The Truth's For Sale

o país do futebol

Posted in Jornalismo by Carlos Hentges on 30/08/2013

Somos o País do Futebol porque transformamos tudo em uma disputa de torcidas.

Durante o julgamento do Mensalão, havia os que defendiam fervorosamente a condenação de todos os acusados, independente da existência ou não de provas concretas. Aquela era uma oportunidade única para o tal efeito moralizante sobre a política.

Por outro lado, havia os que diziam que todo o julgamento era uma grande farsa, orquestrada por pessoas mais culpadas do que os acusados, com o objetivo de enfraquecer as bases do partido no poder em detrimento de sua oposição, podre até as bases e desde sempre envolvida em coisa muito pior.

Agora, temos a vinda de médicos cubanos.

De um lado, todos os que acreditam que eles irão contribuir para a saúde da população em locais que não despertaram o interesse dos médicos brasileiros, esses monstros sem amor à vida dos pobres, antes convocados a trabalhar em troca de generosos salários muito acima daqueles recebidos pela maior parte de nós.

Gritando de volta, os dispostos a usar a palavra “escravo” para defender a sua causa, dizendo que nem cubanos nem brasileiros serão capazes de exercer os preceitos de seus juramentos pela simples ausência de investimento do Estado e falta de condições de trabalho, já que nos rincões teremos cubanos, mas não teremos mercúrio cromo.

E o Facebook é a arquibancada onde as torcidas se encontram para brigar.

Prestassem atenção ao jogo, veriam que as pessoas que tomam decisões nesse país não sabem pra que serve o meio de campo, se contentando em dar bicos na direção do gol e esperando que um milagre aconteça ao acaso e nos salve todos.

Linha da Vida – Cena 3

Posted in RPG by Carlos Hentges on 12/08/2013

Um labirinto. É a porcaria de um labirinto, com corredores que dão voltas e voltas, escadas que levam a andares idênticos, janelas encobertas por cortinas e grossas tábuas de madeira.

– Eu já posso sentir o tutano.

Evidente que vocês são caçados. Óbvio que ambos são guiados. Aquilo, seja lá o que aquilo for, se aproxima e distancia. Açoita e desaparece. Não é a falta de fôlego que empurra a ambos para dentro da primeira sala com uma porta minimamente resistente. É a certeza de que aquela corrida às cegas não os levará longe.

– Isso, lanchinhos. Aproveitem o tempo que ainda têm.

É possível ouvir o som das unhas se quebrando conforme riscam a porta, mas não há tentativa de invasão. No cubículo com uma só saída, ganharam um minuto para pensar.

A sala é pouco mais organizada do que qualquer um dos locais em que estiveram até então. Sobre a mesa, papéis e anotações que leem com dificuldade – é mais difícil quando sequer se sabe como aprendeu-se a ler. Há fotos, desenhos, diagramas.

Há partes de cada um de vocês ali, mas é impossível saber quanto e o quê.

Ainda mais agora, quando o arrastar de unhas se transforma nas pancadas de um crescendo que é puro ódio.

– Preparados ou não, aqui vou eu!

Invade a sala em toda sua glória desfigurada. Vocês podem ver, um no outro, por baixo de cicatrizes e secreções, algo de humano. Ao menos algo que foi humano. Mas naquilo, naquilo não há nada além de paródia e putrefação.

Aquilo é algo, é coisa, é o desconhecido além de qualquer compreensão. E o fato de movimentar-se espasmodicamente, produzir o som pesado de respiração, e de com sua voz áspera dirigir-se a vocês, em nada ameniza o significado da visão diante de ambos. Pelo contrário, expande, consolida e estabelece para sempre a certeza inescapável:

São espelhos daquilo.

Reflexos em que o horror empalideceu, mas idênticos nas profundezas.

– Em você a essência é forte.

Ele avança arremessando em todas as direções o que se coloca no caminho até o que nasceu sob a benção da mucosidade escura.

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