The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – De família em família

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 01/11/2011

Terceiro Capítulo da Alienação.

Estrela para junto de um contêiner de lixo, um dos muitos recém-instalados pela Prefeitura de Porto Alegre, e sorri.

– A melhor parte é que, toda vez que o caminhão recolhe, desfaz a porta para o Banhado.

A necessidade de sempre despender energia para abertura de passagens é compensada, explica ela, pela segurança de que nada que deveria permanecer longe de olhos mundanos surja de surpresa, para devorar cachorrinhos ou transformar crianças em algodão-doce.

Com os pés úmidos do Banhado, vão ao encontro de Cosme, habitante da árvore mais alta há tempo suficiente para Estrela não lembrar-se de quando foi de outra forma. Cosme desentendeu-se com todos, restando apenas o cão Ótimo Máximo a fazer-lhe companhia.

– Isso não ajudou muito a colocar as ideias dele no lugar, eu acho. Ficar longe dos humanos é tão estranho quanto tentar ser um deles. Aposto que ele vê coisas o tempo todo. Eu vejo. Tu também, né?

O que Claudio vê são as estranhas árvores do Banhado, com a base de seus troncos retorcidos cercadas por pilhas de livros. Na mais alta delas há um velho balanço pendurado. Chamado por Estrela, desce até o último galho um velho vestindo peles da cabeça aos pés alongados. A idade avançada em nada parece ter-lhe prejudicado na agilidade. Recebe-os em tom acusatório.

– O que o Caramuru faz aqui?

Cosme está mais acabrunhado que de costume, observa Estrela, com um sorriso. Culpa da ausência de Ótimo Máximo. Mesmo do alto de sua árvore, de onde consegue ver muito do Banhado, não vê seu cão. A menina ameniza sua perturbação de espírito com livros e um pequeno pacote de papel pardo cheio de coisinhas brancas semelhantes a sementes.

– Você me ajudou a encontrar o Claudio, e eu te trouxe o que você pediu. Pronto, cumprimos os dois as nossas promessas.

– Por que o Claudio que não é Caramuru não escolheu outro nome?

– Não consegui pensar em nenhum legal.

– Pfff… Mau sinal!

—-

– Promessas são coisa séria. Mesmo quando parece que ninguém ouviu, elas têm que ser cumpridas. Não prometa nada que não quiser ou puder cumprir. Nunca mesmo!

—-

Claudio sorri no escuro diante do filho que leva seu nome. Perdeu seus três primeiros anos, temeu que tivesse destino semelhante ao seu. É Estrela quem resume seu alívio.

– Ele é perfeito!

E de sono leve também, poderia completar.

– Papai! Papai! Você não está mais doente.

O menino ergue-se dos cobertores para abraçar o pai pela primeira vez. Claudio está emocionado e, ao mesmo tempo, não sabe ao certo como proceder. Estrela, mais uma vez, vem para orientá-lo.

– Oi, seu nome é Claudio também, né? Como o do papai. Olha só, Claudio, eu sou a Estrela. Vamos brincar juntos um pouquinho até o papai voltar? Assim eu não fico com medo do escuro. Qual é o seu brinquedo favorito?

Enquanto dá a Max Steel um adversário duro, mas justo, Estrela acompanha com o canto dos olhos a saída de Claudio.

—-

Deise e Roberto dormem pesado. Quais sonhos sonham os pais de Claudio? Ele os observa sem saber.

No seu antigo quarto, recolhe algumas roupas. A maioria são peças das quais um dia não foi capaz de desfazer-se. Evita-as todas. Procura aquelas sem carga emocional em suas fibras.

Nas gavetas, encontra dinheiro suficiente para emergências. Emergências. Assim Claudio chamava o vasculhar em busca de qualquer coisa que servisse para suprir seus vícios.

Papéis assinados pelos pais e pelo Dr. Alberto Iglesias dão conta da transferência de Claudio Ribeiro do Hospital Moinhos de Vento para o Hospital Psiquiátrico São Pedro. O motivo: um colapso nervoso sofrido na noite passada. Dos documentos, Claudio retira a cópia de sua carteira de motorista.

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– Nós temos que fechar essa passagem. Nós temos que descobrir como ela foi aberta, e por quem, e fechar.

– Eu sei como abrir. É fácil. A gente aprende logo. É preciso, para fugir, sabe? Como um passarinho que tem que voar, eu acho.

– E como é que se fecha?

– O Banhado é meio que uma coisa viva. Parecido com um banhado de verdade. Se a gente não passar por aqui, ele mesmo dá um jeito de fechar. Mas nós podemos descobrir como fazer melhor.

– E mais rápido.

—-

Ainda no Banhado, recorda-se do estranho amuleto trocado com Kkak, Meeknu e Nkik. Um dos dedos da pata ressequida fechou-se.

—-

Em um hotel utilizado por prostitutas, nada perguntam ao constrangido Claudio quando solicita um quarto para dividir com a menina de olhar desmaiado em sua companhia.

—-

O Hospital Psiquiátrico São Pedro guarda muitas lembranças. Lá, os pais de Claudio o internaram em inúmeras tentativas fracassadas de livrá-lo das drogas. Outros como eles, assim diz Estrela, o chamam de A Ruína. Tem a ver com coisas ocorridas no passado. Hoje, o São Pedro é uma estrutura complexa, abrigo de grupos artísticos, uma instituição de ensino na área de saúde, uma ala voltada ao tratamento de alienados, a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre e um hospital privado. Atividades suficientes para justificar a presença de qualquer pessoa e garantir todo o desejo por reserva em seu terreno de prédios abandonados, construções demolidas e edificações reerguidas sobre cinzas.

O Dr. Quimera. Assim o vê quem não vê como um Changeling.

– Doutor Quimera?

O Dr. Procópio Quimera – eu não falei que o nome dele era muito legal? – tem traços, se você fechar os olhos logo depois de olhar para ele, impossíveis de lembrar. Seus gestos estudados e modos polidos, contudo, causam uma impressão duradoura.

Pousa as mãos sobre a mesa repleta de formulários, a mesa de um burocrata, não de um médico, e espera a enxurrada de perguntas com a diligência de quem fez aquilo várias vezes. Estrela, talvez também ela já tenha visto isso tudo antes, logo se distrai atormentando alguns bibelôs.

– Onde ele está?

– Ele deu entrada ontem, e está desacordado desde então. Assim que percebi se tratar de um Espantalho, me mantive atento.

– Espantalho?

– É como chamamos as cópias deixadas no lugar dos que são levados. Dos que tornaram-se nós.

– Ele é como nós?

– Não. É algo artificial, construído pelo desejo daquilo que tomou você. Mas isso só vem à tona quando quem lhe serviu de molde consegue retornar. Aos olhos de todas as outras pessoas, ele segue sendo você. Idêntico, ou quase isso.

– Eu quero ver ele. E depois eu vou ter a minha vida de volta.

– E a vida que deixou está preparada para acomodá-lo? Mesmo que não tenha sido levado há muito, posso dizer que muito mudou desde então.

– É a minha família.

– Nós podemos ser sua família a partir de agora. Mas, para isso, você tem que abandonar o que ficou para trás. Pode ser que o Espantalho tenha consciência de sua verdadeira natureza. Pode ser que não. Mas o contato com ele vai revelar a situação antagônica de vocês. E nada de bom pode vir disso.

– Eu quero olhar para ele.

– Muito bem. Ele está acompanhado da esposa, Luísa. Vou chamá-la aqui. Enquanto dirige-se ao quarto, pense no que eu disse.

—-

Ao som dos bipes e cliques dos aparelhos de monitoramento, o Claudio que não é ele permanece adormecido. É feito de peças de encaixe. Parece vivo e frágil, tão artificial quando perfeito, um brinquedo colocado em seu lugar. Fac-símile feito objeto do amor de toda uma família.

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Estrela ora caça uma borboleta, ora se deixa caçar por ela.

– Sabe, tem um jeito. Se você quiser, dá pra mexer nos sonhos do seu Espantalho. Eu posso mostrar.

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2 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 01/11/2011 at 21:10

    O doutor aí parece o Obama. E a Estrela, a Edward do Cowboy Bebop (pelo menos é assim que eu imagino ela, só que mais velha).

  2. Carlos Hentges said, on 02/11/2011 at 17:56

    Dr. Quimera é o retrato de Gus Fring, personagem da série Breaking Bad. E a Estrela é Delírio dos Perpétuos. Boa parte das frases dela, no primeiro capítulo, saíram de passagens de Sandman e Alice no País das Maravilhas.


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