The Truth's For Sale

London em Londres V – Conclusão e Bibliografia

Posted in Jornalismo, Literatura by Carlos Hentges on 17/06/2008

Não se tem notícia, além das críticas positivas recebidas por Jack London após a publicação de O Povo do Abismo, sobre a maneira como a obra, isoladamente, afetou seus leitores. Certamente afetou o autor, pois deu início a uma escalada que culminaria em títulos como O Tacão de Ferro e Martin Éden, todos impregnados de forte crítica social, amparadas na sua crença a respeito do aprimoramento da sociedade através da aplicação dos preceitos marxistas do Socialismo.

Jack London foi um combatente que saiu da miséria para transformar-se no escritor mais lido e bem pago de sua época. Ainda que, segundo críticos, tenha sido o primeiro exemplar de autor norte-americano a verdadeiramente conhecer os caminhos para a criação de um mito em torno de sua pessoa, é certo que viveu diversas vidas no período de uma única e breve existência. Teve tempo, inclusive, para deixar de ser um socialista, seis meses antes de sua morte. Alegou que o Partido havia perdido sua capacidade de ênfase na importância da manutenção da luta de classes.

A pergunta que se impõe a partir desse fato, e esse trabalho não encontrou meios de responder, é a seguinte: não fosse Jack London um ferrenho defensor do Socialismo, seria diferente o conteúdo impresso nas páginas de O Povo do Abismo?

Uma resposta, simplista, e, portanto, com a capacidade de encerrar prematuramente este trabalho, seria: se Jack London não fosse um socialista, não haveria O Povo do Abismo. Ponto.

A afirmação vai contra uma colocação feita por Jack London quando questionado a respeito de que seus livros, todos eles, deveriam abordar a causa socialista. Teria respondido: “primeiro sou um homem, depois sou um escritor, e depois sou socialista”. Menos do que diminuir o papel dos preceitos marxistas em sua vida, a colocação evidencia a importância da literatura e do ser humano para London.

Mas isso ainda não responde a questão inicial. Não fosse Jack London um ferrenho defensor do Socialismo, seria diferente o conteúdo impresso nas páginas de O Povo do Abismo?

Talvez pode ser a única resposta precisa. Retomemos o que disse Truman Capote a respeito do resultado do fazer jornalístico.

Tudo que consta aqui é factual, o que não significa que seja a verdade, embora dela se aproxime o quanto pude conseguir. O jornalismo nunca pode ser totalmente puro – e nem a câmera, pois afinal a arte não é água destilada: impressões pessoais, preconceitos e a seletividade subjetiva comprometem a pureza da verdade cristalina. (CAPOTE, 2006, p. 10).

Ora, conclui-se que a “verdade” de O Povo do Abismo é também a “verdade” de seu autor. Os livros de História quando tratando do período, pode-se conferir, dizem a mesma coisa que afirmou Jack London. A diferença é que o fazem de uma distância segura. Optando por um ponto de vista menos confortável, o escritor buscou apresentar a sua “verdade” com socialismo, jornalismo e literatura, elementos que isoladamente podem até ter entrado no East End de Londres, mas nunca o haviam feito, até então, de forma conjunta.

A combinação se deveu à necessidade de combater a Espiral do Silêncio, ainda que a hipótese então não existisse, e fosse conhecida por outros nomes quando compreendida em relação àquela população de maneira específica: descaso, indiferença, invisibilidade. Tanto que se pode detectar em O Povo do Abismo um anúncio mal-disfarçado do desejo de Jack London pela precipitação de uma revolução, qualquer revolução, que seja capaz de tirar a população londrina de sua condição desumana.

São uma nova espécie, uma raça de selvagens urbanos. As ruas e as casas, becos e vielas são seu campo de caça. As ruas e construções são para eles o que os vales e montanhas são para o selvagem natural. Os bairros miseráveis são sua selva, e eles moram e caçam na selva. As pessoas bondosas e delicadas que freqüentam os teatros e vivem nas belas mansões do West End não vêem essas criaturas nem sonham que elas existem. Mas elas estão ali, vivas, bem vivas em sua selva. Maldito seja o dia em que a Inglaterra estiver lutando em sua última trincheira, com seus homens mais preparados na linha de tiro! Porque nesse dia eles vão rastejar para fora de suas tocas e covis e as pessoas do West End vão vê-los, assim como os bondosos e delicados aristocratas da França feudal os viram e perguntaram uns aos outros: “De onde vieram? São humanos?”. (LONDON, 2004, p. 292).

Este é, não resta dúvida, um trabalho incompleto, e também, espera-se, um ponto de partida. Se fomos capazes de demonstrar a importância da formação do autor na construção de sua obra, e como a dinâmica entre as técnicas do jornalismo e da literatura pode beneficiar o conteúdo e a compreensão do trabalho de reportagem, não foi possível dar conta de aspectos como a abordagem pré-existente na relação entre a imprensa e o proletariado socialista.

Igualmente, ficamos aquém do desejado no que diz respeito a análise da hipótese da Espiral do Silêncio. Na ausência de dados que permitissem a realização de um comparativo entre o trabalho publicado por Jack London em 1903 e o realizado pela imprensa britânica no mesmo período a respeito do tema, buscamos compensação dirigindo a análise no sentido de traçar paralelos entre os passado e o presente. Mesmo não sendo o procedimento considerando por nós o mais adequado, tornou possível apresentar algumas considerações entre a hipótese e o papel dos meios de comunicação em um contexto, acreditamos, ainda pouco explorado.

Referências Bibliográficas:

BETTI, Maria Sílvia. Jack London, um homem do seu tempo. In. London, Jack. O Povo do Abismo: Fome e miséria no coração do império britânico – uma reportagem no início do século XX. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

CAPOTE, Truman. Os Cães Ladram. Porto Alegre. L&PM Editores. 2006.

COSSON, Rildo. Romance-reportagem: o império contaminado. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex. Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. São Paulo, Escrituras Editora, 2002. p. 57-70.

COSTA, Cristiane. Pena de Aluguel. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

FONSECA, Francisco. O Consenso Forjado: A grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil. São Paulo, Editora Hucitec, 2005.

GENRO, Tarso Fernando. A imprensa operária e os intelectuais. In Filho, Adelmo Genro et al. Fazendo o amanhã: Partido de Vanguarda, Política Revolucionária e Crítica da Economia. Porto Alegre, Editora Tchê, 1987, p. 62-70.

HOHLFELDT, Antônio; Martino, Luiz C.; França, Vera Veiga (Org.). Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. Porto Alegre, Editora Vozes, 2001.

LENINE, V. I. Sobre a Imprensa e a Literatura. Lisboa. Editora Estampa, 1975.

LIMA, Edvaldo Pereira. O que é Livro-Reportagem. Campinas. Editora Unicamp, 1993a.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas. Campinas. Editora Unicamp, 1993b.

LONDON, Jack. De Vagões e Vagabundos. Porto Alegre. L&PM, 1997.

LONDON, Jack. O Povo do Abismo: Fome e miséria no coração do império britânico – uma reportagem no início do século XX. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.

LONDON, Jack. O Tacão de Ferro. São Paulo. Boitempo Editorial, 2003.

MARCHEZAN, Isabel. Monografia A Reportagem Longe das Redações. Porto Alegre. 2000.

MEDINA, Cremilda. Notícia ― um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial. São Paulo, Summus, 1993.

MENEZES, Rogério. Relações entre a crônica, o romance e o jornalismo. In: CASTRO, Gustavo de; GALENO, Alex. Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. São Paulo, Escrituras Editora, 2002, p. 163-171.

NETO, Accioly. O Império do Papel: Os Bastidores de O Cruzeiro. Porto Alegre. Editora Sulina, 1998.

NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. La Espiral del Silencio – Opinión Pública: Nuestra piel social. Barcelona. Paidós Comunicación. 1995.

STONE, Irving. A Vida Errante de Jack London. Rio de Janeiro, José Olympio, 1952.

SUZUKI, Matinas. Jornalismo com H. In. Hersey, John. Hiroshima. São Paulo. Companhia das Letras. 2002.

WERNECK, Humberto. A arte de sujar os sapatos. In: TALESE, Gay. Fama & Anonimato. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.

WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo. Companhia das Letras. 2005.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: