The Truth's For Sale

Hunter: The Vigil – Conseqüências

Posted in RPG, World of Darkness by Carlos Hentges on 04/06/2009

Hunter: The Vigil – Um Sombrio Dito Notável

Capítulo 07 – Conseqüências

Cold days
Cold days

And again he rides in
It’s September and he covets the gullible
Skeletal wish
Hunter
A thousand lies cast from the throne of secrecy.

Opeth – Watershed – Heir Apparent

2009, 20 de Março

Cena 01 – O Turno Noturno

O pior do inverno já passou, mas ainda faz muito frio em Chicago. Especialmente durante a madrugada. Atravessando as alamedas desertas do Lincoln Park, a oficial Lucy O’Hara torce para que seus pés não congelem. É pouco mais de uma da madrugada, e ela sequer chegou à metade do turno. Novata, acreditou que integrar a força-Lincoln Parktarefa montada às pressas para lidar com a guerra de gangues no local era uma boa chance de ascensão. O amortecimento provocado pelo ar gelado discorda.

Os devaneios são interrompidos pela movimentação trinta metros adiante – incursões ao parque são proibidas a partir das 22 horas. E até mesmo os mendigos, que parecem capazes de suportar o frio com indiferença, deixaram os arredores depois um homem foi encontrado fatiado perto Museu Peggy Notebaert de História Natural. Avançando com cautela, O’Hara vasculha a escuridão com uma lanterna. Não demora até que a luz seja refletida por um objeto metálico. Um tripé, com uma câmera montada sobre ele. Logo adiante, atrás de uma pedra, um jovem tenta esconder-se.

– Você, levanta daí.
– OK. OK! Eu não fiz nada.
– Qual o seu nome?
– Mailer. Henry Mailer.
– O que você está fazendo aqui durante a madrugada, Mailer?
– Uma matéria. Com uns moradores de rua. Ia entrevistar um deles.
– Você sabe que o acesso ao parque é proibido a partir das 22, não?
– Sim… Sim… Mas eu tenho uma autorização. Eu não trouxe, mas consegui na Prefeitura.

Enquanto O’Hara reporta à Central do Lincoln Park a abordagem, Mailer começa a desmontar seu equipamento. A ordem é para “tirar a porra desse cara de dentro do parque”.

– Você sabe que não deveria estar aqui, não é?
– Sei… Olha, eu menti antes. Não tinha autorização nenhuma.
– Não tem problema. Eu te tiro do parque, você não volta, e tudo fica bem.
– Você é parte da equipe de policiais do Lincoln Park. Como estão as coisas? Soube do que aconteceu por aqui.

O’Hara é uma novata, mas já entendeu que a polícia também pode ser um instrumento para se fazer política. Preocupado com seus índices de aprovação, o prefeito Richard Daley colocou mais policiais em uma das áreas mais nobres da cidade depois que os índices de criminalidade nas imediações explodiram. Uma conclusão que O’Hara guarda para si.

– As coisas estão melhorando. Mas pessoas sozinhas com equipamento caro não deveriam andar por aqui de madrugada. Não é…
– O que é aquilo
, aponta Mailer.

Recém saídos de uma das casas das imediações, dois homens correm para dentro do Lincoln Park. O’Hara parte atrás deles enquanto comunica o fato pelo rádio. Mais atrás, Mailer começa a retirar o equipamento da mochila.

Cena 02 – Entre Arbustos

Apesar da desvantagem, O’Hara não tem dificuldade para alcançar os dois homens. Correm de forma desordenada, aos tropeções, como que em uma fuga desesperada. Exaustos, ambos tombam em uma clareira, guarnecida por uma barreira natural de vegetação.

A oficial examina-os em busca de ferimentos, armas e alguma identificação. Aparentemente, estão em choque, mas não apresentam mais do que escoriações leves. Um deles tem uma carteira com documentos: trata-se de Jonathan Trager. Arfando, Mailer chega à clareira. A lâmpada da câmera joga um pouco de luz na cena.

– O que houve, oficial O’Hara? Já sabe quem são esses homens? Eles pareciam estar fugindo de alguma coisa.
– Desliga a porcaria dessa câmera, Mailer. E tira essa luz da minha cara, agora!

Enquanto chama uma ambulância, O’Hara é alertada por Mailer. O jornalista diz estar ouvindo algo. Assim que desliga o rádio, a oficial também escuta. É uma respiração. O bosque que os cerca parece estar recuperando o fôlego…

Cena 03 – Abordagem Inexplicável

O Saint Joseph Hospital é uma instituição católica. A maior das imediações. É para lá que a ambulância leva os dois homens encontrados por O’Hara. Na emergência, devido à necessidade de supervisão policial, são colocados em uma sala reservada, de onde podem ser observados por uma parede parcialmente envidraçada. Sedados, devem ficar apagados até a manhã seguinte. Responsável pelo relatório, entretanto, a oficial não tem opção além de esperar que algo improvável aconteça até ser substituída no final de seu turno, às seis da manhã. No caminho do quarto até a máquina de café, ela observa Mailer, tentando farejar alguma história.

Em uma dessas idas e vindas, “porque diabos a máquina fica tão longe”, O’Hara presencia uma discussão acalorada. Um homem jovem e bem-vestido resiste ao segurança, que tenta removê-lo da recepção. O sotaque francês se torna mais evidente na medida em que seu descontentamento aumenta. Sem envolver-se, O’Hara testemunha a retirada, lamentando a falta de educação de alguém tão bonito.

Retornando à cadeira de plástico que lhe cabe, a oficial percebe que alguém está no quarto com os dois pacientes. O estranho tem a mão de um deles, Trager, junto aos lábios.

– Quem é você, e o que está fazendo aqui?

O homem vira o rosto parcialmente. Suas sobrancelhas são grossas e a mandíbula é forte. Mesmo sob as roupas pesadas, é fácil perceber que tem um físico poderoso. Existe qualquer coisa de selvagem em sua aparência. Sem voltar-se, ele passa a manga da jaqueta esportiva sobre os lábios e repousa a mão de Trager no colchão. Dirigindo-se até a porta, caminha como se O’Hara não merecesse atenção. Enrijecendo o corpo, ela está pronta para impedir que o estranho atravesse a porta. Entretanto, olhando no fundo de seus olhos, ele a remove do caminho.

– Afaste-se!

Atônita, ela só percebe o que fez depois que o homem vira em um corredor. Inconformada, e atribuindo o erro ao cansaço, O’Hara verifica que Trager tem um corte na mão. Parece uma mordida. Depois de chamar uma enfermeira, é mal-sucedida na caça ao estranho.

Cena 04 – Despertar

Karl Krueger é o primeiro a acordar. Ao seu lado, uma freira avalia os curativos de seu ombro. Satisfeita com o primeiro sinal de recuperação, explica onde Krueger se encontra, mas deixa os detalhes à responsável pela emergência. Quando a Dra. Jennifer Cameron entra no quarto, Trager também já despertou. Ambos percebem, através dos vidros, a presença de um policial junto à porta do quarto.

Segundo a Dra. Cameron, eles chegaram à emergência do Saint Joseph em uma ambulância chamada pela Polícia de Chicago. Foram encontrados no Lincoln Park, em estado de choque. Nenhum deles apresentou ferimentos mais graves do que pequenas contusões e lacerações leves. Nada com que devam preocupar-se.

Antes de dar alta aos pacientes, a Dra. Cameron avisa que o oficial à porta irá conduzi-los até ao departamento mais próximo. Aparentemente, a polícia deseja fazer perguntas a respeito da noite anterior. Krueger e Trager recebem suas roupas em estado lamentável, manchadas de barro, rasgadas e com folhas. Trager, porém, observa um pequeno tufo de pêlos escuros preso entre as dobras do punho de sua camisa.

Cena 05 – Um Homem Obcecado

O 18º Departamento de Polícia não é dos mais agitados. Localizado quase na divisa entre o Loop, o centro financeiro da cidade, e a região norte, sua área de atuação inclui alguns dos bairros mais nobres de Chicago. A maior parte dos casos diz respeito a furtos e invasões, além de drogas. Nada como o inferno causado pelas gangues que assolam como um câncer o extremo sul, onde os corpos se empilham toda semana.

Entretanto, esse parece ser um dia especial. Os policiais que atuam ali, e também diversos estranhos de outras unidades, transformam o departamento em algo como uma colméia envolvida com o sumiço da rainha. Inicialmente, O’Hara suspeita que o prefeito Daley perdeu de vez o controle sobre o circo que armou. Uma conversa rápida com oficiais mostra que as coisas são ainda mais graves.

– As coisas estão feias por aqui!
– O que está acontecendo? Com esse falatório ao meu redor o relatório vai ficar uma droga.
– Acho que você deveria digitar cada letra com muito cuidado, novata.
– Do que você está falando?
– Os caras que você recolheu no Lincoln Park… A casa de onde eles saíram desabou. E outros dois prédios nas imediações.
– O quê? Sério?
– É isso aí! Pode contar que vai ter muita gente importante lendo esse seu relatório. Já tem conversa sobre terrorismo nos corredores. E estão dizendo que os federais vão aparecer a qualquer momento.

Sentindo-se pressionada, O’Hara leva mais tempo do que de costume para concluir sua análise dos acontecimentos da madrugada. Quando está por encerrar suas considerações, é interrompida por um desconhecido.

– Oficial O’Hara?
– Ela!
– Detetive Vittorino. Homicídios. 21º DP.
– Como posso ajudá-lo, detetive?
– Estou investigando um caso que tem a ver com os dois homens que você encontrou no Lincoln Park. Trager e Krueger.
– Entendo. Estou acabando o meu relatório a respeito.
– Gostaria que você ficasse de olho neles, oficial.
– Do que exatamente está falando?
– Há alguns meses um aluno morreu na Universidade de Chicago. Trager descobriu o corpo. O caso foi encerrado. Suicídio. No começo, eu também achei que era só mais um aluno deprimido cortando os pulsos. Mas semanas depois, uma professora morreu. E outro foi parar numa instituição para doentes mentais. Curiosamente, Trager e Krueger foram vistos na universidade naquele dia. Parece que foi um incêndio que vitimou a professora. E recentemente a irmã de Trager e a sobrinha morreram em um incêndio. Curioso, não?
– E eles são os responsáveis…
– Eu não tenho provas, apenas um palpite. Esses dois atraem coisas estranhas. Acho que estão envolvidos em algo. Cedo ou tarde, eles vão tropeçar. E então, eu vou alcançá-los. Para isso, preciso de sua ajuda.
– Se os casos foram arquivados, não há nada a fazer. Não sou eu quem vai provocar esse tombo.
– Krueger é professor da Universidade de Chicago. Vai agradecer se alguém de dentro do departamento se oferecer para evitar que a história adquira maiores proporções. E Trager perdeu a família. Aposto que vai gostar de contar com a ajuda de alguém que pode fazer com que a investigação ande mais rápido.
– O senhor deve estar me confundindo com o comandante do departamento. Eu não posso fazer nada disso…
– Escute aqui, O’Hara. Estou dizendo que você pode ter sido a primeira a colocar a mão em dois homicidas. Ou, no mínimo, dois cúmplices. Daqui a pouco eles vão ser interrogados. Se não abrirem as pernas agora, logo vão cometer um erro… Eu sei de quem você é filha. Seu velho foi um grande homem para a Polícia de Chicago. Aposto que você não quer ficar na Patrulha para sempre, correndo atrás de batedores de carteira. Estou dizendo que esse caso pode ser a escada de que precisa.
– OK. Vou ver o que posso fazer.
– Eu mantenho contato.

Logo após Vittorino afastar-se, o departamento fica em silêncio. Trager e Krueger chegam para o depoimento.

Cena 06 – Interrogatório

– Vocês estão me dizendo que não lembram de nada? Só pode ser brincadeira.
– É isso mesmo, sargento King, responde Trager. Nós encostamos o carro para conversar. Eu perdi minha irmã e sobrinha recentemente. As coisas não vão bem. O senhor entende, é claro.
– Entendo coisa nenhuma. E, além do mais, tinha gasolina e ferramentas no porta-malas daquele carro. Coisas que poderiam ser usadas para fazer uma bomba. Coisas que poderiam derrubar uma casa…
– Sargento, eu sei que é uma resposta insatisfatória, mas não estamos mentindo
, contemporiza Krueger. Nenhum de nós lembra de coisa alguma. Estávamos conversando e acordamos no Saint Joseph.
– Bem, eu vou te ajudar, então. Vocês entraram naquela casa. Os vizinhos ouviram disparos. E vocês dois têm armas registradas. Duas testemunhas viram vocês deixando a casa cerca de uma hora antes dela vir abaixo.
– Nada daquilo poderia fazer uma bomba, o senhor sabe disso. Eu até concordo que essa amnésia é estranha. No seu lugar, eu não acreditaria.
E, com um sorriso, Trager completa. Mas amnésia não é crime. E essas circunstâncias não seguram aqui nem alguém disposto a confessar o que quer que seja. Se não vai nos liberar, eu quero um advogado.
– Sabe quem pede advogado, Trager? Gente culpada!

A última cartada do sargento Erik King é tão sem efeito quanto as anteriores. Depois de passarem por uma breve análise para verificar se dispararam armas de fogo, e receberem o alerta para não deixarem a cidade, Krueger e Trager são liberados.

Cena 07 – Despedidas

Trager chega ao Cemitério Bosque dos Carvalhos em companhia de David Hoffman, seu editor. Foi ele quem cuidou de todos os preparativos para o funeral. Hoffman manteve silêncio durante a maior parte do trajeto. Ao se aproximarem do estacionamento, entretanto, ele chama atenção ao fato de que o Bosque dos Carvalhos é o cemitério mais antigo de Chicago ainda em uso, tendo recebido um memorial aos soldados confederados que ali foram enterrados durante a Guerra Civil. Trager não se manifesta a respeito. A notícia de que sua irmã e sobrinha dividirão a terra com os restos de seis mil supostos heróis não o emociona.

Ao descer do carro, Trager experimenta a certeza de que não há mais espaço para serenidade em sua vida. Afastando-se das pessoas que esperavam o início da cerimônia, Ronnie Malone caminha na sua direção – o cunhado que ele expulsou da casa de sua irmã. O homem que batia nela. Trager percebe o ímpeto do canalha e ataca antes de ser atacado. O golpe, porém, é desajeitado. Esbravejando, Malone lhe atinge nos lábios, enchendo sua boca de sangue. Levantando-se, Trager revida com uma pedra nas mãos. Antes que as coisas piorem ainda mais, os presentes conseguem afastá-los.

– Onde é que você estava naquela noite? Você me expulsou da minha própria casa. Colocou uma arma na minha cara. E depois, abandonou as duas… Onde você estava, seu merda? A culpa é sua. Elas morreram por sua culpa. Sua! Você não estava lá. E não deixou que eu estivesse.

Com os lábios sangrando e os dentes doendo, Trager é consolado por estranhos e por pessoas que não gostaria de encontrar, como sua ex-esposa. À gentileza ele responde com indiferença.

FuneralTrager senta-se ao lado de sua mãe, Emma. Acompanhada por uma enfermeira da casa de repouso Topo da Colina, a senhora parece não entender o que está acontecendo.

– Esse é o funeral de quem?
– Da sua filha, Victoria, e da filha dela, Mayara.
– Oh… É sempre tão triste quando alguém morre…

Incapaz de lidar com as conseqüências do Alzheimer que aflige sua mãe, Trager prefere afastar-se antes de ter de responder novamente à dolorosa pergunta. Fitando Emma, se pergunta como pagará, sozinho, as despesas de seu tratamento.

O funeral é conduzido pelo Reverendo Patrick Coleridge, da Igreja Episcopal freqüentada ocasionalmente por Victoria. Como nenhum dos presentes manifesta-se para dizer algumas últimas palavras, o sacerdote toma para si a tarefa de expressar a dor de todos. Com os olhos fixos nos de Trager, Coleridge pronuncia-se com firmeza e emoção.

“Hoje, estamos aqui reunidos para dizermos adeus a duas mulheres. Mãe e filha. Vítimas do fogo e da violência da nossa cidade. Que cidade é essa, que condena mãe e filha amadas por sua comunidade? O fogo, que no passado revelava ignorância dos que erroneamente acreditavam estar fazendo o trabalho de Deus, mais uma vez significou a punição imerecida dos inocentes. Nessa noite, porém, quando de nossas camas dirigirmos orações a Mayara e Victoria Trager Malone, que seja na escuridão, diante de velas. Pois a chama de suas existências sempre estará em nossos corações, como um candelabro que nunca se extingue”.

É momento de despedidas. Trager recebe os cumprimentos que não deseja e que não lhe servem. Um dos últimos a lhe falar é o Reverendo Coleridge.

– Não preciso perguntar como você está. Mas preciso saber se ficará bem.
– Eu vou ficar bem. Não é o primeiro golpe. Não será o último.
– Entendo. A sua irmã tinha amigos, Jonathan. Você deveria aceitar a ajuda que eles têm a oferecer.

Com um discreto aceno, Coleridge chama Troy Anderson, afastando-se em seguida.

– Eu estava lá naquela noite, Trager.
– O quê? Do que você está falando?
– Na noite do incêndio. Eu vi o que aconteceu. Mas não conseguimos impedir.
– Quer dizer que você sabe quem matou a minha irmã…
– Sim! Venha até a minha casa esta noite e eu garanto que você vai ter a chance de fazer algo a respeito.

Cena 08 – O Estranho Convite do Senhor Bergmann

Ciente do desconforto do amigo, Krueger manteve-se longe de Trager a maior parte do tempo, despedindo-se discretamente. Sai em companhia de Rudolf Bergmann, que afirma ter sabido do funeral por meio de uma nota publicada no Chicago Tribune.

– Lamentável o que aconteceu com seu amigo.
– Foi um baque. Mas ele vai superar. Demora um tempo…
– Aqueles que partem nunca nos deixam de todo.
– Parece ser o caso de Ellsworth, pelo menos.
– Você fez o que ele pediu em relação aos próprios restos mortais?
– Sim.
– Simon era um homem de segredos. Mesmo assim, eu confiava nele. E, até onde podia, ele confiava em mim. Antes de pedir que você faça o mesmo, me deixe mostrar-lhe algumas coisas a respeito de Chicago.

Trafegando pela região do Loop, Krueger e Bergmann chega até um prédio antigo, de três andares, com evidentes sinais de deterioração.

– Andrew Guilford construiu este prédio. Esse e diversos outros. Da mesma forma que Ellsworth e Burgess, ele tinha uma visão muito peculiar a respeito da arquitetura. Guilford tinha por hábito construir compartimentos secretos em suas obras. Normalmente, salas sem janelas nas fundações dos edifícios. Não se sabe porque fazia isso. Muitos proprietários ficaram surpresos quando descobriram a estranha “assinatura” de Guilford em suas propriedades. Alguns estudiosos sugerem que se tratavam de depósitos para o armazenamento de bebidas durante a Lei Seca. Outros, menos ortodoxos, afirmam que Guilford tinha propósitos místicos ocultos. Nunca se chegou a uma conclusão a respeito.

Três quarteirões adiante, os dois param diante de um prédio recém demolido.

– Você está vendo aqueles policiais parados, junto à equipe de demolição? Sabe o que fazem ali? Esperam para ver se nenhum cadáver vai brotar do meio dos escombros. Nunca se sabe. Muitos corpos foram desovados em prédios por toda a Chicago no período em que a Máfia dominou a cidade.
– Por que você está me contando tudo isso?
– Porque você, Senhor Krueger, é um homem da ciência. Alguém que entende a importância do saber. Alguém que compreende quão vital é a apropriação do conhecimento. O que o senhor não sabe, ainda, é que existem conhecimentos que não são, e não devem ser, da alçada de todos. Guardar em segurança essas informações é tarefa de homens como eu. E, espero, de homens como o senhor. O senhor entende o que estou lhe dizendo?
– Sim, acho que sim.
– Ótimo. Então, em breve, falaremos mais a respeito.

Cena 09 – Abaixo do nível do solo

Trager chega à residência de Troy Anderson por volta das 20 horas. Apesar das fotos de um casal jovem e feliz exibindo uma bela menina, não há sinal da presença de mulher ou criança ali. Poeira, roupa suja, caixas de pizza e garrafas de cerveja decoram um ambiente que parece construído para Trager sentir-se como em casa. Apesar disso, não há espaço para conversas amenas.

– Você disse que sabe o que aconteceu com a minha irmã.
– Sim, eu e um amigo ficamos de
olho, mesmo com você dizendo para a gente fazer o contrário.
– E…
– Três caras apareceram naquela noite.
– O que aconteceu com eles?
– Dois deles a gente acertou. E eles viraram uma pilha de arame, concreto e gesso.
– …
– Você não parece surpreso.
– Porque eu não estou. E o terceiro?

Anderson bate o calcanhar contra o chão.

– Está bem aqui…

Em companhia de Anderson, Trager desce as escadas até o porão. Tanto a porta quando as paredes estão forradas com estrados de madeira, espuma e caixas de ovos. Lá embaixo, sob a luz difusa, um homem aguarda. É Mark Spector. As mãos fortes e repletas de pequenas cicatrizes chamam a atenção de Trager. Ao contrário de Anderson, que é corpulento, Spector é esguio e atlético. O som de correntes sendo arrastadas na escuridão quebra o silêncio.

– O que é isso?
– Eu não te disse que pegamos um deles? Está ali.

Anderson liga uma lâmpada. O porão parece o depósito de ferramentas de uma fábrica muito organizada, com diversos armários fechados com cadeados. Em um canto, vestindo trapos rasgados e sujos, com escoriações e queimaduras pelo corpo, um homem de rosto pálido e contorcido solta um gemido estrangulado. É Adam. Um deles.

Chained– O que vocês fizeram?
– Nós pegamos o homem que matou sua irmã e sua sobrinha.
– É isso aí. Os outros viraram pó, mas esse aí sangra e grita
, completa Spector.
– E o que vocês pretendem fazer agora?
– Você é quem decide.
– Sabem que ele é?
– Ele não fala nada. Apenas fica aí, como uma criança que se perdeu dos pais. Nem parece gente.
– Precisamos saber quem é ele.
– Já disse que ele não fala porra nenhuma.
– Mas tem digitais.
– E por acaso você vai chamar a polícia para olhar os dedos dele?

Spector parece impaciente com a hesitação de Trager. Dirigindo-se até um balcão, ele abre uma gaveta e dali tira um revólver prateado, de cano longo.

– Tudo o que você precisa saber agora é que a arma está carregada.
– Que merda! Você não está achando que eu vou atirar nele?
– Por que não? Ele matou a sua irmã. E a sua sobrinha.
– Não! Não é assim que vou resolver isso.

Trager recusa a arma. E se afasta. Quando está prestes a abrir a porta que leva à saída do porão, o estrondo de um disparo encerra todos os ruídos.

Cena 10 – Contagem de CorposBlood Face

– Oficial O’Hara! Ivan Mendez, do Zoológico Fazenda, reportou distúrbio com os animais. Verifique!

O primeiro acontecimento quente de uma madrugada gélida, pensa O’Hara. Chegando aos portões do Zoológico Fazenda, ninguém espera por ela. Lá dentro, os animais estão agitados. Crianças que aparecem no Lincoln Park durante o dia, querendo conhecer para que serve um touro ou de onde sai o leite de uma vaca, certamente ficariam assustadas.

Mais adiante, a situação é pior. De um estábulo emanam ruídos assustadores. Em meio aos mugidos pode-se ouvir o estrondo dos corpanzis de animais assustados chocando-se contra as paredes. Ali perto, junto a um pequeno lago artificial, jaz o corpo de um homem.

Mendez mal respira quando O’Hara começa a prestar-lhe os primeiros-socorros. Seu peito, pescoço e rosto estão dilacerados. Os cortes sangram em profusão. Coberta do sangue do homem cuja vida tenta salvar, O’Hara mal percebe o que passa ao seu redor. Pelo menos não até certificar-se de que ele sobreviverá.

Resumo de crônica que tem como referência os livros World of Darkness e Hunter: The Vigil, editados pela White Wolf.
Narrador: Carlos Hentges
Jonathan Trager: Vinícius Lopes
Karl Krueger: Lucas Ramires
Lucy O’Hara: Sabrina Teixeira

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