The Truth's For Sale

Capítulo 04 – Coincidências e Ocaso

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 29/01/2010

Hunter: The Vigil – Os Espaços Vazios

Capítulo 04 – Coincidências e Ocaso

Introdução:

Nas últimas semanas Lucas Cutler viu Jebediah Stone tornar-se cliente de seu antiquário. Nas visitas cada vez mais freqüentes o idoso demonstrou disposição admirável para tratar de seu tema favorito: livros raros. Cutler não pôde deixar de notar, porém, que Stone nunca falou de amigos e jamais mencionou um parente sequer.

Nesta manhã ela traz consigo uma pasta de couro. Tira dela uma dúzia de cartas manuscritas. Amarrado por um barbante, o papel velho tem odor embolorado. Segundo Stone, trata-se de parte de uma correspondência extraordinária. Infelizmente, precisa desfazer-se dela. Como prova de boa-vontade e para facilitar a avaliação, deixa em posse de Cutler uma das páginas. O texto é assinado por um certo William Haverhill.

A carta.

—-

A buzina faz com que Charles Kallinger tire os olhos da calçada cheia de neve. É a última consulta com sua terapeuta. Talvez por isso o encontro tenha sido marcado em uma cafeteria em lugar do habitual consultório. Dirigindo-se até o carro de Diana Gottlieb, que já o aguarda de portas abertas, Kallinger sorri enquanto considera se teria escondido mal o seu interesse por ela.

Gottlieb – Nós encerramos as suas sessões em nosso último encontro, Charles.
Kallinger – Eu já me sinto muito melhor. Isso é ótimo.
Gottlieb – Sim, concordo que você está pronto. Mas eu gostaria de tentar algo diferente.
Kallinger – Pois não.
Gottlieb – Em duas sessões você citou brevemente aquela artista que foi encontrada morta. Krista Crown.
Kallinger – Sim.

Gottlieb estaciona em frente à galeria de Thomas Hoyt. À porta, o proprietário se despede de alguém.

Gottlieb Acho que seria importante que você se livrasse permanentemente da ansiedade a respeito dessa morte horrível convencendo-se de que não existe nada de errado a respeito de Krista Crown e sua obra.
Kallinger – Você não está achando que eu vou entrar nesse lugar, está?
Gottlieb Seria importante que você mostrasse para si mesmo que pode.
Kallinger – Eu não vou fazer isso. E se isso representa o fracasso do tratamento, a falha é sua também.
Gottlieb Charles, você não deve retroceder agora…
Kallinger – Lamento.

Kallinger deixa o carro. A manhã está especialmente fria. Com as mãos nos bolsos, tentando permanecer aquecido, sente os olhos de Gottlieb e de Hoyt sobre ele.

—-

A porta do escritório de John Kroll sempre fica trancada. Não naquela manhã. Hoje, um estagiário com mais espinhas do que juízo prepara-se para trocar o seu computador. Aquele que pertencia a Edward Fitzgerald. Irritado pela óbvia intromissão desautorizada, rapidamente escorraça o lacaio. Ninguém vai permitir que ele perca um milímetro sequer do território que com tanto custo conquistou ali dentro.

Durante as horas seguintes transfere dados e apaga registros dos usos que fez daquela máquina. Pesquisas, anotações, arquivos diversos, tudo desaparece. Em meio à operação, uma pasta de nome APL se destaca. Não é dele; não foi criada pelo sistema; não deveria estar ali. Guarda apenas um um vídeo.

São trinta segundos de uma filmagem feita às escondidas com um celular. Uma orgia envolvendo cerca de vinte pessoas. Usam máscaras caras e a mobília da sala remete ao período colonial. A perversão estranha guarda um detalhe: em um canto da sala, visível por não mais do que cinco segundos, está alguém vestindo a roupa negra, de couro, tiras e argolas que há meses Kroll teve nas mãos.

Quarta-feira, 20 de janeiro

Cena 01 – O Esmorecer

Cutler já tinha ido até a velha casa de Jebediah Stone. Dessa vez, porém, não é para espreitar, mas como convidado. No breve caminho da porta até uma sala contígua o seu nariz é assaltado pelo mesmo odor que toma os cantos menos visitados de seu antiquário. A sensação é facilmente ignorada graças àquilo que os olhos mostram. Livros, milhares, abarrotando prateleiras que se estendem do chão ao teto. Uma coleção onde autores obscuros e temas inauditos parecem encontrar-se sem ordem aparente.

O antiquário já sabe que a carta que tem consigo é parte da improvável correspondência trocada entre Luc Chanfort, filho de um médico francês que viveu em Nova Iorque e morreu vítima do vício em ópio, e William Haverhill, um madeireiro da Virgínia Ocidental. O material, produzido no final do século XIX, é mencionado tanto em estudos acadêmicos a respeito da América Vitoriana quanto em alguns círculos de ocultistas.

A negociação entre eles gira em US$ 1 mil por cada uma das quinze cartas. Um valor justo, mas além das possibilidades de Cutler .

Stone – E se eu dissesse que pode ficar com tudo.
Cutler – Como com tudo?
Stone – Com tudo que há nessa casa. O primeiro e o segundo andares.
Cutler – E o que eu precisaria fazer?
Stone – Demonstrar interesse sincero.
Cutler – Eu realmente me interesso. Mas por que o senhor estaria se desfazendo dessas relíquias?
Stone – Eu lhe ofereço o resultado de trinta anos de acúmulo de tudo o que há, e sua preocupação se concentra mais nos meus motivos do que nos seus benefícios?
Cutler – Se desfazer disso tão repentinamente é estranho.
Stone – Digamos que a manutenção disso tudo tenha um custo muito alto. Ou que não faça mais sentido.
Cutler – Eu me interesso, certamente.
Stone – Então, logo voltaremos a falar a respeito.

Como prova de boa vontade, Jebediah Stone deixa em posse de Cutler a carta de William Haverhill apresentada dias antes.

Cena 02 – Um Estranho que se apresenta

Artigos nas publicações certas e a simpatia de gente disposta a patrocinar pesquisas. Foram poucos os movimentos, mas estrondoso seu resultado. O professor Kallinger é o mais novo queridinho a circular pelos laboratórios do Centro de Epidemiologia Clínica e Bioestatística da Universidade da Pensilvânia. Cercado por um pequeno grupo que o escuta com atenção, percebe a presença de um homem à porta. É a mesma pessoa que viu conversando com Hoyt dias antes.

Disposto a um teste de paciência, Kallinger permanece em seu relato por mais algum tempo. A reação do homem, avançando com o distintivo na mão, não poderia ser mais rude.

Oak – O senhor se importa de despedir-se de seus amigos para que conversemos por um instante, professor Kallinger?
Kallinger – Pois não.
Oak – Acredito que o senhor não terá nenhuma dificuldade em responder às minhas poucas perguntas. Sou o detetive Henry Oak, da polícia da Filadélfia, e estou investigando a morte de Krista Crown. Ou King, dependendo da fase da vida dela em que a conheceu?
Kallinger – Estou familiarizado apenas com sua obra.
Oak – O senhor tem alguma relação com Thomas Hoyt, que administrava a carreira de falecida Srta. Crown?
Kallinger – Estive em sua galeria uma vez. Fui comprar uma tela.
Oak – O senhor já esteve na Pentridge St., 5282?
Kallinger – Não conheço este endereço.
Oak – Jamal O’Neal, o senhor conhece?
Kallinger – Não.
Oak – Muito bem. Era apenas isso. A propósito, soube que o senhor acabou de receber uma promoção. Parabéns!
Kallinger – Sim, é verdade. Obrigado. Adeus!
Oak – Até logo.

Após cada resposta Oak encarava Kallinger por segundos. Parecia absorver suas reações. Parecia pouco se importar com o que tinha a dizer o professor.

Mais tarde, nos corredores, o diretor do Centro busca saber mais a respeito da natureza da conversa.

– Não se preocupe, professor. Agora, o senhor é um dos nossos. E a Universidade cuida dos seus. Tenha um bom dia.

Cena 03 – Enregelar

Após uma tarde com quantidade inesperada de trabalho, Kroll finalmente se prepara para tomar o caminho de casa. Estacionado na rua em frente à empresa, porém, seu carro está com dois pneus murchos.

Fitzgerald – Não vai conseguir enfrentar o gelo desse jeito, Kroll.

Emparelhando e fechando o caminho de Kroll está Edward Fitzgerald. Diretor da empresa e provável responsável pelo vídeo da orgia. A carona vem bem a calhar. Bem demais.

Kroll dirige-se até o porta-malas de seu carro com uma desculpa qualquer. Tira uma foto da placa e manda acompanhada de uma mensagem para Cutler e Kallinger: “se algo acontecer comigo, foi esse cara”.

Depois de confirmar que ninguém está escondido no banco de trás, entra.

Fitzgerald – Me desculpe pelos jornais. Mandei lavar o carro e sumiram com os meus tapetes.

Fitzgerald segue a indicação do passageiro. Andam por alguns quarteirões em silêncio. Desconfortável, Kroll lê as manchetes do jornal umedecido que tem sob os pés. Uma delas da conta a morte de Hector Soto. Um atropelamento seguido de fuga. Kroll reconhece o nome. Foi o homem que lhe entregou a caixa onde estava aquele traje negro que ele viu em um vídeo no computador de Fitzgerald.

Fitzgerald – Gostaria de me desculpar pelo transtorno causado pela troca dos computadores. Achei que você tivesse sido avisado com antecedência.
Kroll – Na verdade, eu apenas perdi parte da manhã copiando alguns arquivos.
Fitzgerald – Sim, é natural. Todos nós temos coisas pessoais em nossos computadores.
Kroll – Eu não costumo ter arquivos pessoais no trabalho.
Fitzgerald – É mesmo? Acho… Acho que você faz muito bem.

Kroll envia uma mensagem para Cutler. Combina encontro em um posto de gasolina. Quando volta a olhar a estrada, percebe que eles se desviram do caminho.

Kroll – Pode encostar aqui.
Fitzgerald – Não tenho como parar nessa avenida.

Fitzgerald acelera acima da velocidade recomendável. Está agitado. Kroll não tira os olhos da neve acumulada nos cantos da pista.

Kroll – Liga o alerta e pára agora!
Fitzgerald – Já disse que não posso.
Kroll – Eu recebi uma mensagem e tenho que descer.

Fitzgerald bate no celular. O telefone cai entre os bancos.

Fitzgerald – Largue isso. É bobagem. Já disse que vou levá-lo onde quer ir. Consigo fazer o retorno logo adiante.

Kroll agarra o freio de mão e ameaça puxá-lo caso Fitzgerald não pare naquele instante. O motorista fica histérico. Sua reação é frear forte. O veículo desliza a setenta quilômetros por hora. Quarenta metros adiante um homem prepara-se para cruzar a estrada. Kroll agarra a direção. O veículo sai do controle. O impacto do corpo racha o vidro do passageiro. A pancada faz o barulho de uma noz sendo quebrada. Trinta metros depois, o carro pára.

Assim que se aproxima, Kroll reconhece o homem na neve.

Quinta-feira, 21 de janeiro

Cena 04 – Recapitulação e Planejamento

A palidez no rosto de Kroll é a denúncia da perturbação em seu espírito. Traz consigo alguns jornais que espalha na primeira mesa sem quinquilharias que encontra. O antiquário de Cutler, onde Kallinger também já aguardava, tornou-se o seu ponto de encontro.

Após relatar o acidente da noite passada, Kroll aponta os jornais que dão conta da morte de Hector Soto. Ele foi vítima de um atropelamento seguido de fuga. Era um conhecido com quem fizera alguns pequenos negócios escusos. Nada de muito importante. Um desses negócios dizia respeito a uma caixa com uma veste negra dentro. Essa caixa, depois de ficar alguns dias em posse de Kroll, foi repassada para Dwight Dickson, o homem atropelado na noite de ontem.

Como se a coincidência não fosse ruim o suficiente, Kroll mostra o vídeo que encontrou no computador de Edward Fitzgerald. O traje negro que teve consigo por alguns dias, e que parecia exercer um estranho fascínio, aparece sendo usado em meio a uma orgia.

Kallinger – E você está no meio do caminho disso?
Kroll – Eu só passei a caixa adiante.
Cutler – E todo mundo que encostou nessa roupa…
Kroll – Eu não encostei, só abri a caixa e olhei o que tinha dentro.
Kallinger – E nós também… Lembra daqueles sonhos que tivemos no quarto?

Kroll menciona o nervosismo de Fitzgerald logo após o acidente, no distrito policial. O tema refresca a memória de Kallinger.

Kallinger – Um detetive esteve na Universidade procurando por mim.
Cutler – O que ele queria?
Kallinger – Casa, Krista, Jamal, Hoyt. Mas ele não tem nada.
Kroll – Será que não tem?
Kallinger – O que teria? Nem o Hoyt abriu o bico até agora.
Kroll – É verdade. Uma denúncia dele já teria dado resultado.
Cutler – Outra coisa que não preocupa é o tal Jamal. Quem vai dar bola para um negro traficante? Devem até achar que foi ele quem incendiou a casa.
Kallinger – OK, mas um detetive chegou até a Universidade.
Cutler – É só negar tudo. Nós nos conhecemos sim, mas nada mais aconteceu.
Kroll – É isso aí.
Kallinger – Acho que ele foi só marcar presença.
Cutler – Típico de policial sem muita pista e querendo pescar algo.
Kallinger – O que importa é que a polícia pode estar de olho. Se der merda por causa dessa roupa preta nós vamos ter que agir sem botar arma na cara de ninguém, certo Cutler?
Cutler – Eu não tenho mais aquela arma…
Kallinger – É, sei.

Cutler aproveita a oportunidade para apresentar a Kallinger a proposta de Jebediah Stone. O professor considera a possibilidade das cartas serem fonte de informação ao invés de lucro. Dispõe dos recursos, mas quer ver a coleção antes de fechar qualquer negócio. Enquanto isso, Kroll liga para a residência de Edward Fitzgerald.

Kroll – Eu poderia falar com o Sr. Fitzgerald?
A.Fitzgerald – Quem está falando?
Kroll – John Kroll. Nós trabalhamos juntos. Eu estava com ele no carro, ontem.
A.Fitzgerald – Ah, sim… É Anne, esposa de Edward. Você tem notícias dele?
Kroll – Ele não está em casa?
A.Fitzgerald – Não. Edward ligou avisando que estava com problemas. Depois chegou em casa e saiu em seguida. O pouco que sei do que houve foi dito por policiais.
Kroll – E o celular?
A.Fitzgerald – Eu tentei ligar várias vezes, mas Edward não responde. Tenho medo do que a polícia possa achar disso… E do que pode estar passando pela cabeça dele.

Anne passa o telefone pessoal de Edward Fitzgerald. Naquela manhã, Kroll tomara duas atitudes em prol de sua segurança. Pediu alguns dias de folga no trabalho – testemunhar um acidente fatal foi argumento bom o bastante – e comprou um telefone celular para ligações “delicadas”.

Enviar uma breve mensagem para Fitzgerald solicitando contato é o primeiro uso do novo aparelho. Junto com o texto vai o vídeo da orgia. Em seguida, busca a ajuda de amigos para descobrir formas de rastrear Fitzgerald por meio de seu telefone.

Cena 05 – Por Trás da Máscara

Kallinger, Cutler e Kroll não podem abrir mão de agir. Estão unidos por fatos bizarros e, a esta altura, os interesses de um são as preocupações de todos. Intimamente, sabem que não podem contar com a compreensão e auxílio integral de ninguém mais.

Aparentemente, são três as lojas na Filadélfia que podem ter máscaras parecidas com aquelas vistas no vídeo. Kallinger e Cutler perdem o seu tempo. Já Kroll tem uma experiência diferente.

Paredes brancas. Duas linhas de máscaras decorando um salão que, não fosse o velho computador sobre uma mesa cheia de papéis, nada mais teria. Artesanais, com semelhança de estilo e qualidade inegável. As mãos responsáveis por aqueles rostos sem olhos são as mesmas que criaram as peças registradas em vídeo.

Kroll é recebido por Tom, um garoto com não mais do que doze anos. Identifica-se com um nome falso. O Sr. Claude vem até ele com o auxílio do jovem funcionário. Apesar de cego, movimenta-se bem no salão principal da Por Trás da Máscara. Capta a atenção de Kroll os dedos anormalmente longos do proprietário.

Claude – O pequeno Tom disse que o senhor tem interesse nas máscaras.
Kroll – Isso. Mas eu não sei mais como fazer, já que o senhor não consegue…
Claude – Ver?
Kroll – É. Sei que suas mãos são talentosas, mas eu precisava que reconhecesse uma imagem. Acredito que seja de uma máscara feita pelo senhor.

Claude leva as mãos às costas, como que escondendo as responsáveis pelo seu ofício.

Claude – Por que não a descreve para mim? Certamente poderei reconhecê-la.
Kroll – (…)
Claude – Sim, está é uma de minhas máscaras. Onde o senhor a viu?
Kroll – Em um vídeo.
Claude – Uma festa?
Kroll – Isso!
Claude – Me alegra saber disso.
Kroll – Na verdade, procuro as pessoas dessa festa.
Claude – Bem, as minhas peças são únicas e os compradores, colecionadores. Creio que gostariam de anonimato. O senhor soa razoável. Creio que entenda.
Kroll – Bem, então talvez…
Claude – O senhor gostaria de comprar uma delas? Ah, sim, isso seria ótimo. Eu tiraria o molde e a deixaria pronta em poucos dias.
Kroll – Se é isso que se paga pelas informações…
Claude – Vendo máscaras, senhor, não informações. E certamente me agradaria fazer feliz um cliente. Não mais do que US$ 8 mil é quanto tudo isso deve custar.

Kroll julga o preço proibitivo, mas o Sr. Claude surge com uma alternativa. Pousando os dedos longos sobre a face de seu, quem sabe, futuro cliente, ele julga peculiares os traços que formam aquele rosto. Em troca de ficar com o molde, normalmente destruído após a confecção de cada máscara, ele concederia um desconto razoável.

Cena 06 – Observações

Cutler – US$ 8 mil? E ele é cego? Por que nós não simplesmente entramos lá e tiramos as informações dele?

Cutler, que tinha pacientemente ouvido o relato de Kroll a respeito da conversa com o Sr. Claude, propõe ação imediata. Kallinger leva a mão à maçaneta do carro. As coisas estão prestes e sair do controle novamente, pensa, e parece que de pouca serventia fora a conversa de horas antes.

A discussão é interrompida por uma chamada de Fitzgerald.

Kroll – Eu estava esperando sua ligação.
Fitzgerald – Kroll?
Kroll – Isso.
Fitzgerald – Foi culpa sua!
Kroll – O quê?
Fitzgerald – O acidente. Tudo o que aconteceu…

A ligação é encerrada.

Cutler – Quem ligou?
Kroll – Quem você acha? Fitzgerald. E ele está dizendo que eu sou culpado.
Cutler – Culpado pelo acidente?
Kallinger – Pelo que mais seria?
Kroll – É, só que eu mandei o vídeo junto com a minha mensagem.
Kallinger – O vídeo da putaria?
Cutler – Mas como é burro!
Kroll – Queria que ele soubesse que eu sei. E agora ele está me culpando.
Cutler – Agora ele vem atrás de você. Pode contar. E nós vamos ficar esperando ele chegar?

Batidas no vidro são a interrupção seguinte.

– Olá, tudo bem? Por favor, o senhor se importaria em recuar um pouco? Eu acabei de comprar esse carro, e ainda não estou muito à vontade com ele.

É impressão de Kroll ou o homem pousou sobre os três olhos demasiado atentos? Ele poderia jurar que foi isso o que aconteceu e, mais ainda, que foi nele que o estranho pareceu ter mais interesse.

Cutler deixa o carro, avalia o espaço e considera que, mesmo com o asfalto escorregadio devido à neve, há como deixar o meio-fio facilmente. Ainda assim, recua. Não deixa de notar o tronco largo do responsável pelo pedido.

Resolvido o problema de espaço de manobra, os três observam o que acontecerá a seguir. Sua desconfiança se fortalece quando, diante do carro, o homem busca sem sucesso as chaves. Afasta-se, então, na direção da calçada. Cutler acompanha do carro enquanto, em meio ao movimento daquela área de comércio intenso, Kallinger aborda o homem.

– Quem é você e o que você quer?
– Como?
– Já perguntei. Quem é você e o que você quer?
– Olha, não sei quem são vocês. Se o favor que pedi ofendeu alguém, então me desculpem.
– E o carro?
– As chaves ficaram com a minha esposa. Nem sei o motivo de responder isso. Com licença.

Antes que ele se afaste, Kroll tira uma foto não mais do que razoável. Em instantes Cutler junta-se aos dois. Leva escondida no pesado casaco de inverno uma chave de roda.

Cena 07 – Confronto

Kallinger e Kroll seguem o homem até uma loja de departamentos. Cutler aguarda em frente. Observa os arredores em busca de comparsas, mas o movimento intenso não permite certeza.

Lá dentro, Kroll distrai uma funcionária enquanto Kallinger trava uma discussão.

– Não vai tirar o carro, boneca?
– Eu não achei a minha esposa. Nem as chaves.
– Se perde a esposa assim deveria ter cuidado para não perder outras coisas. Os dentes, por exemplo.
– Não tem problema. O que queria, eu encontrei.

Com um sorriso, o homem se afasta. Quando passa por Kroll, este tenta abraçá-lo. A resposta é um empurrão que o arremessa contra uma prateleira, derrubando objetos e silenciando clientes e funcionários. Kallinger o provoca, mas não consegue induzí-lo a um ataque.

Do lado de fora, Cutler aguarda. Assim que o homem pisa na calçada ele se adianta com a chave de roda em punho. É impedido no último momento por Kallinger, que teme as possíveis testemunhas nas imediações. A interrupção dá tempo para uma tentativa de fuga, frustrada pelo discernimento de Cutler ao tomar um caminho alternativo durante a perseguição. A abordagem ocorre em uma até então tranqüila viela.

A chave de roda em sua mão assovia quando corta o ar gelado da tarde. Cutler erra o alvo e recebe como resposta um soco que resvala no queixo. Kallinger aproxima-se do amigo enquanto Kroll, separado dos demais, vai na direção do carro que ficara sem trancas.

Já em vantagem numérica, Cutler e Kallinger conseguem subjugar seu rival. O primeiro o atinge nas costelas com a chave de roda. O golpe faz com que baixe a guarda o suficiente para que o professor gire o tronco e desfira um soco devastador. A mandíbula estala com força. Nunca antes, nem dentro do ringue durante seus treinos periódicos, ele tinha feito algo parecido.

Kallinger se preocupa com as testemunhas. Toma o celular e a carteira do homem desmaiado. Cutler ainda o chuta no fígado antes de Kroll, atraído por gritos, chegue com o carro. No caminho, Kallinger liga para a emergência. Teme o resultado do último golpe desferido por Cutler.

Já exaltados, os ânimos são inflamados durante uma discussão sobre as conseqüências de mais uma ação violenta.

Cena 08 – Breve Intervalo

Tenso, Kallinger é deixado na Universidade. Ali ele conhece o modo de operar, o que deve esperar, como as coisas funcionam. Isso lhe dá segurança e algum conforto.

Cutler e Kroll dirigem-se ao antiquário. O primeiro atira-se em um sofá e apaga em instantes. O esforço e as contusões, ainda que superficiais, o derrubam.

Kroll verifica os objetos recolhidos. Pertencem a Thomas Evans. Os cartões e o dinheiro na carteira remetem a uma pessoa de poucos recursos. No telefone, apenas o número de Edward Fitzgerald é familiar. A última ligação, contudo, fora realizada para um número desconhecido.

Por fim, depois de tomar diversas medidas de segurança, ele cria um site relatando os eventos estranhos envolvendo o traje negro e os atropelamentos. Publica também o vídeo da orgia. Faz o melhor possível para evitar relacionar o seu nome aos fatos.

Cena 09 – Arrependimento

Os três encontram-se no antiquário. A esta altura, Kroll já havia recebido resposta de seu pedido de localização. O telefone de Fitzgerald está a menos de 100 metros do local do atropelamento.

A caminho do endereço, um pequeno motel para viajantes, Kroll combina para a noite seguinte um encontro com a vendedora da loja onde estiveram naquela tarde. É bom fazer alguma coisa normal, afinal de contas.

No motel, circulam com o celular ligado. O toque da campainha identifica o quarto onde Fitzgerald se encontra. Da janela é possível ver onde jazia o corpo de Dwight Dickson. Antes de fazerem qualquer coisa, entretanto, um atendente percebe a circulação e pede que pelo menos um deles se registre.

Após uma rápida troca de palavras com o entediado responsável pelo local, Kroll retorna. Bate à porta. Fitzgerald está agitado e desconfiado. Kallinger simula uma conversa com Anne. Aos poucos ele se acalma e concorda em conversar.

Fitzgerald – Você viu aquele vídeo, não é?
Kroll – Sim. Vamos falar a respeito.
Fitzgerald – Só você. O outro espera aí fora.
Kroll – Tudo bem.

A porta se abre e Kroll entra. Kallinger aguarda no corredor. Cutler espera no carro. No quarto, uma mala de roupas está preparada para uma fuga.

Fitzgerald – Como você me encontrou?
Kroll – Amigos.
Fitzgerald – Alguém veio atrás de você? Eles mandaram alguém? Você viu?

Fitzgerald olha como se tivesse certeza de que está sendo enganado.

Kroll – Sim, um deles veio.
Fitzgerald – O que você disse? Como você escapou?
Kroll – Eu não escapei. Eu não falei nada.
Fitzgerald – Você os trouxe aqui, é isso?

Fitzgerald está cada vez mais agitado. Anda pelo quarto encarando Kroll. O frio que invade o cômodo não impede que o suor lhe escorra pelas têmporas.

Kroll – Calma. Vai devagar. Do que você está falando?
Fitzgerald – Você sabe. Acabou de dizer que falou com eles.
Kroll – Eles quem?
Fitzgerald – O seu amigo lá fora é um deles, não é?

Kallinger se identifica com um grito. Fitzgerald entra em pânico. Kroll já viu aquele olhar, um segundo antes dele pisar no freio e matar Dwight Dickson. Fitzgerald vai até a cômoda e tira uma arma da gaveta.

Kroll – Fica calmo. Eu também não sei o que está havendo. Mas no dia que você me deu carona, no jornal que estava no chão do carro, havia a notícia de uma pessoa que me entregou uma caixa. Essa pessoa morreu atropelada.

Fitzgerald deixa o dedo no gatilho. Hesita.

Kroll – Eu vi o vídeo que estava no seu computador…

Com dedos trêmulos ele engatilha a arma.

Fitzgerald – Eu sei que você viu.
Kroll – É, e eu reconheci aquele traje escuro. Eu o passei para outra pessoa. E a pessoa que a recebeu foi atropelada. Por nós.

A ponta da pistola toca na têmpora.

Fitzgerald – Eles disseram que se fizesse o que me pediram eu conseguiria.
Kroll – Fizesse o quê?

Um disparo.

Kroll – Não!

O calibre leve produz um ruído abafado. E o segundo homem que Kroll vê morrer em dois dias.

Kallinger – Você atirou nele?
Kroll – Ele se matou.

Do estacionamento, Cutler percebe a movimentação. O atendente permanece alheio a tudo. O mau pressentimento o leva a manobrar o carro para que saiam dali.

Kroll usa a própria camisa para limpar a maçaneta.

Os três tomam a estrada e saem dali em silêncio.

Cutler
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2 Respostas

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  1. Charles Kallinger said, on 29/01/2010 at 23:59

    – Oi pai.
    – Tudo bem, filho?
    – É, mais ou menos. A repercussão dos meus trabalhos tem sido boa… Estou ganhando mais espaço aqui na universidade.
    – Ouvimos falar. Mas?
    – Mas coisas estranhas aconteceram. Eu conheci uns amigos… e a gente está estudando essas coisas.
    – Na universidade ou fora?
    – Fora.
    – E quem são os caras?
    – Um trabalha numa empresa de telefonia. O outro tem um antiquário.
    – Não sei… Parece estranho isso.
    – Mais do que o normal. Conto melhor pra vocês pessoalmente. Prometo.
    – Ok. Se cuida, fala com a mãe. Abraço.
    – Oi filho. Parabéns!
    – Oi mãe. Valeu. Novidades?
    – Nada não. A casa nova está ótima. Tudo que você deu para a gente foi maravilhoso.
    – Só retribuindo tudo que fizeram por mim.
    – Ouvi a conversa com o pai. Amigos, é?
    – É. Dois caras que me foram apresentados em situações inusitadas, mas que se mostraram necessários em várias outras já.
    – Não vai deixar na reta. Lutou muito pra chegar onde está. Não se queima por pouca merda.
    – Pode deixar. Isso é o que mais penso atualmente, na verdade.
    – E mulher, já achou uma?
    – Olha, pensei que a minha terapeuta seria uma boa, mas acho que ela cagou no peidar. Será que manter uma puta não sai mais barato e incomoda menos?
    – Com certeza vai incomodar menos…
    – (risos)… Só tu mesmo pra me alegrar, mãe. Bom, vou tentar ir aí um final de semana. Beijo!
    – Beijo!

  2. Lucas Maroni said, on 30/01/2010 at 11:53

    Stone me surpreende com alguns documentos que podem me interessar. O velho sempre me pareceu estranho mas agora particularmente mais. Ele me deixa uma das cartas e combinamos um posterior encontro.

    O dia começa se desenhar como agitado tendo em vista a lentidão do meu cotidiano. Recebo um SMS de Kroll que me parece um pedido de ajuda… uma foto de uma placa de carro e o seguinte texto: Se algo acontecer comigo foi esse carro. Por mais estranho que possa parecer isso não me surpreende devido a nosso recente passado. Logo depois chega mais um SMS dizendo para nos encontrarmos em um posto de combustíveis que se não me falha a memória ficaria próximo à residência de Kroll. Dirijo-me até o local, mas se tem alguma coisa que me tira do sério é a espera…

    Após um bom tempo resolvo ligar. Kroll me informa que está tudo bem, mas parece estar envolvido em um acidente. Fico de entrar em contato com ele no dia seguinte.

    Na manhã seguinte ligo para Stone e marco de lhe fazer uma visita. Chegando a sua casa tento esconder o quanto atônito eu fico com a quantidade absurda de livros que para mim são desconhecidos. Tesouros com toda certeza. Após breve conversa sobre os documentos pergunto o preço e a quantia de 1000 dólares por peça me parece justa mesmo assim tento reduzir a quantia. Foi então que o velhote pergunta se eu gostaria de ficar com tudo. TUDO? Aquelas raridades? Ele é o mais vago possível me lembrando um popular anão careca conhecido como Dungeon Master. Despedimos-nos e eu fico de retornar o contato. Será que o velho está quebrado? Doente talvez. Isso está cada vez “melhor”.

    Kroll me atende de primeira e minha loja será o local de encontro para discutirmos sobre a noite anterior. O ramster parece que vem junto. Espero não me aborrecer com sua postura W.A.S.P.

    No almoço nos deixa a par dos últimos acontecimentos e decidimos procurar algum lugar que possa comercializar aquelas máscaras. Acreditamos que a chave é achar o agora desaparecido Fitzgerald e sua ligação com o bacanal mascarado.

    Kallinger concorda em fornecer os recursos para comprar os documentos de Stone.

    Nos dividimos e parece que o bilhete premiado fica com o próprio Kroll. Na saída somos abordados por um brutamontes que pede um ligeiro favor de trânsito. Logo vemos que o favor foi apenas pretexto para ter um contato com nós três. Kallinger vai atrás do meliante para dar uma pressão mas não consegue nada. Após breve perseguição ele se refugia numa loja. Os dois entram atrás dele e eu fico esperando o mastodonte, na rua, com uma reluzente chave de rodas. Ao o ver sair me preparo para botá-lo para dormir. Acabo sendo impedido pelo doutorzinho. O capanga foge alucinadamente e nós saímos na sua cola. Os anos lendo me deixaram mais lento. Numa jogada de sorte consigo entrar em um atalho que me deixa próximo de alcançá-lo. Após uma troca de sopapos eu e Kallinger conseguimos deixa-lo na lona. Só me contento após um último chute nas costelas do infeliz. Parece que sinto algum prazer em botar a cereja no bolo. Kallinger tem um de seus habituais repentes comigo. Fugimos do local.

    Ligo para Stone informando que ficarei com os documentos. Ele me informa que sou o primeiro de sua lista.

    Kroll consegue novas informações que nos levam até um motel onde possivelmente Fitzgerald se encontra. Localizamos o quarto dele e meus dois “sócios” ficam tentando conversar enquanto eu estou mais preocupado com nossa possível fuga. Ouço um estampido baixo. Parece que de algum modo eu esperava isso. O atendente parece que nada escutou. Vejo que eles saem com pressa e me informam sobre o suicídio. Somente perguntas e nenhuma resposta. E é aqui que o caldo começa a engrossar.


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