The Truth's For Sale

Sem título – 3

Posted in Literatura by Carlos Hentges on 29/11/2012

Ataulfo era o que se chamaria de um homem pacato. Bebia com moderação, sorria sem gargalhar e não cobiçava coisa alguma. Mantinha com Eva um casamento elogiado por amigos e vizinhos. O diabo é que Eva era uma mulher voraz. Daquelas que, entre lençóis, metem medo nos homens. E o Ataulfo, com o seu comedimento e bons modos, se achava incapaz ante os apetites da esposa. Não demorou, poucos meses após as bodas, a convencer-se de que era traído. Toda a devoção de Eva só servia para martelar desconfianças de corno na cabeça do Ataulfo. Claro, nunca ele imaginou tocar no assunto. Isso estava além das suas capacidades. Como já perdera o sono, achou por bem tirar algum proveito do fato.

Na primeira noite, caderneta em punho, anotou todos os murmúrios de Eva. Não foram muitos nem comprometedores. Ataulfo esperava que a manhã seguinte iluminasse os garranchos, mas que nada. Mal pode entender as anotações feitas na penumbra. Durante o desjejum, Eva estava atenta às olheiras do marido. Foi especialmente generosa na porção de biscoitos e nas colheradas de açúcar. Nem desconfiava que toda aquela doçura fizesse subir a bile pela garganta do Ataulfo.

Durante um mês inteiro manteve a estratégia. Rabiscou dúzias de páginas. Não podia acreditar em quão ardilosa era a esposa, até no sono com os segredos guardados. Acabou se dando por vencido. Eva era tão inexpugnável que de certo ninguém seria capaz de desvendar suas aventuras amorosas longe de casa. Melhor seria continuar um corno desconfiado do que tornar-se um corno revelado, concluiu o Ataulfo.

Eva, uma santa ignorante dos dilemas do esposo, seguia com o seu sono tranquilo. Lamentava apenas a lassidão do Ataulfo.