The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Coisas Presas aos Espinhos

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 11/10/2011

Segundo Capítulo da Alienação.

Ao som de troncos partidos, a fuga não é possível. Quando Claudio avista a saída do Banhado, já ruge a Mascote sobre ele. Um vagão de videiras, musgo e madeira retorcida cuja pata lhe cobre e esmaga. Sua surpresa, contudo, está na magnética atração que despertam as belas papoulas brancas a brotar da besta.

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Fosse cristão, o campo de vapores opiáceos e a difusa luz avermelhada fariam Claudio cogitar a chegada ao Inferno. Contudo, há um espantalho trinta metros adiante. É outro, em curioso avental hospitalar, o aprisionado à expiação. Outro mais familiar na medida em que encurta a distância entre eles. Eles, aliás, sequer constitui o termo correto, tendo em vista que, no caso em questão, teria por serventia distinguir quem, sob diversos aspectos, é o mesmo. Observa, admirado, os traços que são a cópia exata daqueles que foram seus, irremediavelmente alterados pelo cativeiro além dos espinhos. De pronto, Claudio não percebe o Claudio que é o nosso, ocupado que está a espantar livros e álbuns fotográficos que se comportam como corvos e, pudessem crocitar, o fariam como o de Poe.

– Me tire daqui. Não posso mais suportar isso.

Claudio, o nosso, sabe que sonha. Mais do que isso, sabe que sonha o sonho do outro. Essa certeza, do tipo que não garante certeza alguma, dado o efêmero da situação, não o impede de buscar solucionar o drama de sua contraparte. As cordas que o fixam à cruz de madeira, entretanto, não têm nós e muito menos pontos de início ou fim. Sem instrumentos com que cortá-las e pressionado pelo lamentoso aprisionado, foge. Corre até cessarem os gritos atrás de si e até que a fumaça lhe corte o fôlego e faça parecer prestes a explodir o peito tamanha dor.

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É uma coisinha diminuta, coberta por um manto marrom e de feições escuras, que apoia as mãos igualmente diminutas sobre o peito de Claudio, despertando-o. Apenas os olhos amarelos e brilhantes podem ser divisados. Comunicam-se entre si, há outros dois ali, ocupados com a coleta das papoulas brancas, por meio de estalidos da língua. A curiosa pronúncia combina bem com seus nomes: Kkak, Meeknu e Nkik.

– Coisa.Boa.Faz.Chá.Da.Flor.Branca.Nós.Vir.Urro.Ir.

Repleta de quinquilharias, sua carroça é um mercado de pulgas posto em movimento pela força de quatro humanoides deformados. Trafegam rumo ao próximo negócio. Claudio, aliviado dos hematomas no peito após provar uma mistura de ingredientes desconhecidos, faz-se freguês e companheiro.

Guardada em um dos bolsos desde antes da fuga, o chumaço da erva semelhante ao cabelo de criança imediatamente desperta o pulsante estalar de línguas. A pata ressequida oferecida em troca, se parece à de um macaco, abre todos os dedos assim que Claudio a toma para si.

– Proteger.Bem.Anda.Aí.Ajuda.Bom.

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Já amanhece quando Claudio é deixado no mesmo ponto do qual emergira, horas antes. E, como que a revisar um roteiro previamente definido, dirige-se ao lar que foi seu.

No meio do trajeto, e não ao final dele, avista Damião. O porteiro leva uma mochila puída às costas e tem o andar cabisbaixo de quem algo importante foi tirado. Claudio observa sem deixar-se observar.

A entrada, desta vez guarnecida por alguém mais jovem e atento, não é facultada. Por muito pouco não lhe toma a chave do apartamento, escrupulosamente preservada após a saída em companhia de Estrela. O novo porteiro o acusa de bandido ao novamente passar-se por um dos Ribeiro para invadir o prédio. A discussão rompe a paz das ruas arborizadas e se encerra com ameaças e uma ligação à polícia.

Já longe dali, sentado a descansar, Claudio mal percebe quando uma senhora compadecida lhe estende um sanduíche. As roupas em frangalhos e a exaustão não permitam renegar a condição de mendigo.

– Não vai querer? Essas ruas são todas iguais. Estava te procurando. Eu corri tanto, tanto. Encontrou os duendezinhos? Ai, eles não são fofos? Como aqueles bichinhos do Star Wars. Já perguntei se está cansado? Vem comigo. Eu sei onde a gente pode dormir.

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“O Samaritano”, diz a placa sobre a porta que dá para uma avenida movimentada e decadente. Vicente Carvalho cede contrariado à argumentação de Estrela.

– Por favor, por favor, por favor!

Após subir ao andar vazio, onde ficam os abrigados do sexo masculino, Claudio toma banho, pendura as roupas desencardidas e desaba sobre o travesseiro. Sonha com algo de que não lembrará ao despertar.

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Levanta-se ao som dos abrigados, Estrela entre eles, ocupando as mesas junto da cozinha. É início da noite, e os que chegaram cedo o bastante para garantir seu lugar preparam-se para o prato de massa, arroz, feijão e menos carne do que gostariam.

Sentado sobre bancos sem estofo, com os cotovelos apoiados à mesa bamba, ouve crianças contarem suas histórias. Histórias que crianças deveriam ser proibidas de escutar. Era uma vez um menino que era abusado pelo tio. Era uma vez um menino que fumava crack com o namorado da mãe. Era uma vez uma menina que contraiu HIV aos 10 anos.

Claudio sorve a esperança que cultiva na aridez daquelas existências ainda tão breves.

– Eu te vi conversando com a gurizada. Pode voltar quando precisar. Aqui sempre tá cheio de gente precisando de alguém com teu jeito pra isso.

Claudio e Estrela deixam O Samaritano.

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