The Truth's For Sale

Capítulo 25 – Perspectivas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 18/08/2010

Hunter: The Vigil – Os Espaços Vazios

Capítulo 25 – Perspectivas

Cena 01 – Introdução

Com muita dificuldade arrastaram-se para fora do subterrâneo. Não havia modo de retomar o caminho inicial, bloqueado pela presença das serpentes cuja peçonha corria nas veias de ambos. Condicionados a evitar suspeitas, dirigiram-se a hospitais diferentes após emergirem da rede de esgotos junto de uma antiga loja de departamentos, a cinco blocos do ponto de entrada.

Antiofídicos e indagações, ambos embalam seus sonhos.

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Fora dos hospitais, Kroll e Cutler estão longe da melhor forma. O primeiro manca levemente por conta das picadas venenosas. O outro sente irritação na face queimada que as bandagens cobrem.

No apartamento de Kroll, onde poeira denuncia o abandono, finalmente podem ler com atenção o livro que foi prêmio pela ousadia da noite anterior. A primeira parte, formada pela colagem de obras diversas, é de difícil compreensão. Extraem a impressão de que vem sendo construída há anos. Nas passagens grafadas por punhos diversos, ao final do volume, estão os relatos dos sonhos de um grupo de pessoas. Identificam-se como as sombras de algo.

Cutler entra em contato com Ulysses Campbell. O velho ocultista pode ter contribuições que forneçam sentido ao calhamaço diante de si.

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Kroll faz uma ligação para Kallinger. A voz alterada pelo computador é o bastante para ocultar sua identidade. Kallinger ouve com atenção as sugestões em tom de ameaça. Ele, Kroll e Cutler estariam na mira de pessoas dispostas a infligir uma boa quantidade de dor e sofrimento caso aproximem-se da Polícia da Filadélfia.

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Cutler conduz pelos quinhentos quilômetros que separam a Filadélfia de Boston. Está satisfeito por ouvir o ronco do V8 e da borracha devorando o asfalto. Kroll, ao seu lado, resgata no laptop as informações reunidas a respeito de Henry Oak. Depara-se com uma foto de Krista King, em um vernissage, com o detetive ao fundo. Há ainda um memorando da Corregedoria sugerindo reprimenda por conta de certas atitudes de Oak. Estaria pressionando testemunhas de antigos casos fechados cujas conclusões o desagradaram. Não há nenhuma menção a ele em jornais recentes, a partir do que Kroll conclui que o encontro na Pentridge Street não obteve repercussão.

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Via SMS, Agynes Stone busca marcar um encontro com Lucas Cutler. Mas não há tempo para isso agora.

Terça-feira, 06/04/2010

Cena 02 – Velhos Amigos

Decadente, resta a Ulysses Campbell um atencioso mordomo chamado Jarvis, uma mansão elegante e o saber que a mente lúcida manteve fresco ao longo dos anos. Faltava-lhe a motivação certa, mas esta Cutler deposita sobre a mesa, espalhando leve odor de umidade pútrida pela sala decorada por quadros e porcelanas.

Antes que partam para a análise, Campbell faz algumas perguntas a respeito das circunstâncias que permitiram acesso ao livro. Obtêm de Cutler respostas pontuais e corretas. Kroll, que afastou-se para atender ao telefone, perde a rara oportunidade de presenciar o companheiro comportando-se com a humildade de quem ainda tem a aprender.

Kallinger – Eu recebi uma ligação hoje.
Kroll – Sim.
Kallinger – Você também? Sabe do que estou falando?
Kroll – Sim. Uma voz esquisita. Já saí da cidade.
Kallinger – Saiu? Meu Deus. Cutler está com você?
Kroll – Não. Falei com ele. Ele fez a mesma coisa.
Kallinger – Eu… Eu não posso sair assim. Você sabe.
Kroll – Acho que é a melhor coisa a fazer. Não deve ser nada, mas é melhor dar um tempo.
Kallinger – Eu falei com a polícia.
Kroll – Falou? O que você disse?
Kallinger – O Oak veio atrás de mim.
Kroll – O que você disse?
Kallinger – Ele sabe de coisas que eu fiz. Coisas de que me arrependo… Disse que poderia ajudar. Era só eu ajudar ele.
Kroll – Nós não fizemos nada.
Kallinger – Isso não é verdade. Você sabe que não é verdade. Quando eu penso…
Kroll – Olha, não sei quem ligou. Mas é melhor fazer isso. Tira umas férias, pede licença. Sei lá. Pensa que isso vai ajudar a sua carreira. Para colocar as idéias no lugar. Esquece o Oak. Ele era obcecado pela Krista.
Kallinger – Eu vou pensar a respeito.
Kroll – Podemos nos encontrar, se preferir.
Kallinger – Sim, pode ser. Me liga. Duvido que eu durma.

Ao final do jantar, após Campbell retirar-se à biblioteca, Cutler pode manifestar sua indignação pelo descuido de Kallinger, que não usou um telefone seguro para a conversa.

Cena 03 – As Sombras e seu Irmão

Ao longo de parte daquela madrugada, Kroll, Cutler e Campbell buscam decifrar os trechos colados ao livro. São obras ocultistas diversas. Parte considerável das citações veio de volumes raros ou de circulação restrita. Contextualizados, tratam da busca do indivíduo pela própria origem, como o retorno para casa.

As passagens advindas de sonhos têm em comum o que parece ser a história fragmentada de um grupo que vê a si próprio como fossem sombras. Existe certa progressão nelas, com o conteúdo de uma servindo à formulação de perguntas para compreensão da seguinte. Cada uma a sua maneira reproduz os temas da parte inicial da obra: retorno às origens. Todos os relatos acabam de modo parecido: o encontro de uma das sombras com algo reconhecidamente superior.

– E então, todos nós erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, trêmulos, enregelados, extasiados, porque o tom da voz da sombra de nosso irmão não era de um só ser, mas de uma multidão e, variando suas inflexões, de sílaba para sílaba, vibrava confusamente aos ouvidos, como as entonações familiares e quase esquecidas com que nossa mãe nos falava.

Suspeitam que o irmão seja Bill Green.

Quarta-feira, 07/04/2010

Cena 04 – Convidado Inesperado

Ulysses Campbell é hospedado em um confortável hotel na região central da Filadélfia, onde as paredes exsudam história. Cutler não considera o antiquário um local seguro desde que aquelas frases surgiram no porão. E analisar o livro na residência atual poderia fazer com que violasse as regras impostas por Jebediah Stone em seu leito de morte.

Ainda assim, não se furta a apresentar ao convidado o tamanho da herança deixada por Stone.

Campbell – Existe a dedicação de uma vida aqui dentro.
Cutler – A aceitaria? Digo, se precisasse passar ao seu nome.
Campbell – Por que faria isso?
Cutler – Problemas com a filha do antigo proprietário, Jebediah Stone. Eu falei dele certa vez.
Campbell – Recordo. Problemas de que natureza?
Cutler – Ela tem lembranças ruins. Gostaria de dar um fim a elas dando fim à casa. Acha que eu sou um doente como o pai.
Campbell – Mas você tem planos diferentes.
Cutler – Certa vez vi algo aqui dentro. Ainda não compreendo o que houve.
Campbell – Eu o ajudaria, se preciso. De qualquer modo, é o trabalho de uma vida. Certamente, o tempo consumido aqui foi negado a outras atividades. Ser um pai, por exemplo.

Distraído pela natureza heterogênea das obras, Campbell move-se lenta e silenciosamente por cômodos e corredores. Kroll e Cutler discutem que destino dar a Kallinger. Porykov os ajudaria, caso fosse preciso? E em relação a Oak, um investigador policial? O fatalismo de Cutler distrai Kroll. Tempo o suficiente para perceber que outra conversa se dá logo adiante. Em algum lugar, Campbell dialoga.

Enquanto Cutler segue em sua exposição, Kroll aproxima-se o bastante para distinguir algumas palavras.

Campbell – Não se preocupe. Eu não vou machucá-lo.

A porta é aberta lentamente. Vê livros, uma janela quebrada, Campbell levemente inclinado para frente. E Thomas. A face transtornada se volta em direção a Kroll, cheia da raiva.

Kroll – Está tudo bem.
Thomas – Ela me ama. Eu sonho com ela porque ela me ama.

Descontrolado, o garoto parte para cima de Kroll. Chocam-se contra uma estante de livros.

Thomas – Mamãe se arrependeu. Eu sei!

Cutler, com a pá da lareira, golpeia Thomas nos tendões. Gritando de dor, é facilmente dominado por Kroll, que o cobre com o corpo para evitar novos golpes. Assim que o amarram, para o horror de Campbell, testemunha daquilo tudo, as palavras esbravejadas dão lugar ao choro convulso. Guardada desde o encontro com os filhotes no Parque Fairmount, a Dolantina afinal tem uso. Grogue, porém, ele não se torna mais coerente.

Thomas – Vocês dois… Eu sabia que se pegasse vocês… Aahaha, como peguei meus pais… Daí ela ia me amar… Mamãe ia pedir desculpas e me amar.

Com a aparência de um maltrapilho, Thomas tem o odor de alguém há muito vivendo nas ruas. Os cabelos ruivos parecem uma chama pálida. Suas mãos estão repletas de pequenos cortes, do tipo produzido por espinheiros. De seu bolso tiram uma faca de lâmina longa. É deixado no mesmo quarto que Mogli ocupou.

Cena 05 – Coisas do Passado

Graves – Você ainda está atrás do Green?
Cutler – Sim. Coloquei um detetive na cola dele.
Graves – Então tenho que perguntar. Você vez alguma coisa em relação a ele?
Cutler – Não. Do que você está falando?
Graves – Realmente não fez nada? Nem esse detetive?
Cutler – Não! Tenho certeza.
Graves – O conselheiro é considerado desaparecido pela família há cerca de seis horas. Isso ainda não vazou, mas não deve demorar, considerando seus compromissos públicos. Alguma idéia?
Cutler – Não. E não sei se deveríamos nos preocupar tanto.
Graves – Ainda não temos certeza se é um alvo para nós. Mas, se for, a repercussão em torno dele só dificulta nosso trabalho. Ele passou por um seqüestro na juventude. Família tradicional. Impossível ignorar.
Cutler – Eu começaria procurando no As Extremidades. Você sabe onde fica.
Graves – Vou mandar alguém para lá. Informo de qualquer novidade.

A ligação inquieta Cutler. Na varanda, Kroll e Campbell levam adiante uma conversa a respeito dos livros utilizados pelo autor do volume de recortes. O ocultista defende que as obras raras que o compõem não seriam cedidas para esse fim. Deveriam ser adquiridas. Ou roubadas.

Aquilo atinge Cutler em cheio. A memória prodigiosa recompõe uma cena.

– Era noite quando ouvi o barulho. Amanda não estava cama. Ela costumava dormir como uma pedra depois de transar, mas eu sempre tive sono leve. Achei que ela estava no banheiro ou algo assim. Então ouvi novamente. O ruído que me despertou vinha do antiquário. Desci com a arma na mão. Não quis chamar Amanda para não alertar o invasor. A essa altura já tinha certeza que havia um invasor. No pé das escadas eu o vi golpeando Amanda no rosto. Ela já não se mexia. Atirei até esvaziar o tambor. Quando dei por mim, tinha dois cadáveres no chão. E entre eles, um livro.

Até então, Cutler não percebera que o invasor que assassinou sua companheira, e que ele matou e emparedou em retribuição, poderia ter invadido o antiquário com um fim específico: roubar um dos livros que figuram no calhamaço tirado dos subterrâneos.

Cena 06 – Passagens, Pontes e Portais

O restante daquela tarde passou rápido demais. Campbell foi deixado no hotel, Kroll visitou um hospital buscando sem sucesso notícias de Evangeline Allen, Cutler confirmou a sugestão que Kallinger já ouvira e Byron Graves ligou novamente: o carro de Bill Green fora localizado. Estava a menos de dois quarteirões da Pentridge Street, 5282.

Já era noite quando encerraram os preparativos para retornar aos subterrâneos.

Armados, munidos de lanternas poderosas e cordas, deixaram a superfície pela mesma passagem através da qual emergiram. As vestimentas grossas, próprias para a pescaria em regiões pantanosas, os protegeria em eventuais reencontros com as víboras. Conforme avançavam, o giz ia sendo desgastado nas paredes.

Kroll é o primeiro a perceber o movimento errático do facho de luz, dezenas de metros adiante, no local onde, há dois dias, acreditou que fosse morrer.

Cutler permanece junto do portal. Aguarda de arma em punho sobre a plataforma formada pelo acúmulo de detritos. Deixando que o ruído da água corrente trabalhe a seu favor, Kroll aproxima-se da parede úmida e áspera. Ouve trechos entrecortados da conversa. É impossível ver qualquer coisa na escuridão além do que mostra a lanterna empunhada pela mão inquieta. Parece ser um homem quem mal controla o foco. Seus movimentos cortam as trevas para revelar Bill Green, sentado no chão, próximo da mesa da qual foi retirado o livro.

Green está próximo de encerrar a narrativa de um sonho ao seu interlocutor, que silenciosamente toma notas.

Kroll levanta-se e aciona a lanterna. O rosto deformado revela-se por um instante. Menos de um segundo. É o que Cutler necessita para reconhecer a face transfigurada daquilo que matou e enterrou. Menos de um segundo, é o tempo que ele precisa para alvejá-lo novamente.

Green – Não!

Ferido na perna pelo disparo, o reanimado arrasta-se até a pilha de livros que parte da água para quase tocar o teto. Cutler aproxima-se sem desviar o olhar. Green mergulha na correnteza escura e, com esforço, o traz de volta à margem. Com auxílio de Kroll, escalam a plataforma.

Colocado sobre o banco junto da mesa que servia à realização das anotações, recebe um lápis dado por Green.

Kroll – Que merda está acontecendo?
Green – Precisamos terminar. É a única forma de abrir o portal. …e por isso, as pontes através dos espinhos precisam ser destruídas. Pronto.

O ponto final é colocado no papel.

Cutler – Ainda não acabou.
Green – Sim, tem razão. Não acabou. Precisamos abrir o portal. Precisamos destruir a ponte.
Cutler – E Evangeline? O que aconteceu com ela?
Green – Ela não concordou. O sonho teve que ser tirado dela. Foi deixada no porão, na casa carbonizada.
Cutler – Isso não faz o menor sentido.
Green – A ponte através dos espinhos. A que ela usa para chegar até aqui. Precisamos garantir que não possa mais ser usada.

Amparando-se em Green, o reanimado pára diante da passagem utilizada por Kroll e Cutler para chegarem até ali. Bate contra a pedra e murmura sílabas que apenas seus lábios disformes poderiam dizer.

Então, uma porta se abre.

Dela sopra um vento gelado. E o que era escuridão profunda, pedra sólida e água corrente transforma-se em pálida brancura, espinhos e uma trilha através da neve.

Os responsáveis pelas chaves que abriram a porta adiantam-se através dela.

Cutler – Você não está pensando nisso!?
Kroll – Sim, estou.
Cutler – É uma estupidez inútil. Vocês vão encontrar aquela puta do parque.
Kroll – Sim, acho que é isso mesmo.
Cutler – E não vão conseguir fazer nada, como em todas as vezes que vimos ela.
Kroll – Não sei. Quem sabe? Eles parecem saber o que fazer. Sinto que devo ajudar.
Cutler – Como você pode confiar em… Nós nem sabemos o que eles são.

Após Kroll desaparecer na trilha, Cutler vê-se novamente diante dos corredores de túneis labirínticos. Sozinho, espalha a gasolina e transforma em uma pira os livros acumulados naquele covil.

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2 Respostas

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  1. Vitor Hugo' said, on 18/08/2010 at 20:37

    inquietante, desesperador, fantástico …

    e a crônica se dirige a um fim esplendoroso.

    *a crônica ficará em “stand by” ou se encerrará?

  2. Carlos Hentges said, on 18/08/2010 at 22:56

    Salvo algo completamente inesperado, se encerra no próximo capítulo.


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