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Changeling: The Lost – Das Resoluções Elusivas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 24/11/2010

Changeling: The Lost – Anseios & Fragmentos

Capítulo 05 – Das Resoluções Elusivas

No qual contratos são selados, promessas são feitas e o que há além de certas portas é vislumbrado. E uma carta chega ao seu destino.

Confiança, ou o contrário disso, era no que pensavam todos naquela manhã.

Dez dias haviam se passado desde seu retorno. Pelo menos para Vargas, Tibério e Henrique assim era. Wen ainda tinha dedos de uma das mãos com que contar o tempo desde o fim do trajeto até além dos espinhos.

Nas escassas lembranças, em outras pessoas, nos poucos como eles que sabem haver, no curioso grupo que formam. Será preciso decidir onde cada um depositaria sua fé.

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Vargas e Tibério estão diante de Bastião Lefévre. Suas intenções parecem tão puras quanto o alvor de seus trajes e a luminosidade cegante de seus olhos. Conversam longamente a respeito de sonhos, lembranças, sua importância e como podem ser resgatados em benefício de todos.

Do lado de fora, em observação, Wen aguarda. Deslocado, o oriental apenas reúne coragem para a ação quando reconhece outro como ele. Alan Bracho é o seu nome. Conversam em um modesto restaurante nas vizinhanças. Gentil em sua curiosidade, causaria forte impressão por conta do sorriso emoldurando os pequenos e incisivos dentes de raposa.

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No pátio da escola Henrique depara-se com um estranho. Seus modos elegantes não são abalados nem mesmo diante da incerteza na qual se encontra. De posse de uma foto, fita a parede de alvenaria onde traços grosseiros representam um rosto e temas militares que ingenuamente associam heroísmo à guerra.

– É terrivel estar perdido, não? – O cavalheiro de meia-idade volta-se ao jovem recém-chegado sem perceber como soam estranhas as suas palavras. – Peço desculpas por tentar agarrá-lo na outra noite. Achei que fosse um dos invasores, ladrões. Não é sempre assim? Alguém desejando tirar algo que é nosso?

Antes que possa esclarecer o evento, Henrique nota a aproximação de uma turba. Ao som da algazarra de uma centena de crianças avançam as coisas que um dia o arrastaram para longe da própria vida.

O adolescente corre, como tantas outras vezes fizera naquela escola. Agora, porém, vê desaparecer as portas que seriam caminho para o refúgio. Apenas a última delas se abre. Do outro lado, Henrique depara-se consigo. Aquele que ele poderia ter sido caso fosse tudo diferente o empurra de volta ao corredor. – Não existe lugar para você aqui. – Apenas quando a horda está sobre ele o sonhador finalmente desperta.

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A melodia que Wen produz lembra a época em que tinha uma família. E lembra uma de suas obrigações quando dela foi privado. Ele poderia insistir na compra do violino, encontrar um mais barato, mas acredita não ser adequado. Wen não está em paz com a música.

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Sem sucesso, Henrique tenta ver os mortos e seus rastros na mansão de Jacinto Godoy. Miados o distraem. Preso na piscina, o gato que ronda a casa foi vítima da própria curiosidade. Após retirá-lo dali, não sem olhar de soslaio as folhas que escondem a passagem para os espinhos, nota a estranha presa que atraiu o mascote sem nome. Uma criatura desprovida de pêlos; pequena monstruosidade de cujas entranhas o gato se alimenta e das quais o tênue Glamour emana.

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Ao partilhar de uma refeição e dos acontecimentos daquele dia, decidem permanecer no palacete. A procura por outro lugar tomaria tempo que não têm.

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Tibério conduz boa parte da conversa. Vargas pontua com perguntas sempre anunciadas pelo erguer da mão esquerda. Wen esforça-se para acuar o interlocutor questionando seus propósitos. O Dr. Lefèvre consegue, com amabilidade praticamente intacta, sanar todas as dúvidas ao mesmo tempo em que instiga a urgência na tomada daquela decisão.

– Olhar os seus sonhos e a respeito deles jamais falar. O que eu aprender a cada um de vocês terei de dizer. Pelo período de uma estação serão meus pacientes e seus sonhos meus confidentes. Apenas as paredes dessa sala poderão escutar o que têm a dizer, e se eu trair essa promessa, tudo o que aprendi deverei esquecer.

É do voto que necessitam os três para garantir acesso aos seus sonhos e às memórias que eles escondem. De posse deles Lefèvre pretende compreender o singular quebra-cabeça que envolve o primeiro retorno de criaturas como eles a Porto Alegre em uma década.

Partem repletos de curiosidade a respeito daquele estranho ritual que, acabaram de escutar, serve de base à sociedade que em breve os receberá.

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Primeiro foi o velho, que perfurou a própria carne com ganchos presos a correntes. Agora, um soldado cuja garganta encontra-se mergulhada no vidro partido de uma janela. Formas dolorosas de morrer que tornam mais inquieta a permanência naquela velha mansão na Itália sob o cerco dos Aliados.

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Pela primeira vez Henrique olha a Escola Municipal Fredolino Chimango com seus olhos despertos. Estudou na instituição que leva o verdadeiro nome de Tibério, mas isso foi em outra vida. Felizmente, uma vida próxima o bastante para que ecos dela perdurem. – Henrique, o tempo não passou para você. – A ex-professora, agora diretora, mede as palavras de contentamento naquele reencontro inesperado. Despedem-se, Henrique com documentos a seu respeito nas mãos, diante de um canteiro de obras. O mural que leva o rosto do Cabo Chimango está por ser derrubado. Atrás dele, a sala onde Henrique estudou será reativada. Por enquanto, não passa da alvenaria abandonada que leva a um lugar esquecido.

Nessa sala Henrique foi capturado. E todo o concreto e cuidado com que ela é reconstruída parecem pavimentar o caminho para coisas inumanas em sua algazarra invisível além da passagem escancarada.

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Pilhas de altura impossível formam um labirinto de metal e detritos. Vargas o percorre com familiaridade até o escritório. Encontra notas fiscais com sua assinatura. O seu antigo ferro-velho… Do lado de fora, cães latem. O ruído vem da piscina no pátio do palacete. Uma matilha inteira prestes a surgir. Vargas escala os instáveis esqueletos de automóveis e geladeiras. Antes que possa ver, é surpreendido pelos estalos metálicos do arranjo que se desfaz. Soterrado, desperta sentindo no corpo o impacto de toneladas de coisas que ninguém mais deseja.

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O endereço nos papéis da escola leva a uma casa que há muito um incêndio consumiu. Henrique vagueia pela estrutura vazia até deparar-se com o irmão, Rodrigo. Carbonizado, enegrecido, irreconhecível não fossem os olhos, pede socorro em silêncio. Não há mais vida nele. Precisa que o fogo encerre o que começou. Henrique reluta, mas os lençóis, o álcool e os fósforos surgem no quarto. Instrumentos para o alívio do irmão, que parte depois de consumido pela chama azulada. Seu único vestígio é uma carta chamuscada. Nas linhas a mãe lamenta o terrível fato que privou-lhe da companhia do filho. Escrita para aplacar a dor pela perda de Rodrigo, aquelas palavras falam diretamente a Henrique.

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