The Truth's For Sale

Changeling: The Lost – Das Chegadas Imprevistas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 11/11/2010

Changeling: The Lost – Anseios & Fragmentos

Capítulo 04 – Das Chegadas Imprevistas

No qual a família cresce e um benfeitor lança seu olhar iluminado sobre os novos habitantes de Porto Alegre.

Existe indignação no ar. Tibério não precisa dos rostos contorcidos e das conversas entrecortadas para sabê-lo. Na emergência da Santa Casa de Porto Alegre ele semeia a revolta. Sorve dos protestos contra a longa espera, contra a fila interminável, contra a fria burocracia e contra os maus-tratos que são o contrário de tudo o que se poderia esperar de um hospital o Glamour cujo sabor assenta-se amargo no fundo de sua garganta.

****

A ausência de Tibério os preocupa. Vargas e Henrique não sabem onde procurá-lo, mas sentem que devem fazer algo. Ao cruzarem o pátio de fundos, única saída do palacete, dirigem a atenção à piscina. Sobre as folhas que cobrem o fundo, com as roupas esfarrapadas e o olhar mirando uma das bordas, está um jovem oriental de pele resplandecente. Seus traços de máscara refletem extremo cansaço.

As perguntas que ambos formulam são silenciadas pelas folhas movendo-se de modo que vento nenhum poderia fazer. Algo mais vai surgir na piscina.

****

A ambulância da Clínica Lefèvre pára no estacionamento diante da emergência. Chama atenção a frase logo abaixo do logotipo: Não podemos mudar aquilo que não aceitamos.

Na Santa Casa, da mesma forma que fizera no HPS, Tibério afirmou sofrer de completa amnésia. É sobre isso que tratam os dois representantes da clínica: pessoas sofrendo de confusão mental.

Tibério desconfia. Quem sabe sejam as amarras na maca que mantém longe de si; possivelmente seja o Glamour que recende no espaço claustrofóbico da ambulância.

****

Aquilo que salta debaixo das folhas secas é pouco maior do que um cão grande. Volta-se de imediato à sua presa. Munida de longas garras escuras, é nos olhos demasiado humanos que a criatura revela seu traço mais assustador. Existe uma forma bestial de inteligência movendo-a na direção do adolescente encurralado na piscina vazia.

Henrique arremessa uma pedra sem sucesso. Vargas invoca o poder do Glamour, cercando-o na forma de uma vigorosa coluna de ar e fumaça. Salta, mas não a tempo de fazer algo. A fera arremete contra seu alvo. As garras feitas para destrinchar cravam-se sob as clavículas do garoto e escorregam até o alto do abdome. Sangue imediatamente lhe encharca o peito.

Vargas aproveita-se de sua posição para se aproximar. O Glamour cercando-o produz um solavanco que coloca a fera em posição para um arremesso preciso de Henrique. Acuada, ela volta-se para o ponto de onde surgiu. Afasta folhas, mergulha e desaparece. Deixa atrás de si um vislumbre dos espinhos que todos temem.

****

Após deixar a ambulância, Tibério é conduzido até uma sala com duas poltronas, uma mesa repleta de revistas científicas e quase nenhuma decoração. Viu alguns funcionários, mas nenhum paciente no breve deslocamento pelo casarão que abriga a Clínica Lefèvre.

– Bom dia, sou o Dr. Lefèvre. Dr. Bastião Lefèvre. – De imediato fica evidente sua natureza. Muito alto, veste um guarda-pó de alvura imaculada. A assepsia pouco natural, como se a sujeira e a impureza jamais o tocassem, é complementada pelos olhos, impossíveis de encarar por muito tempo, brilhantes como as luzes das salas cirúrgicas. – Seja bem-vindo à minha clínica.

****

Vargas e Henrique chegam ao Hospital de Pronto Socorro com Wen nos braços. A quantidade alarmante de sangue que perdeu garante atendimento imediato. Antes disso o adolescente, com seu sotaque carregado, explicou que partiria a Porto Alegre para encontrar familiares que haviam fugido da Revolução Cultural Chinesa promovida por Mao Tse-tung. O desejo por um local seguro para revê-los guiou Wen através dos espinhos e o trouxe ao destino esperado mais de quarenta anos após a data de partida.

As intenções do início daquela manhã, quando pretendiam reencontrar Tibério, retornam. Cientes de que dirigia-se a um hospital, Vargas e Henrique circulam pelo HPS contando com a sorte para apontar o corredor que levará ao companheiro.

****

– Somos cerca de uma dúzia. Pelo menos tem sido assim desde a última década.
– E são organizados?
– Tanto quanto um grupo de vítimas de experiências traumáticas pode ser. Outros vieram com você?
– Sim, dois.
– Extraordinário. Há uma década isso não ocorria. Você está sofrendo de amnésia?
– Parcialmente.
– Posso ajudá-lo a resgatar o que perdeu. Seria interessante que seus amigos estivessem com você. É raro que se consiga escapar das picadas sozinho. Deixá-las para trás cria um vínculo forte, e ele pode ajudá-los.
– Vou falar com eles, mas não prometo nada.
– Faça como achar melhor. Fique com meu cartão. Ligue quando sentir-se preparado.

****

Em um quarto do HPS está um garoto ligado a aparelhos. Consciente, mas sem forças, ele apenas escuta as palavras de incentivo que Vargas lhe dirige. A criança não percebe, mas o ânimo que nele se instala é o Glamour do qual seu benfeitor tira sustento.

****

Henrique desiste. Tibério não está em lugar algum do HPS. Dirige-se à recepção da emergência quando percebe que um dos médicos o observa. Não tem os olhos de alguém a se perguntar o que estaria fazendo um maltrapilho naquela ala do hospital. A expressão é analítica. Henrique sente-se imediatamente exposto. O homem pode vê-lo como realmente é. Segue-o até refugiar-se em um setor restrito do prédio.

****

Wen prefere não esperar até que as perguntas se tornem ainda mais inconvenientes. A carne unida por linhas e coberta por bandagens ainda lateja quando ele deixa o HPS. Encontra Vargas e Henrique na recepção. Saem a tempo de ver Tibério deixando um táxi.

****

– Quem é esse aí? – Tibério sente-se desconfortável na presença de Wen. Bem poderia ser um dos japoneses que lutavam ao lado do inimigo na guerra. – Me chamo Wen Min Ya. – A animosidade inicial é desfeita pelas perguntas de Vargas e Henrique. – Estive aqui e na Santa Casa. Acabei em uma clínica. O responsável se chama Bastião Lefèvre. É como nós. – A constatação de que não estão sozinhos nada significa. Poderiam confiar em Lefèvre? Tibério mostra o envelope cheio de notas que recebeu. Henrique calcula que, com economia, poderão sobreviver cerca de dois meses. – Mas para isso vamos precisar ficar onde estamos. – Vargas descreve rapidamente os eventos daquela manhã no palacete. Quão seguros poderão sentir-se lá?

Então Henrique recorda de algo que pretende apresentar aos seus companheiros: a Internet.

****

– Isso não é nada demais. Na Itália tínhamos telégrafos. – Henrique se esforça, mas Tibério parece pouco inclinado a compreender. – É um telefone, então? Tu liga e pede as informações? – Por fim, acaba refugiando-se atrás de um velho e familiar jornal. Henrique segue com as explicações para Wen, cujas inúmeras telas da lan house têm algo de hipnótico, e Vargas, satisfeito por enxergar algo semelhante com máquinas de escrever e caixas registradoras. Para a frustração de todos, a tal Internet nada de relevante traz sobre o Dr. Bastião Lefèvre que eles próprios já não pudessem deduzir a partir do relato de Tibério.

****

– E como vamos saber se podemos confiar nesse Lefèvre? – A dúvida de um externa a preocupação de todos. – Quem garante que eles não podem se passar por outras pessoas, como aquele médico que Henrique viu no HPS. Talvez seja o carcereiro de Tibério. – Questões demais. Seria tão mais fácil esconder-se. Tornar-se outra pessoa. É nisso que pensa Vargas. – Como você fez isso? – Os três o encaram perplexos. O duas-caras lhes sorri de volta. Não sabe o que fez, mas sabe ter feito direito. No espelho, a imagem do homem que foi, saudável, sem odores de fumaça ou palidez. – A sombra dele. – Henrique aponta o chão, onde alonga-se a silhueta escura de um homem de faces encovadas e dedos esqueléticos. Por um instante Vargas pode ver quem foi, mas sua sombra sempre denunciará o novo e perpétuo semblante.

****

Já é noite quando retornam ao palacete. Tibério ocupa-se de checar o ambiente em busca de invasores. Vargas volta-se aos papéis de Jacinto Godoy. Wen prefere investigar portas e janelas, buscando rotas de fuga. Henrique faz o possível para tornar o jantar de logo mais tão agradável quanto possível.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: