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Crônicas Hiborianas – Quarta Edição: Agrilhoado

Posted in GURPS, Mutantes&Malfeitores, O Jogador, RPG by Carlos Hentges on 16/07/2009

Crônicas Hiborianas – GURPS e M&M. Dois Sistemas, Dois Jogadores, Dois Mestres.

Quarta Edição: Agrilhoado

Cena 01 – Prisioneiro

Nos porões do castelo de Zhenkri, Rei da cidade de Athros, Conan está preso. Acorrentado contra a parede, o bárbaro já perdeu a noção do tempo decorrido desde sua captura. Mesmo naquela masmorra úmida e fétida, as feridas do combate feroz contra os soldados estão cicatrizadas. Os guardas daquele buraco lhe lançam olhares de ódio. Um deles, em especial, parece carregar especial rancor. Acompanhado por outros dois, o soldado esmurra o rosto de Conan repetidas vezes.

– Então, bárbaro maldito? Apreciando a hospitalidade de Zhenkri?Dungeon
– Cão! Tire essas correntes e eu lhe mostro o que penso de Zhenkri e dos covardes sobre quem ele reina.
– Que sabe você de covardia? Decapitou um capitão à traição, em uma luta de mãos nuas.
– Seu capitão pediu a espada a um dos soldados para me apunhalar. Eu apenas a tomei e entreguei-a de um modo que ele não gostou.
– Está zombando da morte de Dinak? Aquele homem me devia. Ia me tirar daqui.
– Na Ciméria os homens não esperam que outros homens tornem suas vidas mais fáceis.

A resposta vem na forma de mais um golpe. Os lábios de Conan sangram. Em silêncio, enquanto é levado da cela, Conan sentencia Plácido à morte.

Cena 02 – A Sentença

Conan é conduzido acorrentado por longos corredores. Quanto mais avança, mais suntuoso o ambiente se torna. Na sala do trono, nobres reunidos em pequenos grupos conspiram. O estrépito das maciças portas de madeira sendo fechadas é o sinal para que o silêncio se estabeleça. Conduzido por três guardas, Plácido entre eles, Conan adentra o recinto.

Pouco afeito às lidas da corte, é o próprio Rei Zhenkri que enumera os crimes de Conan.

– Conan da Ciméria, está aqui para ser julgado por seus muitos crimes. Segundo Baldas, membro da guarda, você foi responsável direto pela morte de soldados de Athros. E pela morte de outros três, enviados para capturá-lo. Assassinar aqueles que protegem as muralhas da minha cidade é um crime intolerável, e por ele o condeno à morte pela forca. Tem algo a dizer a seu favor, Conan?
– Pouco sei a respeito dos costumes dos homens civilizados, mas esperava que alguém como o Rei Zhenkri, que tomou o trono pisoteando o crânio daqueles que eram fracos demais para manter o poder, entenderia as necessidades de um homem no campo de batalha.

As palavras geram desconforto entre os nobres perfumados. O modo como Zhenkri humilhou tradições e trespassou com sua espada os costumes ainda não foi de todo superado.

– Maneja as palavras melhor do que eu esperava, cimério. Mas não tão bem a ponto de fazer com que Zhenkri volte atrás em sua decisão. A forca é seu destino.

Neste momento, o conselheiro-emérito do rei, de nome Athicus, adianta-se e pede a palavra.

– Magnânimo Rei Zhenkri, nenhum dos aqui presentes ousaria questionar Zhenkri Palacesua decisão. Entretanto, olhe para este bárbaro. Sua ferocidade deu cabo de três de nossos melhores homens. Estavam eles a cavalo, de armadura, espada e escudo. E esse cimério lutou com uma adaga. Apenas após um combate feroz pôde ser dominado pelos quatro cavaleiros restantes. Não lhe parece, magnânimo, que esse é o tipo de homem que precisamos nas nossas fileiras na investida contra Polopponi? O crime do Conan é imperdoável, mas sua majestade, que também se criou coberto do sangue dos inimigos, não considera que aproveitar a força desse cimério, fazendo-o lutar por Athros, não é a punição mais justa a ser dada a um guerreiro?

Zhenkri ouve com atenção. Ao final da exposição de Athicus, procura nos olhos dos presentes o efeito das palavras do conselheiro. Por fim, decreta.

– Conan da Ciméria, sua sentença é a morte. Morrerá no campo de batalha, lutando por Athros, como fariam aqueles cuja vida você tirou.

Cena 03 – Propostas Soturnas

A madrugada é silenciosa nas masmorras. Aqueles que já esqueceram como é a vida além das grades sabem que gemer e lamentar apenas convida à fúria guardas impiedosos. Não são súplicas que atraem o olhar de Conan, mas o bruxulear de uma tocha. Nas mãos de um assustado pajem, a chama tremula mais do que o normal. O jovem acompanha Athicus, conselheiro-emérito de Zhenkri.

– Me perguntava quando viria cobrar pelas suas belas palavras na sala do trono.
– É astuto, para um selvagem. Mas não tem em seu poder nada que eu queria, bárbaro.
– Do que se trata, então?
– Sei que esteve recentemente em contato com um estrangeiro do oeste. Asketh.
– Ele está morto.
– Não me importa ele, e sim algo que há em sua casa. Um medalhão.
– Feitiçaria!
– Algo assim. Nada que sua mente rudimentar possa compreender. Sei que esteve lá. Quero que volte esta noite e me traga o medalhão. Asketh o escondia em um porão.
– Não sei de porão nenhum. E estou cansado de fazer acordos com feiticeiros.
– Que opções tem você? Apodrecer aqui para sempre, ser apunhalado por um dos guardas, ou morto no campo de batalha, conforme a sentença de Zhenkri. Nenhuma delas melhor do que ofereço.
– Como pode saber que não fugirei na primeira oportunidade?
– Porque mesmo um selvagem como você é capaz de respeitar a própria palavra. E porque, caso me traia, eu tomarei o cuidado para que seja a última coisa que fará.
– Pois bem, me solte eu lhe trago o tal medalhão.
– Em uma hora alguém abrirá a cela e deixará o caminho livre até a saída. Não se desvie, retorne o mais rápido que puder, e não sofrerá mal algum. Eu ficarei em dívida com você e, quem sabe, possa favorecê-lo ainda mais aos olhos do rei.

Antes de deixar a masmorra, Athicus ordena que Plácido destranque a cela do bárbaro e deixe livre o seu caminho. Diante da contrariedade do soldado, Athicus mal contém sua fúria. Sugere, por fim, que Plácido acompanhe Conan discretamente. Se o fizer sem erros, poderá conquistar um aliado muito mais importante do que um mero capitão da guarda.

Cena 04 – Embate na Madrugada

Assim que deixa as imediações do palácio de Zhenkri para mergulhar na madrugada de Athros, Conan dirige-se até a taverna onde hospedou-se durante o breve momento de tranqüilidade desfrutado na cidade. Valiatti, o proprietário, concorda em guardar o fruto de uma possível pilhagem. O taverneiro cede uma velha espada a Conan, afinal, “nunca ouvi falar de um trabalho na madrugada que rendesse muito ouro sem a necessidade de uma lâmina”.

A caminho da residência de Asketh, o cimério percebe que alguém acompanha os seus passos. Esgueirando-se pelas sombras de uma rua vazia, Conan vê a aproximação de Plácido, que perde sua pista por um instante. Porém, a lâmina da espada recém adquirida reflete a luz de uma tocha distante. É o suficiente para que o soldado recue e evite o ataque de Conan, que sai das sombras em uma investida mortal. Antes que possa sacar sua arma, Plácido é dominado pelo bárbaro. Com o aço contra a garganta, o soldado nada pode fazer além de colaborar.

– Que faz atrás de mim, cão? Foi aquele maldito Athicus que o mandou?
– Sim!
– Acaso ele pensa que vou precisar de sua ajuda?
– Não sei o que pensam os nobres. Por mim, você morreria na masmorra.
– Até que tem coragem, especialmente para alguém com uma espada no pescoço…
– Só preciso acompanhá-lo e garantir que tudo dê certo. Se eu falhar, serei morto. Pode ser agora, por você, ou mais tarde, por algum feitiço de Athicus. Não faz diferença.
– Se apenas precisa me acompanhar, que assim seja. Apenas não fique no meu caminho. Vi objetos que poderiam comprar cidades inteiras na casa de Asketh. Quem sabe algo lá sirva para que você deixe de obedecer a ordens de reis e feiticeiros.

Antes que sua conversa desperte atenção indesejável, os dois partem juntos até a residência de Asketh.

Cena 05 – Invasão ao Palacete

Enquanto Plácido observa, Conan usa da agilidade adquirida nas montanhas da Ciméria para escalar uma parede e atingir uma altura que lhe permita observar o pátio da residência de Asketh. Não há sinal de guardas, e a única iluminação vem de uma tocha ao lado da porta principal, que se encontra entreaberta.

Saltando em silêncio até o gramado, Conan vasculha a construção em busca de uma entrada externa para o porão que Athicus afirmou existir. Sem indícios, resolve estender a averiguação para o interior do palacete. Seu intento é interrompido pelos ruídos produzidos por Plácido, que sofregamente escala o muro que separa a área interna da rua.

Antes que consiga repreender o soldado, Conan é acometido por fortes dores no abdômen, como se uma adaga em chamas lhe penetrasse as entranhas. Ainda aturdido, e desconfiado da comida que recebeu na prisão, o bárbaro ordena que Plácido faça silêncio, enquanto se dirige até a entrada da residência.

Além das portas, jaz um corpo. Trata-se de um dos guardas de Asketh. Uma ferida na nuca ainda vertendo sangue denuncia a morte recente. Conan barra a porta para garantir que o assassino não tenha rota fácil de fuga.

– Sua saída passa por mim, cão!

Avançando na direção da sala onde Asketh o recebeu, Conan encontra, agachado atrás de uma mesa completamente revirada, o assistente do kithanês, Dalius. Nas mãos leva uma adaga ensangüentada, de pouca valia contra a espada do cimério.

– Saqueando os pertences de seu senhor, abutre?
– Não… Sim… Asketh está desaparecido. E sem o ouro que me paga, nada tenho.
– Leve o que quiser. Apenas me interessa o que ele guardava no subterrâneo da casa.
– De que está falando, Conan?
– Asketh escondia o mais valioso de seus tesouros embaixo da terra, como fazem os mortos da Stygia.
– Nada sei disso. Mas ele passava muito tempo nesta sala. É possível que a entrada esteja aqui, em algum lugar.

A esta altura, Plácido já afastou o calço colocado por Conan e seguiu até a Gárgulasala principal. Rapidamente, a situação é explicada. O bárbaro recomenda ao soldado recolher alguns dos pertences do feiticeiro morto. O interesse de Plácido recai sobre uma estátua de cerca de dois metros de altura – uma gárgula sobre um pedestal. Seus olhos são grandes e brilhantes rubis.

– Não toque nisso, soldado. Mesmo o meu mestre, que conhecia os segredos sombrios de terras inimagináveis, temia o poder dessa imagem maligna.

Saudoso do tempo em que feiticeiros e seus truques eram objeto de histórias contadas ao redor de fogueiras, tão fantasiosas quanto inocentes, Conan encerra qualquer poder contido no ídolo ao arremessar uma mesa, despedaçando-o. Os grande rubis rolam entre lascas de pedra. Dalius mal contem um gemido, enquanto Conan e Plácido ficam, cada um, com um dos olhos da gárgula.

Na pedra sobre a qual se encontrava a mesa, o bárbaro encontra as marcas de um alçapão.

Cena 06 – Surpresas Subterrâneas

Sob o piso, Conan percorre uma passagem estreita amparada por estacas. Dez passos além do alçapão há um baú. Empunhando uma tocha, Dalius ilumina o caminho do bárbaro. Plácido permanece junto da abertura no chão, observando.

Um golpe de espada vence a tranca, revelando pergaminhos, ervas raras e o medalhão descrito por Athicus. Tomando a jóia, Conan prepara-se para fazer o caminho de volta. Entretanto, não é mais Plácido que guarda a passagem. Um ser de rocha pura, cujas feições vagamente lembram as do soldado de Zhenkri, barra o seu caminho. Seu único olho de rubi brilha cheio de ódio assassino.

O ser de pedra avança golpeando Dalius, cujo crânio é partido instantaneamente. Conan aproveita a brecha e brande a lâmina, apenas lascando o torso de seu adversário. Movido por feitiços ancestrais, a criatura agarra Conan, estrangulando-o. A força do bárbaro não pode conter os músculos e tendões de pedra. A espada lhe escapa dos dedos.

ConanPara a surpresa do cimério, o abraço mortal é interrompido assim que a estátua viva percebe, caído da algibeira de Conan, um rubi que agora repousa no solo de terra batida. Enquanto recupera o fôlego e se esgueira na direção da saída, o bárbaro ouve um urro de dor e satisfação. Empurrando o rubi contra a órbita antes vazia, a gárgula agora lança um olhar rubro de redobrada perversidade.

Conan golpeia as estacas e inicia um desabamento. Toneladas de terra deslocam-se, comprometendo a estrutura da residência de Asketh. Conforme as fundações são afetadas, é uma questão de tempo até as paredes ruírem. Por muito pouco aquela não se torna a cova do cimério.

Cena 07 – De volta à Masmorra

Conan mal tem forças para voltar ao palácio de Zhenkri. Novamente, não encontra obstáculos em seu caminho. Ao fechar a grade atrás de si, seu corpo inteiro sofre de dores e tremores incontroláveis. Em questões de minutos, Athicus está diante dele.

– Trouxe o que lhe pedi, Conan?
– Maldito feiticeiro. Me envenenou…
– Apenas algo que pudesse garantir a sua lealdade. Veja, tenho aqui comigo o antídoto.
– Passe para cá esse frasco e eu lhe entrego o medalhão.
– Prefere que eu aguarde sua morte e entre aí para pegar o que me pertence?

Ensandecido pelo ódio, Conan arremessa a espada que a escuridão da cela escondia. A lâmina, dirigida ao coração de Athicus, erra o alvo. A guarda choca-se contra as grades e interrompe seu vôo mortal.

– E eu que admirei sua sagacidade logo cedo, Conan. Quanta decepção…
– Tome, maldito. Leve o seu medalhão.
– Ah… Sim… Aqui está o seu antídoto. Apresse-se em tomá-lo. Não gostaria que você morresse, nem que diga que nós, homens civilizados, não cumprimos com nossa palavra.

Após esvaziar o frasco, Conan cai em um sono sem sonhos.

Crônicas Hiborianas:
Sistema: M&M
Narração e Texto: Carlos Hentges
Conan: Carlos Alexandre “Gói” Fedrigo

Convidado Especial – Lucas Carvalho, como Plácido e A Gárgula de Asketh.

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6 Respostas

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  1. NILSON said, on 16/07/2009 at 15:37

    Interessante, esse bate-bola de vçs, onde um termina se inspirando no cenário construído pelo anterior e ambos vivem as aventuras do maior de todos os personagens da classe “bárbaro”.^^

    Parabéns as historias muito bem ambientadas no cenário em q se passa as aventuras do cimerio, historias curtas como o são as das públicações, e estas de vçs não ficam deixando nada a desejar se comparado as das HQ´s das quais vçs se inspiram.

    Todas as particularidades e características q fizeram o sucesso das historias de Conan, tb podem ser encontradas aqui.

    Como fan do bárbaro, fico ansioso por ve-lo em mais aventuras criadas por fans com tanta fidelidade as obras oficiais.

  2. Carlos Hentges said, on 16/07/2009 at 16:04

    Salve,

    Na verdade, está funcionando melhor do que o esperado. A primeira e segunda sessões foram independentes, mas a quarta teve relação direta com a terceira.

    Uma situação, porém, está se repetindo na mesa com freqüência: “Desgraçado, não acredito que tu fez isso. Só espera para ver quando eu estiver narrando…(olhar de ameaça)”.

    Agradecido pelos elogios. Todos os méritos para o personagem. Não tem como errar jogando com o Conan.

  3. Carlos Hentges said, on 16/07/2009 at 16:12

    A propósito, esta sessão teve uma participação especial, com um amigo interpretando Plácido e, mais tarde, a gárgula na qual ele se transformou. Apesar de derrotado pela astúcia de Conan, ele ficou muito satisfeito com a chance de dar uns sopapos no bárbaro.

  4. Gói said, on 27/07/2009 at 11:15

    De fato, pareceu mais complicado assim que concebemos a ideia. Também achei que as pequenas diferenças que existem entre a ficha de um sistema e do outro iriam ser complicadores, mas não são. Na verdade são mais uma coisa que está sendo interessante nessa zona toda. O certo mesmo são crânios rachados, deuses mortos e/ou mudanças geográficas. Como surgiu em uma das sessões: “A fé não move montanhas, mas Conan…”

  5. Mr: Bobby said, on 05/06/2010 at 16:00

    Lie muito sobre a espada selvagem do semerio mas teve um em especial que fiquei muito curiosso é quando ele enfretava um gargula que era o guardiçao dde uma torre procurei eñ encontrei

  6. Carlos Hentges said, on 05/06/2010 at 16:32

    Aposto que tu não soube digitar o que queria.


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