The Truth's For Sale

Prelúdio para a Alienação

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 08/08/2011

Changeling: The Lost – Alienados.
A história de Claudio Ribeiro até aqui.

É tarde da noite, e Claudio não sabe onde está. Circula por ruas vazias, a bebida e a droga puxando e empurrando. Quase tropeça em um homem de farta barba castanha. É inverno, e ele cobre sua corpulência com um casaco da cor das oliveiras.

– Você é feliz? – pergunta o estranho que cheira à grama cortada.
– Eu sou. E você?
– Você não gostaria de ser mais feliz?
– E tem como?

—-

A primeira coisa que Claudio vê é a rachadura causada pela infiltração. Está amarrado sobre a única cama de um quarto vazio. Além da porta, pode vê-los através do vidro, aguardam seus familiares. Parecem ansiosos por ouvir suas palavras.

– Pai? Mãe? O que eu estou fazendo aqui?

Sua única resposta é o chiado das correias, que protestam sem ceder.

—-

Inúmeras folhas cobrem o chão de um quarto decorado com simplicidade. Arrancadas de diversos cadernos, carregam palavras escritas pela mesma letra familiar. Ideias incompletas e conceitos pela metade. Planos inacabados a respeito de intenções que jamais se concretizarão. Novos quereres engolfados por novos desejos engolidos por novos apetites. O chão, enterrado por coisas sem fim. Frustrado, Claudio anda lentamente pelo quarto, à procura da porta.

—-

A agitação da festa nubla os sentidos. Há bebidas, drogas e mulheres o bastante para que Claudio esqueça de que possa haver vida fora dali. Isso não quer dizer que estejam todos felizes. Arrastado até uma saída lateral, é cercado por dois homens. Dirigem olhares agressivos, mas o que chama mais atenção é um dos prédios do Hospital Psiquiátrico São Pedro, projetando-se na madrugada. É quase impossível compreender o esbravejar a respeito de dinheiro, mas é fácil reconhecer o argumento dos punhos. Parece que eles não vão parar, pelo menos não até o ruído incerto que os distrai por tempo o bastante.

—-

À distância, Claudio observa crianças brincando nos gramados da Redenção. É um dia claro e limpo de final de semana, e todos parecem divertir-se.

– Eu poderia viver para sempre em um lugar como esse, diz o estranho de ar familiar sentado próximo dali. – É puro e perfeito, como naqueles poemas, sabe?
– Acho que sim.

—-

É tarde da noite, e a Redenção em nada lembra o lugar de poucas horas atrás. Claudio cochilou por apenas alguns minutos. Então, o tempo andou e correu. Mal consegue concentrar-se o bastante para sair dali. Tudo em que pensa é no estranho sonho a respeito das algas às margens do Guaíba. É o telefone que o tira do transe. A namorada com o filho no colo. Cobrança, pedidos e chateação.

– Eu te odeio, fdp! Foi dar um tapinha nas árvores e esqueceu do teu filho?

Enrolados no telefone celular, fibras secas que se parecem o cabelo fino de criança.

—-

Durante semanas, Claudio ficou pensando no que fazer com aquelas fibras. A ideia surge como uma piada, durante um final de tarde na Redenção. Entre árvores, fuma aquilo misturado a erva que tem consigo. Bate com força, fazendo brilhar cada ponto de luz do início da noite. O transforma na porcaria de um abraçador de árvores, experimentando a rugosidade de folhas e aspereza de troncos. Não demora a perceber que não faz menor ideia de onde esteja.

O chão é úmido e ruidoso ao caminhar. É a parte seca de trilhas, separadas por charcos esfumaçados de onde saem plantas espinhosas cujas raízes a água escura esconde.

Dali, algo ameaçador se agita em direção à superfície.

—-

– Não se preocupe mais, meu amigo. Você é parte do Idílio agora. Como nas poesias.

Claudio sabe que deveria preocupar-se com os ferimentos espalhados pelo corpo, mas apenas o profundo bem-estar que cada fibra sua capta importa.

Recostado em uma árvore pode ver, contra a luz de um sol perfeito, os contornos generosos daquele homem com cheiro de grama e primavera.

—-

Em meio à alegria indescritível, Claudio sente a ausência de seu filho.

– Você gostaria que eu o trouxesse para nossa companhia? – Ele fala como se lesse seus pensamentos.
– Aqui? Não.
– Eu posso lhe dar o que você quer.
– Eu quero que ele viva a vida que escolher.

Mas ele não parece capaz de ignorar as necessidades da felicidade de seu convidado.

—-

Ele vinha se afastando. A lembrança do filho ocupava o espaço antes pertencente apenas à exultação sem cessar que aquele lugar evoca. Excitação suplantada pela hesitação. Claudio não sabe exatamente quando ocorreu a oportunidade da fuga, nem exatamente como foi empreendê-la. Dos olhares, porém, ele não esquecerá. Alguns iluminaram-se ante a constatação do aprisionamento e da possibilidade de genuína liberdade. Outros nublaram-se pela revelação do cárcere e da alienação de sua felicidade imperfeita.

Os olhares o acompanharão daqui por diante.

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3 Respostas

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  1. Marcos said, on 27/08/2011 at 11:21

    Muito bem escrito. Um texto que realmente estimula a imaginação do leito e atenta aos detalhes que mudam varias vezes forçando assim o leitor atento a “ver” a imagem do que é escrito! a um primeira leitura parece confusso, mas como já dito ao se atentar pode ver o claro delírio do Claúdio se nao me engano!

  2. Carlos Hentges said, on 29/08/2011 at 13:52

    O Prelúdio, coisa que nunca tinha feito tão de acordo com o que manda o figurino, foi breve e divertido. Espero que alguns dos ganchos possam ser aproveitados mais adiante. Nunca se sabe, mas o primeiro capítulo foi ótimo (publicarei em breve) e as perspectivas são boas.

    Gracias.

  3. Henrique Couto said, on 29/10/2012 at 19:21

    Muito bom!


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