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Changeling: The Lost – Dos Caminhos Entrelaçados

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 13/10/2010

Changeling: The Lost – Anseios & Fragmentos

Capítulo 02 – Dos Caminhos Entrelaçados

No qual os tocados por Arcádia buscam ambientar-se, não sem conseqüências, e estranhos se fazem notar.

A rua, repleta de pessoas e veículos, todos apressados, atordoa Tibério. Sabia, pelo que vira nas revistas em caixas poeirentas, que o mundo mudara. Mas a tal ponto? A única visão familiar naquela manhã que já começa caótica nada tem de reconfortante: mendigos, como ele, amontoando-se em espera resignada ao redor de uma garota que mal viu dez primaveras.

Quando volta-se, a menina se depara com Tibério. O mira por um instante e depois para o fundo da caixa. – Toma. Ainda tem um. – O homem diante de si é apenas mais um a quem deve distribuir a fornada que a mãe não considerou digna da vitrine da confeitaria.

Há muito ele não experimenta comida feita por mãos humanas. O açúcar espalha-se pelos dedos conforme parte o doce. No caminho de seus olhos, que ainda observam a menina afastando-se, atravessa um dos maltrapilhos da rua. – Não vai querer? – O recheio do sonho esquecido goteja na calçada. Oferece metade ao insaciado de dentes podres. – Onde posso passar a noite? – Antes que responda, o homem engole o doce que recebeu, talvez receando que Tibério arrependa-se da generosidade. – Tem uns abrigos no centro. Mas são uma merda. Não dá pra beber nem nada. – Sob as vistas descontentes dos moradores, que vêem a bondade alheia atrair indesejáveis às suas ruas, Tibério toma a direção que lhe foi apontada.

Mastiga com prazer o sonho doce que uma menina lhe deu.

****

Deixando a casa que lhes serviu de abrigo pelo pátio dos fundos, mesmo caminho discreto tomado para entrar, Vargas e Henrique esperam estender o segredo a respeito de sua presença ali. O primeiro está decidido a recuperar imediatamente sua história; o outro espera prestar-lhe algum auxílio enquanto resgata ele próprio o que perdeu.

Conversam sobre o rumo a tomar enquanto trafegam pelas ruas do Bom Fim. Henrique, sincero no desejo de fazer seu companheiro sentir-se melhor, comporta-se com otimismo, guiando-o através da falta de familiaridade com essa época. Vargas, porém, está distraído. Atravessa a Oswaldo Aranha, em direção ao Parque da Redenção, seguindo uma dezena de jovens que empunham bandeiras com seu nome.

O grupo, uma breve conversa revela, é de militantes contratados. Pouco sabe a respeito do nome que propaga às sacudidas. Ao que parece, Germano Vargas e alguns outros realizarão uma caminhada na Redenção logo mais.

Afastado do grupo, e já irritado por mais cedo ver recusado o seu desejo de comprar alguma comida nos pequenos mercados que acumulam-se no caminho até a Redenção, Vargas aproveita a primeira oportunidade para furtar o conteúdo do bolso de quem o tratou mal. Afasta-se com uma conta de luz e algumas notas. Henrique, junto da multidão à espera dos candidatos em campanha, não testemunha a lição moralmente duvidosa aplicada por seu companheiro.

****

Em meio à cacofonia no Centro de Porto Alegre, com suas buzinas e alarido, Tibério escuta o retinir das correntes. O prenúncio de cada aprisionamento, ouvido quando ele estava fraco e coberto do sangue de um adversário. Anúncio da aproximação daquele tido como morto. A lembrança das agruras do cárcere movimenta suas pernas na fuga cega. Com os sons da cidade estranha o confundido, não sabe de que direção virá o ataque.

Bem da sua frente.

Tibério apenas vislumbra o rosto feroz do carcereiro. Ainda lhe faltam os pedaços arrancados aos nacos. Pequeno e poderoso, o perseguidor sem nome tem o físico de um javali. As correntes giram e atingem o vazio. Tibério embrenha-se à multidão e corre.

****

No momento mais enfático de seu discurso, Germano Vargas aponta na direção do veículo incendiado na noite anterior. A carcaça cinzenta à espera do recolhimento é mote para palavras bem-escolhidas a respeito de segurança pública, cercamento do Parque da Redenção e instalação de câmeras. Encerra sua intervenção lamentando que Assis Paz, filho de seu amigo e colega de partido, o vereador João Paz, tenha sido vítima do brutal assalto que o  mantém hospitalizado em estado grave.

Quando passa o microfone a outro candidato à Assembléia Legislativa, porém, é que consegue a atenção de Vargas e Henrique. Não por si próprio, mas por conta da mulher de cabelos metálicos e pele perolada que o recebe afetuosamente. O sorriso brilhante que ostenta é desfeito ao avistar os dois em meio à multidão. Por alguns instantes, observam com atenção quem acreditam ser um igual. Sabem que também ela pode vê-los como realmente são. É inegável a apreensão nos olhos que parecem jóias.

Por receio, preferem afastar-se.

****

Com cuidado, Tibério contorna a boca de dentes tão afiados quanto a lâmina de barbear que manipula. Após a chuveirada no banheiro da rodoviária e as roupas limpas, outro homem surge no espelho. Não aquele que ele foi, nem o que ressurgiu na noite anterior. Um terceiro. Quantos mais seriam?

Nas horas seguintes, ainda alerta ao retinir das correntes, ele visitaria o Centro de Porto Alegre, o Cais do Porto, o Mercado Público, a Praça da Alfândega e da Matriz, regiões tão antigas e intactas quanto suas memórias. Observar as pessoas e ambientar-se, eis seu propósito.

****

Henrique e Vargas também não estão indiferentes à necessidade de mínimo asseio. O caminho aos banheiros do parque, entretanto, é interrompido por uma figura familiar.

Inclinado sobre o beiral de um chafariz, distante poucos metros do local através do qual surgiram os três na noite passada, está o homem que mendigava junto ao Monumento do Expedicionário. Ele se assusta ao vê-los. Sem dúvida lhe vai pela cabeça a violência que testemunhou. Rapidamente coloca no bolso a moeda que com tanto custo recolheu.

– Não tentem nada. Tem um monte de gente aqui. Não vou deixar levarem também isso. – Ainda que dificilmente alguém daria atenção a uma confusão entre mendigos, Henrique prefere a via pacífica. – Tudo bem. Ninguém vai fazer nada de ruim contigo. Tu achou uma moeda, foi isso? – Vargas, após observar o chafariz sem nada de valor, é mais incisivo. – Deixa eu ver! – O velho estende a palma suja sobre a qual uma antiqüíssima moeda de brilho perdido se assenta. – É minha! Eu vi quando jogaram e achei primeiro.

– Aqueles caras ontem, lembra? Eram quatro. Viu o que aconteceu com eles? O que será que podemos fazer contigo, aqui sozinho? – As palavras de Vargas não abalam a confiança do pedinte, há muito acostumado com toda sorte de ameaças. – Tem um monte de gente aqui. Eu vi o que vocês fizeram. Se eu gritar, alguém vai ouvir. – Henrique desvia o foco da conversa para algo que o perturbou. – Tu disse que viu alguém jogando a moeda. Quando foi isso? – Vargas leva a mão ao bolso para contar suas notas e estipular um lance pela moeda que agora deseja ardentemente. O movimento não contribui para acalmar seu interlocutor. – Foi depois que vocês apareceram. Tinha um cara aqui. Comeu um pouco da terra no chão. É, isso mesmo. Eu vi! Comeu um pouco da terra e um pedaço duma planta. Depois jogou a moeda no chafariz e foi embora.

Incertos quanto à veracidade daquelas palavras, preferem afastar-se do local. Vargas ainda tentaria comprar a moeda, mas o velho é irredutível em relação a um valor além de seus parcos recursos.

****

NOME: Fredolino Chimango (Tibério)
UNIDADE: 11º Regimento de Infantaria
POSTO: Cabo
NATURALIDADE: Porto Alegre, RS
DATA DO DESAPARECIMENTO: 16.04.1945
LOCAL: Zona de Operações – Batalha de Montese – Itália
Obs.: Agraciado com a Medalha de Campanha, Sangue do Brasil e Cruz de Combate de 2ª Classe.

O motivo do apelido não é esclarecido no livro sobre a Força Expedicionária Brasileira que Tibério encontra na Biblioteca Municipal. Parentes também não são mencionados, nem a ocorrência ou não de um enterro simbólico no Brasil. De lembrança concreta, uma escola municipal na Zona Sul de Porto Alegre, batizada em homenagem ao cabo.

É para uma foto sua na borda da página que Tibério olha enquanto lê o pedaço recuperado de sua história.

A concentração é perturbada pelos livros. Inúmeros caem da estante que se inclina perigosamente. Tibério apenas tem tempo para saltar antes que a massa de madeira tombe com um estrondo, destruindo tudo sob ela e provocando gritos dos presentes. Entre eles, o carcereiro.

Tibério arremete em sua direção. Não irá mais recuar. Avançar, atacar, matar. Para isso ele foi capturado. Assim ele fugiu. Dessa forma permanecerá livre. O poder de seus músculos é ampliado pela força do Glamour.

O carcereiro absorve o impacto e gira sua correntes. O grilhão acerta Tibério na ponta do queixo, fazendo sangue jorrar. Nunca pôde vencê-lo, apenas uma vez. O faria novamente agora? Incerto da resposta, Tibério atravessa a janela com um salto. A queda do segundo andar se dá em meio à rua. Antes que possa levantar-se, um carro o atinge.

Grogue, os gritos ao redor não fazem sentido, é colocado no banco do carona para ser levado ao hospital. No vão da janela estilhaçada a bibliotecária tem a expressão tão confusa quanto apavorada.

****

– Quer dizer que tem um velho aqui?
– É, bem ali.
– Segurando um casaco em um cabide?
– Sim, isso. Do seu lado.
– Não estou vendo nada.
– Mas eu sim.
– O que é isso? A porra de um fantasma?
– Acho que sim.
– Tu enxerga fantasmas?
– Acho que sim.
– Ô, vocês dois. Se não vão comprar nada, dêem o fora daqui.

Expulsos do brechó, Vargas e Henrique caminham da direção do Palácio da Polícia. O primeiro ainda descrente do segundo, que parece ter recuperado uma capacidade bastante perturbadora.

****

– Moço, o senhor poderia trazer meu carrinho?

Vargas lança um olhar vazio na direção da idosa desgrenhada do outro lado da Avenida Ipiranga. Ela aponta para um carrinho de compras repleto de bugigangas. Voltando-se ao Palácio da Polícia, onde Henrique entrou quinze minutos antes em busca de informações que pudessem ajudá-los, ele dá os ombros.

Assim que o sinal abre, empurra o carrinho com algum esforço até a dona ansiosa. Os dedos roliços da mulher vasculham o conteúdo até que encontra um disco. Na capa do compacto de 33 rotações, a imagem desgastada de um cantor de topete e queixo cheio. – Oh, Nick, meu príncipe, eu sei que você jamais me deixaria. – Um pouco surpreso, Vargas não resiste. – Vocês se conhecem? – Com a voz ainda melosa, mas a altivez em vias de ser recuperada tanto quanto possível, ela replica. – Nós nos amamos! Desde quando eu era jovem o bastante para ter inúmeros pretendentes. Mas sempre houve apenas o Nick. Por isso eu continuo esperando por ele. – Em silêncio, Vargas conta quanto tempo isso significa. – Por que acha que ele vai voltar? – A pergunta é afrontosa o bastante para que a amante solitária finalmente tire os olhos dos de seu príncipe de papel. – Porque ele prometeu! – Arrependida do tom, ela logo desculpa-se com Vargas. – Eu sei que ele vai voltar, mas tudo o que eu queria era poder escutá-lo. Eu não me importo de esperar se puder escutá-lo. O senhor poderia me ajudar? Ele deixou isso para mim, mas não posso sair daqui. O que aconteceria se Nick aparecesse e eu não estivesse aqui. Seria horrível. Horrível!

Vargas se compadece da velha louca a ponto de comprometer-se em encontrar uma vitrola que permita a ela ouvir Nick Savoia, seu amor paciente.

Henrique, que presenciava à distância a conclusão do estranho diálogo, esconde tanto quanto possível o desalento diante da busca infrutífera por informações.

O anoitecer que se avizinha em tudo lembra o estado de espírito dos três.

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