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Changeling: The Lost – Das Memórias Partidas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 27/10/2010

Changeling: The Lost – Anseios & Fragmentos

Capítulo 03 – Das Memórias Partidas

No qual pálidos sonhos são revividos, velhas histórias são compartilhadas e um gato encontra um dono.

Já é noite quando atravessam a vegetação que leva ao pátio interno do palacete. A brisa que agita a árvore de galhos secos, soprando suas últimas folhas para o fundo da piscina vazia, esboça a única reação ao retorno de Vargas e Henrique.

A casa está imersa nas trevas. O silêncio igualmente denso é rompido por uma série de pancadas contra o chão. – Tibério? – Vargas se adianta até as escadas em companhia de Henrique.

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Tibério ainda está grogue quando é retirado do carro. Sangue empapa a camisa e pinga no saguão do Hospital de Pronto Socorro. Aguarda na emergência lotada – não há ninguém como ele ali – enquanto Ramiro Bastos tenta expiar a culpa pelo atropelamento. O assessor político despede-se após deixar um cartão e uma solicitação por notícias.

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Os dois avançam até metade do lance de escadas. A escuridão inquieta Henrique. Trás lembranças que ainda não foram dominadas. De volta ao pátio, com galhos, folhas quebradiças e um trapo, resgata o período em que foi um escoteiro.

Vargas ouve novos ruídos. Papel. Folhas de papel. Está apreensivo com a ausência de resposta aos seus chamados por Tibério. Se houver algo ruim na escuridão logo adiante, é melhor que o jovem Henrique não esteja por perto.

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Atropelamento. Estupor. Amnésia. Tibério relata tudo isso antes, durante e após uma série de exames. O corte no queixo leva mais de uma dúzia de pontos. É curioso observar a chapa de raios X – onde os dentes que são lâminas reluzem como rasgos prateados – sendo objeto de comentários completamente mundanos por parte do traumatologista que o atende.

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– Espera aí! – De posse da tocha improvisada, Henrique é interrompido no alto das escadas por um sussurro. Alguns passos adiante, Vargas aproxima-se do cômodo do qual partiram os ruídos. A chama tênue é o suficiente para lançar luz frouxa sobre uma velha mesa de trabalho, uma lareira e papéis soltos no chão. Livros também adornam o piso poeirento. São os únicos objetos que poderiam ter produzido o baque que os alertou.

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– Onde é que está a pedra, hein? – Quando cospe a pergunta na direção de Tibério o investigador Antunes já fez uma breve e derradeira avaliação do suspeito, ainda deitado sobre uma maca. – Quer dizer que tu perdeu os documentos e perdeu a memória? E ainda vai dizer que não tem pedra aí? Deixa eu ver. – O tom solícito de Tibério, acossado por perguntas que não compreende, não detém o ímpeto afrontoso do oficial. – Tu arrebentou a Biblioteca Municipal diante da pobre da velha que há vinte anos cuida do lugar. Quem é que te largou aqui? – Após resistir, Tibério mostra o cartão entregue por Ramiro Bastos. O Glamour lhe escorre pelos dedos ao tocar os de Antunes. Suas intenções se debilitam conforme mira as letras com desdém. – Eu lembro bem do rosto de vagabundo. É bom não voltar a te ver por aí.

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Após jogar a tocha na lareira e fazer com que a sala ganhasse um pouco mais de luz, Henrique vasculha o cômodo. Olha com os mesmos olhos que viram o velho morto na loja de roupas usadas. – Está com a mesma cara de antes. Procurando fantasmas? – Vargas desdenha tudo aquilo. Também ele desconfia de que algo de estranho possa ter havido, mas prefere atribuir ao vento toda a responsabilidade. Busca manter Henrique afastado dos fatos; não para protegê-lo, como fizera pouco antes, mas para deter apenas para si algo importante que ainda não sabe o que é.

– Não tem nada aqui. – Henrique deixa o cômodo e, com a ajuda de Vargas, começa a organizar aquele lugar. Dentro das possibilidades que os utensílios improvisados permitem, o palacete respira ares menos insalubres.

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A movimentação nos corredores é tão intensa quanto na emergência. O HPS lembra uma imensa enfermaria de guerra, onde nem todas as feridas podem ser tratadas e os lamentos jamais cessam.

Da CTI vem a movimentação de um séquito que perturba ainda mais o ambiente. Engravatados de ar circunspecto acompanhando a transferência de um jovem de pernas imobilizadas.

Tibério imediatamente o reconhece. Vira-se na direção de um mural antes que ele tenha a oportunidade de fazer o mesmo.

Enquanto o grupo passa, atento às recomendações do médico que o conduz, Tibério arrisca um olhar de soslaio. O rapaz que feriu na Redenção está inconsciente. Em meio à coesa formação de ternos, porém, um rosto de pérola polida se destaca. Olhos que são jóias cruzam com os seus.

E então o corredor chega ao fim, o grupo vai embora e Tibério permanece ali, com seus pensamentos.

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Ainda queima a tocha deixada por Henrique. Vargas alimenta o fogo com pedaços de madeira e então recolhe as folhas e livros do chão. Existe certa unidade temática nos volumes. Psicologia, psiquiatria, neurologia. Obras com sessenta anos ou mais. Escritas quando Vargas ainda era humano.

Os documentos deixados para trás tratam de certo Jacinto Godoy, ex-proprietário do palacete. Um médico dedicado à neuropsiquiatria e relacionado ao Hospital Psiquiátrico São Pedro.

O Glamour que se desprende dos papéis tem leve odor sobrenatural.

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Com boa parte do dinheiro que juntaram até ali, Henrique ruma até um supermercado. Está coberto de poeira devido à organização da residência e ainda veste as roupas esfarrapadas com que atravessou os espinhos. Mas seu estado é melhor que o de Tibério. – O que aconteceu? – O queixo, coberto por esparadrapos e bandagens, fala por si. – Meu carcereiro voltou. É melhor que vocês fiquem atentos. Estou a caminho do hospital. Pode ser que eu demore. – Ainda que inflamado pela curiosidade, Henrique sente que a insistência não será bem recebida.

Ele faz as compras com tranqüilidade e, quando ninguém está olhando, deixa caírem no bolso os chocolates que não caberiam no orçamento apertado.

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– Era escuro, como uma masmorra. O subterrâneo de um castelo tão grande quanto uma cidade. Não era bem limpeza que a gente fazia. Eu e os outros vivíamos vagando por túneis. – Entre uma fatia de bolo e um copo de leite, Henrique tenta recordar dos motivos que ainda fazem das trevas objeto de conforto e repulsa. – Eu me lembro dos fornos de carvão. Do ar pesado. Da fumaça constante. E do som de algo como máquinas pesadas trabalhando ao longe. – Vargas sente no corpo os vapores que nele permanentemente se impregnaram após décadas. – Será que é reversível? – Para a pergunta de Henrique nenhum dos dois tem resposta.

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Fredolino Chimango lava o rosto com o que resta da água na tina. O espelho quebrado reflete seu rosto magro, resultado de todos os meses com os pracinhas. Tibério, em letras brancas no capacete. Por mais que leia, não consegue descobrir o motivo do apelido dado pelos italianos da resistência.

Ele e os quatro companheiros, dois brasileiros e dois italianos, precisam descobrir o que fazer com o velho. Chegou no meio daquela noite e quase foi alvejado. Continua em estado de choque. Únicos responsáveis por manter em segurança o posto avançado envolto pelas brumas, nenhum deles tem tempo para ser enfermeira.

Na manhã seguinte, quando encontram o homem balançando com o pescoço preso às correntes do paiol, a única coisa a fazer é resignar-se.

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Henrique atravessa os corredores da escola onde estudou. Estaria vazia, não fosse quem o persegue. Ele não o vê, mas sabe quem é. Um dos valentões interessados nas poucas moedas que leva consigo. Arfando, atravessa o prédio até chegar ao pátio. O portão. É só cruzar a quadra esportiva, saltar o portão como tantas vezes fizera e estará livre. Quando pousa do outro lado, Henrique e agarrado. Não pela mão de um garoto mais velho querendo seus trocados para comprar balas, mas de um adulto, forte o bastante para puxá-lo contra as grades. – Vocês me roubaram! Por que vocês me roubaram?

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Como são os olhos da mentira? Vargas não sabe. Mas sabe que a mentira observa cada um de seus passos. No seu trabalho, no modo como trata as pessoas a sua volta, nos seus objetivos e nos seus métodos. Os sonhos de Vargas lhe dizem mentiras.

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Tibério desperta na Santa Casa de Porto Alegre. O colchonete frio não foi o bastante para separar o piso frio de seu corpo. É tão frio quanto na guerra dos seus sonhos.

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Vargas desperta sabendo que terá de resgatar alguma verdade. É o único modo de reencontrar quem era em meio ao universo de farsas que ergueu como muralhas a sua volta.

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Henrique desperta e dirige-se ao pátio. Respira o ar morno da manhã quando, de um dos buracos no concreto esfacelado, sai um gato. Magro e maltratado, ele logo aconchega-se a Henrique. Será preciso dar-lhe um nome.

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