The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Motivos singelos

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 19/04/2012

Sétimo Capítulo da Alienação.

Eleuthério está na sala de espera de um consultório. Pacientes de olhares perdidos usam gesso e têm sinais de lacerações. A luz oscila constantemente. Toda vez que isso acontece, as cadeiras são ocupadas por novas pessoas.

– Esperávamos pelo senhor.

O médico o conduz até um ambiente do qual, através do vidro, pode-se ver a sala cirúrgica contígua. Uma equipe de três médicos dá início aos procedimentos. No abdome dilatado do paciente é feito um corte de vinte centímetros. Eletrodos são posicionados em suas têmporas. Por um instante, Eleuthério pode ver as feições de Claudio. Então, a luz oscila e tudo é escuridão.

Um dos médicos tem o recém-nascido nos braços e um sorriso nos olhos. Leva-o até próximo do vidro. Sobre a mesa de aço inoxidável, o corpo de Claudio é coberto por uma mortalha.

A criança é então oferecida a alguém que aguarda na escuridão, além do que as luzes da sala cirúrgica permitem ver.

—-

Estrela está parada diante de Eleuthério. Tem meia dúzia de frutos verde-alaranjados nas mãos.

– Me desculpe, eu apaguei por um instante.
– Sonhou?
– Sim. Foi estranho.
– Sempre é esquisito. Ainda mais quando é aqui.
– Tinha a ver com meu filho.
– Vamos em frente. Come um desses, vão te fazer bem. O despertador parou de tocar já tem um tempo.
– Tu disse que foi algo que…
– Sim, eu coloquei no menino, no apartamento. Não quando te encontrei. Da outra vez. Pra me avisar. A gente não sabe o que abriu a passagem no Banhado. E ele podia passar por acidente pro lado de cá.

—-

A grama úmida que leva do Banhado ao apartamento foi pisoteada por algo pesado. Os ramos quebrados, sempre da direita para a esquerda, sugerem grande estatura. O Elo Perdido, talvez? Eleuthério toma um galho e se prepara, caso seja preciso defender-se. Existe amargor no ar. Odor de raiva e premeditação. Cheiro de vingança.

—-

Não há sinal do menino. No apartamento em absoluto silêncio, apenas a sala encontra-se iluminada. Sentada, estática, em uma poltrona, está Deise. Eleuthério observa a mãe. Tem os olhos abertos, fixados no vazio diante de si. A expressão é de serenidade. Parece contemplar o inevitável.

Na mão direita, fechada como uma garra, guarda uma chumaço de pelos negros. São idênticos aos da Pata do Macaco.

—-

– E então?
– Não encontrei o Claudio. E a minha mãe, ela…
– O que é isso?
– Eu achei que ele viria atrás de mim, e não da minha família.
– O rastro está muito fraco. Acho melhor falar com Cosme.
– Ótimo Máximo?
– Sim, o pulguento é esperto. Vamos precisar dele.
– Eu sei onde ele está. E não é com Cosme.

—-

– Se eu tivesse me afastado em definitivo, nada disso teria acontecido a minha mãe e meu filho.
– Mas daí você esqueceria quem é de verdade, e isso seria muito, muito ruim. E tu ainda chama eles de “meu”.

—-

A jornada até a clareira do Elo Perdido é lenta, com Eleuthério e Estrela refugiando-se entre os espinhos ao menor ruído não identificado. Ao longo do trajeto, cruzam com novo rastro de destruição deixado pela Mascote. Mas nem a recente passagem da criatura causa tanta apreensão na Estrela quanto o encontro com o bruto insondável.

Apenas Ótimo Máximo os recepciona, satisfeito apesar da coleira que o prende a um tronco pesado. Interrompe a caçada a coisas invisíveis para latir de alegria na direção dos recém-chegados.

Tudo ali parece como antes. Cinza e marrom, rústico e velho, improvisado e rude, sobrevivência e estoicismo. Menos a maçã, vermelha e sobrenatural, pousada sobre o que foi o tronco de uma árvore que desistiu de voltar a crescer.

Eleuthério grita pela segunda vez o nome do Elo Perdido até que ele apareça rompendo a vegetação. Carrega pedaços de madeira e um machado. Estrela esconde-se atrás do amigo.

– Olá!
– …
– Espero que não seja um problema.
– …
– Nós gostaríamos… Precisamos de Ótimo Máximo.
– Não.

É impossível dizer se o breve relato dos acontecimentos recentes produz algum efeito no bruto, cujas faces e sensibilidades ocultam-se atrás de uma floresta de barbas e cabelo.

– Tu entende como a companhia dele é importante pra mim?
– Companhia? Ótimo…
– Sim. Preciso dele.
– E dela.

O Elo Perdido aponta na direção da maçã.

– Mais dela.

Eleuthério hesita por um instante. Ele desejaria outro daqueles frutos ou estaria se referindo a Branca de Neve, única que viu carregando maçãs como aquelas?

– Eu vou trazê-la até aqui. E então, você deixa Ótimo me ajudar?
– É.

—-

A Branca de Neve repousa no gramado. Estaria sozinha, não fosse a estátua do anão a quem sussurra amabilidades. Ao perceber a aproximação de Eleuthério, levanta-se de um salto. A contrariedade que o semblante revela logo desaparece. Logo volta a sua personagem.

– Estou tão feliz em ver os dois. Pena ter acabado a festa.
– Preciso de ajuda.
– Precisa? Precisa!
– Sim. Eu preciso encontrar o meu filho.
– Um resgate. Um salvamento?
– Acho que ele foi levado por um tipo de criatura.
– E você cavalga?
– Se eu…
– Sabe cavalgar? Cavalos brancos, de preferência.
– Sim, acho que sim, nos meus tempos de…
– Isso é tão perfeito. Eu ajudo você!

Levada ao encontro do Elo Perdido, parece reproduzir um momento há muito ensaiado. Está confortável. Estrela já tem Ótimo Máximo pela coleira quando Branca de Neve toma a mão de Eleuthério.

– Você prometeu, não é? Prometeu para mim.
– Sim. Farei o que quiser.
– É bom conhecer você de verdade.
– O que quer dizer?
– Quando você foi embora da festa, com ela, todos me olharam como se eu não fosse o bastante. Eu te odiei. Mas agora, veja o que você me deu. Além de ser a Branca de Neve, eu tenho uma Fera para ser a Bela.
– …
– Adeus, Príncipe.

—-

Ótimo Máximo encontra o rastro de Claudio com facilidade. Atrás do vira-lata, percorrem caminhos que levam muito longe Banhado adentro. Por trilhas quase nunca utilizadas, Eleuthério e Estrela notam o avivamento das cores. Após uma curva em meio à vegetação, alguém espera por eles.

– Claudio, afinal. Ou prefere que o chame pelo novo nome que escolheu?

Os dedos gorduchos rapidamente devolvem ao bolso do colete o velho relógio. Apoia-se sobre uma bengala, ainda que não denote nenhum sinal de fragilidade no corpanzil rotundo. Eleuthério encara seu raptor, cercado por pessoas que reconhece do período em que foi dele cativo.

– O que faz aqui?
– O que sempre fiz, meu caro. O melhor para você.
– Sai do meu caminho!
– Só eu sei o que está por vir. Daqui por diante, esse belo cãozinho não será o bastante. Uma comparação que não me faz sentir humilhado, aliás.
– Ele quer te enganar.
– Não, pequena. Quero o melhor para ele. Inclusive, preparei algo para tornar tudo mais fácil.

Um adolescente se aproxima. Tem o olhar dos sobrepujados pelo deleite. Eleuthério o reconhece. Ulisses “chegou” pouco antes de sua fuga. Nos braços, traz um recém-nascido feito de madeira unida por cordões.

– Peço perdão por não ter feito melhor. Fui desvirtuado pela emergência.
– O que é isso?
– O seu novo filho. Pelo menos assim será, enquanto o verdadeiro não voltar. Aceite, pela sua família. Eles já sofreram demais.
– Eu não quero!
– Ele ainda é um bebê, mas vai crescer rápido. Quando chegar à cama do pequeno Claudio, será idêntico a ele. Ou quase. Até lá, você pode dizer coisas que pais dizem aos filhos em seus ouvidos. No fim, você será mais pai deste do que do outro. E sua antiga família não sofrerá com a ausência da criança roubada.
– Não!
– Não? Tudo bem. É um trabalho modesto, mas vou levá-lo comigo, se não se importa.

O raptor toma de seus braços o pequeno Espantalho e o aninha carinhosamente no peito.

– Vamos?

Eleuthério olha na direção de Estrela. Sabe que precisará de ajuda para seguir pelos caminhos mais secretos do Banhado. E talvez além deles. Estrela compreende a mensagem. Pela primeira vez, não há sequer esboço de sorriso em seus lábios. Empalidece, apaga-se e se despede.

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2 Respostas

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  1. Lucas Bernardo Ramires said, on 25/04/2012 at 11:09

    Uma das melhores sessões, estou ansioso para ver o que me aguarda.

  2. Carlos Hentges said, on 25/04/2012 at 11:48

    Achei essa a melhor. Escolhas difíceis, interação com vários NPCs distintos e muitas possibilidades.

    De verdade, achei que teu personagem não resistiria à oferta do raptor (que ganhará uma identificação no próximo capítulo).

    Mais em breve.


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