The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Com o que sonham as mães

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 18/02/2013

12º Capítulo da Alienação.

Eleuthério deixa o Hospital Moinhos de Vento sob a fria brisa noturna. Otávio Clemente não pode ajudá-lo a partir de agora. A promessa feita à Deise diz repeito unicamente a si próprio. Para alcançar os sonhos de sua mãe, é necessário encontrar um lugar seguro no Banhado.

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Os túneis verdes formados por espinhos e vegetação entrelaçada são cada vez mais familiares. As trilhas antes alienígenas agora apontam caminhos e revelam referências. Não é o suficiente para Eleuthério sentir-se à vontade, mas é o bastante para aliviar a permanente tensão que o acompanhou desde as primeiras vezes aqui.

A falsa segurança se dissipa no odor de fumaça.

Não há chamas visíveis ou crepitar. Eleuthério permanece imóvel. Escuta alguém embrenhar-se entre os espinhos e desaparecer. Só então avança, agora em passos rápidos.

Diante dele, um dos caminhos mais largos do Banhado, a menos de vinte minutos da Ruína, encontra-se bloqueado. Vinhas e galhos de toda a vegetação que cresce naquele pântano onírico se entrelaçam, criando uma massa coesa e impenetrável. É como se o verde buscasse curar a ferida escura marcando onde o fogo lambeu. Colhida na reação do Banhado, uma garrafa plástica recende gasolina.

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Durante horas, Eleuthério persegue através dos espinhos o responsável pelo incêndio. De início, as emanações deixam rastros pulsantes. Até perderem-se, do mesmo modo que ele, embrenhado naquela selva pontiaguda. Mais do que suas roupas e sua pele, o contato com a vegetação agulhada o fere na própria essência, sugando a energia que descobriu apenas após a fuga ainda recente, e deixando-o completamente exaurido quando finalmente reencontra uma das trilhas do Banhado.

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É madrugada e a Ruína está em silêncio. Do Banhado, permanentemente sob uma difusa luz branca, é possível ver a iluminação do Hospital Psiquiátrico São Pedro e seus anexos.

Eleuthério busca um local confortável onde se recostar. Repousa o corpo sob o que poderia ser uma figueira descomunal. Em pensamento, trabalha para encontrar os sonhos de Deise Ribeiro.

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Os que sonham produzem uma torrente sem início nem fim. Eleuthério sente a intensidade dos desejos e frustrações que o engolfam feito um oceano de águas turvas, sem nunca ser capaz de compreender o que vê.

Até que um jardim surge diante de si. É a casa da avó, onde criança passava os verões. Há um balanço e a pequena horta que o avô cuidava tanto quanto a bola de futebol, com sua atração por hortaliças, permitia.Garden_by_TrashDoLLs

Ao centro do jardim, sobre uma toalha estendida, Deise Ribeiro tem um volumoso álbum de fotografias. Nos braços, um menino perto dos três anos, para quem aponta e explica cada um dos momentos registrados. É Claudio, a criança que Eleuthério foi.

Conforme aproxima-se deles, se fortalece a vivacidade do sonho erigido por Deise. Um sonho em que ela é a jovem mãe de uma criança com toda a vida pela frente, onde pássaros cantam e a grama parece recém-cortada.

– Não é lindo o que ela fez para fugir?

Ao lado de Eleuthério está parado alguém que se parece com ele. Não é o Espantalho, com suas feições feitas de placas grosseiramente justapostas, nem o Claudio que ele teria sido, não fosse levado para além dos espinhos. É como uma imagem de si submetida à distorção de mil espelhos.

– O choque a trouxe à fase mais feliz da vida. E à nossa lembrança mais antiga. Você vai tirá-la disso? Decisões difíceis nunca foram nosso forte, não é mesmo?

Eleuthério ignora a presença fantasmagórica. Não há surpresa no olhar de Deise. Ela recebe a aproximação com um sorriso de puro contentamento. Nas fotografias do álbum, momentos que a criança ao lado dela ainda não teve a chance de viver.

Conforme aponta as contradições de toda aquela situação, Eleuthério percebe distorções visuais e sonoras no ambiente. Deise fica acuada por um breve instante, mas a sua felicidade é grande demais para que a simples lógica possa destruí-la.

– Eu sou teu filho, e eu não sou nada daquilo que tu sempre sonhou. Olha pra mim. Olha o que eu me tornei.

Eleuthério deixa que as próprias frustrações se choquem contra a alegria fabricada de sua mãe. Tirado das mãos de Deise, o álbum de fotografias é jogado longe para se desfazer tão rapidamente quanto aquela idealização que cerca ambos. O pequeno Claudio chora até que desapareça. Ficam apenas os dois, mãe e filho, exaustos e frustrados, vendo-se afinal como realmente são. Uma velha alquebrada e um homem que nem mais é humano.

Desperta, e sabe que se deu o mesmo com ela.

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