The Truth's For Sale

Capítulo 01 – O que se deixa para trás

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 17/11/2009

Hunter: The Vigil – Os Espaços Vazios

Capítulo 01 – O que se deixa para trás

Terça-feira, 27 de Outubro

Cena 01 – O Momento Seguinte

Um pedaço de papel é o suficiente para estancar o sangramento. A ferida, parcialmente escondida pelo cabelo, lateja. Ainda olhando-se no espelho, Kallinger recebe uma mensagem pelo celular.

– Onde vc se enfiou? Saímos. Falamos amanhã!

Meia hora. Foi exatamente o quanto durou o lapso de tempo. Meia hora.

Deixa o bar à procura de uma cabine telefônica. Se o que aconteceu foi real – em seu íntimo ele duvida disso – então em Filadélfia Central há um antiquário chamado Cutler.

Kroll ouve a trava eletrônica. Atordoado, olha os arredores. Está novamente na rua em frente à empresa onde trabalha, diante do seu carro. Após atravessar os portões, alguns metros adiante, um colega graceja.

– Você é louco por ficar todo esse tempo aqui, John.
– Você me viu parado aqui?
– Claro! Parado diante do carro.
– Ah… bem. Não é nada. Tive um lapso ou algo assim.
– Um assalto vai ser seu lapso financeiro, isso sim.

Já em seu apartamento, vasculha o próprio histórico de pesquisas na Internet. Sabe que viu a imagem daquela casa durante uma busca por moradia. Em instantes, resgata o website da Imobiliária Raposa Sensata. Porém, a empresa não trabalha mais com o imóvel. Antes de deixar que sua mente seja tragada pelos jogos eletrônicos, manda um e-mail solicitando mais informações à imobiliária.

Cutler está em silêncio, cercado por peças antigas, livros e outros objetos que fazem de seu antiquário um endereço modesto, mas de clientela leal.

Não é um de seus clientes habituais, porém, que bate à porta. O idoso de ar tímido se apresenta com certa formalidade.

Stone – Meu jovem, ainda que reconheça o tardar da hora, não pude resistir à luz de seu estabelecimento. Chamo-me Jebediah Stone, e há algum tempo procuro por um livro específico. Por acaso não teria em suas estantes uma cópia da obra, que trata da Salem durante o período colonial?

O livro é um tanto obscuro e o autor, menor. Mas a busca do Sr. Stone chega ao fim. Após as despedidas, o olhar de Cutler é capturado por um vaso. A peça lhe traz à memória Ernest Wilbury. Há cerca de um ano o antiquário pensava em mudar-se. Buscava mais espaço. Uma das possibilidades consideradas foi uma velha casa em Filadélfia Oeste apresentada por Wilbury. O negócio não foi adiante devido à quantidade de reparos que o local exigia.

Era a casa do desenho.

Antes que sua prodigiosa memória possa resgatar mais detalhes, novamente ouvem-se batidas à porta.

Cena 02 – Ilusões Desfeitas

Assim que o táxi pára, Kallinger se vê diante do Cutler’s, um dos muitos antiquários da Filadélfia Central. O palpite, baseado nas esparsas informações trocadas naquele cômodo vazio, parecia quase bom demais para dar certo…

Tanto quanto não parece ser verdade o que é testemunhado da janela do táxi. Deixando o antiquário, levando nas mãos um pacote, está o velho que nos pesadelos infantis de Kallinger celebrava ritos de horror. Entorpecido, ele nada faz além de observar, com a respiração suspensa, o lento afastamento do protagonista de seus sonhos sombrios.

Ao aproximar-se da porta após ouvir as batidas, Cutler já vislumbrou seu visitante. Carrega uma velha Luger na cintura. Por segurança. A constatação de que os fatos recentes foram reais pode provocar qualquer tipo de reação.

Kallinger leva o dedo em riste, mas não diz coisa alguma. Até então, acreditava que tudo aquilo teria uma explicação razoável. A confrontação tão acintosa de suas certezas, mais uma vez em poucos minutos, o deixa sem fala. Cutler pede que ele mostre o ferimento.

Kallinger – Pode parecer estranho, e até preferia acreditar que seja algum problema neurológico, mas eu o vi em uma espécie de sonho.
Cutler – Eu não faço idéia do que está acontecendo, mas falta um.
Kallinger – Você também teve essa visão?
Cutler – Foi por isso que pedi para olhar a sua ferida.

Durante alguns minutos os dois conversam. Buscam estabelecer relações e encontrar sentidos. Examinam, sem sucesso, o insondável.

Quarta-feira, 28 de Outubro

Cena 03 – Reunião

Usando de expedientes parecidos com aqueles adotados por Kallinger, John Kroll chega, logo depois do meio-dia, ao antiquário de Cutler. Com uma mensagem, Kallinger é convocado, deixando as aulas seguintes nas mãos de um substituto. Em menos de uma hora estão os três reunidos.

A tentativa de encontrar algo em comum entre si revela-se frustrante. Não têm experiências ou conhecidos que os interliguem. São diferentes na forma de vestir, de pensar e de agir. A única coisa que parece uni-los é uma maldição, ou uma doença.

Kallinger – Até ontem achei que era um aneurisma. Agora, não sei mais.
Cutler – Acho que a coisa mais relevante é o local que nós vimos no desenho. A casa é o que temos em comum. E eu tenho uma noção de onde ela fica.

Cutler compartilha o motivo de conhecer a casa, não tão distante da Universidade da Pensilvânia, onde Kallinger é professor e pesquisador. No caminho, a conversa se dá por meio de frases pela metade e idéias incompletas.

Cena 04 – Pentridge Street, 5282

Situada em Filadélfia Oeste, a residência não é idêntica ao que mostrava o desenho, mas as semelhanças são claras. Trata-se de uma das muitas construções da região que remetem ao século XIX, quando Filadélfia Oeste pertencia à classe média alta. A decadência, porém, alastrou-se pelos bairros. Hoje, é uma das regiões mais violentas e carentes da cidade, lar de uma população de ampla maioria negra. Do passado, restou pouco mais do que a arquitetura, hoje formada por cascas de dois andares.

São quase quatorze horas quando Kroll, Kallinger e Cutler estacionam. Moradores das imediações circulam a caminho do trabalho ou vadiando. Separada da rua por um portão enferrujado, a ampla residência tem todos os sinais de um longo abandono: janelas quebradas, ervas daninhas no lugar de um jardim, pintura desgastada.

Internamente, está em frangalhos. Bitucas, seringas e camisinhas anotam a presença de invasores. As paredes estão pichadas com símbolos de gangues e obscenidades. Velas usadas em encontros noturnos incrustam móveis que nem mesmo ladrões ou mendigos quiseram. A maioria dos vidros foi despedaçada e algumas portas estão faltando. Kroll é o primeiro a observar que a casa não é tão antiga quanto o ambiente vazio onde conheceram-se.

Cena 05 – A Casa dos Mistérios

Kallinger dirige-se ao segundo andar. Em um cômodo amplo encontra, sentada sobre uma bancada de madeira destruída por cupins, uma boneca. Ela tem as pernas torcidas e os braços desapareceram. Seus olhos e lábios estão pintados de forma grosseira, com caneta, simulando maquiagem feminina. Kallinger a toca com a ponta da caneta. Manchas alongadas, uma sujeira de tom amarelo claro. Sêmen.

Perto do que deve ter sido a cozinha, Cutler e Kroll encontram a porta que leva ao porão. Trancada. A única em toda casa. Enquanto o primeiro busca algo que sirva de alavanca para vencer a fechadura, o segundo coloca com os próprios pés mais uma porta abaixo.

Ar fétido sopra das fundações da casa. Odor de animal morto, pensa Kroll. Mais do que isso, sob a luz de isqueiros e velas, eles encontram, entre as prateleiras vazias do que foi uma adega, o corpo de um homem. Um jovem, negro, vestindo roupas simples, mas longe de ser um mendigo. De seu bolso Cutler tira um calhamaço de folhas de papel. Desenhos feitos em um caderno de caligrafia com lápis e tinta.

A esta altura, Kallinger juntou-se aos dois no subterrâneo. Kroll afirma que o corpo deve estar ali há três semanas e provavelmente foi vítima de overdose, dado às marcas de agulhas. Kallinger discorda. A morte se deu há menos de uma semana, e a causa foi afundamento craniano causado por espancamento. Um dos tijolos soltos no porão é sua aposta para arma do crime. Para Cutler, resta pouca dúvida a respeito de quem, entre o cientista e o “telefonista”, tem mais propriedade sobre o tema.

“O caderno de caligrafia da Krista. Hihihi…”.

Já de volta ao hall, Cutler aponta a frase, no verso de umas das páginas, escrita com letra irregular e infantil. A essa altura, Kroll já usou seu telefone para avisar a polícia a respeito de um cadáver na Pentridge Street, 5282. Confia em seu domínio da tecnologia para não ser identificado. Kallinger, por sua vez, menciona a boneca encontrada no andar superior. Espera que a amostra que recolheu tenha serventia para identificar quem, além do infeliz residente do porão, tem freqüentado o local.

Ao chegar ao carro, percebem que estão sendo observados. O homem do outro lado da rua, de olhar agressivo, nada se esforça para ser discreto. Afasta-se em seguida, deixando o indício de quão pouco amistosa essa vizinhança pode ser.

Cena 06 – Expostos à Arte

Com US$ 50 e algumas palavras bem escolhidas, Kroll convence o segurança da modesta galeria de arte a deixá-los entrar após o horário de fechamento. Ali ocorre a exposição de Krista Crown, uma artista que, segundo pesquisa de Cutler, revela em suas telas traços e temas muito semelhantes àqueles da obra encontrada no bolso de um homem morto.

Pretendem encontrar-se com Thomas Hoyt, marchand responsável pela galeria e, com sorte, alguém capaz de apontar-lhes a direção até Krista Crown. Percorrem o saguão quando vêem, exposta sozinha em uma ampla parede, uma imagem familiar. O quadro tem as dimensões de uma porta, e mostra o cômodo vazio onde estiveram. As linhas tortuosas e os ângulos improváveis em nada diminuem a solidão que transmite o retrato daquele lugar que não deveria existir.

Cena 07 – Retorno ao Cômodo Vazio

Revolta. Consternação. Incerteza. Tudo isso se expressa nos instantes que seguem à constatação de que os três voltaram ao cômodo vazio. Resignados, sentam-se junto a uma das paredes e aguardam.

Kroll – Eu não acredito!
Kallinger – O que vai acontecer? Vamos voltar para o mesmo lugar meia hora depois?
Kroll – Nós estamos na frente da porra do quadro.
Kallinger – E nós vamos ficar trinta minutos parados, simplesmente?
Cutler – Alguém vai nos dar um tapa e vamos acordar.

Os três analisam os desenhos de Krista em busca de alguma orientação quando são interrompidos por um ruído. Lentamente, na parede oposta, se forma uma seqüência de números, em duas colunas, registrada a lápis.

Kallinger – Eu estou enlouquecendo.
Cutler – Dois, então.

Novamente sentados, agora com os números tomando a maior parte de sua atenção, os visitantes do cômodo vazio recordam os momentos vividos na primeira vez em que estiveram ali. Sua busca por sentido em nada resulta.

É Kallinger quem quebra o silêncio ao perceber que os dedos, subitamente umedecidos, repousam sobre uma poça de sangue. Quatro delas. Espalham-se e lá ficam, cada uma formada pelo que poderia ser o conteúdo de três copos cheios.

Kallinger – Que desgraça!
Kroll – É uma contagem de corpos.
Cutler – Se nós somos três, e existem quatro manchas, tem mais alguém nessa história.

Por mais que seus relógios e celulares não funcionem como deveriam, todos percebem que mais do que trinta minutos já se passaram.

Kroll aproxima-se de uma das poças. Pisa sobre ela. Mergulha a mão espalmada no sangue. Uma, duas, diversas vezes. Após cada uma delas, leva os dedos encharcados à parede. Reproduz os números que viu mais cedo. Kallinger e Cutler compartilham de um misto de repugnância e receio diante da cena.

Assim que seu registro asqueroso é encerrado, Kroll percebe o surgimento de algumas palavras. Junto do chão, à caneta, em um traço pouco firme, três partes da mesma mensagem.

Fome. Sede. Vazio.

Kallinger – Alguém nesse quarto está tentando nos dizer algo.
Cutler – Esse quarto deve estar em algum lugar. Precisamos encontrá-lo.

Kroll esmurra a parede. Grita. As mãos ainda manchadas de sangue marcam de vermelho o papel de parede.

Assim que ele se acalma, Kallinger aproxima-se e, com um lenço, recolhe uma amostra do sangue. Duvida da sua permanência após deixarem o cômodo, seja lá quando isso for, mas o faz mesmo assim. Enquanto guarda o lenço, percebe Kroll recostado contra a parede. De olhos fechados tenta não ver onde está para fingir estar em outro lugar…

Cutler expõe brevemente uma teoria a respeito de que existe mais alguém preso no quarto, e que as mensagens que recebem são pedidos de ajuda. Kroll não dá atenção. Para Kallinger, importa mais saber quem era o velho que viu saindo do antiquário no dia anterior. Ele narra a história envolvendo seus pesadelos de infância, onde aquele homem celebrava ritos tendo a casa em que estiveram naquela tarde como templo. Jebediah Stone, explica Cutler, nada mais é do que um cliente interessado em um livro obscuro sobre Salem no período colonial.

Kroll – Salem das Bruxas?

Subitamente, todos estão de volta à galeria. O local está às escuras e em completo silêncio. Com a luz da lanterna nos olhos, Kallinger é avistado pelo mesmo guarda que lhes permitiu a entrada. Ao homem nada interessam as histórias daqueles três homens que perderam-se. Basta que saiam de uma vez. O dinheiro que recebeu mais cedo é o suficiente para dissuadir qualquer curiosidade.

Ao deixarem a galeria, percebem que uma hora passou-se.

Kroll – Da próxima vão ser duas horas. Quatro. Oito. Dezesseis. Trinta e dois. Morte….

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2 Respostas

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  1. Dr. Charles Kallinger (Gói) said, on 17/11/2009 at 12:03

    Nada que eu estudei até hoje parece fazer sentido. Algo parece ter sido substituído, trocado. Uma memória? Alguma porção do cérebro que era responsável pelo bom senso. Será que fui drogado sem saber? Algo está atuando em meus receptores neuronais e causando essas ilusões. Afinal, é mais fácil eu estar delirando do que haver magia, fantasia e teleportes, não? Indiferente agora. Junto com meu pedido de afastamento por motivos de saúde já marquei uma consulta em um amigo neurologista. Se isso voltar acontecer amanhã, me trancarei em um quarto de uma instituição psiquiátrica e contratarei enfermeiros que me vigiem 24 horas por dia, durante uma semana se for necessário. O simples fato de estar pensando que estou ficando louco, está me deixando… louco! hahahahahahahaha

  2. Carlos Hentges said, on 17/11/2009 at 12:08

    Ah!

    Pode trazer a camisa branca de mangas longas que esse Kallinger vai para o choque!


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