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Changeling: The Lost – Das Coisas Perdidas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 29/09/2010

Changeling: The Lost – Anseios & Fragmentos

Capítulo 01 Das Coisas Perdidas

No qual os personagens reencontram uma cidade diferente daquela em suas lembranças, escorraçam arruaceiros e estabelecem um lar.

Em meio ao parque três homens retornam para casa. Atravessaram o portal formado por galhos entrelaçados ao fim de um caminho de grama úmida, névoa e espinhos. O pergolado do qual emergiram faz companhia a um chafariz seco no jardim público com ares de longo abandono. Estão exaustos e vestem farrapos. Realizaram jornadas solitárias até que diferentes trilhas se uniram. Havia outros, mas perderam-se. Os ventos tempestuosos da madrugada são mero vestígio do que é capaz o Inverno portoalegrense.

Pela primeira vez sentem-se capazes de desperdiçar tempo com algumas palavras.

– Onde nós estamos? – O maior dos três não se incomoda com o frio. Usa um coturno pesado e uma calça de brim verde-oliva. O tronco forte é riscado por cicatrizes. A voz é tão incisiva quanto seus longos dentes. – Algum de vocês sabe?

– Em casa. Estamos na Redenção. – O rosto jovem e pálido não reflete toda a alegria de voltar. A escuridão da madrugada encontra reflexo nele, misturando-se e ampliando-se nos trajes rotos.

O terceiro deles, cujo odor de fumaça o vento espalha, mostra a capa de um jornal local. Não é a manchete que estranha mais. Nem as cores. Nem a grafia ou o modo informal das palavras. É a data. 13 de setembro de 2010.

****

Tibério caminha à frente, como que incentivando os demais a afastarem-se do local através do qual voltaram. A sensação de perseguição o impeliu até aqui e ainda não se desfez de todo. Lava-se no espelho d’água no centro do parque. As mãos e o rosto ainda têm o ranço do carcereiro inumano dilacerado na fuga. Vargas lembra a solidão na qual forçar os pulmões a aceitarem vapores tóxicos era tudo o que havia para fazer. Lembra quando as paredes desabaram. Henrique não sabe como escapou. Mas tem claro o que sentiu quando encontrou os outros dois. Era o oposto do abandono que conheceu nos últimos anos.

****

– Senhores, uma moeda. Por favor. – O mendigo abriga-se do vento junto a um dos arcos do monumento, nos limites do parque. Hesitam quando aproxima-se – Só uma moeda, senhores – indiferente à aparência do grupo.

Algo incoerente, possivelmente bêbado, o homem vê-se nas mãos de Tibério assim que este identifica uma medalha na lapela do casaco puído com o qual se protege.

– Onde conseguiu isso?

– Me deram com o casaco. Estava junto. Me disseram que tem alguma coisa a ver – com a cabeça ele aponta o Monumento ao Expedicionário – com essas estátua aí.

– Tu pode sair sem o casaco e a insígnia, ou só sem a insígnia. Como vai ser? – Esse mendigo não tem o direito de portar uma medalha de distinção é a idéia que inflama o ex-militar.

– Tudo bem. Ó, pode ficar. – O homem afasta-se amedrontado enquanto Tibério analisa a peça. O tom amarelo do pano e as cores no brasão do Exército Brasileiro empalideceram há muito.

À parte, Henrique observa um carro de luzes desligadas parado dezenas de metros adiante. A conversa que o carona trava com um homem junto da janela não pode ser ouvida até transformar-se em discussão. Não demora até os quatro ocupantes deixarem o veículo e iniciarem um espancamento. Vargas toma a frente assim que percebe. – Ei, vocês. Parem com isso!

Dois deles, ambos jovens, voltam-se na direção de Vargas. Também percebem a aproximação de Henrique sob as sombras das árvores. – Olha, a bicha tem amiguinhos. – A bravata inicial logo desaparece diante da investida de Tibério, cujos reflexos foram adquiridos em uma arena. Um nariz quebrado e duas pernas fraturadas são o resultado da intervenção do bruto. Os dois de mais sorte são afugentados por Vargas e Henrique.

Estão longe quando Tibério incendeia seu carro e Vargas ocupa-se de tomar dos bolsos dos homens desacordados dinheiro que não reconhece. Henrique auxilia a vítima do espancamento. – Estou bem. Sai fora. Me deixa em paz. – O olhar melancólico torna-se apreensivo diante do comportamento amoral de seus companheiros.

****

À Força Expedicionária Brasileira – A Pátria agradecida.

– Quer dizer que vencemos a guerra? – A inscrição no monumento ocupa os pensamentos de Tibério.

– Sim – Ao lado dele, Vargas esforça-se para recordar os dias antes do aprisionamento – eles tomaram o poder tempos depois. Os militares. Ainda devem governar.

Henrique, a quem política e história jamais interessaram, pouco se importa em corrigir as suposições de ambos. De que vale esclarecer quando isso significa criar mais estranhezas?

****

Na rua estreita de um bairro residencial está a casa que lhes servirá de abrigo. Ao menos pelo que resta desta noite. A residência tem à frente placa comemorativa ao tombamento e datas defasadas para restaurações que jamais ocorreram.

Dilapidada e oca, a sólida construção transmite a segurança buscada pelos três. É reservada e próxima ao Parque da Redenção, cuja referência não desejam perder. Henrique instala-se no que foi um quarto. Por algum motivo, lembra aquele que teve em sua própria casa. Vargas dirige-se ao porão; parece demais com o seu cárcere. Adormece na sala. Tibério encontra lugar no sótão amplo ocupado por caixas de revistas velhas.

O sono de Vargas, porém, é interrompido pelos miados de um gato. Encontra o animal no pátio de fundos. Está magro e maltratado. Não demora a enrodilhar-se nas pernas do novo morador. A área, cercada pela vegetação densa que apoderou-se dos muros, tem ao centro uma profunda piscina vazia. Mais adiante, as folhas da sua última árvore balançam sem importar-se com a ausência de vento.

Em seu sono, Henrique erra pela escuridão mais densa que a de qualquer madrugada.

Vargas percebe que a árvore crocita e arrulha. As folhas enegrecidas são as penas de centenas de corvos e pombas. Alçam vôo com a aproximação, deixando para trás os galhos secos de uma planta doente. Há fumaça no ar.

O som dos morteiros desperta Tibério. A névoa na qual desapareceu o cerca nas trincheiras. Cobrindo-se com os corpos dos companheiros mortos na Itália, apenas aguarda.

Chamam um ao outro. Jamais se encontram até despertarem.

****

Incapazes de dormir novamente, resta conversar. Acreditam que devam permanecer unidos, mas procurar outros como eles é uma opção sem consenso. Estariam seus sonhos sendo manipulados pelos que foram responsáveis por seu seqüestro e cativeiro?

Tibério sobe ao sótão. Tira inúmeras edições da Revista do Globo das velhas caixas de papelão. Ele tem mais de sessenta anos de história por recuperar.

Henrique olha-se nos fragmentos de um espelho partido. A família cuja ausência é tão dolorosa aceitará quem ele se tornou?

Vargas retorna ao pátio interno. Contempla o sol como fosse a primeira vez. Nem a ardência nos olhos tira o prazer daquele contato.

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3 Respostas

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  1. R.G. Caetano said, on 29/09/2010 at 18:10

    Ótimo início. Gostei do personagem Tibério e da história ser ambientada em Porto Alegre.

    Aguardando os próximos capítulos.

  2. Carlos Hentges said, on 29/09/2010 at 20:33

    Sim, fazia tempo que queria algo mais familiar em termos de cidade-cenário. Vamos ver o que sairá disso.

  3. R.G. Caetano said, on 30/09/2010 at 18:08

    Devo ressaltar que a questão temporal ficou interessante também.

    Boa sorte na empreitada.


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