The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Sonhos de Criança

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 22/05/2012

Oitavo Capítulo da Alienação.

É uma procissão curiosa aquela. Através dos caminhos cada vez mais estranhos do Banhado, avança uma dúzia de ex-pessoas mais dois que nunca o foram. O raptor sem nome tem no colo o bebê Espantalho. O nina como qualquer pai faria a qualquer filho. Ao procurar pontos de referência naquele caminho em permanente mutação, Eleuthério percebe os olhares de desconfiança e admiração de seus silenciosos companheiros de caminhada.

Apenas Ulisses se aproxima. O adolescente tem traços lívidos, olhos vermelhos e movimentos febris.

– Por que tu foi embora? Lá a gente tem tudo!
– Tinha uma coisa que esse lugar não podia me dar.
– Eu odiava as coisas como eram antes. Agora eu sou feliz. Eu nunca vou voltar.
– Tudo bem. Mas tu tem que ter certeza de que essa escolha é só tua.
– É claro que… Sai daqui, Amanda! Isso é conversa de adulto.

Eleuthério, quando ainda se chamava Claudio e já tinha planos de fugir, foi apresentado a Ulisses e a toda avidez e agressividade que haviam dentro dele. Mas agora há algo mais ainda.

—-

O grupo se separa numa encruzilhada. O Espantalho, já em idade de começar a caminhar, apoia-se na mão roliça do raptor. Ulisses segue com eles, assim como Eleuthério, motivo de todos ali estarem. Amanda, que deveria ir com os demais em seu retorno ao jardim das delícias, expressa com um fio de voz o desejo de acompanhá-los.

Eleuthério desconhece o que tem pela frente. Enquanto limpa as lágrimas da menina com um pedaço de sua fantasia de nobre veneziano, decide que o melhor é que ela tenha uma chance improvável em sua companhia do que nenhuma por conta própria. Amanda quase não apresenta as mudanças sofridas por aqueles que permaneceram tempo demais além dos espinhos. Uma leve aura, algo brilhante demais nos olhos. Ela ainda usa as roupas de quem viveu a miséria das ruas. Eleuthério toma sua mão e promete a si mesmo fazer todo o possível.

—-

Atravessam a vegetação pontiaguda sob pálida iluminação por um tempo impossível de medir. Não há cansaço nem troca de palavras naquele avançar desapaixonado. Amanda busca conforto nos olhos de Eleuthério enquanto este desiste de um plano após o outro diante do insondável. Ulisses parece estar distraído e o raptor ensina ao Espantalho a primeira palavra.

– Pa-pai!

—-

Primeiro, é a música. Um realejo monótono e repetitivo tocando uma canção incompleta. Não demora à vegetação escassear até tornar-se um gramado. Do alto da colina, é possível ver de longe o Parque de Diversões e suas luzes.

O público se dirige ordeiramente à entrada. Uma multidão, todos eles tão altos quanto postes.

– Ele está aqui.

Eleuthério sente que é verdadeira a afirmação do raptor. Claudio e o que o levou estão logo adiante.

Ele segue por conta própria a partir de agora.

—-

O Parque de Diversões é o das memórias de uma criança. Tudo nele é imenso e assustador, fascinante e terrível. Eleuthério circula sem saber ao certo para onde ir, à espera que alguma atração extraordinária forneça a pista para encontrar Claudio.

– Você nunca quis ser o pai do meu filho. Eu não vou deixar você se aproximar dele agora.

Luisa olha com ódio, saída como uma sombra do meio da multidão. É a única outra pessoa ali que não se parece com um gigante com algodão-doce nos dedos.

– Eu vou devolver ele para vocês!

Ela ouve e desaparece.

Eleuthério avança mais alguns minutos por aquele lugar interminável. Cada vez mais apreensivo, é tirado do transe pela mão gigantesca que se fecha sobre seu ombro e o vira com violência. O Espantalho diante de si é sua imagem ideal, mas ainda maior do que todos os outros ali. Ele curva-se ameaçador sobre a pequenez de Eleuthério.

– Eu sou o pai dele agora! Quando você vai decidir o que deseja para si e para todos nós?
– Sai do meu caminho. Eu vim tirar ele daqui!

Diante do tom resoluto de Eleuthério, o gigante se desfaz como fumaça.

Logo adiante, o Labirinto de Espelhos apresenta-se convidativo a mais exames da consciência e buscas de si.

—-

O som do realejo e das pesadas passadas de gigantes desaparece com todo o resto. Tudo o que há são espelhos, cada um refletindo pecadilhos maiores e menores. Lá estão várias das feições distorcidas de Claudio, roubando e sendo covarde, sofrendo e decepcionando, preso por conta das drogas, libertado delas e preso por elas outra vez. Sendo levado por elas e por ele que não tem nome, apenas uma pergunta e uma oferta.

Os reflexos oprimem até que apenas uma grande imagem reste. Todo o desapontamento causado por suas escolhas bem diante de si.

E então, cacos se espalham pelo chão escuro e uma passagem é aberta através do espelho.

—-

O pequeno Claudio parece dormir sob a única luz de toda aquela treva. Eleuthério sente a presença do Macaco da Pata nos arredores, como que pacientemente esperando pelo ato seguinte de uma tragédia.

– Eu tenho aqui o que é seu!

O grito não provoca reação além do despertar do menino.

– Quem é você? Você não é meu pai.
– Fica calmo, eu já vou te levar pra casa.
– Eu quero meu pai. 

A escuridão se adensa quando a única luz ali perde um tanto de seu brilho. Eleuthério sacode a Pata diante dos olhos. Mal pode vê-la, mas tem esperança de que o estranho troféu baste para encerrar tudo aquilo.

– Estou devolvendo. Você pode me matar, mas deixa ele em paz.

A Pata desvanece. Junto com ela, desaparece a presença do Macaco. Às margens do círculo de luz, Claudio puxa Eleuthério pela mão.

– Papai, é você?
– Sim, sim. Sou eu. Nós estamos indo embora, filho.

—-

Com a criança nos braços, encontra o caminho além da escuridão e dos espelhos. Diante da entrada do Parque de Diversões, Ulisses, o raptor e o Espantalho de Claudio o aguardam. Amanda se aproxima e estende o braço até sua mão cansada. O menino é colocado no chão para que Eleuthério possa levar também ela, quando então partem dali.

—-

A pequena comitiva retorna ao mesmo local onde o grupo maior se despediu do menor. De muito além do caminho de espinhos, ouvem-se murmúrios de um lugar sem dor ou tristeza, onde tudo é diversão e brincadeira, dança e canções, flores e pássaros.

É de lá que Amanda deseja ir embora.

– Ela não pode partir por conta própria. Apenas com um guia. Aqui e lá fora também.
– Eu posso fazer isso.
– Mas você já leva o menino consigo. Vai assumir a responsabilidade também por ela?
– Enquanto for preciso.
– Não posso permitir que faça isso. Você chegou sozinho, dizendo que levaria um consigo. Agora, duas crianças partem pelas suas mãos… A menos que se comprometa. Que prometa.

– Aqui, na fronteira entre lugares eu, solenemente, juro que cumprirei um único pedido daquele que foi o meu senhor, sem questionar nem hesitar, quando a ele for conveniente. Em troca, ele para sempre se manterá distante de todos os que eu considerar a minha família. E que a fúria dos espinhos recaia sobre nós caso neguemos tal jura, impedindo que conheçamos descanso ou paz onde quer que se vá até o fim de nossos dias.

Ulisses acompanha Eleuthério, Claudio e Amanda até um ponto familiar do Banhado. Está silencioso e sem a confiança de mais cedo.

– Eu menti quando eu disse que odiava as coisas.
– Eu sei.
– Toma. Isso foi uma coisa que eu encontrei e escrevi. Se tu encontrar a minha irmã, o nome dela é Lúcia, diz que tá tudo bem comigo.
– Lembra do que eu te disse. Tem lugar lá fora pra ti.

Ulisses parece menos perdido quando dá as costas e volta quase correndo na direção da vida que escolheu.

“Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e delícias, – desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, – nada menos que a quimera da felicidade, – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.”

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