The Truth's For Sale

Linha da Vida – Cena 2

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 23/07/2013

Os pulmões inflam-se com dificuldade, num movimento quase esquecido. Está nu, deitado sobre um colchão fino. Conforme movimenta-se, espantando aos poucos o formigamento dos músculos ainda adormecidos, velhas molas protestam.

Está coberto de viscosidade escura.

Olha para o próprio corpo, naquele quartinho escuro em lugar nenhum, sem fazer ideia de quem seja.

Com esforço a musculatura dorsal se retesa. Braços, antebraços e mãos tentam se coordenar em uma coreografia quase epilética, até que, após algum tempo, estes seres desgovernados conseguem se entender e içar o tórax para além do decúbito dorsal.

As mãos apalpam a barriga, sentindo a gosma negra que a impregna. Qualquer ser humano reagiria com nojo ou asco. Ele? Não… Desconhece ambos, assim como desconhece a sensação escorregadia ao friccionar os dedos besuntados.

– Medo

Ele murmura conforme contempla a escuridão.

Algo que se parece com um homem desperta. Falta-lhe um olho. Faltam-lhe lembranças. Imerso, a mais tênue agitação basta para romper seu confinamento membranoso.

O útero artificial se rompe. O líquido amniótico se espalha.

Ofegante sob a lâmpada amarela, mal consegue acreditar no que o velho espelho tem a mostrar.

Ao acordar, sente o seu corpo como se fosse a primeira vez, como se fosse uma alma em um corpo que não é seu. Ao ver seu reflexo no espelho, o terror toma conta de sua mente, pois o que ele vê não pode ser humano. Ele tem ataque de fúria que o faz quebrar o espelho, pois seu reflexo o atormenta. Seu desespero o faz rugir sem razão. Senta virado de costas para os estilhaços do espelho e espera apenas acordar desse estranho pesadelo.

Medo. Rancor. E todo o resto que ainda não se sabe como nomear. Tudo cresce dentro de ambos, aos poucos preenchendo o recipiente vazio das existências recém-iniciadas.

É como a explosão original; o primeiro choro.

A ebulição de entranhas e sinapses não é o bastante para que ignorem os arredores. No pequeno quarto que lhes serviu de útero, percebem a degradação e o abandono. Imundície sob a luz amarela.

Ambos tiveram início em lugares que melhor acomodariam um final.

Contudo, não estão sozinhos. O instinto avisa de que em algum ponto daquelas galerias mal iluminadas existe algo familiar. Algo igualmente recente, e também coberto dos vestígios de uma violência atroz.

Este quarto não lhe traz bons sentimentos e, ainda cambaleando, vai em direção à porta. O instinto diz que deve seguir adiante e é o que faz.

Suas pupilas tentam devorar o que resta da luz amarelada assim que ele ouve o barulho de vidros se estilhaçando. Ele ouve, ele sabe, ele sente.

– Não estou só…

À medida que arrisca seus primeiros passos em direção à porta, ele repara nos sulcos enegrecidos que cortam sua carne e percorrem seu corpo. “Isto não deveria estar aí…”.

Vagueiam pelos corredores indistintos de uma velha edificação. Os sinais de abandono se acumulam nos amplos espaços vazios. Ambientes inteiros mergulhados na completa penumbra. Outros, mal iluminados e decorados pela presença triste de uma poltrona sob um lençol outrora branco; uma prancheta com o nome de um paciente já falecido; uma sala de espera da qual todos se ausentaram para sempre.

A sensação palpável de que não estão sozinhos se acentua na caminhada silenciosa de cada um. É algo reconfortante, na ausência de qualquer outra razão imediata, contar com um tanto de curiosidade para movimentar os pés.

Solidão e medo vão dando lugar à ansiedade e expectativa por aquela outra presença, ainda indecifrável, porém certa.

A marcha prossegue e aos poucos os pés vão ganhando maior desenvoltura. A curiosidade o faz aproximar-se da poltrona encoberta, mas a fuga ziguezagueante de uma barata interrompe seus planos de desvendar o que se encontra por trás do pano esgarçado e empoeirado. Atônito com a agilidade do pequeno ser, seus olhos acompanham-no até que suma de vista.

Após o primeiro encontro com um ser vivente, prossegue perambulando pelos vãos abertos, sentindo cada vez mais próxima aquela presença outra, tão familiar e estranha ao mesmo tempo.

– Por que as luzes não piscam pra mim, paizinho?
– Porque o seu rosto caiu, meu filho.
– Caiu?
– Sim. Sobrou só pele pendurada e esses olhos espertos.
– O senhor acha que as pessoas vão ter medo de mim?
– Com sorte, sim, querido. Mas se for pior, vão odiar você.
– O que é ódio?
– Ódio é quando você é uma pessoa sem a pele do rosto e outra pessoa acha que você merece não ter pele nenhuma.
– Ahn…
– Como no caso daquele moço ali.

Os dois viram-se na sua direção. O velho considerado sábio por falta de parâmetros de avaliação e a criança desfigurada que ainda não sabe que a vida foi embora junto com as suas feições.

Ambos estão mortos, e talvez apenas por isso façam a gentileza de sumir bem diante dos seus olhos antes que possa mover um músculo sequer.

Passa a mão no olho esquerdo e percebe apenas uma cicatriz fechada.

Ao menos o terror que sentiu há pouco está adormecendo, dando lugar a sua curiosidade. O sentimento de que não está sozinho cada vez fica mais forte, até que ele consegue ver o que parece ser a sombra de um adulto.

Num primeiro momento, a ideia de ter achado companhia é um alívio… Mas então as aparições somem. Ele esfrega os olhos imaginando se também conseguiria esse feito. Sumir, desaparecer, voltar ao nada lhe parece uma opção muito melhor do que a angústia, ansiedade e solidão que sente no momento. Até que o som de passos apressados, abafados e dispersos pela acústica peculiar do local lhe desperta do transe.

– QUEM ESTÁ AÍ!!!???

– Quem está aí? Eu estou!

Há escuridão o bastante para ocultar a origem daquela voz. Ambos podem ouvi-la, em todas as suas nuances cruéis.

Passos martelam o piso, paredes e teto. E mesmo sendo apenas uma a fonte dos ruídos, é o bastante para que sintam-se cercados.

– Eu estou! Eu estou! Eu estou!

A voz rude e ansiosa ecoa pelo saguão. É feita de saliva em abundância, uma língua gorda e dentes pontiagudos. É a voz de quem tem um apetite jamais saciado.

– Eu vou devorar vocês outra vez!

A segunda voz o faz tremer. O que ela quis dizer com “vou devorar vocês outra vez!”? Ao analisar o corredor e ver que algumas salas estão vazias, pensa na hipótese de se esconder em uma delas ou de fugir dali.

Desiste, e em silêncio caminha em direção às sombras que ele avistara outrora.

Os pelos do seu antebraço eriçam-se, a respiração fica ofegante e entrecortada, as pupilas nervosas percorrem incessantemente cada fresta, cada canto daquela escuridão ocre. Medo? Não… O medo foi antes. Medo é quando em algum ponto a sua apreensão e sua insegurança se confundem. A partir do momento em que a expectativa do perigo se transforma em certeza, o que brota daí não é mais medo… E sim pavor.

Então… Outra figura aparece na cena. Talvez tão perdida quanto ele, talvez tão ameaçadora quanto “ela”… Nenhuma certeza vem de qualquer das hipóteses. Apenas o impulso de prevalecer impera.

Ele cerra os punhos, sem ao menos entender o porquê de estar fazendo-o. A cabeça agita-se de um lado para o outro procurando uma saída da armadilha sombria.

– Não… Não… NÃO!!!! 

Parte em direção ao visitante inesperado… Para a dois metros dele. E permanece avaliando-o, em meio aos ecos que ainda resistem à obliteração silenciosa do labirinto escuro.

– Você… 

Ele fala… Observando o intruso de um só olho… Atento a qualquer reação.

– Oh, sim. Um encontro. Um reencontro! Predador, esse sou eu, e presas, essas são vocês.

O sibilar vem das trevas, fazendo tremer os lustres claudicantes e espalhando a poeira de décadas.

– Dessa vez, vou limpar meus dentes com os seus ossos.

Separados que estão por dois passos apenas, ambos precisam sair do caminho da cadeira de rodas arremessada em sua direção. Dessa vez não são truques de sombras nem aparições fantasmagóricas – em meio à escuridão está o rosto de algo que há muito não vive.

Aquilo se retorce pelo chão até aproximar-se de uma parede e rapidamente alcança o teto. Em um canto, do alto do pé-direito, lança um terrível olhar de avidez.

– Sejam os bons cordeirinhos de sempre. Corram!

Fim da Cena 2 de Linha da Vida.

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