The Truth's For Sale

Processo Seletivo – Peça em 1 ato

Posted in Ideias Estranhas, Outros by Carlos Hentges on 18/06/2009

Cenário:
As cortinas se abrem e revelam o amplo salão de um castelo. As paredes são de pedra cinzenta. Há uma pele de urso no chão e armas e brasões sobre uma lareira acesa. Em uma mesa, dois homens analisam alguns papéis. Eles vestem mantos e sabedoria no olhar.

Arabescos:
– Então, acho que são esses.

Zigurates:
– Qualquer um deles dará um ótimo candidato.

Arabescos:
– Finalmente! Não agüentava mais fazer entrevistas. Lembra daquele último?

Zigurates:
– O meio-orc paladino de uma divindade maléfica e obscura?

Arabescos:
– Não, não, o outro. O que o pai era elfo e a mãe anã.

Zigurates:
– Ah, sim… Percebi que ele teve dificuldade para preencher o campo “Raça”.

Arabescos:
– Acha que deveríamos rever essa pergunta?

Zigurates:
– Por quê? Acha politicamente incorreta? Será que podemos ser hostilizados?

Arabescos:
– Nada disso. Apenas seria mais educado pedir por “Categoria”.

Zigurates:
– Não, “Categoria” não pode. Eles vão confundir com “Classe”. Ou, pior, alguns podem achar que estamos perguntando da armadura deles.

Arabescos:
– Estirpe, então, que tal? “Qual é a sua estirpe?”, essa é uma pergunta que dá vontade de responder.

Zigurates:
– Não, não, não! Deixe “Raça”. Esse negócio de estirpe não se parece conosco. É coisa daquele pessoal do castelo no alto da montanha… Frankenstein, Falkostein… Algo assim.

Arabescos:
– Tudo bem. Mas estamos tergiversando. Precisamos nos decidir. Eu tenho uma preferência.

Zigurates:
– Aposto que já sei qual é…

Arabescos:
– É sempre assim. Sempre assim! Sempre que precisamos escolher, você diz isso. Eu não olho só para o Carisma, entendeu?

Zigurates:
– Sei, até parece. Eu vi você babando pelo Carisma dela. 20 não é Carisma para qualquer um, é claro. Exige uma combinação rara de sorte e estratégia.

Arabescos:
– Pois surpreenda-se, então. Eu não fiquei imaginando como o Carisma se acomoda dentro da armadura dela. Escolho o outro candidato. O grandalhão.

Zigurates:
– Não o achou um tanto abrutalhado? Um pouco tosco, até?

Arabescos:
– É, pode ser. Você tem o currículo dele aí. O que diz?

Zigurates:
– A Força e a Constituição são bastante altas. A Sabedoria é de envergonhar um pombo e a Inteligência é razoável.

Arabescos:
– Não precisamos de gênios aqui, ainda que Inteligência sempre ajude, é claro. Essa outra aqui, por exemplo. Não é tão inteligente, mas tem as Habilidades necessárias ao trabalho.

Zigurates:
– É verdade, mas quem tem mais Inteligência aprende mais rápido.

Arabescos:
– Pode ser, se sobreviverem, é claro. Acho que Força de Vontade é uma característica mais importante. Mostra a capacidade de luta e entrega.

Zigurates:
– Força de Vontade?

Arabescos:
– Sim, está aqui. Tem sete bolinhas. Admirável, não concorda?

Zigurates:
– Bolinhas? Mas o que está acontecendo aqui?

Arabescos:
– Acalme-se. Tivemos poucos candidatos na primeira semana. Eu resolvi ousar um pouco e admitir alguns que não havíamos experimentado antes.

Zigurates:
– Pelos deuses, que confusão! Nunca vamos resolver isso. Você disse que ele tinha sete “bolinhas” em Força de Vontade?

Arabescos:
– Sim, isso. Que tal compararmos com a Vontade dos outros. Esse tem +7, por exemplo. Equivalem-se, portanto.

Zigurates:
– Não, não… Isso é um horror. Nunca vai funcionar. Fomos amaldiçoados. Olhe esse, olhe esse!

Arabescos:
– O que é que tem ele?

Zigurates:
– Trinta Habilidades diferentes. E algumas nem tem bolinhas preenchidas. E o que diabos é uma Informática. Nunca ouvi falar de tal arma.

Arabescos:
– Deve ser algo novo, moderno.

Zigurates:
– Elimine esse do processo.

Arabescos:
– Tem certeza?

Zigurates:
– Sim, temos opções demais. Não preciso de alguém usando uma Informática nesse castelo. E se isso for perigoso?

Arabescos:
– Tudo bem, já foi para a lareira. Estamos ficando sem lenha…

Zigurates:
– Chame o criado, ou me ajude a eliminar mais candidatos.

Durante algum tempo, Arabescos e Zigurates se debruçam sobre as folhas. Diversas são jogadas ao fogo, em meio a resmungos.

Arabescos:
– Pés-peludos portador de um fardo, não!

Zigurates:
– Bárbaro com chapéu de chifres, não!

Arabescos:
– Humano, filho de plantadores de abóboras mortos por orcs, não.

Zigurates:
– Elfo, filho de plantadores de pitangas mortos pelos mesmos orcs. Triste, mas não.

Arabescos:
– Guerreiro albino com espada amaldiçoada, não.

Zigurates:
– Ninja. Ninja! NINJA!!! Não.

Arabescos:
– Loira, gostosa, 1,8m de altura. Espada de duas mãos. De nome Álvaro? Pelos deuses, não!

Zigurates:
– Isso é impossível, não há nada que preste aqui.

Lentamente, um encurvado ancião de barbas longas entra no salão. Carrega com dificuldade pedaços de lenha. Com as mãos trêmulas, alimenta vagarosamente a lareira.

Arabescos:
– Então, o que faremos? Como decidir?

Zigurates:
– Ei, Austragésilus! Você ainda tem aquele chapéu pontudo que usou na última festa do escritório?

Austragésilus:
– Tenho, sim senhor!

Zigurates:
– E o manto com as estrelas? É uma beleza aquele manto.

Austragésilus:
– Estão juntos no mesmo baú, senhor.

Zigurates:
– Você vai fazer o seguinte: pegue aquele cabo de vassoura, vista o manto e o chapéu, e vá até a taverna de sempre.

Austragésilus:
– Sim senhor!

Zigurates:
– Vou mandar mensageiros para que esses cinco que sobraram o encontrem por lá.

Austragésilus:
– Sabe que não gosto de contar histórias, senhor.

Zigurates:
– Sim, eu sei, mas você fica ótimo imitando o homem. Toda aquela coisa de destruição, fim dos tempos e tesouro… Você foi feito para o papel.

Austragésilus:
– Obrigado, senhor.

Zigurates:
– Mande-os para o Jardim de Inverno da empresa. O abandonado, sob a montanha, que acabou tomado pelos animais de laboratório do pequeno Ravengar.

Austragésilus:
– Sim senhor!

Zigurates:
– Diga aos sobreviventes que nos procurarem aqui, no escritório, para outra rodada de entrevistas.

Austragésilus deixa a o salão tão lentamente quanto entrou. Arabescos olha com admiração para Zigurates, que começa a organizar os papéis sobre a mesa. As cortinas se fecham.

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3 Respostas

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  1. rsemente said, on 22/07/2009 at 10:34

    Hauhauhhauha, muita viagem!!!

  2. Carlos Hentges said, on 22/07/2009 at 11:00

    Têm razão os que dizem que mãos ociosas são o parque de diversões do Diabo!

  3. Alanuska said, on 30/07/2010 at 18:17

    HAHAHAHAHAHAHA… Eu quase caí de costas quando, àquela altura do campeonato, eles decidem experimentar “Bolinhas”. Fantástico, fantástico!


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