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A Vigília – Roteiro 1 – Suicídio

Posted in Cinema, RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 22/02/2012

Prelúdio:

Alice se lembrava de quando ele falou em morte pela primeira vez. Parecia apenas uma brincadeira ruim. Ela o via como alguém que precisava ser cuidado. Conversavam muito, ainda que parecesse às vezes que ele só perguntava, fazendo com que os temas mais profundos nunca o alcançassem. Alice se afastou. Mas não resistiu ao seu chamado, tempos depois. Estava incoerente. Alegava estar acossado por coisas opressivas e incontroláveis. Iria morrer.

Roteiro 1 – Suicídio

1 – Int. – Quarto de Davi – Noite

As mãos suadas de um homem se contorcem. Os dedos se entrelaçam e soltam-se espasmodicamente.

A câmera se afasta para mostrar um quarto. É simples e desorganizado. Parece não ser limpo há semanas. Há roupas espalhadas sobre uma cadeira e ao redor de uma mochila aberta, ao seu lado. Vemos o homem de costas, sentado na ponta de uma cama com lençóis emaranhados. A luz é fraca.

Davi levanta-se. Podemos ver seu aspecto desleixado – barba por fazer e cabelo sujo. Ele se dirige até um balcão. Sobre ele está uma pequena toalha branca. É a única peça dessa cor em todo o ambiente. A toalha envolve parcialmente um revólver com ar antiquado e alguns projéteis. Davi hesita alguns instantes antes de colocar todo o conteúdo em um dos bolsos.

Da mochila ele tira um DVD. Rapidamente escreve “ALICE” sobre o disco e deixa-o local onde antes estava a arma. Dirige-se à porta e sai do quarto.

2 – Ext. – Ruas – Noite

À distância, a câmera mostra Davi deixando uma pensão bastante simples. Existem pichações em boa parte das paredes descascadas. O som de automóveis, sirenes e um rádio podem ser ouvidos.

A câmera se aproxima de Davi. A luz amarelada dos postes lhe dá um aspecto doentio. Conforme a câmera realiza esse movimento, os sons da rua tornam-se mais abafados, dando lugar ao que parece o murmúrio de muitas vozes. A câmera o alcança no momento em que ele se encontra diante do próprio carro. Agora não podemos mais ouvir os sons da rua, apenas os murmúrios.

3 – Int. – Automóvel – Noite

Enquanto dirige, Davi saca um celular e digita rapidamente algumas teclas. Ele espera alguns instantes em silêncio.

DAVI

Alice, sou eu. Estou indo acabar com isso. Eu… Eu não agüento mais. Fiz algo horrível ontem. Me desculpe. Deixei algo para você no quarto. Adeus.

Após desligar, ele joga o telefone sobre o banco do passageiro. A estrada que percorre está vazia.

4 – Ext. – Ermos – Noite

Davi está parado junto ao carro desligado. Os faróis iluminam um local que a câmera não mostra. É para esse ponto oculto que ele olha. Dentro do carro, o telefone celular sobre o banco do passageiro começa a tocar. Em meio à escuridão, podemos ler o nome “ALICE” no visor.

Ele tem a toalha branca nas mãos. Cuidadosamente, pega o revólver e os projéteis. Retira seis cápsulas vazias da arma e as deixa cair no chão. Nesse momento, enquanto carrega a arma, a câmera o mostra em plano aberto. Pela primeira vez podemos ver o prédio diante do qual ele se encontra. Davi é pequeno comparado à construção antiga e decadente. Após carregar a arma, larga a toalha branca sobre o capô do carro e avança na direção do prédio.

Ao se aproximar de uma das paredes, ele apóia-se e senta no chão. Seu corpo está parcialmente envolvido pelas sombras produzidas pelos faróis do carro. As vozes murmuradas que ouvimos mais cedo retornam. O som cresce lentamente. Nesse momento, Davi toma a arma que segurava com as duas mãos sobre as pernas cruzadas e a encosta na têmpora. Ele hesita. Tremendo, leva o revólver a boca. Podemos ver lágrimas nos seus olhos, mas a expressão é de alívio.

Avistando o prédio, em plano aberto, ouve-se o som abafado do disparo. As vozes murmuradas atingem o seu ápice, perdendo volume rapidamente em seguida.

Junto da parede, o corpo pode ser visto apenas parcialmente devido às sombras. Não podemos ver o seu rosto. Uma grande marca pinta a parede de vermelho. O revólver jaz ao lado da mão inerte. Há sangue respingado no cano.

Aos poucos, as sombras que cercam o cadáver se movem para envolvê-lo completamente.

5 – Ext. – Ermos – Noite

Um carro para subitamente ao lado do que foi estacionado anteriormente por Davi. Antes que a poeira baixe, uma mulher deixa o veículo, esquecendo sua porta aberta.

Ela abre a porta do carro de Davi e observa o interior. Vê o celular sobre o banco.

Ao olhar os arredores sua atenção é despertada pela toalha branca sobre o capô. Ela leva uma das mãos à boca, apreensiva. Ela procura algum sinal do homem. Está ofegante.

Alice avança na direção de onde apontam as luzes do carro. Em primeiro plano, enquanto a vemos se aproximando em contraluz, está o revólver que foi utilizado no suicídio.

Ao se abaixar para pegá-lo, ela vê a mancha de sangue na parede. Sua expressão demonstra dor. Ela leva a mão até o local, quase tocando o sangue.

Alice olha ao redor, mas não há cadáver. Mais adiante, percebe entreaberta uma porta metálica que dá aceso ao prédio. Em seguida, olha na direção do carro.

Alice deve entrar e tentar encontrar Davi? Ou deve retornar ao apartamento e buscar a mensagem que ele deixou?

—-

Este foi o rascunho para uma série de curtas que nunca chegou a ser produzida. Ela teria como cenário o Mundo das Trevas, conforme apresentado no livro Hunter: The Vigil, publicado pela White Wolf. Ao final de cada capítulo, o público escolheria o passo seguinte a ser dado por Alice, a protagonista, e essas decisões levariam adiante a história.

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4 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 22/02/2012 at 23:40

    Alice deve entrar e tentar encontrar Davi.

  2. R.G. Caetano said, on 22/02/2012 at 23:52

    Pode parecer extremamente arriscado ela entrar nesse prédio mas a preocupação dela com a vítima, curiosidade ou coragem podem ser motivadores para que a protagonista investigue o lugar.

  3. Carlos Hentges said, on 23/02/2012 at 12:54

    Acabei de publicar a parte 2.1. Amanhã, a 2.2. e fim. Estou numas de resgatar velharias. Assim que tiver disposição, escaneio um cenário de campanha para GURPS Space que eu escrevi há quase quatorze anos.

  4. R.G. Caetano said, on 23/02/2012 at 23:32

    Ok. No aguardo!


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