The Truth's For Sale

Literatura Copiada: Admirável Mundo Novo

Posted in Literatura by Carlos Hentges on 01/09/2008

Aldous Huxley

Admirável Mundo Novo

Era conveniente, porém, que essa idéia fosse o mais resumida possível se se quisesse que, mais tarde, eles fossem membros disciplinados e felizes da sociedade, dado que os pormenores, como se sabe, conduzem à virtude e à felicidade, e as generalidades são, sob o ponto de vista intelectual, males inevitáveis. Não são os filósofos, mas sim aqueles que se entregam às construções de madeira e às coleções de selos, que constituem a entranha da sociedade.

Homens e mulheres conformes ao tipo normal, em grupos uniformes. Todo o pessoal de uma pequena fábrica constituído pelos produtos de um único ovo bokanovskizado. Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo trabalhar noventa e seis máquinas idênticas! – A sua voz era quase vibrante de entusiasmo. – Pela primeira vez na história, sabe-se perfeitamente para onde se caminha. – E citou a divisa planetária: “Comunidade, Identidade, Estabilidade”.

Até que o espírito da criança seja essas coisas sugeridas e que a soma dessas coisas sugeridas seja o espírito da criança. E não apenas o espírito da criança, mas igualmente o espírito do adulto, e para toda a vida. O espírito que julga, deseja e decide, constituído por essas coisas sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que nós sugerimos, nós!

Discursos sobre a liberdade do indivíduo. A liberdade de não servir para nada e de ser miserável. A liberdade de ser uma cunha redonda num buraco quadrado.

Sim, um pouco competente em demasia. Eles tinham razão. Um excesso mental tinha produzido em Helmholtz Watson efeitos muito análogos aos que, em Bernard Marx, eram resultado de um defeito físico. Uma insuficiência óssea e muscular tinha isolado Bernard dos seus semelhantes e o sentimento que ele possuía de ser um indivíduo à parte era considerado, segundo as normas correntes, um excesso mental, o que, por sua vez, se tornava uma causa de afastamento mais acentuado. O que tão desagradavelmente dera a Helmholtz consciência de si próprio e de estar totalmente só era um excesso de capacidade. Estes dois homens tinham em comum a consciência de serem indivíduos. Mas enquanto Bernard, o fisicamente deficiente, sofrera toda a sua vida pela consciência de ser um indivíduo à parte, Helmholtz Watson, pelo contrário, só muito recentemente, tendo conhecimento do seu excesso mental, compreendera igualmente o que o diferenciava daqueles que o rodeavam.

Sim, a civilização é a esterilização.

Ele detestava cada vez mais Popé. Um homem pode prodigalizar sorrisos e não passar de um celerado. Traidor, devasso, celerado sem remorsos e sem bondade. Que significavam exatamente essas palavras? Não sabia ao certo. Mas a sua magia era poderosa e continuava a bramir na sua cabeça, e sentiu-se, sem saber porquê, como se nunca tivesse realmente detestado Popé, como se antes nunca o tivesse verdadeiramente detestado, porque nunca pudera dizer até que ponto detestava. Mas entretanto possuía aquelas palavras, aquelas palavras que se assemelhavam aos tambores, aos cantos e às fórmulas mágicas. Essas palavras e a história estranha, estranha, donde eram tiradas (ela não tinha, para ele, nem pé nem cabeça, mas era maravilhosa, apesar de tudo, maravilhosa), davam-lhe um motivo para detestar Popé. E tornavam-lhe o seu ódio mais real, tornavam-lhe mais real o próprio Popé.

A sua elevada capacidade intelectual cria também responsabilidades morais. Quanto maior é a capacidade de um homem, mais possibilidades tem de desencaminhar os outros. Mais vale o sacrifício de um só do que a corrupção de muitos. Encare o caso desapaixonadamente, Sr. Foster, e verificará que não há crime mais odioso que a falta de ortodoxia na conduta. O assassínio mata apenas o indivíduo. E que significa, afinal de contas, um indivíduo? – Com um gesto largo, designou as fileiras de microscópios, de tubos de ensaio, de incubadores. – Sabemos produzir um indivíduo novo com a maior facilidade, tantos quantos quisermos. A falta de ortodoxia ameaça coisas que ultrapassam a vida de um simples indivíduo: atinge a própria sociedade.

Devido às suas idéias heréticas acerca do desporto e do Soma, pela escandalosa irregularidade de sua vida sexual, pela sua recusa em obedecer aos ensinamentos de Nosso Ford e por se conduzir fora das horas de trabalho “como um bebê de proveta” – neste ponto do discurso o Diretor fez o sinal do T -, revelou-se como um inimigo da sociedade, um homem subversivo, senhoras e senhores, em relação a toda ordem e toda a estabilidade, um conspirador contra a própria civilização.

O sucesso subiu à cabeça de Bernard como um vinho capitoso e o curso dos acontecimentos reconciliou-o completamente (como deve fazê-lo um bom produto embriagador) com um mundo que, até então, tinha considerado bem pouco aprazível. Enquanto esse mundo continuasse a reconhecer-lhe a importância, a ordem das coisas parecia-lhe boa. Mas, ainda que reconciliado com o seu sucesso, recusou, todavia, renunciar ao direito de criticar essa ordem, pois o fato de criticar exaltava nele o sentimento da sua importância, dava-lhe a impressão de ser maior. Além disso, estava sinceramente convencido da existência das coisas criticáveis (Ao mesmo tempo, agradava-lhe sinceramente ter sucesso e possuir todas as mulheres que quisesse).

Mas gostam de ser escravos? – perguntava o Selvagem quando penetraram no hospital. Tinha o rosto inflamado e os olhos flamejavam de horror e indignação. – Gostam de ser bebês? Sim, bebês, vagindo e babando-se – acrescentou, exasperado ante aquela estupidez bestial, a ponto de injuriar aqueles que se tinha proposto salvar. Os insultos ressaltaram contra a carapaça de estupidez espessa; eles encaravam-no com os olhos cheios de uma expressão vazia de ressentimento embrutecido e sombrio. – Sim, babões – vociferou impiedosamente. A dor e o remorso, a compaixão e o dever, tudo isso tinha sido esquecido agora e de qualquer maneira absorvido por um ódio intenso que dominava tudo o que se referia àqueles monstros menos que humanos. – Vocês não querem ser livres, ser homens? Nem sequer compreendem o que é ser homem, o que é a liberdade? – A raiva fazia dele um orador coerente, as palavras ocorriam-lhe facilmente, em fluxo cerrado. – Vocês não compreendem? – repetiu ele. Mas não recebeu resposta. – Pois bem – afirmou em tom feroz -, então vou ensinar-lhes: vou impor-lhes a liberdade, quer queiram quer não! – E, entreabrindo uma janela que dava para o pátio interior do hospital, pôs-se a deitar fora, aos punhados, as caixinhas de comprimidos de Soma.

Porque o nosso mundo não é o mesmo de Otelo. Não se podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas, estão de tal modo condicionados que, praticamente, não podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa corre mal, há o Soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade, Sr. Selvagem.

A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as largas compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como espetáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o fato de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação e ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.

A felicidade é uma soberana exigente, sobretudo a felicidade dos outros. Uma soberana bastante mais exigente, se não estamos condicionados para a aceitar sem discussões, que a verdade.

Há sempre o Soma para permitir uma fuga da realidade, há sempre o Soma para acalmar a cólera, para fazer a reconciliação com os inimigos, para dar paciência e para ajudar a suportar os dissabores. Outrora não de podiam conseguir todas estas coisas senão com grande esforço e depois de anos de penoso treino moral. Agora tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama, e é tudo. Pode-se trazer conosco, num frasco, pelo menos metade da própria moralidade. O cristianismo sem lágrimas.

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