The Truth's For Sale

Cartas Selvagens I – O Despertar

Posted in Mutantes&Malfeitores, RPG by Carlos Hentges on 01/07/2008

29/06/2008 – 1º Dia

Abrindo os Olhos

A primeira sensação ao abrir os olhos é de que não o fazia há muito tempo. Mesmo sob a luz tênue das lâmpadas de emergência – que revela um quarto de hospital com outras duas camas ocupadas – o efeito é desagradável.

No braço direito, uma grossa camada de esparadrapos esconde uma agulha. Os hematomas ao seu redor revelam que ela está aí há muito tempo. A bolsa que despejava algo parecido com soro em suas veias encontra-se vazia. Examinando o próprio corpo, descobre diversas cicatrizes, algumas antigas, outras recentes. Essa constatação, somada a total ausência de memória, criam um sentimento alarmante.

O ocupante da cama ao lado é um gigante, com mais de dois metros de altura. O outro é comum. Alguém em quem se tropeça na rua sem perceber. Sem se importar com eles, vai até a porta. Trancada. Enquanto estuda o que fazer, seus companheiros acordam.

Não trocam palavras. O gigante, sob a mesma incômoda sensação nos olhos, aperta o botão de emergência, mas ninguém responde. Frustrado, simplesmente o arranca da parede, junto com parte do reboco. Enquanto os recém despertos se ocupam de analisar a porta, ele observa a existência de prontuários médicos juntos às camas.

Ás V – C0139 November é o que está escrito na sua ficha. O conteúdo revela que foi removido ao local para “exames em nível cromossômico”. Abaixo, vê a data de chegada, 15/01/2008. A última anotação, referente a uma avaliação de rotina, foi feita em 20/06/2008. Ás II – C0003 Alpha e Ás V – C0246 Delta são os códigos que identificam seus companheiros. Nenhum tem lembranças anteriores ao despertar, e compartilham das mesmas cicatrizes. Alpha, porém, lembra de um nome: Nathan.

Subterrâneo

Nathan demonstra uma capacidade muscular descomunal, mesmo para os seus mais de dois metros de altura e 160 quilos. Com as mãos nuas, empurra a porta metálica até que as dobradiças cedam. Ainda que se impressionem, Delta e November não se surpreendem de todo. Em seu íntimo, já são capazes de sentir que neles também há algo diferente.

O corredor revela outra porta arrombada. É idêntica àquela de onde Nathan, Delta e November saíram. O primeiro constata, pelas marcas, que o metal foi submetido a golpes poderosos antes de ser destroçado. Enquanto November apenas especula sobre a estranha situação, Delta chama atenção para a inscrição nas duas portas: Perigo Biológico – Não entre sem proteção.

O quarto adjacente é idêntico ao que os três se encontravam, com exceção de um detalhe. Apenas uma cama. O prontuário revela outro código – Ás III – C0427 Foxtrot. A identificação confirma a suspeita de que os dados, de alguma forma, são organizados segundo um código de comunicação militar.

Depois de passar por uma área de esterilização, o grupo se depara com um laboratório. Como todo o resto do ambiente, está iluminado apenas por luzes de emergência. Os três circulam pelo local, buscando informações a seu respeito. Na ausência de documentos físicos ou amostras nos freezers, Delta manifesta sua capacidade pela primeira vez, quando adquire uma aparência metálica resistente o bastante para rasgar o gabinete de um dos computadores com as mãos, do qual ele remove o hard disk.

O Hospital

Após escalar o fosso do elevador sem maiores dificuldades, Nathan, Delta e November chegam ao andar térreo. Apesar dos móveis, é óbvio que o hospital está vazio há dias. A atenção do grupo se volta ao som vindo do lado de fora do prédio. Uma multidão de cerca de duzentas pessoas se aglomera no estacionamento para ouvir alguém que discursa:

Sim, vocês lembram. Em 1997 eles nos pediram desculpas. O presidente esteve aqui pedindo desculpas. Disseram que foi um erro. É claro que foi um erro! Um erro que durou quarenta anos para ser descoberto. Durante quarenta anos nossos homens foram testados. Eram cobaias. Sim, eles consertaram tudo. Pagaram indenizações e pediram desculpas. Mas agora, nos tiram o hospital. Fecham suas portas e negam atendimento à população carente…

As palavras inflamam a população. Os mais exaltados arremessam tijolos e pedras. Vidros se partem. Deixar o local é a melhor opção. Mas como fazer isso? A porta do saguão leva diretamente aos braços da multidão exaltada.

Após se livrarem dos aventais típicos de pacientes e vestirem uniformes de enfermeiros, os três se dirigem ao estacionamento, no subsolo. Confirmam a expectativa de encontrar uma ambulância. Enquanto Delta avalia a resistência da porta da garagem, November argumenta que o veículo é chamativo demais para uma fuga discreta. Nathan, por sua vez, encontra as chaves em um almoxarifado.

Sua atenção, porém, é despertada pelo barulho da multidão em frente ao hospital. Ao invés de gritos e palavras de ordem, um murmúrio de desaprovação. Junto a uma janela, Nathan constata a aproximação de caminhões e jipes pintados com padrões de camuflagem: o Exército chegou.

Tuskegee/AL

Deixando o hospital pelos fundos, os três caminham por cerca de trinta minutos através de um bosque, até chegarem a um perímetro urbano. As placas dão a primeira informação a respeito de sua localização: Tuskegee, Alabama. Nada lhes é familiar, e a sensação de estranheza apenas aumenta.

Sem dinheiro ou documentos, em uma cidade com a presença do Exército, precisam pensar rápido a respeito de quais são as suas possibilidades. A primeira idéia é conseguir transporte. November o faz sem uma palavra. Abordando um homem que entrava em casa, consegue que este lhe entregue as chaves do carro, enquanto Nathan toma as compras, em busca de comida.

É o que eu faço. Eu controlo as pessoas, reconhece November.

30/06/2008 – 2º Dia

Abordagem Policial

Delta é o primeiro a acordar quando a viatura encosta do outro lado da estrada. Sem dinheiro, os três decidiram buscar um lugar afastado para passar a noite. Enquanto November dormiu no bando de trás, Delta e Nathan tentaram arrancar algum conforto do chão.

Ao se aproximar, o policial pede se está tudo bem. Supõe inicialmente que Delta tenha sido vítima de algum acidente. Assim que ele constata a presença de Nathan e November, sua postura se torna mais desconfiada. Imediatamente ele exige documentos de todos. Tudo que tem a oferecer são os papéis do automóvel. A situação seria facilmente controlável, caso November conseguisse exercer sua vontade. A impossibilidade cria uma situação tensa, e Nathan percebe que a qualquer momento Delta pode atacar.

O patrulheiro ordena que os três permaneçam fora do veículo. Ele observa a placa e se dirige até a viatura. Quando toma o rádio nas mãos, algo estranho acontece. Ele se vira na direção da estrada e, fitando o vazio, grita uma ordem. Imediatamente, corre cerca de trinta metros e se embrenha na mata. É a deixa para que os três dêem meia-volta e acelerem. November explica que, apesar de não conseguir controlar as ações do policial, foi capaz de projetar uma ilusão em sua mente.

Os três relaxam avaliando as possibilidades disso em uma mesa de Las Vegas. Sem saber, Delta emite uma frase repleta de significados obscuros:

Quem vai estar fodido com esses poderes é o crupiê.

Informações

A rápida naturalidade com que encaram suas aptidões leva à sua banalização, quando, para conseguir alguns jornais, November controla a mente de uma atendente de posto de gasolina ao mesmo tempo em que cria a ilusão de que deixou o dinheiro do combustível sobre uma das bombas.

Entretanto, as considerações a respeito perdem o valor diante das notícias do Montgomery Advertiser e The Tuskegee News. O pequeno jornal local, publicado dois dias antes, informa que o Hospital do Alabama para Veteranos encerrou as atividades na semana anterior. De forma súbita e inesperada. O Departamento de Assuntos dos Veteranos, responsável pela administração das unidades, informa que o hospital passará por melhorias antes de ser reaberto ao público. Nenhuma data é informada. As mesmas informações são reproduzidas no diário da capital do Alabama.

O Reverendo Thomas Jones

Não é difícil descobrir o endereço da Igreja da Divina Inspiração. O local, onde são celebrados os cultos, é de aparência simples. Entretida com a limpeza do chão, apenas uma mulher pode ser avistada. Martha é pouco amistosa com os três brancos estranhos pedindo a respeito do reverendo Thomas Jones. Apesar disso, concorda em chamá-lo, após o pedido vigoroso de Nathan.

Thomas Jones é um homem na casa dos cinqüenta anos, negro, um pouco acima do peso e de olhar tranqüilo. Assim que ele se apresenta, não resta dúvida de que era ele no comando da multidão na noite anterior.

Ele se ressente dos acontecimentos, especialmente da depredação e a subseqüente resposta dura do Exército, cuja chegada foi inesperada. Nathan lhe mostra os prontuários que estavam juntos às suas camas, e afirma que eles estavam no subsolo do hospital, sendo cobaias, como aquelas que o reverendo mencionou em seu discurso. Jones fica confuso, e acaba sendo induzido pelas palavras de November. Eles são veteranos que ficarão sem atendimento. Estão abalados. Contavam com aquilo. Onde poderão procurar ajuda agora?

Guardando algumas suposições para si, o reverendo informa que em Montgomery, capital do Alabama, existe um hospital semelhante. Claro que isso não é um alívio para a população carente de Tuskegee.

A respeito de seu discurso, Jones afirma que estava fazendo referência à Pesquisa de Sífilis de Tuskegee, na qual, entre 1937 e 1977, dezenas de homens foram usados como cobaias para estudo do avanço da doença, enquanto recebiam apenas placebo para o tratamento. Herman Shaw é o nome do único sobrevivente. O grupo combina de encontrar o revendo naquela tarde, para lhe fazerem uma visita.

Perseguição

Enquanto deixa a Igreja da Divina Inspiração, o grupo confabula. Delta afirma possuir capacidade para entrar no Hospital do Alabama para Veteranos sem ser notado, e poderia descobrir que está à frente das operações. Nathan acredita que pode vencer todo o Exército. November pergunta de que adiantaria, e o que poderiam descobrir.

A troca de idéias é interrompida logo após entrarem no carro. Um jipe com soldados passa ao lado deles. O Exército está nas ruas. Certamente já são procurados. Mas fugir não é uma opção.

Decidem seguir o veículo. A discrição permite que estabeleçam a rota cumprida pelo grupo, mas não é o bastante para que passem despercebidos. Nathan constata pelo retrovisor a aproximação de um segundo jipe. Para surpresa dos outros ocupantes, Delta assume sua forma metálica e escorre como água até o asfalto. No chão, completamente camuflado, ele golpeia um dos pneus. O rasgo obriga o veículo a parar, encerrando a perseguição. Ainda mesclado ao asfalto, Delta envolve o jipe, permanecendo invisível aos ocupantes.

November e Nathan, enquanto isso, se aproximam do primeiro grupo de soldados. Antecipando sua rota, criam a oportunidade para que November aviste o condutor e exerça seu poder mental sobre ele. Sob seu controle, o motorista encaminha o veículo na direção de um local ermo, indiferente aos protestos dos companheiros.

Confronto

Assim que Nathan e November se aproximam do jipe, os soldados notam sua presença. E os reconhecem. Apontando os fuzis, fazem sinais para que encostem imediatamente. Nathan encosta e sai do carro. Os quatro soldados fazem o mesmo. Calmamente, o gigante caminha na direção do grupo. E ruge. A combinação da imponência física e o urro primitivo ativa algo no fundo dos cérebros de cada soldado. Dois deles largam as armas e fogem imediatamente. Um deles recua, atordoado. O último atira. O disparo, porém, passa longe de Nathan, mas estilhaça o pára-brisa, para desespero de November.

Vencendo a distância que o separa dos soldados com poucos passos, Nathan salta. Na queda, atinge o solo com violência o suficiente para estilhaçar o asfalto e fazer o jipe vibrar. Ambos os soldados caem. Um deles encontra perseverança para atirar mais uma vez, mas os projéteis ricocheteiam no corpo do alvo. Nathan agarra um dos fuzis e o quebra com as mãos. Em instantes, o jipe está virado e os dois soldados, subjugados.

Temendo pelo pior, November exerce seu controle mental sobre Nathan. Apenas o bastante para que o gigante não faça vítimas fatais e perceba a aproximação do segundo grupo de soldados que os perseguiram mais cedo. Imediatamente, ele corre na sua direção. Ao mesmo tempo, Delta assume sua forma sólida, com força e peso suficientes para conter o avanço do veículo.

Delta atinge a traseira do veículo, alertando os ocupantes. Ao mesmo tempo, Nathan se aproxima do veículo e golpeia o capô brutalmente. Enquanto isso, November manobra o carro para proteger-se ao mesmo tempo em que ataca diretamente a mente de um dos soldados. Em retaliação, os quatro atiram. O fogo combinado vence a rijeza de Nathan, ferindo-o no ombro. O metal do corpo de Delta também não resiste o bastante para protegê-lo completamente.

Transformando todos os seus músculos e ossos em metal, Delta adquire força o bastante para virar o jipe. O resultado, porém, é trágico. Dois dos soldados acabam embaixo do veículo, esmagados. Os outros dois acabam sendo dominados facilmente. Mais do que um interrogatório, Nathan tortura um dos soldados em busca de respostas. O homem grita apenas o nome do responsável pelas operações do Exército com base no Hospital para Veteranos do Alabama: Tenente Robinson.

Mais tarde, November reconheceria que usou seu poder contra Nathan, o que por muito pouco não provoca um desentendimento potencialmente fatal.

Epílogo

É hora de sair de Tuskegee. Delta, Nathan e November conseguem uma caminhonete da mesma forma que fizeram antes, e deixam um dos soldados e o proprietário no porta-malas do antigo veículo. Seu destino é Montgomery, capital do Alabama.

Resumo da Campanha Cartas Selvagens, que utiliza o sistema de regras do livro Mutantes & Malfeitores, da Green Ronin/Jambô.
Narrador: Carlos Hentges
Delta: Brunetto
Nathan: Gói
November: Luiz

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