The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Convicção e outros Vínculos

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 29/10/2012

11º Capítulo da Alienação.

Dias dedicados ao exercício de certas convicções. Assim Eleuthério procede no contato com os outros como ele. São muitos em Porto Alegre. O bastante para que seja incerto o resultado da divergência que tem em Juliano Terceiro e O Antiquado sua personificação. Alinhado ao pensamento do antigo dono do Maria Degolada, Eleuthério não abriu mão do senso crítico. As passagens do Banhado devem permanecer abertas aos que fugirem, assim pensa ele; sua obstrução em nada impediria que outras fossem escavadas. Até onde testemunhou, o poder dos carcereiros é apenas limitado pela amplitude de seus desejos. Mais do que a oposição de ideias, percebe a disputa entre Terceiro e O Antiquado pela liderança desta pequena comunidade, uma lacuna ante o papel de conselheiro que o Dr. Quimera escolheu para si.

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É começo da madrugada e ele está novamente no Parque da Redenção. No bolso, as páginas escritas por Ulisses. Já há algumas noites espera pela sorte de reencontrar Lucia. O acaso apenas lhe sorri, contudo, quando reúne coragem o bastante para deixar os pés seguirem até os arredores onde a viu pela primeira vez. O local de onde emergiu do Banhado.

Está sentada em um banco de pedra, sob um solitário facho de luz. Apesar de abatida, não descansa. Lucia espera.

Por um momento, teme a aproximação de Eleuthério, a quem conhece por Claudio. Tendo vagueado pela Redenção já há tanto tempo, sabe que o lugar tem seus perigos. Surpresa e constrangida, Lucia olha com desapontamento para recém-chegado. Pelo menos até ele mostrar-lhe os papéis que traz consigo.

– É a letra de Ulisses. Tu encontrou ele? Onde tu viu ele?
– Fica calma. Ele está bem.

Inúmeras explicações ocorrem a Eleuthério. As coisas não se esclareceriam se interagisse com Lucia por meio de sonhos? E se revelasse sua nova e verdadeira natureza, como ela reagiria? Será que Estrela poderia ajudá-lo com isso?

– Eu não imaginei que ele pudesse estar mais feliz em outro lugar.

Sim, ele escolheu as palavras certas. O tom de voz correto. Olhou em seus olhos quando devia e os desviou quando preciso. E tudo isso Eleuthério fez sem seus dotes místicos. Sem premeditação.

– Ulisses irá retornar quando estiver pronto para encontrar sozinho o caminho de casa.

Lucia sente alívio pelo destino do irmão, mesmo incerta a respeito de onde ele se encontra ou se voltará a vê-lo um dia. É possível que a sensação se transforme em saudade, e então ela fará algo a respeito. Por ora, a esperança que a reconforta é a mesma que nutre Eleuthério.

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– Não seria inteligente da parte dos Três Duendes confrontarem O Antiquado. Eles têm interesses complementares. Caso a proposta de contenção dos caminhos do Banhado se torne a escolha da maioria de nós, eles poderiam obter algum tipo de exclusividade vantajosa. Contudo, não compreendo o motivo de recorrerem a você para promover uma negociação.

A dúvida Dr. Quimera também é a de Eleuthério. Não surpreende que ele procure O Antiquado.

– Eis o voto que não vou conseguir mudar!

Ao contrário do que talvez esperasse, Eleutério é bem recebido. Antes que consiga entrar no assunto que motivou a visita, é brindado com uma curiosa anedota envolvendo o feto no jarro que O Antiquado afaga.

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* Marilyn Monroe foi assassinada. No verão de 1962, ela ia ser demitida da produção de Something’s Got to Give. George Cukor estava espalhando fofocas a respeito dela, e os executivos do estúdio estavam putos por ela pular do barco para cantar no aniversário de Kennedy. Ela estava com quase trinta e seis. Ela estava ficando velha e o público começava a dar mais atenção a Liz Taylor.

Então, ela resolveu ser esperta. Ela convidou a sua casa cada dono de estúdio que já havia produzido um filme seu.

Com todos os figurões à mesa, ela anunciou que pretendia se matar. A menos que lhe devolvessem o papel no último filme e lhe dessem um contrato de um milhão de dólares, ela ia tomar uma overdose. Simples assim.

Mas os caras dos estúdios não se assustam facilmente.

Os tubarões responderam que já tinham o melhor dela. Ela estava velha. Se matar faria com que cada filme dela se transformasse em ouro. E disseram, “vai em frente, madame”.

Marilyn tinha tomado bastante champagne. Ela sabia que ia ser sexy para sempre se cometesse suicídio. Foi então que ela falou do testamento.

Ela ia criar a Fundação Marilyn Monroe. E todo o dinheiro que havia de receber pelos seus filmes, mesmo depois de morta, iria financiar o negócio e distribuir cada centavo arrecadado para a Ku Klux Klan, para o Partido Nazista da América, para a Associação dos Homens que Amam Garotos e tudo mais que ela conseguisse pensar.

Quando o público soubesse para onde estava indo o seu dinheiro, adeus filmes para a TV, adeus bilheterias. Nem uma foto dela pelada ia valer alguma coisa. Ela ia virar a Esposa de Satã.

Claro, os caras dos estúdios foram rápidos. Descobriram a bravata e providenciaram eles mesmos o suicídio. Essa coisinha aqui é o bônus que encontraram dentro dela. Você não faz ideia das propostas que já me fizeram pelo pequeno Monroe.

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O Antiquado é gentil como nunca antes. Sorri com seus dentes finos e espalha poeira quando sacode as mãos em lamento. Defende que sua proposta fortalecerá a Ruína e criará uma comunidade de fato, onde coexistirão todos que desejarem acessar o Banhado. Haverá também mais controle sobre o trânsito de seres estranhos e mais segurança, ainda que ao custo de certa liberdade para todos. É evidente que Eleuthério está errado. Por outro lado, é admirável seu engajamento, especialmente para um recém-chegado.

Como prova de boa-vontade, o anfitrião aponta para as prateleiras abarrotadas e sugere que algo seja escolhido. Nada sequer semelhante ao que os Três Duendes fizeram, é claro. Aliás, não, ele não faz a menor ideia do que poderiam querer com ele. Não são tão próximos quanto se diz por aí.

Do meio das bugigangas com aparência barata, Eleuthério retira um estojo gasto. Dentro, uma lâmina de barbear e um pincel. O velho kit de barbear nada tem de importante. Mas o espelho, esse sim. O Antiquado para junto de Eleuthério. Os olhos de ambos se encontram.

– O Reflexo dos Meus Problemas. Ele mostrará sobre seu ombro, espreitando, a fonte de futuras dores de cabeça, ou coisa pior.

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Otávio Clemente tem órbitas vazias. Se parece com um personagem de fábulas quase esquecidas, cujos olhos arrancados não deixavam testemunhar os horrores cometidos pelos seus semelhantes. Apesar disso, existe algo de amistoso nele, quase como se aquela escuridão convidasse a um mergulho de confissões e sinceridade inesperada.

Eleuthério o encontrou durante a peregrinação dos últimos dias, quando o futuro dos acessos ao Banhado tornou-se prioridade. Na ocasião, Clemente sugeriu que o encontrasse no Hospital Moinhos de Vento, local onde há semanas está hospitalizada Deise Ribeiro, a mãe que Eleuthério teve quando ainda era Claudio.

A esta altura, as repercussões do encontro de Eleuthério e seu carcereiro no Banhado já são conhecidas por todos que por elas poderiam interessar-se. Somado às estranhas emanações que o sono comatoso de Deise Riberio vem produzindo, Clemente teve poucas dúvidas quanto à necessidade de intervenção.

Os dois contemplam Deise e sua expressão perturbada.

– Eu posso despertá-la, mas apenas por um instante. Ela precisa concordar em recebê-lo em seus sonhos. Só assim vai conseguir ajudá-la.

Sobre o sofá, o acompanhante que se ausentou por um momento deixou uma prancheta. Nela estão frases sem sentido aparente. O registro de murmúrios do sono. Nas folhas, o timbre do Dr. Alberto Iglesias. Deise desperta.

– Meu filho… Faz tanto tempo.
– Mãe, a senhora precisa acordar.
– Não, querido, não. Eu não quero.
– A senhora precisa deixar que eu a visite.
– Sim, Claudio.
– A senhora promete deixar que eu visite seus sonhos?
– Quero você comigo, meu filho.
– E que em troca eu faça com que sejam tranquilos?
– Sim, tudo como você quiser, Claudio.

Eleuthério sente que a condição de Deise não é natural. Mas não há tempo de fazer algo agora. Para alcançar o centro de seus sonhos, é preciso dirigir-se ao Banhado.

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* A partir do livro Assombro (Haunted), de Chuck Palahniuk.

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4 Respostas

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  1. Rafael Gonçalves Caetano said, on 31/10/2012 at 20:52

    Afinal de contas…porque Eleuthério? A pergunta tarda mas não falha.

  2. Carlos Hentges said, on 31/10/2012 at 21:18

    Por causa disso:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Eleutheria

    Mas se o Lucas aparecer por aqui pode dar outras razões.

  3. Rafael Gonçalves Caetano said, on 01/11/2012 at 11:30

    Bacana.

  4. Lucas Bernardo Ramires said, on 19/11/2012 at 22:01

    Escolhi esse nome porque queria algo com uma referência clássica greco-romana. O significado da palavra pode ser traduzido como liberdade, e acho que esse significado tem a ver com o que eu penso sobre a personalidade do personagem e a sua história.


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