The Truth's For Sale

Crônicas Hiborianas – Oitava Edição – Glória Desfigurada

Posted in GURPS, Mutantes&Malfeitores, O Jogador, RPG by Carlos Hentges on 23/09/2009

Crônicas Hiborianas – Oitava Edição – Glória DesfiguradaConan - Capa

Cena 01 – Rei Conan

Deitado em sua tenda, Conan aproveita um dos raros momentos de folga. Os músculos dos braços e tronco ainda estão inchados pelo esforço na forja. Há anos ele não trabalhava por tanto tempo como ferreiro, a profissão que seu pai lhe ensinou. A vida de um soldado, porém, parece ser a constante preparação para um combate que nunca chega. Tem sido assim há um mês. Nesse período, o nortista aproveitou para ganhar intimidade com as letras. Ao que parece, apenas a força e o aço não são o bastante para impulsionar a carreira de um homem de armas no mundo civilizado, e Conan não tem intenções de passar muito tempo na ponta inferior da hierarquia.

As páginas ressecadas do livro que tem consigo tratam do Rei Kull, da Valúsia, um monarca de tempo imemoriais. Suas histórias são como aquela que o avô Connacht contava, repletas de ouro, palácios e belas mulheres. Os pensamentos sobre um futuro glorioso são interrompidos pela chegada de Orastes, um dos companheiros de Conan.

– Conan, devemos nos encontrar com Amalric no centro da guarnição imediatamente… O que é isso? Um livro? Por Mitra, aqui está uma combinação inesperada. Um cimério e um livro. E, pelo visto, parece que pretende seguir os passos de Kull. Que fará, Rei Conan, assim que tomar o poder?

Pego de surpresa pela amistosa intromissão, Conan não sabe o que dizer. Aparentemente, seus devaneios iam apenas até o momento em que, ainda lavado pelo sangue dos inimigos, sentava-se em seu trono…

Cena 02 – Rumo a Leste

Apesar da noite passada entre garrafas de vinho e as coxas claras de uma mulher, ou graças a ela, Conan acorda bem disposto. O sol nasce e o grupo selecionado por Amalric já está preparado para iniciar a cavalgada. Petanius, pequena cidade três dias a leste, é o destino. Ao que parece, bandoleiros estariam atacando vilas nas imediações. Mesmo sendo uma ação de rotina, é a primeira em que Conan tomará parte diretamente.

Ao todo, dez homens atravessam os portões da Numália. Vestem cota de malha reluzente e carregam as enormes espadas pelas quais são reconhecidos os Aventureiros da Nemédia. O grupo, formando por soldados sem título de nobreza, é a principal força de infantaria do exército local. Conan conseguiu seu lugar entre eles graças aos esforços de Cleito, o Negro após suprimirem as ações do grupo de amazonas lideradas por Giovanna (Sétima Edição). Favor pelo qual Cleito nunca deixou de cobrar o que considera o devido agradecimento…

A viagem até Petanius é tranqüila. Não fosse a insistência de Tarascus nas mais esdrúxulas apostas, ou os avanços de Promero contra uma aldeã, comportamento que por muito pouco não levou ao enfrentamento com Conan, teria sido quase como levar os cavalos a passear.

Cena 03 – Chegada a Petanius

Adentrando Petanius é impossível ignorar a reação dos aldeões. Todos interrompem suas tarefas para receber os cavaleiros. Crianças os perseguem por ruas empoeiradas. Ainda que não se aproximem, os moradores mais antigos lançam um olhar de alívio na direção de Conan e seus companheiros.

Conversando rapidamente com alguns dos habitantes de Petanius enquanto a comitiva se dirige até a residência do governante, Conan descobre que colunas de fumaça foram vistas no horizonte em mais de uma oportunidade nas últimas semanas.

– Dois mensageiros foram enviados. Um deles não voltou. O outro, coitado, enlouqueceu com o que viu!

De nome Ananias, esse mensageiro diria mais tarde a Conan e Amalric que viu casas destruídas e corpos carbonizados empilhados no centro de uma vila abandonada. Algo terrível demais para um mero fazendeiro contemplar sem abalar-se.

Cena 04 – Atrocidade

Se os três dias de viagem até Petanius foram um exercício de rotina, as horas de cavalgada até as vilas em suas cercanias são de circunspeção e incerteza. Liderando um grupo de cinco homens, todos calejados pela guerra e os horrores do campo de batalha, Conan vê-se diante de um cenário perturbador. A vila é agora um amontoado de pouco mais de vinte residências enegrecidas pelas chamas. Ao centro, corpos carbonizados amontoam-se. A brisa sopra uma tênue fumaça e carrega o odor da carne de uma centena de pessoas. Moscas depositam seus ovos nas cavidades oculares vazias dos mortos.

Imediatamente, Conan ordena a busca por sobreviventes. Não foram simples bandoleiros que promoveram tal massacre… Vasculhando os arredores, os ouvidos do bárbaro o alertam para um rosnado. Dentro de uma das casas um cão se refestela nas estranhas de um cadáver. De grande porte, o animal tem aspecto doentio, com chagas salientes em um corpo magro e parcialmente sem pêlos. Até as orelhas ele está coberto do sangue daquele que lhe serve de refeição. Com um golpe, Conan parte seu crânio. Apurando os sentidos, certifica-se de que mais nenhum animal encontra-se por perto. Um gemido, porém, o leva ao quarto contíguo. Ali, atrás de uma cama que serve de barricada, um velho se esconde. Ao vislumbrar o cimério, o homem atira-se em sua direção.

– Os mortos! Eu vi os mortos de Acheron que se levantaram para formar uma nova raça.

Cena 05 – Emboscada

Naquela noite, Conan e Amalric confrontam o que testemunharam. Concordam que ambos cenários foram pintados pela mesma mão terrível. Em ambos os casos, o fogo tinha sido destino de crianças, homens e velhos. Nenhuma mulher jovem, porém, pôde ser distinguida entre os restos mortais. Marcas de pesadas carroças, usadas para o transporte de suprimentos, foram percebidas. Ao que parece, um tipo particularmente cruel de escravista estaria atuando naquelas terras.

– E as palavras de Bracus, sobre os mortos de Acheron?
– Essa é uma terra de lendas muito velhas Conan. Mas, por enquanto, prefiro acreditar que são devaneios de um velho que contemplou uma destruição inimaginável e da qual escapou apenas por sorte.

Mas os mortos realmente se levantariam. E ainda que houvesse vida em seus corpos, nada existia em seus espíritos nem em sua consciência adormecida. Tal qual animais avançaram sobre os soldados durante a madrugada. Mais preparados e melhor equipados para a luta, ainda assim os Aventureiros da Nemédia quase sucumbiram. Não fosse o aço de Conan e a voz de comando de Amalric, certamente aquela estrada esquecida teria sido o túmulo de guerreiros valorosos.

Combate

Afugentados os atacantes, uma horda pálida, purulenta e deformada, restam os companheiros que tombaram. Dois deles voltarão envoltos em véus. E outros três, se não tiverem sorte, terão o mesmo fim. Amalric ordena que os que os saudáveis carreguem os mortos e os feridos até Petanius. Ele e Conan, por sua vez, darão caça aos traiçoeiros. É em seu covil, enquanto lambem as feridas, que os cães devem ser abatidos.

Cena 06 – Chaga na Terra

Amalric e Conan cavalgam envolvidos pela ansiedade. O primeiro tem sob sua responsabilidade uma missão trivial que acaba de adquirir contornos terrivelmente inesperados. O segundo, em silêncio, recorda de eventos no leste, quando achou ter deixado sob uma montanha uma criatura capaz de erguer os mortos de suas tumbas (Terceira Edição).

Mergulhados em seus pensamentos, os soldados atravessam uma das vilas destruídas e passam a acompanhar os rastros deixados por uma pesada carroça. Já é manhã quando o horizonte revela, em meio a um bosque esparso, uma construção monolítica e parcialmente destruída.

Conforme avançam a terra torna-se estéril. Árvores ressequidas e vegetação Cãesincolor fazem parecer que uma ferida purulenta flagela o solo. Além do bosque, ergue-se o que parece ser um templo. Não há resquício de glória na edificação, apenas a decadência provocada pelo fustigar dos séculos.

A recepção aos soldados é responsabilidade de uma matilha. Famintos, selvagens, os cães atiram-se sobre Conan e Amalric, encontrando em suas espadas resposta à altura do ataque. Poucos metros adiante uma passagem subterrânea é divisada. Para ali apontam os últimos vestígios da passagem de carroças.

Cena 07 – Para dentro da Treva

Conan e Amalric movem-se lentamente pelas galerias mergulhadas na escuridão. Após avançarem alguns minutos ouvem um lamento. Parece o choro mal-contido de uma mulher. Suspeitando de que encontraram sobreviventes, avançam. Atrás de uma porta pesada, em um salão escavado na rocha, cerca de trinta mulheres são prisioneiras.

– Existem outras?
– Sim, várias foram levadas. Nenhuma voltou…

Enquanto as aldeãs rumam na direção de onde vieram Conan e Amalric, os soldados continuam seu avanço cauteloso. Ao longe, uma luz tênue é percebida. Trata-se da iluminação de poucas tochas espalhadas por um enorme salão. O som de correntes vem de alcovas escavadas em fileiras. Enquanto Amalric guarda a entrada, Conan avança na direção do ruído. Depara-se com uma prisioneira. Seus pés estão presos a grilhões. Veste andrajos que mal lhe cobrem o corpo. Sua barriga tem longas marcas vermelhas. Com as unhas ela lacera a pele para arrancar o que quer que agora cresça em seu ventre.

– Eles estão vindo me buscar. Não deixe. Por favor, não deixe que ele se deite comigo mais uma vez.

Cavernas

Mais adiante, dez homens e mulheres, empunhando tochas cuja luz lhes denuncia as deformidades, vem na direção de Conan. Silenciosamente, o cimério contorna o grupo. O anúncio de sua chegada é o silvo do aço, que faz jorrar o sangue escuro de um dos habitantes do covil subterrâneo. Em instantes, crânios são partidos, braços decepados, entranhas expostas. A fúria do bárbaro contra as aberrações espanta pela selvageria assassina. Ferido durante a luta, Amalric auxilia na libertação das últimas cativas. Conan parte no sentido oposto. Aos gritos, anuncia suas intenções.

– Cães! Hoje sua raça de violadores aprenderá que nunca deveria ter abandonado as entranhas esquecidas da terra.

Cena 08 – Expurgo

– Meus filhos, recepcionem o estrangeiro que deseja o fim de nossa Sacerdoteharmoniosa civilização.

A ordem de Zaratros é respondida com uma chuva de pedras que vem do alto de sua alcova. O sorriso de dentes apodrecidos reflete a satisfação após ser interrompido pouco antes de consumar mais uma união que garantirá a expansão de sua prole. Conan, por sua vez, corre, esquiva-se e recua diante da chuva de pedregulhos. Atingido diversas vezes, o bárbaro avança impelido pelo ódio.

Investindo contra Zaratros, Conan desfere um golpe possivelmente fatal, não fosse lento demais. A espada corta o manto do sacerdote, mas não alcança sua carne. Impulsionado por forças malignas, o contragolpe atinge o bárbaro antes que a guarda seja refeita. Espada contra cajado. Músculos contra Feitiçaria. Ímpeto Selvagem contra Frieza Metódica. O choque entre opostos tão violentos provoca um combate encarniçado.

Por um instante, Conan sente as forças lhe fugirem. A situação torna-se dramática quando, visando a garganta de Zaratros, atinge com a espada uma coluna de pedra. Cercado por dezenas de filhos do feiticeiro, a sobrevida do bárbaro vem na figura de Amalric, que retorna para investir contra a horda. O golpe derradeiro é desferido com uma adaga. A lâmina perfura carne e ossos para encontrar o coração negro de Zaratros. Assim que pára de bater, o órgão também decreta o fim de suas crianças malformadas, que contemplam inertes o pai morto.

Ferido como nunca antes esteve, Conan deixa o covil junto de Amalric. A escuridão que fica para trás, é a esperança de ambos, continuará sendo a prisão dos filhos de Zaratros, uma raça mortiça cuja semente agora não mais será espalhada.

Crônicas Hiborianas:
Sistema: M&M
Narração e Texto: Carlos Hentges
Conan: Carlos Alexandre “Gói” Fedrigo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: