The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Um Domingo Qualquer

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 30/11/2011

Quarto Capítulo da Alienação.

Eis uma história:

Maria Degolada era de nacionalidade alemã e tinha 21 anos quando, no dia 12 de novembro de 1899, foi morta pelo amante, soldado da Brigada Militar.

O casal, juntamente com outros pares, fazia piquenique no Morro do Hospício, que fica em frente ao Hospital Psiquiátrico São Pedro. Em uma determinada hora, se separaram dos demais e, depois de uma discussão, enciumado, ele pega uma faca e degola a amada. As testemunhas disseram que foi algo muito rápido e nada puderam fazer para salvar a vida da pobre moça.

Mesmo em uma cidade cada vez mais urbanizada e povoada, um crime desse porte foi considerado um ato de barbárie. Também não podemos esquecer que a famosa Revolução Federalista, vulgarmente chamada de Revolta da Degola, ocorrera há poucos anos, e o horror pelo ato estava presente no subconsciente coletivo da população.

—-

No alto do Morro da Maria Degolada não existe mulher a sorrir com os lábios pintados na garganta. E os soldados que hoje lá estão foram colocados pelo tráfico. Ostentam armas nas mesmas esquinas onde crianças correm atrás de bolas e saltam valas de esgoto.

É início da tarde de domingo quando Claudio e Estrela chegam ao barraco, um de seus pequenos refúgios em uma existência nômade. Foi cedido por Juliano Terceiro, o “dono” do morro.

– Ele é um de nós – diz Estrela, após sentar-se no colchão onde está espalhado todo o tipo de objeto que poderia considerar interessante, útil ou divertido uma criançadulta acostumada a perambular em locais aonde ninguém mais vai.

– Um traficante?
– Não. Bem, sim. Mas não estou falando dessa parte. O que achou do Doutor Quimera?
– Estou pensando a respeito do que ele me disse: trocar uma vida por outra. Talvez seja o certo a fazer.
– E o Espantalho?
– Ele pode ficar no meu lugar e ser um Claudio melhor do que eu.
– Mas ele nem é alguém. Ele é alguma coisa. Como alguma coisa pode ser um pai melhor do que alguém?
– Eu não sei Estrela. É muita coisa. Como é que foi contigo, com o teu Espantalho?

Gritos. Motocicletas em disparada. Tiros. Muitos tiros.

Estrela se abaixa e acena para Claudio proteger-se também: reação rápida que apenas o hábito condiciona. Mas hoje é pior. Hoje um amigo coberto de chamas e sangue invade o barraco.

—-

– Vai, Estrela. Abre uma porta. Vai, vai! – ele pressiona o ferimento no abdômen enquanto aponta para a rua a pistola descarregada. De imediato, Claudio observa os cabelos em brasa e a pele oleosa de suor e de medo. Quando tiver tempo e ocasião, notará os olhos puxados e a pele morena. Parece um descendente de negros e orientais.

Retornam com urgência ao Banhado, instantes antes de dois homens invadirem o barraco. Vasculham em busca do troféu. Observados através da película que divide lugares, seus anseios parecem ainda mais fatais.

—-

– Tu precisa ir até um hospital.
– Sem essa, Estrela. Se eu parar os cara me pega e é fim da linha.

Juliano, esse é o nome dele, senta-se em uma pedra desenhada pelo musgo.

– O Doutor Quimera podia te ajudar.
– Quem é esse aí, cheio do conselho?
– Meu nome é Eleuthério.
– Eleuquê?
– Ele é novo, Juliano. Recém voltou.
– Voltou pra falar merda. Não tem essa de hospital. Não tem essa de Doutor também.
– Tu tá muito mal.
– Já sei o que vai ser. O Antiquado vai tirá o meu da reta.

Juliano explica seu plano. Estrela não pode deixá-lo. É Claudio quem terá de ir ao encontro dO Antiquado e voltar com as Embaracejas.

—-

Eleuthério entende os temores de Estrela. Exalam sentimentos capazes de atrair diversas das coisas de apetite sombrio que habitam o Banhado. Não poderia ser de outra forma. Sempre que esteve ali, na fuga, quando perseguiu Estrela ou fugiu da Mascote, a caminho da casa dos pais ou deixando-a, havia algo de pesado entre seus pensamentos.

Possivelmente, tal peso é o que o desvia do caminho apontado pela Estrela. Na clareira inesperada, barraca, mesa e fogareiro denunciam a situação precária de quem sobrevive do que o Banhado oferece. Claudio hesita até jogar chamados à brisa. Surpresa! Um latido é sua resposta.

Das margens da vegetação, saltitando com a língua de fora, um vira-lata se apresenta. Antes que avance em sua disposição às brincadeiras, é violentamente puxado de volta. Do mato, levando-o numa coleira improvisada, sai um homem de pura brutalidade.

—-

O Elo Perdido no palco, com os olhos amarelados afundados nas sombras sob os ossos da testa. Os olhos e o nariz se apinham na clareira, aquele pequeno espaço aberto entre o matagal peludo na testa e a floresta na barba. As mãos pendem perto demais dos joelhos, com pelos pretos nas juntas dos dedos.

—-

– Comer. Depois falar.

A aura de ameaça daquela figura – o que poderia ser mais contrastante do que a placidez de língua de Ótimo Máximo? – emudece Eleuthério. E o incentiva a descascar os vermes gordos retirados de uma sacola gosmenta.

O trabalho resulta em uma sopa de caldo grosso e sabor amargurado. Os vermes, criaturinhas resistentes, prendem-se aos dentes com suas patas aos fiapos. Ótimo Máximo cheira e revira aquilo antes de rejeitar o pedaço, para contrariedade do Elo Perdido.

– Ele é seu?
– Agora é!
– Como se chama.
– Ótimo Máximo.
– Nome curioso.
– Eu não escolhi.
– Não?
– Não.

O Elo Perdido avança pelo Banhado com Claudio ao seu lado e o vira-lata na coleira de cipó. Ótimo Máximo se agita. Os latidos agudos são do tipo corajoso. Anúncio de problemas. O bruto aponta logo adiante e segue seu próprio caminho. Eleuthério está de volta à trilha da Estrela.

—-

Já entardece quando Claudio finalmente se vê diante do Antiquário do Antiquado. Não há placa. Não há coisa alguma além da escadaria sob a luz amarelada. Após deixar o Banhado, onde o tempo corre a sua própria passada, ele rumou a uma das áreas mais antigas do Centro de Porto Alegre. Chegou aqui sem saber o que esperar. De certo, já sabendo que seria surpreendido.

“É lindo olhar e uma delícia segurar, mas se quebrar, VOCÊ TERÁ QUE PAGAR!”
“Pode olhar. Pode experimentar. Mas se quebrar, VOCÊ TERÁ QUE COMPRAR!”
“Aqui dentro quebrado…PARA CASA LEVADO!”

Que velhinho simpático deve ser esse… (será que é um velhinho?).

Sim. Com dedos longos como pinças e olhos capazes de se ocupar ao mesmo tempo das imagens de todas as câmeras espalhadas pelo salão. Eleuthério perambula entre prateleiras altas abarrotadas de porcaria descartável quando houve a voz rasgada.

– Se não sabe o que quer, certamente não vai encontrar.
– Em vim pelas Embaracejas.

O Antiquado retira os olhos do livro no qual colava um último selo. Pousa-os sobre Claudio e então fecha o volume. Poeira se espalha por todo o ambiente.

– E o que tem para mim aí, novato?
– Nada. Juliano me mandou.
– E Juliano não lhe deu nada com que negociar, por acaso?
– Não. Disse que se comprometeria com o débito.
– Hummm… Só posso supor que ele esteja ferido. Ferido e desesperado, para mandar alguém assim até aqui. Se você não for rápido, quem sabe eu não tenha de quem cobrar a dívida.
– Não tem nada que eu possa fazer?
– O que você seria capaz de fazer?
– Qualquer coisa.
– Então, termine uma história.

Sobre a mesa, onde clientes normalmente escolhem se vão levar o bule de chá que pertenceu a Bento Gonçalves ou o broche que identifica uma sociedade secreta da qual ninguém faz parte, O Antiquado pousa uma agenda.

É rosa e delicada como uma menininha.

Quantas angústias pode experimentar alguém com 11 anos de idade? O Antiquado quer saber. Pacientemente, espera que Eleuthério reúna a inspiração necessária para encerrar tudo o que 1992 reservou à garota que, um dia, achou boa ideia ter a Hello Kitty a ouvir-lhe as confissões.

– Agora, a respeito das Embaracejas…
– Não, não, não!

Sobre a mesa, o Antiquado derruba uma tira de couro trançado, grossa como o pulso de um homem acostumado a trabalhar com as mãos e comprida o bastante para servir de coleria a um elefante.

– Comprei essa dos três duendes. Mas está comprometida na fivela. Sabe consertar?
– Não, mas eu encontrei com eles também. Kkak, Meeknu e Nkik. Eles me deram isso.

O Antiquado não pode disfarçar o olhar condescendente que lança a Claudio. A Pata do Macaco tem agora dois de seus dedos fechados.

– Tsc, tsc, tsc… (ele fará isso muitas vezes daqui por diante).
– O que foi?
– A Pata do Macaco. Eles te enganaram.
– Disseram que me protegeria.
– É verdade. Se quiser se defender de alguém que deseja o seu mal, provavelmente vai conseguir. Mas…
– Mas?
– Mas… A Pata tem um dono. E quando o último dedo se fechar, ele vai colocar a mão que lhe resta na garganta de quem o roubou.
– Não fui eu.
– Não. E, provavelmente, também não foi o duende que te enganou. Logo, é só você se livrar dela. Mas precisa fazer com que alguém aceite trocá-la por algo importante. E se conciliar com o fato de que está passando adiante uma espécie de condenação, é claro.
– Vamos falar das Embarecejas.

Dos fundos do Antiquário retorna O Antiquado. Carrega na ponta dos dedos um galhinho onde três frutas parecidas com cerejas se penduram. Há qualquer coisa de curioso em sua cor, contudo.

– Vai, diga alguma coisa embaraçosa.
– …
– Qualquer coisa.
– Eu já fui viciado em drogas.
– Não para você, meu caro, ainda que eu aprecie a confiança desse gesto confessional. Para elas.
– Quer que eu envergonhe um galho de cerejas?
– Por que acha que elas têm esse nome? Veja só: suas putinhas, eu vou rolar vocês na minha boca!

Instantaneamente, as Embaracejas se ruborizam e ficam mais vivas as suas cores.

– Claro que não serve de nada. Mas eu não consigo resistir a fazer isso com elas. E não se esqueça: se sobreviver, Juliano me deve.

—-

Ecoaram longe os disparos feitos no Maria Degolada. Projéteis, alojados em meia dúzia de corpos, levaram seu alerta à imprensa e à polícia. Agora, ambas se colocam no caminho de Eleuthério até o alto do morro.

Vê-se obrigado a mais uma vez trilhar o Banhado. A vegetação anormal, os animais invisíveis a produzir ruídos dissonantes, tudo já se apresenta um tanto mais familiar. Trafega mais confiante até o ponto que liga o Banhado ao barraco onde ele e Estrela foram surpreendidos por Juliano. E, em seguida, até a pedra onde decidiram os caminhos daquela estranha tarde de domingo.

Revelados pelas energias do Glamour, são dois, não, três os rastros que Claudio pode ver. Um deles é o das patas leves de algo que desperta a desconfiança dos dotados da capacidade natural para antecipar problemas. Mas ele some no meio da trilha. A possibilidade imediata de encontrar Estrela e Juliano faz Eleuthério avançar rápido até a clareira próxima.

A mesma coisa que sentiu diante dos rastros volta com força quando está a dois passos de Estrela, já com as Embracejas por tirar do bolso. Um cão selvagem de tamanho atroz. Um homem de longos pelos grossos, curvado sobre quatro patas de garras terríveis. Uma coisa com olhos vivos de inteligência cruel. Tudo aquilo unido de forma que apenas no Banhado, ou além dele, poderia existir, se coloca diante de Claudio.

Ao seu rosnado, a vegetação se adensa e fecha. Uma arena. Com Juliano desacordado e protegido por Estrela, é entre Eleuthério e aquilo o duelo.

E é terrível o que se dá a partir de então.

O ataque que retalharia o pescoço é antecipado pela Pata do Macaco. Desviado, torna-se um corte no braço. Mas não existem ferimentos superficiais para aquelas garras. O couro da criatura resiste ao pedaço de vegetação, improviso arranjado pelo desespero de Claudio.

– O Banhado. Tu precisa dele.

E então, Estrela mostra como.

Um pedaço de trepadeira se solta da árvore mais próxima e agarra a pata da criatura. É o respiro que precisa. O galho pontiagudo não atinge o alvo, mas fica nas mãos como a única coisa a proteger Eleuthério do salto e das presas salivantes de seu algoz.

Estrela multiplica esforços. Plantas surgem de todas as direções. Prendem e suspendem a besta, que se debate. A liberdade vem na direção da arma improvisada por Claudio. Sangue pinta o Banhado.

Muito ferido, Eleuthério recebe duas das Embaracejas trazidas para Juliano. Este engole a última, e isso não é o bastante para trazê-lo à consciência.

– Vamos para o São Pedro, não importa o que ele acha disso – mal suportando o peso de um, cabe a Estrela guiar os dois amigos.

Anúncios

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. R.G. Caetano said, on 01/12/2011 at 16:18

    ”Veja só: suas putinhas, eu vou rolar vocês na minha boca!” kkkkk, ri pacas!

  2. Carlos Hentges said, on 01/12/2011 at 16:40

    Os Changeling são mesmo estranhíssimos.

  3. R.G. Caetano said, on 01/12/2011 at 22:02

    Huahua. Aham. E são bem traiçoeiros, os sacanas. A máxima “Nada é de graça” cai como uma luva pra eles.

    OBS.: Os duendes devem estar curtindo o baseado de cabelo, huahua. Safos.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: