The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Preparativos são tudo o que importa

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 24/01/2012

Sexto Capítulo da Alienação.

Eleuthério desliga o telefone já ciente do perigo que o encara da escuridão. O Espantalho, inerte junto da árvore, desperta temores, mas não os do tipo que se manifestam agora. É outra coisa. É pior e familiar.

– Você passou toda sua vida procurando por mim, e aqui estou novamente, por você.

A figura rotunda junto da árvore é pouco mais do que outra das sombras na madrugada no Parque da Redenção. Eleuthério já o viu de muitas maneiras, mas é como o homem de cabelos cinzentos e roupas fora de moda a cobrir-lhe o corpanzil, óculos e cheiro de grama, que se lembra dele. Adianta-se, e a pouca luz é o bastante para revelar o captor.

– Nada daquilo era real.
– Você abriu mão de toda a felicidade que poderia suportar em favor de um lugar do qual não mais faz parte.
– A minha vida é aqui.
– Agora, que se tornou algo feito por mim, não mais.
– Eu não vou voltar.
– Sim, você vai. Porque a felicidade da fantasia é melhor do que a dor da realidade. E quando acontecer, estarei aqui, por você. Como da primeira vez.

Há frustração e impotência nas lágrimas que Eleuthério não se esforça por conter enquanto foge dali.

– Ele foi feito para ser você. Ele sempre desejará ser você.

—-

A ambulância do Hospital de Pronto Socorro para faiscante junto ao meio-fio. Menos deslumbrante é o ímpeto dos paramédicos. Eleuthério os incentiva aos gritos para depois observá-los, silencioso, das sombras. O Espantalho ainda vive, ao menos conforme o que se entende por viver para uma criatura artificial. Também seu criador observa o procedimento de perto, incógnito a todos que não o objeto de seus esforços.

—-

Durante a madrugada que resta, Eleuthério vagueia tentando decifrar os rumos da vida por construir. À luz da manhã, percebe-se a caminho do Hospital Psiquiátrico São Pedro, onde a nova e a antiga existências coexistem e conflitam.

—-

São complexos os segredos do Banhado. Abrir portas é apenas uma porção menor do esforço que transitar por ele demanda. Eleuthério assim descobre quando a passagem criada em um canto discreto do estacionamento leva a nada além de espinhos pontiagudos. Exausto, contenta-se em seguir por meios mundanos ao Dr. Quimera. Os pais, contudo, surgem em seu caminho. Do carro ao elevador, é evidente a debilidade física e emocional de ambos, cabisbaixos, apressados, mal reunindo forças com que sustentar um ao outro.

—-

Através da entrada da emergência, Eleuthério acessa a ala principal do São Pedro. Vagueia em busca do Dr. Quimera, algo distraído pela movimentação intensa e pelo desejo de saber em que condições o Espantalho deu entrada.

– Claudio. Claudio. Meu Deus do céu!

A voz já lhe foi familiar. Assim como aqueles expressivos, grandes, intensos olhos. Apaixonada? Sim, mas não por ele. Quando desfaz o abraço e olhares se encontram, Eleuthério percebe que Luisa não é além de uma sombra quase apagada entre suas lembranças.

– Por que tu não estás no quarto? Teus pais acabaram de ligar, vindos do HPS.

Deseja apenas se afastar. Quanto mais tempo juntos, mais provável que ela desperte do estupor e questione a estranheza do encontro imprevisto. Eleuthério economiza nas palavras. Conta com a tolerância despertada após o trauma sofrido e o decorrente comportamento excêntrico. Quando finalmente se despede, “prometo que não vou sumir outra vez”, sorri. Tenta não adiantar as inquietações que certamente irão se abater sobre Luisa.

—-

Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre. Eis a montagem que anuncia para dentro de algumas semanas O Teatro do Serafim. O prédio fica a poucas centenas de metros do São Pedro; independente, ainda que parte do amplo terreno do Hospital Psiquiátrico. É um bom local para refugiar-se dos olhos da família. A lista de atividades paralelas fixada à parede, associadas a médicos e alas diversas, confirma o papel terapêutico do local.

Lá dentro, após passar por um faxineiro ainda lidando com a preguiça matinal, Eleuthério e Adriana se conhecem. Não de imediato, pois ela está absorvida pelo arranjo de cores e formas dos malabares espalhados pelo chão, mas logo depois disso.

– Oi. Eu gostaria de ajudar.
– Ajudar? Claro, por que não, não é mesmo? Ainda que um pedido de ajuda fosse de se esperar. Mais do que uma oferta.
– Eu posso limpar. E também toco guitarra. Tem um palco ali.
– Limpar e tocar. Parece bom. Mas não são atividades para um homenageado.
– Que quer dizer?
– O Dr. Quimera falou de você, Eleuthério. Bem, suponho que seja Eleuthério, pois já descartei a Branca de Neve.
– Eu…
– Eu posso vê-lo exatamente como é. Por isso, não havia como me enganar. Seja bem-vindo ao Teatro do Serafim. Temo que esteja adiantado.

—-

Ao longo da manhã que resta e por toda tarde e início da noite, Eleuthério deixa que Adriana fale a respeito de coisas que nunca teve a chance de perguntar. Ela tem a pele morena e cabelos vermelhos. Os óculos retangulares dão um ar esperto, irreverente. Ela é uma pessoa como qualquer outra, não fosse poder ver coisas que outras não podem. E conduzir um teatro experimental situado em um hospício.

A respeito de andar no Banhado, fazer Promessas que não devem ser quebradas, seres chamados de Fadas e trabalho duro Eleuthério descobre um pouco mais.

—-

Já é noite, e o Teatro do Serafim está de portas abertas. Eleuthério ouve, distante, o alarido do grupo que se adensa. Diante do espelho, ajusta a bauta, máscara branca no formato de um bico, complementada por um chapéu de três pontas, um casaco amplo e uma capa preta tecida com seda, a qual reveste os ombros e o pescoço. É o nobre de Veneza.

Duas dúzias de passos separam o camarim minúsculo reservado por Adriana do centro das atenções. Ali, uma centena de pessoas e outras coisas o congratulam, em um vozerio que cresce na medida em que se aproxima. Por trás de máscaras e fantasias, reconhece O Antiquado, Branca de Neve (essa foi fácil) e Juliano Terceiro. O Dr. Quimera dá um abraço de juba, chifres e peçonha falsa.

– Eis que chega nosso recém-chegado!

Congratulações são atiradas em direção a Eleuthério, aturdido. Mal percebe quando Estrela, que parece não ter tido tempo de vestir toda a fantasia para aquela festa, abre caminho.

– O despertador, Claudio. O despertador tocou. O menino. Rápido.

Ela o puxa com força inesperada. São seguidos pelo Dr. Quimera, cuja intervenção irrita a ponto da mais clara demonstração.

– Você não pode nos deixar.
– Eu tenho que proteger minha família.
– Sua família está aqui. E toda ela está feliz por você.
– Tem pontas que eu preciso amarrar, Dr.
– Você está decepcionando muitas pessoas nessa noite, Claudio.

Em companhia de Estrela, vai ao encontro de um punhado de horrores.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: