The Truth's For Sale

Literatura Copiada: O Grande Vazio

Posted in Literatura by Carlos Hentges on 05/09/2008

Norman Mailer e John Buffalo Mailer

O Grande Vazio – Diálogos sobre política, sexo, Deus, boxe, moral, mito, pôquer e má consciência na América

A força do capitalismo traz em seu bojo também a sua fraqueza. Pois o capitalismo é a cobiça. O que o torna forte é que existe criatividade misturada à cobiça. Não há dúvida quanto a isso. Parece que já foi demonstrado que o capitalismo gera mais criatividade do que o socialismo. Contudo, há um preço – aliás, previsível: a cobiça passa a vir em primeiro lugar. A cobiça se torna respeitada, e esse é o início de muitas novas corrupções e horrores.

Por pior que seja a guerra no Iraque até agora, o Vietnã foi pior. Ficamos lá com força total durante dez anos. Quase 60 mil soldados nossos foram mortos, e 2 milhões de cidadão asiáticos. O que é imediatamente comparável ao Iraque é que o argumento lógico para estarmos no Vietnã demonstrou ser falso. (…) A grande diferença é que no Iraque nós exacerbamos os dois principais ramos de uma religião que vem exercendo o poder sobre seus seguidores há mais de treze séculos. O comunismo só existia desde 1917 – ou seja, em 1967 tinha apenas cinqüenta anos de existência. Suas raízes históricas não eram tão profundas, nem de longe. Não é tanto o número de vítimas no Iraque até agora que pesa sobre nós, mas a perspectiva de um século de intermináveis atos terroristas, que nós conseguimos agitar, mas não sabemos com extinguir pela força militar.

Como flag-con, ele (George W. Bush) está rodeado pelos magnatas da indústria do petróleo, mais os neoconvervadores, e ainda os militares mais entusiasmados. Estes últimos acreditam que, já que nós criamos a maior máquina de guerra da história mundial, é realmente uma pena não usá-la. Esses três diferentes grupos se uniram em torno de uma idéia que eu chamaria de “excepcionalismo”. Os mais ideológicos entre eles acreditam que, quando a Guerra Fria terminou, era dever dos Estados Unidos dominar o mundo. Eles acreditam que Deus quer que a América governe o mundo. E há um número enorme – aliás, excessivo – de americanos que acreditam nisso.

“Naturalmente, as pessoas comuns não querem a guerra; mas, afinal, são os líderes de um país que determinam a política a seguir, e sempre é bem simples arrastar as pessoas conosco, quer se trate de uma democracia, um governo fascista, um parlamento ou uma ditadura comunista. Quer o povo tenha voz própria, quer não, sempre se pode levá-lo a fazer a vontade dos líderes. Isso é fácil. Basta lhe dizer que ele está sendo atacado, e denunciar os pacifistas por sua falta de patriotismo e por expor o país ao perigo. Isso funciona da mesma maneira em todos os países”. Palavras de Hermann Goering falando nos Julgamentos de Nuremberg, após a Segunda Guerra Mundial.

Hipóteses vívidas. Nenhuma delas se segurou. Na ocasião nós não aprendemos, e continuamos sem concordar sobre o motivo que nos fez embarcar nesta mais infeliz das guerras. O princípio da Navalha de Occam sugere que a explicação mais simples capaz de responder a diversas perguntas sobre uma questão intrigante será, provavelmente, a explicação mais correta. Uma resposta pode surgir, então, a partir da fórmula daquele bom filósofo: nós marchamos para uma guerra total porque foi a solução mais simples para o presidente e o seu partido conseguiram encontrar para o impasse imediato em que o país se encontrava (Além disso, uma guerra autenticaria sua presidência, conquista na apuração de votos da Flórida). Sim, e como precisávamos de uma solução para nossos problemas urgentes!

Essa tentativa de dominar a mente popular americana não deixou de ter sucesso, mas ela gera uma nova e grande hipótese, segundo a qual o povo americano foi sistematicamente, até programaticamente, iludido, de cima para baixo. (…) Com uma determinação que só pode ser engendrada por um profundo desprezo pela mente popular, eles nos venderam a idéia de que esta guerra seria honrosa, necessária, autoprotetora, decente, frutífera para a democracia e dedicada a todas as formas de bondade humana. A meu ver, no mais alto escalão a sinceridade era quase zero. Os líderes desse país forçaram que forçaram essa guerra não era idealistas, nem inocentes. Sabiam o que estavam fazendo. Era básico. “Fazer o que for necessário”. Já havia decidido que, para a América conseguir resolver seus problemas, ela tinha de se tornar um império. Para o capitalismo americano sobreviver, a doutrina da exceção, e não da cooperação com outros países adiantados, se tornou uma necessidade. Do ponto de vista deles, haviam se perdido dez anos de iniciativa. Foram dez anos na geladeira; mas agora o país tinha a oportunidade de aproveitar de novo a mina de ouro que lhe coubera em 1991, quando a União Soviética foi à falência na corrida armamentista. Naquele momento – ou assim acreditavam os excepcionalistas -, a América podia e devia ter tomado conta do mundo, e assim salvaguardar o nosso futuro econômico durante décadas, pelo menos, seguidas por um século de hegemonia.

Uma democracia depende da inteligência do seu povo. Com isso, não me refiro à inteligência literária ou mesmo verbal. Não; é estar pronto para encarar as perguntas difíceis e não procurar respostas rápidas. Pode-se medir a verdadeira inteligência por essa capacidade de conviver com uma pergunta difícil. E o patriotismo, quando é engolido, sentimentalizado e, portanto, rebaixado, é uma das forças mais poderosas que existem para fazer proliferar a estupidez, a burrice.

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