The Truth's For Sale

A Nobre Arte

Posted in Jornalismo, Literatura by Carlos Hentges on 04/11/2008

Jack London foi um grande fã de boxe, que ele chamava de “O Jogo”. Admitira diversas vezes não ter muita por-um-bifepegada, e por isso se especializara em esquivas e fintas. Dizem que em suas viagens, sempre que tinha a oportunidade, desafiava estranhos para uma troca amistosa de socos. Escreveu muito e bem sobre o tema. Claro que essa curiosidade literária de pouco vale para o Turismo Lado B, que calçou as luvas e entrou no ringue.

A primeira sensação é de ansiedade. Do outro lado do quadrilátero está uma pessoa que adentrou o ringue com a intenção de te derrubar a base de pancadas. Para um iniciante, encarar alguém mais experiente, rápido, forte e resistente é obviamente um aprendizado doloroso. Trata-se de um esporte onde, quando tudo dá certo, alguém sai machucado, afinal de contas. Antes do combate propriamente, melhor passar algumas informações.

O treino de boxe é basicamente constituído de repetição e ampliação da complexidade dos movimentos praticados. No começo, aprende-se a andar. Exatamente! Movimentar-se para frente e para trás sem perder o espaço da base que mantém o corpo firme. Andar para os lados sem trançar as pernas e comprometer o equilíbrio. Socos, apenas lentamente e um de cada vez. Recomendam-se ataduras porque, mesmo de luvas, as mãos podem inchar depois de uma sessão no saco de areia (que muitas vezes nem é de areia).

Pular corda, abdominais e alguns exercícios complementares para fortalecimento da musculatura do tronco e braços integram a rotina. Se você tiver a sorte de freqüentar uma academia bem equipada, poderá usar um teto-solo (double end bag) ou uma pêra (speed bag).

Tudo isso vai arrebentar os seus ombros, revelar sua falta de coordenação e, provavelmente, dar fim ao seu fôlego. Quando você estiver se sentindo um farrapo, é hora de encontrar forças para entrar no ringue.

E lá está ele novamente; mais experiente, rápido, forte e resistente do que você. Um ringue não é um moedor de carne (ainda não, pelo menos) e o adversário provavelmente é um cara legal. Mas, cedo ou tarde, se quiser treinar boxe, você vai ter que perder o medo de levar uns murros. Então, já que não será indolor, pelo menos que seja breve.

Impressionante a rapidez com que se descobre que movimentar as mãos uns poucos centímetros para defender-se é uma tarefa complexa. As luvas tornam-se mais pesadas a cada instante, e parecem estar sempre protegendo as partes erradas do corpo. Quando consegue ver o adversário, se pergunta como ele avança, recua, esquiva e bate com tanta naturalidade. Não fosse o estremecimento provocado pelos golpes, poderia se chamar de suave o seu estilo.

Existem duas formas de descobrir se você tem a tarimba para O Jogo. A primeira é quando você leva um golpe mais forte e, em vez de recuar, tira alguma força disso, nem que motivada pela raiva momentânea. A outra ocorre quando, ao sentir o estofamento da luva se afundando no corpo do adversário, você percebe que gosta do som surdo produzido por um soco.

Talvez o rosto fique um pouco inchado, o nariz e a mandíbula doloridos, as mãos vermelhas. Mas essa é a Nobre Arte, e ela exige algum sacrifício.

Publicado originalmente no Turismo Lado B.

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