The Truth's For Sale

Hunter: The Vigil – Sangue, Garras e Presas

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 21/08/2009

Hunter: The Vigil – Um Sombrio Dito Notável

Capítulo 10 – Sangue, Garras e Presas

Now comes the rampage, a killing spree
Hunting his loved ones comes instinctively
Oh no, it’s maddening
A shape-shifting demon of pure lunacy
A shot from the darkness tears through its flesh
A bullet of silver lays it to rest

Iced Earth – Horror Show – Wolf

2009, 24 de Março

Cena 01 – O Sacrifício do Saber

Assim que adentra a Míope Livros Usados, Karl Krueger é recepcionado por um gato preto. O pequeno felino lambe a pata e mia. Da escada que leva ao segundo piso, desce lentamente Garland Clements. O idoso leva uma pilha de livros nos braços, mas recusa com um resmungo o auxílio oferecido por Krueger. Após depositar os volumes sobre o balcão, afaga o gato.

– Parece que o pequeno Ulthar resolveu apresentar-se, afinal. Nem sempre ele está por aqui, você sabe. Ulthar permanece a maior parte do tempo saltando do telhado para dar caça às coisas-sapo que vivem na Lua.

Rindo de uma piada particular que escapa à compreensão de Krueger, Clements aponta na direção das escadas.

– Bergmann e o outro esperam por você naquela sala. Livros Raros.

Ali, Rudolf Bergmann e Wilhelm Reich, um distinto cavalheiro na faixa dos cinqüenta anos que é rapidamente apresentado, aguardam.

– Estou muito feliz que tenha vindo, professor Krueger. Mas percebo que não trás consigo o livro.
– Ele está em segurança. Antes de entregá-lo gostaria de ouvir o que tem a dizer.
– A mostrar, na verdade…

Bergmann abre a única gaveta da mesa rústica que fica ao centro da sala. Dela retira um punhal ornamental com claros sinais de uso. Com cuidado, desabotoa a manga direita da camisa, revelando diversas cicatrizes, algumas antigas, outras bastante recentes. Uma mancha vermelha marca um curativo novo.

– O que você pretende com isso?
– Mostrar quem eu e meus associados somos, professor: um grupo disposto a realizar os sacrifícios que o saber exige. Pegue qualquer um dos livros nas estantes.

Krueger já havia observado os volumes sem informações na lombada que ocupam todas as paredes sem janelas. Mas ele surpreende-se a descobrir que suas páginas estão em branco também.

– O senhor, da mesma forma que nós, é um erudito. O senhor entende que o acúmulo de conhecimento é uma tarefa árdua. Aqui, nesta sala, porém, isso pode ser feito de uma maneira rápida. Não sem uma contrapartida, é claro. Elabore uma pergunta qualquer em voz alta e faça um corte em seu braço do tamanho do seu desejo pela resposta. Deixe que o sangue pingue no chão e, então, abra um livro qualquer em uma página qualquer.

Com o punhal em mãos, Krueger hesita por um instante. Aquilo estaria acontecendo realmente? Três homens em uma sala dispostos a cortar a própria carne para preencher livros vazios? A ferida pequena aberta no antebraço é quase indolor. Demora alguns segundos até que o líquido viscoso toque o chão. Quando abre um dos volumes, Krueger depara-se com informações a respeito de John Burgess.

– Isso é… Incrível!
– Nós a chamamos de Alexandria.
– É bastante apropriado.
– Professor Krueger, seja bem-vindo. O próximo movimento, o senhor sabe, é seu.

Cena 02 – Uma Célula se forma

Lucy O’Hara já está sentada há uma hora. Não espera por ninguém. Ou melhor, não espera imediatamente. Adiantou-se de propósito. Tinha um encontro especial com a vodca que tanto aprecia. Uma ou duas doses e a conversa seria muito mais fácil. Do lado de fora havia apenas dois letreiros luminosos. “Bar” e “Cerveja Gelada”. Discretos e precisos. E suficientes para que Karl Krueger e Jonathan Trager encontrassem o lugar.

Krueger aparece primeiro. Senta-se e pede uma cerveja. A conversa entre ambos é franca. O’Hara revela o quão suspeitas, aos olhos de um policial, são as suas ações recentes. Porém, ela admite que elas parecem semelhantes àquelas que a encaminharam à força policial. Ela não quer punir pessoas. Ela quer evitar que crimes aconteçam. O’Hara deseja impedir que existam culpados e vítimas. Antecipar-se. Krueger ouve em silêncio. O’Hara prossegue relatando os estranhos eventos ocorridos no Saint Joseph Hospital, quando um homem entrou no quarto onde ele e Trager estavam, mordendo a mão do jornalista, e como ela foi incapaz de impedir sua fuga, tendo sido subjugada de um modo inexplicável. A conversa se encaminha até a noite em que encontraram-se pela primeira vez, no Lincoln Park. Krueger não revela detalhes, mesmo porque pedaços importantes daquela noite ainda são memórias inacessíveis, mas os pedaços de informação que fornece são compreendidos por O’Hara como um sinal de confiança mútua.

Chegando ao local combinado para o encontro, Trager é abordado na porta por um estranho com sutil sotaque francês. Chama-se Luc. É do Canadá. Uma rápida conversa se dá, com ambos despedindo-se já dentro do bar, após a compra de alguns maços de cigarro. Ainda que seja reconhecido por O’Hara, Luc não se torna tema da conversa.

Conversa cujo tom muda completamente a partir da chegada de Trager. Sem cerimônia, ele expõe sua opinião pouco lisonjeira a respeito de policiais na mesma frase em que solicita a ajuda a O’Hara para encontrar uma amiga desaparecida. Antes de partir, a policial ainda ouve que o auxílio já não é necessário. Penelope Collins está no Hospital do Noroeste.

Cena 03 – Responsabilidade

Trager relata brevemente o ocorrido na casa de Penny, quando encontrou o lugar revirado e confirmou seu desaparecimento. A ligação que acabara de receber era da polícia, avisando que uma mulher com o mesmo nome e descrição dada por Trager encontrava-se internada.

Enquanto Krueger aguarda no saguão, Trager dirige-se ao quarto. Apesar do horário, Penny concorda em recebê-lo. Bastante abatida, ela mal consegue erguer-se da cama para abraçar Trager. Seu olho esquerdo está coberto por um grande curativo. Um hematoma circunda seu pescoço, como um colar negro.

– Eu sabia que você ia aparecer…
– Penny, você deveria ter ligado.
– Eu tentei, mas você não atendia.
– Eu… Mudei o número. Você deveria ter ligado para mais alguém. Pedir ajuda. A polícia disse que você não quis prestar queixa. Quem fez isso com você?
– Eu não sei… Ele disse o seu nome… Enquanto…
– Como era ele?

Penny, enquanto leva os dedos trêmulos até o pescoço, descreve Ronnie Malone, ex-cunhado de Trager, com precisão que não deixa margem para dúvidas.

– Eu estava esperando amigos. Por isso, quando bateram, eu disse para entrar. Estava ajeitando a sala. Quando me virei, ele me acertou no rosto. Eu cai. Tentei gritar, mas ele me estrangulou com um fio. Ele dizia que isso ia ensinar algo a você, Jonathan, sobre responsabilidade. Sobre sentir-se culpado. Só sobrevivi porque um dos meus convidados apareceu. Ele fugiu pelos fundos. Foi assim que cheguei ao hospital. Eu não quis dar queixa porque achei que isso poderia prejudicar você. Fiquei com medo…

Trager a tranqüiliza e avisa que cuidará de tudo. Ele estará ali na manhã seguinte, quando Penny receberá alta. Ao reencontrar Krueger no saguão, após resumir o encontro, diz que precisa ter sua arma de volta.

Cena 04 – Atenção Especial

O’Hara passa rapidamente por sua mesa quase sem uso no 18º Departamento de Polícia de Chicago. Nesta noite, porém, uma pasta sem identificação chama sua atenção. São dados sobre Ramiro Garcia, cunhado do recentemente falecido Ivan Mendez. Os papéis revelam seu passado como tenente reformado do Exército Norte-Americano, com passagem pelo Afeganistão e diversas condecorações.

– Você o conheceu, não?

O agente de Dennis Bryson surge parado diante da mesa de O’Hara, observando-a com atenção.

– Eu fui apresentada a ele. Estava com a família no Saint Joseph Hospital. Na noite que em visitei Mendez.
– Que impressão ele lhe causou?
– Nenhuma. Conversamos rapidamente. Ele pediu que dirigisse a ele qualquer informação sobre a morte do cunhado. Queria poupar a irmã, Catalina, de mais dor.
– Ele parecia revoltado?
– Uma pessoa próxima estava à beira da morte. O que mais se poderia esperar dele?
– Muita coisa, se você prestou atenção em sua ficha. Os recortes dão conta de diversos incidentes violentos nos arredores de sua residência. Podemos ter um vigilante nas mãos.
– E o que o senhor sugere, agente Bryson? Que ele vai pegar seu fuzil e exigir respostas?
– Por que você não se aproxima dele e descobre? Afinal, ele espera que o procure, cedo ou tarde.
– E o Lincoln Park?
– A meu pedido, o capitão Georgas a liberou dessa função. Aguardo relatórios periódicos com suas observações a respeito de Garcia.
– Sim senhor.

2009, 25 de Março

Cena 05 – Um Sonho Esquecido

Krueger caminha em companhia de seu pai, Robert. Estão próximos da fazenda da família, nos arredores do Lago Moosehead, Maine. Atravessam a mata em busca da matilha que atacou as ovelhas de sua propriedade. Não demora até que avistem um grande lobo cinzento. Robert incentiva o disparo do pequeno Karl. Ele tem onze anos, e se esforça para posicionar corretamente o longo rifle. As mãos suadas e trêmulas de nada servem. Com medo, o garoto devolve a arma. O pai lhe sorri. Disparando para o alto, afugenta o animal. Sua mão repousa consoladora no ombro do filho.

– Não se preocupe, filho. Logo você terá outra chance de abater aquele lobo.

Cena 06 – Novos Rumos

Após pegar Penny no hospital – ela já parece um pouco melhor e certamente aliviada por ter alguém junto de si – Trager dirige-se a um encontro com O’Hara. A policial ouve o relato do ataque, instigando-a a prestar queixa contra Ronnie Malone. Por mais que O’Hara seja incapaz de dizer o que uma mulher, qualquer mulher, possa alimentar de positivo em relação a Jonathan Trager, é evidente que existe um sentimento compartilhado pelo casal. Se não havia feito até então, Trager finalmente o percebe quando a amiga despede-se com um beijo no canto dos lábios, já na casa de uma prima, em Oak Lawn, cidade de pouco mais de 50 mil habitantes a sudoeste de Chicago.

Mais tarde, naquela manhã, Trager descobre que a crise econômica que se reflete no jornalismo desembocou em sua caixa de e-mails. E que a paciência de velhos amigos não é algo inesgotável.

Ao Sr. Jonathan Trager,

A Teen America Publicações, detentora da marca Teen America, vem por meio desta mensagem informar o seu desligamento da equipe de colaboradores da Revista Teen America. É com pesar que comunicamos essa decisão, especialmente tendo em vista sua bagagem como autor consagrado e de reconhecida qualidade. Esperamos voltar a colaborar em um futuro próximo, quando seus textos estarão, novamente, entre as leituras favoritas de adolescentes de todos os Estados Unidos.

—-

Jonathan,

Não posso esconder meu profundo desapontamento com seu comportamento recente. Nossa relação, que começou profissional e evoluiu para pessoal, agora parece nada valer. Pelo menos é o que posso depreender das suas atitudes recentes. Essa postura lamentável, que começou após o falecimento de sua irmã e sobrinha, quando você me encarregou do funeral e pelo qual até agora espero algum sinal de agradecimento, continuou com relação à sua mãe. Lembra dela? Além disso, eu continuo aguardando os rascunhos a respeito da Universidade de Chicago e os eventos estranhos que teriam ocorrido lá…

Na verdade, não continuo. Eu vendi os direitos dessa publicação para Phillip Glasgow, da Estranha Chicago. Isso, e você, agora são problemas dele. Desejo a melhor sorte para ambos.

Sinceramente,
David Hoffman

Após distribuir a foto da própria bunda para manifestar sua frustração, Trager faz em algumas horas o que demorou semanas para entregar a Hoffman. Ainda que não consiga um encontro com Phillip Glasgow, deixa com a secretária o rascunho sobre a Universidade de Chicago. Misto de agência de turismo e túnel do terror, a Estranha Chicago é especializada em passeios que envolvam aspectos pitorescos e misteriosos da capital de Illinois.

Seu propósito seguinte é encontrar Ronnie Malone. A proprietária da pensão onde ele estava hospedado, endereço que recorda de uma conversa com sua irmã, Victoria, também deseja conhecer seu paradeiro. Por telefone Trager descobre que os objetos do ex-cunhado estão empacotados há uma semana, a espera de seu retorno para buscá-los depois do acerto das dívidas de aluguel, é claro.

2009, 26 de Março

Cena 07 – Lincoln Park, 1 da manhã

Não é difícil evitar os policiais e guardas que circulam pelo Lincoln Park durante a madrugada. Esse já foi o trabalho de O’Hara, e ela conhece todas as principais rotas. Em instantes, após estacionar em um ponto que permitiu observar o resultado da remoção parcial dos escombros da residência de John Burgess, os três chegam ao local onde Krueger e Trager foram encontrados.

Krueger está especialmente desconfortável. Sente que precisa estar ali, a despeito dos conselhos do falecido Simon Ellsworth e da total incerteza quanto ao que pretende encontrar. Gostaria de estar armado, mas a solução para isso seria buscar canais alternativos, com os quais nem ele nem Trager têm familiaridade. A possibilidade de mais atenção indesejada, somada a presença de uma policial entre eles, afastou a idéia temporariamente.

O’Hara explica novamente os detalhes de como os encontrou. Ela acredita que ambos interromperam sua fuga por exaustão depois de percorrerem cerca de quinhentos metros e atravessarem a cerca viva que protege aquela clareira natural. Munido de uma lanterna, Krueger vasculha os arredores. Tenta, sem saber ao certo porque, reproduzir os movimentos da câmera de Henry Mailer. E, como naquela noite, algo surge na escuridão.

Ao lado da pedra onde Trager encontrou um tufo de pêlos está uma criatura enorme. Os caninos do comprimento de um dedo reluzem sob a luz da lanterna de Krueger. Um rugido breve é o prenúncio do ataque. Assim que Trager e O’Hara sacam suas armas, a criatura já está sobre Krueger, rasgando-lhe com as garras ombro e pescoço.

Krueger golpeia nas costelas. O punho encontra uma massa compacta de Werewolfpêlos e músculos que sua força não pode vencer. Dominado contra uma árvore, ele mal percebe quando os dentes se arreganham para o ataque definitivo. É salvo por O’Hara, que dispara contra o ombro da criatura. Atirando Krueger contra o solo, a besta volta-se para O’Hara, rugindo e uivando. A policial ignora o pavor diante da cena. A memória muscular formada após meses de treinamento conduz de seus movimentos. Um segundo disparo atinge-o no peito. Trager também dispara. Recuperando o fôlego, mas ferido demais para fazer qualquer coisa, Krueger arrasta-se para fora da clareira. Dali avista a aproximação de um policial, atraído pelo som de disparos.

O’Hara dispara novamente, visando a cabeça. O projétil atravessa o olho da criatura e explode seu crânio. O corpo tomba com um estrondo. Perdendo o controle, O’Hara puxa o gatilho mais uma, duas vezes, até ser contida por Trager. Nesse momento o policial adentra a clareira. Leva a arma nas mãos, mas é imediatamente rendido por Trager. Entre eles, jaz o corpo de um homem nu, crivado de balas. Um suspiro escapa dos lábios de O’Hara.

– Jonathan, o que nós fizemos…

Antes que Trager possa esboçar uma reação, Krueger domina o policial e o asfixia até que perca os sentidos.

Resumo de crônica que tem como referência os livros World of Darkness e Hunter: The Vigil, editados pela White Wolf.
Narrador: Carlos Hentges
Jonathan Trager: Vinícius Lopes
Karl Krueger: Lucas Ramires
Lucy O’Hara: Sabrina Teixeira

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