The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Volver e Revolver

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 30/08/2011

Primeiro Capítulo da Alienação.

Não é porque atravessara a passagem – deixando para trás piscinas de água turva, trilhas de maldade pontiaguda e outras coisas das quais é tão difícil lembrar quanto mais explicar – que Claudio está seguro. Na madrugada do Parque da Redenção, sombras se alongam e árvores se fecham em uma escuridão que apenas o chamado de Lúcia ilumina. Ela vagueia em busca do irmão, Ulisses, cujo nome é o mais apropriado a quem se encontra distante de casa.

Frágil mas decidida, necessitada porém solícita, essa mulher de aparentes contrastes auxilia o combalido Claudio no tanto que lhe resta de jornada até o lar. Lúcia despede-se quando Porto Alegre já não parece tão estranha, diante do prédio que é uma das poucas lembranças concretas de Claudio, local onde viveu quando tudo era diferente, mas não tanto assim.

—-

Quem recebe é Damião, o conheceu ainda menino, e como Lucia pouco antes, não parece perceber ou estranhar as feições madeiradas à perfeição por dedos feéricos.

– Seus pais viajaram, Seu Claudio. Achei que o senhor tivesse ido com eles. Perdeu as chaves? Hehe, não tem problema. O senhor vivia perdendo elas quando era mais guri.

Claudio despede-se de Damião para descobrir o quanto mais se perdeu. No lar vazio penduraram-se fotografias da infância feliz, saindo de casa para o primeiro dia na escola; mais raras na juventude conturbada e maltrapilha; reveladoras no início da vida adulta, onde os vícios tornaram-se seus únicos amigos.

Mas as imagens de um Claudio que não é ou foi, com uma criança em seus primeiros anos e a esposa a abraçar-lhe feliz, inquietam. O quarto foi seu e agora pertence a um casal, e logo ao lado, rearranjado para receber brinquedos e roupas delicadas, o espaço do filho que conheceu apenas bebê e agora já anda, pinta, corre a faz dos pensamentos palavras tolas, lindas, prodigiosas e outras coisas mais a insuflar orgulho nos adultos.

Pois vem deste cômodo o assovio que o alerta. Agachada, junto do batente, uma jovem acena a cabeça em negativa. É pálida e tem os olhos brilhantes e em tudo se parece mais com qualquer coisa do lado de lá do que com o que existe do lado de cá. O choque do inesperado embota Claudio, pronto que estava para receber o pai, Roberto, que já se aproxima da porta com chaves à mão.

– Caramuru ou não-Carumuru? Ainda não. Vem, vem!

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Para o Banhado eles retornam, onde a menina aparentemente entrega-se ao desatino em uma série de perguntas.

– No que se parecem, o corvo e a escrivaninha? Em quantas coisas impossíveis tu consegue acreditar antes do café da manhã? As pessoas parecem menores quando olhadas de fora das suas cabeças? Se tu não tivesse nome, iria preferir que as pessoas simplesmente sorrissem para ti ou que elas batessem pequenos sininhos de prata ou outra coisa ainda quando quisessem sua atenção?

Verdade seja dita, Claudio mal consegue pensar no que responder.

– Claudio? Nenhum Caramuru se chama Claudio! Então, eu acho que confio em ti, Claudio. Eu sou Estrela.

Entre devaneios, Estrela fala sobre o caminho que tomou para entrar no apartamento, “se o seu filho não tem olhos que parecem botões, dedos que lembram ferramentas ou cabelos que são como raios de luz, talvez o Caramuru que abriu a trilha não levou ele ainda”, sobre os tais Caramurus, “eles carregam as crianças quando tu pisca. Achei que tu fosse um”, a respeito dela própria, “eu ficava lá em cima, refletindo o brilho da minha mãe, mas um dia eu caí e não tinha escada alta o bastante para me levar de volta. Agora, eu sei que gosto mais daqui”. Sobra tempo para explicar como se orientar pelo Banhado, “decida as direções e tu será diretamente direcionado na direção certa”, e outras coisas mais, “uma vez meu cachorro me disse: ‘eu ficaria mais confortável se tu considerasse a gravidade uma lei, não uma opção’. Cachorro engraçado”.

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Estrela o seguia desde que deixou o Banhado. O fez por curiosidade e por medo. Medo bom, não do tipo ruim que paralisa, mas daquele que motiva a correr mais depressa, seguir em frente e ver a as cores mudarem de cor. Se Estrela tem medo, as pequenas folhas amarelas que enfeitam seu cabelo se desprendem como quando chega o Outono e desmancham antes de tocar o chão.

Isso acontece logo depois de colher uma planta amarga que serve um chá excelente. Rugido alto e lamentoso, e folhas caindo, rugindo se aproximando, e pés correndo.

– É sempre perigoso aqui, mas é pior quando a Mascote está solta, esmagando e devorando.

O portal, aberto na primeira oportunidade, os tira do Banhado para as águas turvas, malcheirosas e quase completamente inofensivas do Arroio Dilúvio.

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– Tu estava lá para ter sua vida de volta?
– Sim. Acho que sim.
– Tu pode ter a vida que quiser, se quiser.
– Pode ser. Mas eu só quero a minha.
– É muito cedo para saber.

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– Olha, ali. Dormindo embaixo da marquise. Está vendo? Está vendo o medo dele? Ele tem muito medo. Não dorme direito porque tem medo. Vamos, vem acordar ele.

O que se desprende do indigente é puro, abundante e ardente. Uma emoção que cresce na medida das chamas ilusórias a engolfar-lhe o corpo, desmanchando trapos e lambendo carne. Estrela dança, saltita, bate palmas. É uma criança a brincar. Claudio conhece a sensação. Ela o toma completamente. Por segundos, o devolve para um lugar sem nome à parte do mundo. O transe termina com o ruído dos pneus e o baque do corpo, livre no ar antes da recepção abrasiva do asfalto.

Tudo em seguida acontece muito rápido. O motorista acelera. Foge. Estrela corre com os pés descalços na direção do Arroio. E desaparece. Claudio a persegue. Não pode ajudar o homem no chão. Não deseja estar sozinho. Abre o portal sob o viaduto como acabara de aprender. Chama várias vezes enquanto corre Banhado adentro.

– Estrela! Estrela!

A única resposta é o rugido lamentoso. Próximo, cada vez mais próximo.

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4 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 31/08/2011 at 18:19

    Cara, fiquei com dúvida… Em qualquer lugar/tempo e situação o changeling pode abrir um portal para a Sebe? Ou a limitações para tal?

  2. Carlos Hentges said, on 31/08/2011 at 19:06

    Na real, não sou de me deixar prender muito pelas regras. Recordando de memória, qualquer lugar que se pareça com um portal (porta, janela, buraco, etc.) pode ser tranformado em uma passagem para a Sebe. Nem sempre ela se abre para uma área transitável, contudo. É como cair em meio aos espinhos. Ela fica aberta por um tempo pequeno, a depender do valor de Wyrd de quem abriu. Essa porta se torna permanente, podendo ser reaberta posteriormente sem esforço (custo de Glamour).

    Por aí.

    O interessante de ter um interpretação aberta a respeito disso é que, ao mesmo tempo em que dá oportunidade aos personagens para trafegarem com liberdade, também significa que qualquer coisa pode sair de qualquer lugar a qualquer momento, o que pode ser bem inquietante.

  3. R.G. Caetano said, on 02/09/2011 at 15:38

    E como que tu consegue transcrever toda a sessão de jogo? Até com os diálogos!?

    Tu usa algum tipo de gravador, hehe.

  4. Carlos Hentges said, on 02/09/2011 at 18:51

    Eu usei gravador nas primerias sessões da crônica de Hunter: The Vigil – Os Espaços Vazios. E, mesmo dando bons resultados, achei que não compensava pelo esforço necessário. Em geral, as reproduções de diálogos são mais fiéis no conteúdo do que nas palavras. As frases da Estrela, contudo, eu tinha preparado previamente, e saíram de Sandman e Alice no País das Maravilhas. Todo o resto é memória, até porque não gosto de sessões longas. Dificilmente vou além de duas horas de jogo.


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