Sócrates de cerâmica agora é isso. Fiel representação de algo cuja origem só pode ser cogitada.

O sibilar da criatura não é de ódio. Não é também um primitivo esforço de incutir pavor. É apenas frustração. No fundo de sua mente receptiva apenas às instruções mais simples, destruiu-se seu propósito junto com aquela imagem.

O fim do símbolo é também o fim do passado. Extinta a representação da memória, resta apenas o que virá. Os pedaços, tão pequenos, podem ser reunidos e resultar em qualquer coisa, completamente diferente do que foram originalmente, à disposição do desejo de quem lhes tomar na mão.

O responsável por mantê-los prisioneiros estende, então, a destruição ao recinto. A força inumana e as capacidades sobrenaturais demonstradas até então se voltam ao aniquilamento do passado anotado em documentos, em fotos espalhadas, em diagramas e desenhos e cuidadosos estudos que jamais serão conhecidos.

Na sólida estrutura das paredes é possível sentir o estrondo de sua ação, última tarefa de uma força prestes a se extinguir.

Fim da Cena 3 de Linha da Vida.

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